Cunilíngua
Postado em April 7, 2008
Categoria poesia |
O clitóris periclita
na ponta da língua, inocula
um licor incolor com sabor de flor
e chumbo, assim como o ópio
se engendra entre as pétalas
das papoulas mais espessas;
uma delícia ilícita
do teu jardim púbico.
Uhl, gostei.
Estava pensando que daria para chamar algumas modalidades da sua poesia de “realistas”. Esse poema, por exemplo, me faz pensar naquelas pinturas-fotografias realistas: uma imagem tão bem desenhada, traços fortemente (virilmente) marcados, nenhum borrão. Você alcança “sumos” impressionantes!
Lorena,
Curiosamente, uma das minhas “influências matrizes” está na prosa de Flaubert, não só pela atenção descritiva, mas também pelo modo impessoal mas vibrante como se configura a perspectiva do seu narrador. Além disso, Flaubert, em sua correspondência, manifestou o desejo de escrever uma prosa que fosse puro estilo, que não tivesse um conteúdo definido; o que já norteou alguns momentos da minha poesia, sobretudo no começo do “Rima incidental”.
O que eu acho interessante no Flaubert é a construção de uma sensibilidade estilística, ou seja: ele constrói com o seu estilo uma espécie de rede que lhe permite captar a realidade e tecer, através de um intenso trabalho de elaboração formal, laços de extrema pertinência entre as coisas. Parece que ele foi exatamente no cerne daquilo o que ele se dispõe a descrever, quando na verdade é a inserção do elemento descrito no contexto estilisticamente construído da obra que dá essa impressão.
Além disso, costumo pensar grande parte da minha obra como uma oscilação entre o impressionismo e o expressionismo pictóricos, por isso, talvez, a plasticidade e a visualidade de alguns poemas.
Obrigado pelo comentário!