Igreja de São Pedro, Mariana
Vista de noite, a Igreja de São Pedro mais parece uma esfinge decapitada, mas assim que o sol desata os nós da neblina, nada evoca a equívoca imagem de um enigma. A fachada, virgem de qualquer tinta, lembra a argila fresca que pulsa em certas frutas, como a manga quando dentes e lábios a dissecam. [...]
Igreja do Pilar, Ouro Preto
Pisar na Igreja do Pilar é romper a finíssima nata das sombras que encobrem a entrada de um mistério. Dentro da igreja, gangrena o ouro, um ouro escuro e encarnado (encardido), cujo amarelo macilento não alimenta o teu corpo ávido de cor (de azul, talvez). Tudo aqui, desde o ar salobro e insalubre, visa apenas [...]
Os predestinados ao labirinto
Dentre as causas secundárias que teriam contribuído para uma baixa eficiência na pregação do evangelho em seu tempo, o padre Antônio Vieira, no “Sermão da sexagésima” — tecido a partir da parábola evangélica do semeador —, apresenta duas que nos interessam particularmente; uma delas da conta do ouvinte, a outra do pregador. Invertendo a ordem [...]
Action-painting
Contra a claridade opaca do branco, explodem cores cruas em carne viva, como vísceras sobre o alabastro. Num espasmo premeditado, o artista atira labaredas de seda sobre a tela, espirais pirotécnicas repletas de cólera colorida. Perseguindo o rastro acrobático de um traço dilacerado, estilhaços de pássaro num vôo improvável.
Poema
O meu poema trança nervo, cristal e fibra em filigrana, meu poema forjado na frígida franja de uma estrela de neon prepara uma palavra e a palavra acrobata arrebata um pássaro que se dissolve no eco do próprio canto, voz em pleno vôo.
Eucaristia
Como que arrebatado pelo êxtase turbulento do Teu corpo, alvíssaras de delícias e delírios, eu me transubstancio em pura chama. A língua se inflama, labareda consumindo a carne, cauterizando os lábios cálidos de uma chaga. Entre os meus dedos, desabrocha a Rosa Mística, faço-lhe carícias como quem desfiasse um rosário perpétuo. E na tortuosa liturgia [...]