Entropia

Postado em March 27, 2008
Categoria poesia |

Persigo um labirinto
por vielas elásticas que se enlaçam
no fulcro de um brando furacão.

Ousarei atravessar
esse labirinto bailarino
onde paredes labaredas
se consomem no cálido frescor
da madrugada?

Persisto. Persigo uma vertigem.

Tudo me parece turvo
e um flácido reflexo flutua
sobre a superfície espessa
da noite, é a lua
e o seu fio de seda transparente,
bússola para os sonâmbulos.

Transformarei dessa vez
a pedra em pão, o pão
acaso em carne?

Tentação, meu nome é Satanás

e transubstancio toda a água
em vinho, e do vinho faço eu
o sangue. Escreve com sangue
e aprenderás que sangue
é espírito. O diabo na rua,
no meio do redemoinho.

Persigo uma fada verde
por essas ruas, persigo
um fogo-fátuo.

Ruas que se sucedem
em obsessivos lances
de escadas, o perpétuo
desabrochar de uma rosa
inconclusa e claudicante,
como galáxias que se expandem
suspensas no espaço.

Decifro o périplo amplo
dos astros, náufragos no limbo,
e desperto para o desespero perene
de não haver o tempo, enquanto
as estrelas se desagregam lentamente
feito os destroços de um desastre
ancestral, arrastadas pelo fogo
caudaloso da Eternidade.

Gostaria que, envoltos
em nuvens de volutas,
os anjos voassem até mim
e dissessem: “Foi só um sonho,
querido. Agora dorme”,

e o dia raiaria febril
e raivoso, rompendo o horizonte
de fibra a fibra. Mas os anjos
permanecem inertes em seus paraísos
de pedra-sabão. Raia sangüínea
a madrugada, a via láctea
é um rastro de mênstruo.

Comentários

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1 Comentário »

2008-03-28 21:07:06

“Entropia” é o meu segundo poema favorito seu. O primeiro é “Picnic em Auschwitz” com suas abelhas esclerosadas.

Fiquei feliz com o comentário sobre “A morte do tempo”. Quando o escrevi me perguntei o que você acharia, mas acabei nem pedindo opinião; que você a tenha dado por conta própria foi uma feliz surpresa.

Mas surpresa maior foi ver que você encontrou o Liberdade Tátil, blog do Vitor Nina, aquele meu amigo poeta de que te falei. Você sabia que o blog era dele, ou foi só uma curiosa coincidência?
Suponho que tenha gostado, já que o colocou nos links. Eu pessoalmente estou passada com esses últimos poemas dele. Estão cada vez mais brutos e inteiros em sua brutalidade. É poesia de jorro, verve pura, mas precisa e ferrenha como já vi poucos. Enfim, sou suspeita pra falar. Mas considerando que são blocos inteiros de poemas escritos às vezes num só dia, lapidados pelo momento, enraizados na sinceridade do autor, não tem como não ficar no mínimo perplexo diante de como eles são bem realizados!

Abraço, Emmanuel. Não desapareça!

 
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