Uma lira para Marília

Postado em March 6, 2008
Categoria poesia |

Não sou pastor nenhum,
nem tenho algum rebanho,
então ouve o meu canto que
só o que tenho a oferecer-te
é este canto estancado na seda
de um torniquete.

Será delírio, Marília,
que me faz soar esta lira
dilacerada?

Vejo-te nua sob o luar
que escorre dos penhascos
feito um calafrio, e nua
és como a lâmina de um punhal
forjada na mais límpida brasa
de uma estrela extinta.

Será delírio, Marília,
ou desespero?

Guia-me, pastora,
pelas veredas da vertigem
até que eu exaure a chama
que arde úmida e subterrânea
no teu corpo, lavra
de fogo, ouro e mel.

Será delírio, Marília?

Como um facho, uma
explosão perolada, rompo
da treva cruenta do teu sexo
e beijo os teus lábios de papoula
lambuzados de azougue, um beijo
de açúcares e ferrugem.

Será delírio?

Sepulto-te nas cinzas
do luar, sobre a frígida
fuligem da neblina, enquanto
o horizonte prepara a claridade
cristalina e transparente
das manhãs. Será

delírio?

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