Medi(t)ações
Postado em December 17, 2007
Categoria reflexão |
Parece-me que, do modo como foi escrito, o texto anterior passou a impressão de que eu postulo uma relação direta entre a realidade histórica e o fazer poético, sendo que não foi essa a minha intenção. Para mim, o caminho entre a realidade histórica e o poema não é imediato, mas se dá do seguinte modo: cada sociedade, tomada em determinado momento histórico, traz certas questões que são o resultado da dinâmica de seus mais diferentes níveis de organização, como o cultural, o econômico, etc.; tais questões derivam das contradições no interior dessa sociedade, pois uma sociedade que não tenha contradições é perfeita e, logo, imutável. Pois bem, essas questões geram um problema de ordem mimética: como configurar literariamente uma realidade que se apresenta a partir de tais questões? Esse problema, por sua vez, requer que lhe sejam encontradas soluções ao nível da forma, soluções formais. Um bom artista, ao meu ver, é aquele que encontra uma solução formal adequada, o que o coloca numa situação de conseqüência com a realidade na qual está inserido, mesmo que não faça qualquer referência a ela em sua obra.
Devo dizer de antemão que não acredito em “temas universais”, que são a expressão dos valores de uma cultura predominante estendidos às demais, ou seja: que mesmo temas tidos como fora do âmbito da História são, na verdade, historicamente constituídos ou, no mínimo, recebem um tratamento historicamente determinado. Assim sendo, o poeta que, através do sistema de mediações do qual eu estou falando, não esteja respondendo satisfatoriamente às questões de seu tempo (por “seu tempo” entenda-se a configuração histórica atual da sociedade na qual está inserido) corre o sério risco de estar simplesmente repetindo fórmulas, de estar produzindo algo que não seja digno de nota.
Em outras palavras, o risco é tomar as convenções como uma coisa natural, como uma essência, uma verdade. Alguns poetas imaginam que olhando profundamente para dentro de si poderão arrancar lá de dentro algo que seja absolutamente original e verdadeiro, algo que não seja historicamente mediado, quando na realidade não percebem que o modo como o sujeito percebe a sua subjetividade já é historicamente mediado. O que acontece nesses casos é que o poeta acaba tratando dos temas batidos de sempre de modo convencional, reproduzindo ingenuamente os mesmos padrões de apreensão da subjetividade vigentes na sociedade. Tais poetas se satisfazem pensando que o conteúdo de seus poemas contraria as expectativas do burguês padrão, sem perceber que a própria delimitação da arte ao âmbito do subjetivo é uma forma de desautorizar a transgressão diante da sociedade que, para ser digna de tal nomeação, requer um mínimo de racionalização das relações intersubjetivas. Desse modo, a objetividade torna-se o território exclusivo da norma e agitar-se contra as regras converte-se num capricho infantil pouco razoável. Para ser bem claro, o poeta joga conforme as regras que o seu “inimigo”, a sociedade burocratizada, determinou para ele.
Em termos estritamente literários, o resultado disso é a reprodução de uma imagem oitocentista do poeta como alguém apartado voluntariamente da vida institucional ou incompreendido pela sociedade, de onde os velhos temas da solidão, da desesperança, da dor de uma sensibilidade acuada diante de um mundo tão bruto… Não estou querendo dizer que o poeta deve se engajar contra as injustiças da sociedade, etc. e tal, mas assumir o discurso do tipo “agora estamos falando de poesia, e isso não tem nada haver com a vida institucional” apenas gera a repetição de fórmulas literárias ultrapassadas. Para mim, uma poesia significativa, original, requer inventar as soluções formais que o seu tempo exige, o que não pode ser conseguido sem um mínimo de reflexão consciente sobre os meios técnicos para fazê-lo. O bom poeta para mim não é aquele que simplesmente rompe com as convenções, mas aquele que se relaciona com elas de forma crítica, nunca ingenuamente; a ingenuidade é o oposto da conseqüência.
Talvez o que eu quis dizer no texto anterior fique mais claro da seguinte forma: mais do que sentir a falta das questões de nosso tempo, que estão aí, é só abrir o jornal ou sair de casa para tropeçar nelas, sinto falta de um “problema de ordem mimética”, o que transpõe a discussão para o campo literário. Isso inclui encontrar temas que propiciem a passagem do problema para a sua solução formal, ou, mesmo no tratamento de temas já consolidados pela tradição, encontrar uma forma conseqüente de falar deles, uma forma que seja relevante para o atual estágio do desenvolvimento histórico da poesia e que não seja pura repetição. É possível que o caminho esteja num mergulhar ainda mais fundo dentro da poesia, e não dentro de um “eu” ou de uma realidade social, em ambos os casos dados extraliterários. O que um poeta pode fazer para prestar um testemunho relevante de seu tempo não é se preocupar em apontar as contradições da sociedade, mas se preocupar em colocar-se à altura de todo o desenvolvimento técnico da poesia que o antecede para, quem sabe, poder dar um passo adiante, criando alguma coisa original.
Com a palavra, T. S. Eliot:
“Um erro, na verdade, da excentricidade em poesia, é procurarem-se novas emoções humanas para exprimir; e nesta busca da novidade onde não se deve, descobre-se o perverso. A tarefa do poeta não é procurar novas emoções, mas usar as comuns e, ao transformá-las em poesia, exprimir sentimentos que não figuram de todo nas emoções originais. E as emoções que ele nunca experimentou servirão o seu fim tão bem como as que lhe são familiares. Consequentemente, devemos acreditar que a “emoção recordada em tranquilidade” (fórmula célebre de Wordsworth para definir poesia) é uma fórmula inexata, pois nem é emoção, nem recordação, nem - a não ser que se distorça o significado - a tranquilidade. É uma concentração, e uma coisa nova resultante da concentração, de um elevado número de experiências que, para uma pessoa prática e ativa, poderiam não parecer de todo experiências; é uma concentração que não acontece consciente ou deliberadamente. Essas experiências não são “recordadas” e elas unem-se finalmente numa esfera que é tranquila apenas por ser uma espera passiva do evento. Claro que isto não é tudo. Muito há, ao escrever-se poesia, que tem de ser consciente e deliberado. De fato, o mau poeta é geralmente inconsciente onde devia ser consciente e vice-versa. Ambos os erros tendem para torná-lo “pessoal”. A poesia não é um soltar de emoção, mas uma fuga à emoção; não é a expressão da personalidade, mas uma fuga à personalidade. Mas, claro, somente aqueles que possuem personalidade e emoções sabem o que significa querer fugir a essas coisas.
[…]
A emoção da arte é impessoal. E o poeta não pode alcançar essa impersonalidade sem se render totalmente à obra a fazer. E é improvável que ele saiba o que há a fazer, a não ser que viva no que não é apenas o presente, mas o momento presente do passado, a menos que esteja cônscio não do que está morto mas do que já está com vida.”
Tradução portuguesa. Estando imersa em nosso tempo, não consigo não observá-lo sem um quase total ceticismo. Fazer literatura hoje em dia é piada - vocês, poetas, que me perdoem.
Nunca deixou de ser um pouco de piada, e o ceticismo vem mais da sua postura frente ao texto - também passível de um certo ceticismo de sua parte - do que de uma falsidade inerente a ele.
Lorena,
Não sei se posso responder satisfatoriamente ao seu cometário, pois não sei a quem você se refere em “não consigo não oservá-lo sem um quase total ceticismo”. A mim? Ao Eliot e ao texto dele? Isso é de fundamental importância, porque, se o objeto da oração sou “eu”, você concorda com o Eliot e o está subscrevendo em contraposição às minhas idéias. Mas creio que não seja essa a interpretação mais lógica.
Talvez você esteja relacionando as idéias do Eliot com as minhas e, portanto, ao observá-lo com ceticismo, observa a mim também (creio que seja isso o que você pretendia dizer).
Primeiro, devo fazer uma defesa do Eliot. Quando ele diz que se deve estar consciente do que já vive e não do que está morto, não está postulando uma fuga do momento presente, mas uma perspectiva do passado que parta do presente justamente para avaliar o que está vivo ou não na tradição. “O momento presente do passado” não é viver o passado como se ele fosse o presente, mas viver no presente, como se fosse atual, algo do passado. O ponto de referência é o presente, que serve para atribuir um novo valor à tradição.
Portanto, o ceticismo que você demonstra ao se deparar com o texto do Eliot (pois você não crê que seja possível não estar “imersa no presente”) é resultado de uma interpretação equivocada, e não de algo que esteja de fato escrito no texto.
Em segundo lugar, caso você esteja relacionando o Eliot com as minhas idéias, eu concordo e discordo dele. Concordo porque acho que o poeta deve ter um ótimo conhecimento da tradição, deve saber encontrar nela tudo que ainda seja válido, e portanto deve estar “cônscio” ao fazê-lo, para não incorrer em pura repetição; discordo porque Eliot achava que os momentos mais significativos de certo poeta deveriam ser procurados na utilização que este faz da tradição, enquanto eu acredito que a originalidade seja um dos fatores de atribuição de qualidade estética. Não que para Eliot o contrário seja o que vale, pois a grande originalidade para ele está em utilizar originalmente a tradição. É uma sipmes diferença de ênfase. Para mim, o ideal é que o poeta consiga um pouco de uma dicção virgem, algo de ainda não assimilado pelos padrões de apreensão atuais, sem com isso pretender uma poesia completamente nova e desvinculada da tradição.
Mas ainda é possível que você tenha reparado nessa diferença entre o meu pensamento (expressa nos posts) e o do Eliot, e o esteja contrapondo a mim, então o seu ceticismo não se destina a mim, mas apensas a ele (embora você não subscreva as minhas idéias). Nesse caso, não tenho o que comentar, pois a resposta à hipótese de cima já dá conta das semelhanças e diferenças.
Emmanuel,
“Ele” = “nosso tempo”… Foi uma construção sintática tristíssima de minha parte, reconheço.
Estando imersa em nosso tempo, não consigo não observá-lo sem um quase total ceticismo tenta indicar que, do ponto de vista de alguém que está no olho do furacão, não parece haver saída (poderia se dar exatamente o contrário, mas comigo é assim). Considero literatura uma arte muito difícil tanto em termos de composição quanto de apreciação. Não vejo, pois, espaço para ela hoje em dia. Para prosa ainda vá lá, mas poesia… não, não vejo um terreno bom, um horizonte. Tanto que nem tenho muita paciência para discutir sobre isso, explicar minuciosamente minhas idéias - sobre esse assunto eu arrisco dizer que possuo algumas idéias, um dos poucos -, parece tudo muito vão - vago e em vão.
Faço como Raduan Nassar: criação só me interessa hoje a de galinhas. E não importa que eu não tenha escrito algum Lavoura Arcaica. O Raduan Nassar talvez tenha gozado da última gota de “potencial literário” dos tempos modernos. Eu, a proto-pretensa-escritora, nascida em 1988, morri no “ventre seco”. É como vejo os escritores de hoje, de nós aos de 30 e poucos anos: galinhas retardadas ciscando em grama de plástico depois da chuva.
Música, artes plásticas, o cinema por excelência - artes que evoluem hoje em dia. De minha perspectiva pouco apurada, pouco erudita, gostaria mesmo de poder dizer: leiga, meramente “diletante”, não percebo o mesmo quanto à literatura.
Pergunto-me se não seria tal perspectiva pessimista um problema apenas intelectual, talvez falta de informação de minha parte. Mas, sabe, há coisas verdadeiras que você tem em mente e que não estão nos livros, porque ainda são recentes, porque acabaram de começar a existir. Eu li pouquíssimos autores contemporâneos (uns dois ou três brasileiros, outros que escrevem em inglês, mais trechos, muitos trechos de coisas e mais coisas e mais coisas - falando dos publicados) e afirmo, sim, que sei do que se trata a literatura contemporânea. Há padrões. Eu não leio muita coisa de hoje em dia só de indentificar os padrões. Os quais considero essencialmente repetições tediosas. Talvez seja esse o meu erro. Entre muitos outros possíveis.
Enfim, não era você, nem o Eliot, era o nosso tempo. O texto do Eliot eu citei por julgá-lo uma boa resposta a sua reflexão, cheio de pontos com que eu concordo plenamente, e achei que poderiam abrandar um pouco o seu conflito. Mas no final você já tinha lido o texto…
…Tenho a leve impressão de que só compliquei mais meu discurso. Enfim.