O nós desatado
Postado em December 9, 2007
Categoria reflexão |
Ultimamente, vislumbrando a finalização daquilo o que eu costumo chamar de “meu primeiro livro”, tenho pensado no que poderia vir depois, em quais seriam os meus futuros projetos, já que não pretendo que o meu próximo trabalho seja uma mera repetição do que fiz até agora. Esse tipo de questionamento é de vital importância para mim, pois já há algum tempo que a poesia deixou de ser o resultado das minhas necessidades de expressão pessoal, tornando-se algo de sério, não no sentido de severo, mas de conseqüente. Eu procuro que a minha poesia faça sentido no conjunto da literatura brasileira, ao mesmo tempo em que gostaria de contribuir com uma produção original, sem qualquer pretensão de que seja inovadora.
Para o meu primeiro livro, os objetivos estavam bem claros: eu queria simplesmente dominar a técnica, desde sonetos até poemas concretos, mas sempre tendo consciência de que o caminho estava, afinal de contas, no bom e agora velho verso-livre. O objetivo final, portanto, era a minha formação como poeta. Por isso, de uma forma geral, os meus primeiros poemas que creio dignos de tal classificação têm um caráter muito mais de exercícios poéticos, com alguns mecanismos ainda à mostra, do que de objetos poéticos definitivamente consolidados. No entanto, tenho a pretensão de ter alcançado a perfeição relativa em pelo menos dois ou três poemas, digo “relativa” porque os considero perfeitos dentro das minhas possibilidades atuais. São poemas perfeitos porque atendem a todas as minhas expectativas como autor; se eu tivesse de escrevê-los novamente, faria-os exatamente iguais. Em suma, são perfeitos para mim agora, talvez não o sejam no futuro, e é bem provável que a grande maioria das pessoas não os considere tão bons assim dentro de suas expectativas como leitor.
Mas o fato é que, dominado satisfatoriamente o mettiér, não consigo imaginar o que fazer de agora em diante, e penso que essa minha falta de rumo reflete a situação dos poetas da minha geração. Os poetas brasileiros do século XX aparentemente tinham consciência das questões que se apresentavam a eles, o que os obrigava a assumir algum tipo de posicionamento frente ao desenvolvimento histórico da poesia. Nossos modernistas, nossos vanguardistas, nossos marginais, nossos engajados, cada um deles, ainda que não soubesse exatamente o que fazer, ao menos sabia o que não fazer. Para os primeiros modernistas, a poesia nos moldes parnasianos era inaceitável, cabendo aos modernistas das gerações seguintes fazer a manutenção e a ampliação das conquistas de seus antecessores; os concretistas decretaram o fim do verso como unidade fundamental do poema; os poetas engajados achavam que a poesia deveria atuar junto às pessoas na luta por uma sociedade mais justa; os marginais queriam uma poesia mais despojada de compromissos teóricos e ideológicos. Mesmo a geração imediatamente anterior à nossa teve a tarefa de administrar a herança contraditória de matrizes tão diversas como a poesia concreta e a marginal.
Não estou dizendo que a minha geração não tenha questões para resolver, mas que tais questões não são evidentes. Tão logo um poeta se desprende do jugo de suas principais influências e adquire voz própria, ele está sozinho — não há um “nós”. O que se vê por aí são grupos de poetas que se reúnem por afinidades pessoais, mas falta-lhes um caráter definido, um certo “senso de conseqüência”, o que quer dizer que o poeta de hoje não sabe como se situar diante da poesia a não ser por critérios puramente cronológicos. Não é raro encontrar poetas jovens que escrevem como se estivessem em pleno turbilhão da semana de 22. Talvez seja justamente essa a nossa grande questão: não saber a que questões responder; ficamos, portanto, impedidos de respondê-las.
Isso é realmente um problema, mas não creio que se encontrará a resposta em uma geração. As gerações passadas já chegaram a nós de modo depurado: muita gente “se perdeu” no meio do caminho. O jeito é persistir no que deu certo e expandir. Já pensou em fazer um poema épico?
O jeito é persistir no que deu certo e expandir. Já pensou em fazer um poema épico?
Não, ele não pensou nem pensará, certo, Emmanuel? Persistir no que deu certo?! “Exxxxxpaaaaannnnndiiiirrrrr”?
Vai ser um crítico literário, vai, Vinícius.
Emmanuel, eu pensei muitas coisas sobre seu comentário acerca do Soneto Piedoso, mas acabei não dizendo nada. Na terça-feira, talvez.
Não se preocupe, Lorena. Não pretendo escrever um poema épico, pois já o tenho. É o “Picnic em Auschwitz” que, obviamente, é épico de uma maneira “sui generis”…
Literatura com Letra maiúscula, nos dias de hoje, como em todo momento de transição ou estafa quanto ao que fazer tendo em vista o que se fez e o que se vem fazendo, só é possível se você conseguir inventar algo que não existe.
Não me refiro a algo que ainda não existe, com sentido de coisa que necessariamente acabaria sendo inventada, mais cedo ou mais tarde; refiro-me a fazer (escrever) aquilo que NÃO DEVERIA EXISTIR.
Bases minadas, pés desnudos, formas fixas apenas as já incorporadas inconscientemente. Ou não, na verdade, foda-se.
Mas, Vinícius, se você continuar a espalhar por aí essas suas frases non-sense eu serei obrigada a não gostar delas!
“Tão logo um poeta se desprende do jugo de suas principais influências e adquire voz própria, ele está sozinho — não há um ‘nós’.”
Será que isso não acontece com qualquer poeta desprendido em qualquer tempo, porém? Parece-me que esse tipo de poeta encontra-se inevitavelmente sozinho; a influência da geração faz-se meramente na forma de eixo orientativo. Sob essa perspectiva, o momento contemporâneo seria quase abençoado: tal poeta poderia, se desejasse, jogar dados para selecionar seus motivos: e não há obrigação real com o zeitgeist. Não creio, Emmanuel, que se você decidisse partir de onde Bilac parou (e ignorar portanto um século de literatura) sua produção seria - por esse motivo apenas - de algum modo inconseqüente.
Rômulo,
Pretendo responder às suas questões, assim como as levantadas pelo Vinícius e pela Lorena no próximo post; portanto, aguardem as cenas do próximo capítulo neste mesmo batcanal mas não necessariamente neste mesmo bat-horário.
Emmanuel,
A hora é de o poeta (não sujeito sozinho, mas o complexo) se confundir com a própria poesia. Que é um ato civilizatório num tempo de barbárie. No reino das palavras, atingir a poesia. O resto é compadrio. Seguir o conselho ainda não seguido de Drummond: “Agora deixei de ser moderno, serei eterno”. Portanto, o céu começa no tempo, a eternidade parte de um poema verdadeiro. Seja um poeta, não um impostor, basta isso. O mundo está sujo de falsos poetas. Eu sou uma editora, também poeta. Gostaria de editar uma coleção de ótimos poetas, revelá-los, apenas não tenho dinheiro e não sei me submeterà gincana perversa das leis de incentivos. Prefiro o mecenato puro e simples. Diante de croqui de Oscar Niemayer, você reconhecer o talento, dizer como o prefeito JK, vá em frente, construa o complexo da Pampulha. Só os medíocres se agitam em gincanas inúteis, gastam tempo com o descartável. Importante é o poema, o poeta poder escrever. O grande evento é o bom livro, depois as declamações. Ou a declamação para anunciar um bom livro.
Ana Candocha,
Concordo plenamente com você, só estou meio em dúvida se é posssível atingir a poesia verdadeira apenas pelo talento individual do poeta e pela sua relação pessoal com a poesia, ou se é preciso posicionar-se de alguma maneira diante dela e dar conta do terrível lema da esfinge: decifra-me ou te devoro. Acho que talvez seja preciso refletir sobre o fato de que “a poesia é um ato civilizatório num tempo de barbárie”. Muitas conseqüências já foram tiradas disso, como Brecht se questionando em que tempos estamos quando falar de árvores já é um crime, de omissão, ou Adorno dizendo que a poesia não é mais possível depois de Auschwitz. Outros poderiam objetar que a função da poesia em tais tempos talvez seja a de justamente lembrar aos homens que as árvores existem para além de qualquer discurso ambientalista-utilitário-religioso do tipo “salve as árvores e salve a si mesmo”. Tudo o que sei é que o caminho de Brecht não me apetece muito… Obrigado pelo comentário.
Continue sendo voçe, seus poemas terão vida quando neles voçe estiver, repousando ..ora tranquilo..ora insatisfeito…mas sempre voçe estará dentro dele, fundindo-se com seu poema numa relação uníssona.
Assim como os rios buscam o mar numa relação inevitável, seus poemas sempre irão emergir dentro de voçe com força e originalidade, senão não seriam seus.
Bom, Cassiane, eu creio que as relações do sujeito com a sua subjetividade são uma coisa mediada historicamente. Isso quer dizer temos certos padrões historicamente determinados de lidar com os nossos afetos, padrões socialmente transmitidos que fazem parte da constituição de nosso aparelho psíquico durante a nossa formação como indivíduo. Acho que é preciso que talvez o poeta, de alguma forma, coloque-se para além desses padrões, mas não para mais “fundo” dos afetos, pois creio que os afetos são os mesmos para todos os seres humanos, aliás, são infra-humanos (o civilizado ou o especificamente humano estariam justamente nos padrões de apreensão dos afetos), portanto não podem ser a origem da “originalidade”. Penso que a originalidade só possa ser obtida através da reflexão consciente ou de uma visada crítica sobre as coisas, ainda que intuitivamente orientada. É claro que tudo isso que estou dizendo parte da minha visão pessoal acerca do mundo e da poesia, e é possível que só seja verdadeiro para mim.
Mas obrigado pelo comentário, talvez tente respondê-lo mais satisfatoriamente num futuro post.