Sobre o “Soneto piedoso”

Postado em December 6, 2007
Categoria análise |

O “Soneto piedoso” é mais um desses meus poemas influenciados pela ambientação das cidades históricas de Minas. Trata-se da tentativa de reproduzir as impressões que tive diante de um Cristo barroco no Museu de Arte Sacra de Mariana, quando fui acometido por uma mistura de volúpia e náusea, e depois piedade, pela situação encarniçada do pobre pedaço de madeira esculpida.

O soneto partiu de algumas determinações prévias. Queria que ele reproduzisse algo da deformidade do Cristo observado, por isso fiz o soneto com o “pé torto”, no qual as cesuras estão na quinta sílaba poética e não na sexta, como ocorre nos decassílabos heróicos. Depois, procurei sonoridades desagradáveis, como em “com cuidados”, as rimas paupérrimas em “us” (com direito a uma rima interna do sétimo para o oitavo verso). No geral, não gosto de rimas oxítonas, acho que elas pesam no verso, compartimentando o “fluxo melódico” do poema; mas isso trata-se, evidentemente, de um gosto pessoal.

Outro recurso desse poema, para deixá-lo um pouco mais desagradável, é uma certa empostação retórica que sempre tento limar dos meus poemas; neste caso, a empostação foi procurada, parte do caráter “pastiche” do poema. A inversão na chave-de-ouro, por sua vez, foi influenciada por sonetos do Gregório de Matos e do Bocage que, também eles, terminavam de maneira escatológica. Portanto, o meu “Soneto piedoso” não visa reproduzir apenas a experiência ligada a um objeto com alguma carga histórica, mas de reproduzir também um estilo de época, de poesia setecentista em língua portuguesa.

Não posso deixar de falar da nota nietzchiana que costuma orientar os meus poemas “religiosos” (na verdade, poemas que tocam no assunto “religião”). Nietzche entende o cristianismo como um atentado contra a força vital do homem, contra a sua saúde e o seu desejo de potência. Essas formulações podem ser encontradas em “Assim falou Zaratustra” e “O anticristo”, não sou eu quem irá reproduzi-las aqui. Isso gera dois tipos de respostas em meus poemas: ou a religião, representada metonimicamente pelo “espírito” ou pelo “sagrado”, oprime o corpo, a “matéria”, a “carne”, como acontece no “Soneto piedoso”; ou tento misturar os dois âmbitos, trazendo o sagrado à terra e alçando a carne ao espírito, como no “Eucaristia”. Pessoalmente, não sou nietzchiano, não tenho essa propensão “triunfalista”, mas gosto do pensamento dele: mais poético do que metódico.

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