Sobre o “Ponto de fuga”
Postado em November 29, 2007
Categoria análise |
O “Ponto de fuga” é um de meus poemas mais peculiares, talvez por isso caiba aqui um comentário sobre ele a quem possa interessar. Inicialmente, ele fazia parte de um projeto de escrever poemas a respeito de algumas igrejas das cidades históricas mineiras, dentre as quais, no projeto original, estavam a Igreja do Pilar de Ouro Preto (tal poema foi realmente escrito), a Igreja de São Pedro em Mariana (um poema que sequer saiu das anotações iniciais) e a Igreja de São Francisco, também de Ouro Preto, projeto arquitetônico do Aleijadinho, à qual se refere o “Ponto de fuga”.
No entanto, reparei que as referências à Igreja de São Francisco estavam deixando o poema muito explicativo, com um andamento um tanto prosaico, então resolvi reduzi-lo aos seus termos mínimos, esperando que as impressões de sua experiência originária pudesse ser evocada metonimicamente pela apresentação de um emaranhado de formas característico da arquitetura e da decoração barrocas. Portanto, não é importante, pelo menos para mim, que o leitor chegue à conclusão de que o poema se refere a um interior barroco, mas que de alguma maneira ele possa apreender o impacto dessa ambiência sobre uma sensibilidade específica, no caso, o eu-lírico do poema (um tanto impessoal, é verdade).
Esse poema é importante para a minha poesia porque nele eu atingi a intensificação máxima dos meus recursos estilísticos. Eu queria que cada palavra exercesse uma função determinada, que fizesse parte de algum efeito estético; queria que o poema tivesse zero de supérfluo. Talvez por isso, dos meus poemas, ele seja o mais hermético, o menos inteligível. O interessante é que para chegar ao mínimo de elementos supérfluos, o máximo da necessidade, eu tenha reduzido o objeto (o interior da Igreja de São Francisco) aos seus elementos puramente ornamentais. Gosto de pensar que, reduzindo o ambiente à pura ornamentalidade, eu tenha alcançado algo de essencial nele, por isso não tem importância que o leitor recrie o objeto original, contanto que consiga apreender tal essência que o poema procura veicular.
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