Sobre o “Soneto caixa de música”
Postado em October 10, 2007
Categoria análise |
Sempre quis escrever algo sobre a composição do meu “Soneto caixa de música” por dois motivos; o primeiro deles é que ele é certamente o poema mais “consciente” que eu já fiz, pois antes de começar a escrevê-lo eu já sabia claramente como queria que ele ficasse; o segundo motivo é que tenho percebido que a maioria das pessoas que o leram não o entenderam realmente, não porque seja um poema difícil, mas porque é sutil.
Quando me impus a tarefa de escrevê-lo, determinei um esquema fixo de rimas internas, além disso eu queria reproduzir o procedimento de criação do “símbolo” dos poetas simbolistas, ou seja: desenvolver uma metáfora na qual o objeto que lhe serve de referência não é evocado explicitamente, mas apenas sugerido. Daí me veio a imagem da bailarina perolada, que no poema é a lua. A maioria das pessoas que o leram não perceberam isso, achavam que era realmente uma bailarina dançando enlouquecida e nua pelas ruas, e que a referência à lua na última estrofe era meramente casual, decorativa.
A sucessão das estrofes, no entanto, oferece uma visão do movimento da lua vista a partir de uma rua. No primeiro quarteto, a lua surge de entre as nuvens e a neblina, iluminando tudo; no segundo quarteto, é vista já completamente desbloqueada. No primeiro terceto, acompanha-se-lhe o trânsito sobre a rua (questão de perspectiva, pois quem de fato se move nesses casos, como se sabe, é o observador). No segundo, a lua volta a se esconder, mas não só entre as nuvens, é o eu-lírico que se distrai, passando a percebê-la de viés, absorto em devaneios.
Outra coisa interessante de se perceber é que o eu-lírico está lá, fornecendo uma perspectiva delimitada, não como uma visão total e completamente objetiva de um narrador em terceira pessoa e onisciente. O eu-lírico está lá, está lá também a sua subjetividade, o seu movimento interior, embora não se apresente, nem se dê a conhecer. Nesse sentido, temos um desenvolvimento paralelo de dois movimentos: o da lua e o da subjetividade do eu-lírico que se encontram na primeira estrofe para se separarem na última.
Os quartetos formam uma estrutura cíclica e ao mesmo tempo evolutiva de imagens, pois os dois primeiros versos do primeiro correspondem ao dois últimos da segunda, tornando-os um conjunto fechado, mas no qual a sutil transformação do quadro observado não deixa de ser notada.
Disse que esse foi o meu poema mais consciente, mais intencional, mas isso não quer dizer que não tive uma forcinha da intuição. É o caso, por exemplo, do primeiro verso da segunda estrofe, no qual o esquema da rima interna não é obedecido. Nas versões anteriores, as imagens formuladas pela adjetivação em “ada” mostravam-se pouco intensas, esquálidas, até que tive um insight na fila do supermercado, em que a coliteração de “trevas entreabertas” me pareceu muito mais vívida e compensatória do que a obediência ao esquema rítmico pré-traçado.
O que mais eu poderia dizer sobre a composição do poema são obviedades, como a sua construção em decassílabos heróicos…
Mas, Emmanuel, assim você facilita por demais a vida dos graduandos do futuro que precisarão fazer trabalhos de aproveitamento sobre o seu soneto.
Dá até para imaginar uma nota de rodapé, em negrito, na folha de intruções do trabalho: “Qualquer repetição literal das observações feitas pelo autor naquele veículo virtual de comunicação hoje já ultrapassado - o blog - implicará imediatamente nota zero.”
Se bem que esse é um comentário um tanto pessimista de minha parte quanto ao seu reconhecimento como poeta; esperamos, na verdade, que esse (que para mim vai ser sempre “o soneto da bailarina”, não importa quão aluada ela seja, que minha subjetividade é endoidecida por essa figura lânguida que dança) — esperamos que esse seja daqueles poemas “obscuros”, que metem medo, de tão sutis, intimidantes, que nunca são escolhidos entre os arrolados pelo professor. Se bem que não são muitas as pessoas capazes de reconhecer poemas assim. O seu corre o risco de ser visto mesmo como os decassílabos da mulher louca que dança… Mas não pensemos nisso. Esperança quanto ao futuro.
Bom, Lorena, essa foi mais uma análise descritiva e não interpretativa, como você e o Vinícius notaram. Talvez mais possa ser dito sobre ele, caso ele se trate de um poema realmente interessante. Se, ao contrário disso, qualquer comentário possível se resumir aos processos empregados na sua composição,então não fiz um bom poema (como eu acreditava que o tivesse feito).
Há complexidade suficiente para buscar umas interpretações mais interessantes do que a mera descrição técnica (que é o que o aluno futuro, sem imaginação, conseguiria retirar das considerações acima relatadas). “O Corvo” não se esgota na “Psicologia da Composição”, para citar um exemplo análogo. Só a alteração rímica do segundo verso já proporcionaria algumas possibilidades imaginativas.