Outro pré-genealógico

Dionisíaca
O vinho tinto
que te molhou os lábios
e afogueou os olhos
fez despir-se na tua boca
pétala por pétala
a hemorragia lenta
da lascívia.

A fábula de Fabergé

Se Olavo Bilac procura
a palavra polida feito
a pérola (escafandrista
pescador de esmeraldas
na espuma das estrelas)
é para depois prepará-la
dissipando as impurezas
da prosódia, de modo que
a melodia soe cintilante
em ouvidos de ourives.
Mas, ao comparar-se ao
ourives, talvez pensasse
nas engrenagens de um Fabergé
onde o sublime se processa
preciso e precioso, pois
enquanto outros ourives
se ocupavam com ouro,
prata e coisas opacas,
Fabergé fabricava
a aurora […]

Sobre o “Soneto caixa de música”

Sempre quis escrever algo sobre a composição do meu “Soneto caixa de música” por dois motivos; o primeiro deles é que ele é certamente o poema mais “consciente” que eu já fiz, pois antes de começar a escrevê-lo eu já sabia claramente como queria que ele ficasse; o segundo motivo é que tenho percebido que […]

Soneto caixa de música

A bela bailarina perolada
que dança delicada na neblina
salta sobre a calçada e desatina;
num só gesto, ilumina a madrugada.
Nas trevas entreabertas de uma esquina,
cria asas cristalinas, uma fada,
a leve bailarina alienada
na luz calcificada da retina.
Num flexível floreio, ela flutua
sobre as pedras da rua e do passeio,
e tira o sono alheio: fica nua.
Luz volátil, a lua de […]

O objeto soneto

A princípio, teremos dois quartetos
no começo da página, por cima,
e depois: dois tercetos, cinco rimas,
chave de ouro, fechando este soneto
que o poeta, em trabalho de arquiteto,
organiza, constrói, refaz e lima,
perseguindo com custo a obra-prima,
e eis os quatorze versos: que perfeitos!
Na métrica, persistem as cesuras,
que o bom soneto é feito uma costura,
decassílabo ou mesmo alexandrino.
Pronto para […]