Genealogia persa
Postado em September 21, 2007
Categoria metalinguagem, poesia | Comente
Na difícil tessitura
do tapete persa, fez-se o jogo
de xadrez: cálculo absoluto,
como num conto de Borges,
bordado em elipses e labirinto,
leopardos em fuga geométrica
sobre a partitura.
Um trabalho análogo
ao do poeta: arquitetar
o obstáculo, o abstrato,
costurando obcecado
cada coágulo de silêncio
em corolário.
Carrossel barroco, o xadrez
antecipa a sextina de Arnaut
Daniel, os hieroglifos oblíquos
dos poemas de Mallarmé
e o artesanato cartesiano
sobre pedra-sabão.
O que o poeta, sim,
aprende do jogo de xadrez:
a ciranda incessante do carrossel,
o mar e o canavial, e vice-versa
(João Cabral, tecendo a manhã,
acaso não reproduz o processo
do tapete persa?).
Produto de estratégia
e tessitura, o poema,
trançado em arabescos,
se descortina descarnado
numa frágil e tênue teia.
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