Poema oswaldiano à janela do circular
Postado em
May 16, 2009
Categoria: poesia | 6 comentários
Na rua augusta
Moças vestidas
Em lingeries de neon
Oferecem seus sexos
Que os olhos dissecam
Como um anúncio pubicitário.
Inventário
Postado em
May 15, 2009
Categoria: poesia | 3 comentários
Esta noite
Escrevo um poema
Que me dá azia.
Esta noite, todas as noites
O poema
A poesia
Me dão azia.
Assim como as noites
Todas as noites
Irremediavelmente
Com suas luas salinas
Efervescendo na retina
Me dão azia.
O cheiro da minha mão
O gosto da minha boca
A falta de aspereza da minha pele
O meu sexo, o pouco suor
Do meu corpo, meu corpo todo
Me dão uma espécie de ojeriza
Que corresponde a uma azia.
As paredes do meu quarto
Escancaradamente brancas
Me dão azia.
O escuro dentro da minha cabeça
Quando fecho os olhos
E respiro fundo
E não tem ninguém lá dentro
A não ser eu mesmo
Me dá azia.
O silêncio que de madrugada
Desliza no asfalto
E afugenta o sono
Me dá azia.
Também o relógio
Com suas engrenagens moendo
Os meus nervos
Me dá azia.
Coca-Cola me dá azia.
Acid jazz me dá azia.
O verde metálico
De certos insetos
Me dá azia.
Ler Clarice Lispector
Me dá azia.
Cheiro de sabonete me dá azia.
Cheiro de livro novo
De madeira
De água sanitária
(ou será de esperma?)
Me dão azia.
Dor de cabeça me dá azia.
Mas, sobretudo
A lembrança de não ter azia
É o que me dá mais azia.
Noturno sobre Carmo de Minas
Postado em
May 2, 2009
Categoria: poesia | 7 comentários
A nata do sol se desfaz
num clarão esmaecido e
sobre as águas entorpecidas
que fiam macias o lodo doce
as engrenagens da via-láctea
se põem em movimento triturando
o vidro trêmulo das estrelas.
Nuvens de pássaros em pânico
desaparecem no volátil violáceo
azougue da noite entre escombros
de constelações, ruínas reluzentes
de antigos signos.
As pessoas voltam para casa
imersas num devaneio turvo
e as casas, paredes caiadas
de escaras, se arrastam pela rua
que se estende até a praça da
Matriz onde a cidade dá um nó cego
estancando o labirinto; carros
escorrem pelo ralo das esquinas
e mariposas bailarinam
em torno de uma lâmpada pálida.
Vísceras vicejantes, a hera
digere lentamente uma casa
e as primeiras chispas do orvalho
crepitam sobre a calha, cristalinas.
Num jardim pulsam rosas
encardidas, cardíacas,
eriçadas em espinhos
como fios desencapados,
rosas cúpricas, escuras,
destilando perfume
e ferrugem, rosas
em farrapos de pétalas
como lábios leporinos.
Sobre a cidade à deriva,
fosca e alabastrina a seda
líquida da neblina se alastra
inundando as ruas, submergindo
os postes elétricos como mastros
de um naufrágio regular.
O luar disseca o horizonte entre
entulhos de montanhas que o tempo
depositou grão a grão de poeira
e que o vento ameaça dispersar.
Gota a gota, a madrugada
vai diluindo o dia das pessoas,
dissolvendo as vozes no silêncio,
enquanto as coisas, vacilantes,
soçobram nas sombras,
nas cinzas da lembrança,
desaparecem úmidas de sono…
À mão livre
Postado em
April 30, 2009
Categoria: poesia | Um comentário
Uma mínima linha
ilumina o branco
do papel, sustenta
a tensa arquitetura
do instante:
risco.
A literatura em perigo
Postado em
April 25, 2009
Categoria: reflexão | 3 comentários
TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Tradução Caio Meira. Rio de janeiro: DIFEL, 2009.
A literatura em perigo, de Todorov, defende uma tese que pode assustar àqueles que se habituaram a enxergar o seu autor como um dos principais representantes do estruturalismo, método que, nos estudos literários, baseia-se numa análise estritamente imanente, sem a consideração de fatores “externos” ao objeto literário. A tese de Todorov é que a literatura está perdendo o seu espaço na sociedade atual porque não consegue mais emprestar sentido à experiência pessoal de seus leitores, tanto pela produção literária em si, orientada segundo três tendências principais: o formalismo, o niilismo e o solipsismo, quanto por um ensino equivocado da literatura.
Este segundo ponto parece-me o que de mais precioso o livro tem a oferecer, e acredito que todos aqueles que se preocupam com a questão do ensino de literatura nos anos do ensino básico, ou melhor dizendo: com o papel da literatura na formação intelectual do indivíduo, deveria ler esse pequeno livro, de 96 páginas. Basicamente, o argumento de Todorov é que o que se ensina hoje nas escolas é um misto de historiografia e teoria literárias, substituindo o contato direto com as obras e se desviando daquilo o que seria o fundamental: o estudo do sentido das obras, o seu conteúdo semântico. Ao invés de exigir dos alunos que apreendam o significado da obra, o que lhes permitiria relacioná-la com o mundo ao seu redor, exige-se deles que saibam operar com categorias analíticas e historiográficas, das quais a obra literária seria apenas mera ilustração. O equívoco é evidente: estamos tentando formar críticos literários antes mesmo de formá-los como leitores.
Entretanto, o primeiro ponto, o da produção literária, recebe, a meu ver, um tratamento problemático em vários aspectos. Vamos a eles.
Todorov afirma que a literatura contemporânea se apresenta em três vertentes que, cada uma a sua maneira, recusam o mundo em que vivemos, impedindo uma maior familiarização do leitor com a obra literária; tais vertentes seriam o formalismo, cujas obras cultivam “a construção engenhosa, os processos mecânicos de engendramento do texto, as simetrias, os ecos e os pequenos sinais cúmplices” (p. 42); o niilismo, “segundo o qual os homens são perversos, as destruições e as formas de violência dizem a verdade da condição humana, e a vida é o advento de um desastre” (idem); e o solipsismo, que leva o autor a “descrever detalhadamente suas menores emoções, suas mais insignificantes experiências sexuais, suas reminiscências mais fúteis” (p. 43). Só para continuar citando, eis a conclusão do autor: “a cada vez mais, mas a partir de modalidades diferentes, é o mundo exterior, o mundo comum a mim e aos outros, que é negado e depreciado” (p. 44). Seria esse o motivo pelo qual os leitores atuais estão se afastando da dita “alta literatura”.
Não posso deixar de dar razão a essa conclusão; certamente a literatura tem se tornado cada vez mais difícil para o leitor não especializado, no entanto a questão é um pouco mais complexa, como espero demonstrar mais adiante.
Como deve ter percebido aquele que me lê, Todorov diagnostica que o mal da literatura, aquele que a coloca “em perigo”, é a sua autonomia, ou melhor dizendo: o estatuto de autonomia do qual goza a literatura na sociedade ocidental moderna/contemporânea. A partir daí, o autor demonstra, através de um panorama histórico, como as reflexões acerca do objeto artístico foram gradativamente se deslocando para uma ideia de autossuficiência da arte, apropriando-se de pressupostos conceituais até então destinados a discussões teológicas, o que possibilitou o surgimento de um novo campo autônomo do pensamento filosófico: a estética (o termo foi empregado pela primeira vez, segundo nos informa o autor, em 1750, num tratado de Alexander Baumgarten — p. 50). O que há de instigante nessa argumentação é que ela nos faz pensar que, num mundo gradativamente “desencantado”, a arte tenha se firmado como uma espécie de nova transcendência.
Um problema que eu vejo nesse ponto da argumentação é algo que não está dito, mas passa por implícito. Para descrever como se firmou a prevalência de uma ideia da arte como uma finalidade em si mesma, a autor traça, como já foi dito, um panorama das reflexões filosóficas acerca do assunto, permitindo que se pense a autonomização da arte como uma consequência da teoria, como se aquela estivesse a reboque desta. Não se trataria, portanto, de uma evolução da arte em direção a sua autonomia que teria como desdobramento uma teorização que procurasse formalizar conceitualmente esse movimento, o que parece muito mais lógico. Não podemos descartar o diálogo que arte e teoria podem travar, num processo de mútuo engendramento, mas colocar a preponderância da segunda sobre a primeira recai no mesmo erro identificado pelo autor no ensino de literatura nas escolas: a arte aparece como mera concretização particularizada de categorias críticas e teóricas. Mais dialético seria supor que um mesmo substrato histórico e social permitiria à arte e à teoria desenvolverem um conjunto análogo de problemas, mas afirmar o poder de determinação de um sistema explicativo sobre o objeto que se procura explicar é no mínimo contraditório.
Logo em seguida, Todorov esboça outra explicação complementar, infelizmente não desenvolvida, que permitiria alguma problematização de suas conclusões. Todorov relaciona a autonomização da arte com a perda de sua antiga representatividade pública, seja ela eclesiástica ou cortesã; livre das antigas obrigações que lhe impunham as estruturas do mecenato, a arte, agora submetida às leis de um mercado emergente, passa a responder às necessidades de um novo público, o burguês, cuja experiência social se constitui a partir do âmbito privado:
O artista deixa progressivamente de produzir suas obras mediante a encomenda de um mecenas, destinando-se então ao público que as adquire: é o público quem passa a ter as chaves de seu sucesso. O que estava reservado a poucos torna-se acessível a todos; o que estava submetido a uma hierarquia rígida, a da Igreja e do poder civil, põe em pé de igualdade todos os seus consumidores. O espírito das Luzes é o da autonomia do indivíduo; a arte que conquista sua autonomia participa do mesmo movimento. Se o artista se torna a encarnação do indivíduo livre, sua obra também vai se emancipar. (p. 53)
Aos poucos vai ficando claro que o problema não é a autonomia em si, mas o modo como essa autonomia passa a ser empregada a partir de um dado momento, uma vez que, como Todorov demonstra nos capítulos seguintes, mesmo os propositores de uma arte autossuficiente preocuparam-se em manter um tenso equilíbrio entre autonomia estética e conhecimento, ou seja: procuravam conceber o estético como um tipo de conhecimento específico e diferenciado sobre o mundo. A ruptura se daria, segundo ele, no começo do século XX, sob o impacto das ideias de Nietzche e da retomada de certos pensadores radicais da autonomia estética do passado que até então não haviam encontrado ressonância (mais uma vez, a teorização aparece como causa do desenvolvimento artístico, e não o contrário). É aí que entram em cena as vanguardas, constituindo um passo decisivo no divórcio entre arte e realidade.
Sem entrar na questão da ambígua relação das vanguardas com relação à “vida”, vemos que Todorov faz distinção entre autonomia estética e esteticismo, entre uma arte emancipada e uma arte completamente centrada em si mesmo, colocando as vanguardas no segundo grupo (mais uma vez, não entrarei no mérito dessa questão). O que me parece simplista nessa dicotomia é que, embora plausível, ela parece uma simples questão de escolha: parece que arbitrariamente estabeleceu-se um consenso de que a arte não mais deveria remeter-se à realidade externa, como se isso não fosse o resultado de um processo histórico interno e externo ao desenvolvimento artístico; vendo no esteticismo e nas suas vertentes a causa do desprestígio atual da literatura, o autor deixa de se perguntar a razão de ser desse esteticismo, e se esse esteticismo possui algum teor de verdade. E o que talvez seja mais importante: ao se indagar como a literatura moderna/contemporânea representa o mundo, acaba por se eximir de questionar o espaço que a sociedade burguesa destinou e tem destinado à literatura, e se isso teria alguma relação com a crescente esteticização da arte. Em suma, se a literatura está em perigo, Todorov conclui que ela mesma se colocou nessa posição, talvez por ouvir os conselhos perniciosos da sua irmã invejosa e má, a teoria estética.
Não é meu objetivo dar uma resposta a esse questionamento, mas, num esboço de argumentação, poderia dizer que à medida que a literatura vai deixando de ter uma importância social pública, atrelando-se, por meio da leitura individual e silenciosa, à experiência íntima e privada de seus leitores, seu campo de preocupações vai aos poucos abandonando “o mundo comum a mim e aos outros”; nesse sentido, a literatura apenas acompanha o acirramento do individualismo em nossa sociedade — isso explicaria o solipsismo diagnosticado por Todorov. Por outro lado, o formalismo poderia ser explicado pela crescente especialização do saber, relacionado com o desenvolvimento da ciência moderna e do capitalismo industrial, que instauraram uma divisão do trabalho intelectual institucionalmente organizada por disciplinas e departamentos universitários. O niilismo, por sua vez, pode ser o resultado de uma frustração histórica causada pelo desenvolvimento científico, que, além de não realizar as maravilhas que prometia, ainda teve os desdobramentos nefastos que todos nós conhecemos.
Ou não.
Meu objetivo é mostrar que o fenômeno abordado por Todorov é mais complexo do que a análise dele faz crer, e que se hoje a literatura mais sofisticada está em perigo, a culpa não é apenas dos intelectuais e dos escritores, mas também pode ser compartilhada com um público leitor indolente, condicionado pela indústria cultural. A crise da literatura deve ser pensada e entendida dentro de um contexto histórico mais amplo, só assim poderemos “salvá-la”, se é que ela precise ser salva (será que, voando abaixo do radar, ela não estará mais segura?), e se é que talvez não seja preferível perdê-la a salvá-la ao preço da complexidade adquirida ao longo de seu processo de desenvolvimento técnico. O que me leva ao último ponto.
Todorov mostrou-se, ao longo desse percurso, comprometido com uma concepção realista que, logo de saída, impede a compreensão da literatura modernista e dos seus desdobramentos, sendo que nas suas categorias de formalismo, niilismo e solipsismo se enreda muito do que de melhor o século XX produziu: Proust, Joyce, Virgínia Woolf, Kafka, Beckett, Borges, etc., que em sua negação da realidade exterior (ou devemos dizer “negação da realidade exterior em sua aparência”) muitas vezes foram bem mais verdadeiros do que se tivessem cedido a um realismo conformista e ingênuo, que são, aliás, características também encontradas no público. Não deixa de ser irônico que, nesse ponto, Todorov convirja com Lukács, principal representante daquela ortodoxia marxista que o levou na juventude a se entrincheirar nas fileiras estruturalistas.
P.S.: Em tempo, vale lembrar que o livro não parece se destinar apenas ao público acadêmico, e sim a uma divulgação mais ampla, ao que podem ser atribuídos a esquematização um tanto didática de alguns pontos e o não desdobramento de alguns argumentos que ficam apenas sugeridos.
Dos anais da história literária
Postado em
February 11, 2009
Categoria: poesia | 2 comentários
Enquanto Valéry
jogava com o acaso
e roubava nos dados
(os dados viciados de
Mallarmé), Paul Verlaine
comia o rabo de Rimbaud.
Fera (pré-genealógico)
Postado em
December 29, 2008
Categoria: poesia, pré-genealógico | Comente
A fera dos olhos
adormecida
concentra no ar
toda tensão
de fera cativa.
Quando desperta:
parda pantera
aberta em guerras,
rosa toda espinhos.
E a fera,
furiosa,
fareja,
captura
e devora.
Mantém-se atenta
à perplexidade,
instinto límpido
de pupila.
A palavra “câncer”
Postado em
December 5, 2008
Categoria: poesia | 2 comentários
A palavra “câncer”
ganhou contornos de
substância, palavra
encalacrada na garganta,
escalavrando as entranhas,
não estes grãos de grafite
que se evolam na voz
quando alguém a diz
displicente: “câncer”.
Sobre a marginal
Postado em
September 17, 2008
Categoria: poesia | 3 comentários
Feito um bombardeio, a noite
se abate sobre São Paulo
e a cidade arde, incandescente.
Num céu estilhaçado, a lua escorre
pelos olhos, fosca e opaca, cor
de cocaína batizada, e
me deixa chapado respirando
a fumaça cruenta do asfalto.
Poema bonsai
Postado em
September 15, 2008
Categoria: metalinguagem, poesia | 4 comentários
Podo o poema
pensando num bon
sai, penso-o crescendo
dentro do tempo (mas não
no espaço) como processo.