Neutralizando a cidadania: a solução para a educação brasileira nas páginas da Veja
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August 26, 2008
Categoria: reflexão | 4 comentários
Quero tratar da reportagem de capa da Veja de 20 de agosto de 2008, sobre o descompasso entre a avaliação positiva feita por pais, educadores e alunos quanto à qualidade das escolas brasileiras — segundo pesquisa encomendada pela revista à CNT/Sensus —, e o real desempenho desse alunos em avaliações internacionais que têm por objetivo verificar competências básicas em determinadas áreas do saber. Tal reportagem consiste em três textos: o primeiro, “Você sabe o que estão ensinando a ele?”(pp. 72-75), é uma apresentação dos dados da pesquisa; o segundo, “Prontos para o século XIX” (pp. 76-86), apresenta uma interpretação para alguns desses dados; já o terceiro é um texto opinativo de Gustave Ioschp, “A neutralidade como dever” (pp. 86-87). O dois primeiros textos são da autoria de Monica Weinberg e Camila Pereira; o segundo conta com reportagem de Camila Antunes e Marcos Todeschini.
O que os três minguados filetes de texto da primeira matéria dizem, espremidos entre os gráficos e figuras das páginas 72 e 75, está correto: é evidente que, diante de um desempenho tão ruim em avaliações internacionais, a visão positiva que se tem da escola brasileira, seja a pública ou a particular, é simplesmente um disparate. O problema está no fato de que, a partir do segundo texto, fica subentendido que a raiz do problema, ou uma de suas raízes principais, está na “ideologicização” do ensino. Em primeiro lugar, quero dizer que creio, sim, que o que se vê amplamente disseminado por aí é a transmissão exclusiva de idéias e valores de esquerda, a pretexto de se ensinar aos alunos um “pensamento crítico” que não passa, na maioria das vezes, de pura demagogia e proselitismo.
No entanto, um dos problemas que vejo nas reportagens é que a revista aponta uma discordância entre aquilo o que os professores entendem que deva ser a principal função da escola (formar cidadãos, 78%) e o que pensam a respeito pais e alunos. Entre os pais, 44% entendem que a função da escola é formar cidadãos, outros 44% acham que a função é contribuir para a formação profissional de seus filhos, e, finalmente, 12% acham que o principal é que se ensine matérias nas escolas. Ora, logo vemos que a questão foi, no mínimo, mal formulada. Como é possível que alternativas como “contribuir para uma formação profissional” e “ensinar as matérias” sejam dissociadas, já que o entrevistado deve optar necessariamente entre uma delas? Como é possível formar um profissional sem ensinar-lhe matérias, qualquer que sejam elas? Talvez a resposta esteja no fato de que, para esses pais, é melhor que o aluno aprenda coisas mais específicas para a sua formação profissional do que generalidades que não lhe serão úteis no futuro. Ok. Mas como é possível que o aluno aprenda essas coisas sem que estas lhe sejam ensinadas? A função da escola é o ensino das matérias e ponto final. Formar um cidadão ou um profissional são duas funções possíveis para o ensino das matérias. Descontando-se isso, o que temos? A porcentagem de pais que esperam que as escolas formem os seus filhos como cidadãos coincide com a daqueles que esperam que os seus filhos sejam formados para o mercado de trabalho. Agora eu me pergunto: tem cabimento que uma dessas duas opções deva ser a “principal missão da escola” em detrimento da outra, que uma delas deva receber mais ênfase do que a outra? Acho que, de saída, a questão já é totalmente descabida. É como perguntar se um pai prefere que o seu filho seja um homem de bem ou um profissional competente.
Pode-se dizer, no entanto, que a função de formar cidadãos não é da escola, o que me soa absurdo. Mas em todo caso, Gustavo Ioschpe diz: “Acho que a formação política de cada um é sua prerrogativa individual, sujeita apenas à interferência dos pais” (p. 87). O que garante que um indivíduo, por si só, adquira uma formação política? Onde ele vai buscar essa formação? Será que devemos esperar que cada um manifeste a intenção pessoal de se formar politicamente? Não é preciso que, antes, alguém lhe apresente a política, pois como se interessar por algo que se desconhece? Alguém precisa colocar à disposição do indivíduo as noções básicas necessárias para que ele possa se formar, mas esse alguém, segundo Ioschp, que confunde formação política com orientação ideológica, não é a escola.
Concluímos, portanto, pelo trecho citado, que formar cidadãos politicamente conscientes é uma tarefa da família; é a família que, além de incutir-lhe valores morais, deve capacitar o indivíduo para participar de maneira responsável na vida em sociedade, pois é nisso que consiste a verdadeira formação política. Isso deve dar muito certo Finlândia, mas aqui no Brasil, onde pesquisas revelam que a maioria esmagadora das pessoas desconhece completamente os princípios básicos do regime republicano — como a esfera de atuação de cada poder público—, como esperar que as famílias formem politicamente os seus filhos? Como alguém que desconhece quais as funções que um vereador ou um deputado devem desempenhar pode estar capacitado para escolher o melhor candidato? Ou então: como esses pais (78%) que avaliam positivamente uma escola que, como a brasileira, produz índices tão baixos de aproveitamento em exames internacionais pode cobrar alguma coisa de maneira responsável das esferas competentes? E como esses pais podem ensinar os seus filhos a fazê-lo?
Não estou com isso sugerindo que a doutrinação que hoje vemos nas escolas seja justificável, pois, na verdade, ela só não chega a ser nociva para a formação dos alunos porque o ensino é deficiente. Para ser enfático: a formação política dos indivíduos é, sim, não só uma prerrogativa, mas um dever da escola. Isso porque a formação política não se restringe apenas à orientação ideológica do sujeito, mas engloba uma largo complexo de concepções. Por que se insurgir contra o fato de que, numa avaliação de livros didáticos que não são da área de Humanas, um dos itens que devem ser contemplados seja o de “cidadania e ética”? Por que fazer troça da necessidade de um livro de Ciências incentivar a “valorização dos debate sobre direitos do trabalhador e do cidadão” (p. 87)? Há melhor espaço para se debater saúde pública e informar aos alunos o seu direito de acesso ao saneamento básico e a um atendimento de saúde pública decente do que numa aula de Ciências? Onde mais enfocar questões relacionadas à ecologia? Será que o aluno só deve saber coisas como “a razão da existência das chamadas estrelas cadentes” (p. 87)? Isso chega a ser engraçado vindo de alguém que diz não acreditar no “poder do discurso dissociado da prática”. Será que a existência das estrelas cadentes, inquestionável, é algo que os alunos possam experimentar na prática de maneira mais efetiva do que a vida em sociedade?
Outro detalhe que a reportagem parece (ou quer) ignorar é que a prioridade dada pela escola à formação de cidadãos não é simplesmente uma arbitrariedade corporativa (não só), mas uma política pública federal. Parece que faltou à equipe de reportagem da Veja pegar os Parâmetros Curriculares Nacionais, os chamados PCN´s, que têm por objetivo regulamentar os conteúdos e as diretrizes que toda a educação nacional deve adotar. Se o fizessem, certamente veriam que, oficialmente, a função da escola brasileira, seja ela pública ou particular, é a formação de cidadãos. O resultado da pesquisa, portanto, que mostra que 78% dos professores colocam a cidadania em primeiro plano, é um reflexo disso. Isso não contraria o que a reportagem diz, mas coloca a discussão em outro plano: o da política pública. Não se trata, portanto, de um descompasso entre uma parcela de pais, que sequer é a maioria, contra a corporação maligna dos professores comunistas, mas de um descompasso desses pais com o governo. A maioria da população elegeu o atual governo, e o atual governo concorda com esses professores que dizem que a função da escola, mais do que profissionalizar, é formar cidadãos — isso sem levar em conta que a prioridade na cidadania é uma diretriz federal desde a gestão do ministro Paulo Renato, do governo FHC.
Pela pesquisa, inclusive, nem se pode afirmar que as diretrizes adotadas pelo governo estejam em discordância com os anseios da população, uma vez que a porcentagem de pais que esperam que a escola forme os seus filhos como cidadãos e aqueles que esperam que eles sejam melhor preparados para o mercado de trabalho empata em 44%. Não estou somando os 12% de pais que acham a função da escola é ensinar matérias contra os que visam a cidadania, como fez Ioschp, porque esses 12%, assim como preteriram a cidadania, também preteriram a profissionalização — isso segundo a lógica absurda da pesquisa. Ou será que, para ser considerada democraticamente legítima, a pretensão da escola em dar prioridade à formação de cidadãos deve contar com a maioria de 51%? Então será que o governo, para determinar os rumos da educação, deveria convocar um referendo? O governo já não foi investido de autoridade suficiente para fazê-lo, quando ganhou a eleição? Sinto uma demagogia mal dissimulada na reportagem da Veja, como na seguinte passagem do texto de Ioschp:
“Sabendo que, em uma população de 190 milhões de habitantes, temos mais de 50 milhões de alunos no ensino básico e aproximadamente 100 milhões de pais desses alunos e apenas dois milhões de professores, e sabendo que vivemos em uma democracia, a pergunta que se impõe (…) é: como se pode justificar que uma minoria imponha sobre a maioria a sua visão da educação? Em uma sociedade democrática, quem decide que tipo de educação será oferecido no sistema público: o público ou as corporações do setor? Como se justifica que professores e administradores escolares ditem uma política educacional à revelia dos desejos expressos da sociedade brasileira? A educação para a cidadania não pressupõe, afinal, o respeito à vontade coletiva e à sabedoria popular?” (p. 86)
Nesse caso, não importa que se atropele as instituições democráticas, desde que a voz do povo seja ouvida e atendida. Mas finjamos que uma pesquisa da CNT/Sensus representa realmente “os desejos expressos da sociedade brasileira”, mais do que as eleições, e aceitemos que aqueles que acham que a escola deveria ensinar matérias aos seus filhos realmente se oponham, ou não dêem importância, ao fato de que as escolas queiram formá-los cidadãos. Então encomendemos à CNT/Sensus uma pesquisa na qual conste a seguinte pergunta: “Qual deve ser a principal missão da saúde pública no Brasil?”, com as seguintes opções de escolha única: prevenir e curar doenças; tratar ferimentos de origem traumática; melhorar as condições de vida dos brasileiros. Além do absurdo da questão, pois todas essas funções deveriam ser igualmente contempladas (como no caso de a escola formar cidadãos e profissionais), a terceira questão é evidentemente a prioritária, da qual as outras duas são desdobramentos (como no caso de a escola ensinar matérias). Talvez um estudioso pudesse constatar se são as doenças ou os acidentes que mais matam no Brasil e, dessa forma, apontar onde se deve despender mais esforços, mas será que usuários e médicos do serviço público de saúde estariam em condições de julgar a questão? Não vejo problemas em atribuir decisões técnicas a pessoas mais qualificadas, desde que essas pessoas estejam democraticamente legitimadas. Não se pode confundir democracia com demagogia. Talvez Ioschp devesse se lembrar de que, na História, os tiranos costumam se levantar contra as instituições de direito empunhando a bandeira da vontade popular.
Para explicitar o meu argumento: o fato de as escolas priorizarem a formação de cidadãos tem, sim, legitimação democrática, uma vez que foi o governo eleito pelo povo que o determinou. Dentre os direitos outorgados ao governo federal através da eleição está o de definir as políticas públicas educacionais em âmbito nacional. Esses pais que prefeririam que os seus filhos tivessem um ensino focado prioritariamente em sua capacitação profissional deveriam ter procurado saber, antes das eleições, quais as propostas dos candidatos com relação à educação, escolhendo aquele que estivesse mais de acordo com os seus anseios. Pelo visto, isso não foi feito, já que o candidato que ficou em segundo lugar nas eleições para presidente era do PSDB, o mesmo partido que, na gestão do ministro Paulo Renato, dirigiu a educação nacional para a questão da cidadania. Ou esses pais — que, como a pesquisa revela, sequer estão insatisfeitos com o ensino que seus filhos recebem — não se preocuparam com isso, ou o resultado obtido pela pesquisa não reflete a realidade, pois 44% de um total de 100 milhões de responsáveis legais votantes (a estimativa é do próprio Ioschp) representam 44 milhões de votos, o suficiente para definir uma eleição. Se a primeira alternativa é a correta, esses pais estarão capacitados para dar uma formação política digna para os próprios filhos? Do meu ponto de vista, não.
Todo o problema da reportagem está fundado em dois equívocos. O primeiro deles é confundir a priorização do incentivo à cidadania em sala de aula com a necessária ideologicização do ensino. Na verdade, essa ideologização é um desvio real e concreto, mas ainda assim um desvio da proposta original. Ao invés de relegarmos a segundo plano a questão da cidadania, deixando a cargo da família a formação do espírito cidadão de seus filhos (uma família que, na maioria dos casos, precisa ela mesma desenvolver uma consciência de cidadania que por ora lhe falta) por que não procurar uma solução que visasse a correção dos rumos tomados dentro da orientação original?
O outro equívoco é imaginar que a ideologicização do ensino é um dos principais fatores responsáveis pelo péssimo desempenho dos alunos brasileiros em rankings internacionais (desempenho que acusa as graves deficiências da educação brasileira), já que os alunos não estão aprendendo nada, nem aquilo o que lhes é ensinado errado. Se o alunos não aprendem, como o conteúdo passado pode ser o responsável pelo seu desempenho? Será que o fato de os alunos não conseguirem entender um parágrafo inteiro ou realizar operações matemáticas simples é porque, ao invés de lhe ensinarem o básico, os professores de Português e Matemática estão gastando a maior parte do tempo em sala de aula doutrinando os alunos? Quem afirma isso, mesmo tendo assistido a uma dúzia de aulas em colégios particulares, desconhece completamente a realidade de uma sala de aula. Será que os livros didáticos de Matemática estão trazendo propaganda comunista subliminar e isso está atrapalhando a aprendizagem dos alunos?
A leitura e o pensamento matemático não são conteúdos assimilados pelos alunos, mas competências sem o desenvolvimento das quais os alunos não podem assimilar os conhecimentos lingüístico e matemático, sendo justamente essas competências que as ferramentas de controle da qualidade de ensino, como as avaliações, procuram identificar. Conforme atestam índices nacionais e internacionais, os nossos alunos ainda não desenvolveram tais competências, como culpar então a ideologização de um conteúdo que os alunos não estão capacitados para aprender? Quem pensa isso ignora não só a realidade das salas de aula como também a maneira pela qual se dá o processo de aprendizagem.
É claro que não estou imputando à reportagem da Veja a afirmação de que o único problema da educação brasileira é a ideologização do ensino, mas esse é o único problema abordado, dando a entender que talvez seja o principal. O único outro problema apontado é o da falta de envolvimento dos pais na educação formal de seus filhos, mas, na retórica do texto, parece muito mais um pretexto utilizado para introduzir a informação sobre a existência da ONG Escola Sem Partido, já que a questão não é aprofundada nem recebe desdobramentos posteriores. Devo dizer aqui que apoio a iniciativa dessa ONG e concordo que alguma coisa deva ser feita para coibir a panfletagem em sala de aula, mas discordo do modo como a Veja apresenta e discute o problema, principalmente no que se refere à idéia de que uma suposta vontade popular expressa informalmente possa ter prioridade sobre os mecanismos e instituições que fundamentam a nossa democracia.
De resto, igualmente problemática é a solução apontada por Ioschp, a do dever da neutralidade do professor em sala de aula. Como ser neutro numa aula de História em que se discute temas como o nazismo e a escravidão, por exemplo? Como ser neutro ao apresentar ao aluno uma teoria racista? O professor, ao dar aula sobre o regime stalinista, não deveria condenar-lhe explicitamente o caráter sangüinário? Ou a neutralidade só se aplica ao discutir os aspectos negativos do capitalismo, pois os há, ainda que este venha a ser preferível à situação que se verificou nos países sob regime comunista? Não acho que devamos confiar que os alunos, por si só, desenvolvam valores éticos e morais que os permitam identificar a barbárie como algo reprovável. Esse é uma tarefa da família, mas também da escola, pois não são todos os alunos que gozam de uma estrutura familiar consistente ou que tenham responsáveis com tais valores consolidados. É, portanto, tarefa da escola incutir nos seus alunos valores humanitários, éticos e democráticos. É preciso que se tenha consciência de que a teoria nazista não é naturalmente reprovável, mas que a sua reprovação depende da adoção de uma série de valores que a tornem reprovável. Não podemos esquecer que, em determinadas épocas não tão remotas, o extermínio de grupos considerados inferiores era facilmente aceito. Se não queremos que isso volte acontecer, temos que consolidar nas gerações futuras aqueles valores que nos fazem enxergar o genocídio como uma coisa deplorável.
Portanto, a “neutralidade” que Ioschp advoga para o ensino, quando transformado numa regra universal, que independe do bom senso e da autonomia dos professores e se impõe sobre as situações particulares, cria a absurdo de se falar sobre a escravidão e o Holocausto sem poder reprová-los. Deveríamos pôr à disposição dos alunos os trabalhos revisionistas que negam ou defendem as barbáries do nazismo e colocá-las em pé de igualdade com a visão crítica sobre esse fato histórico. Deveríamos, também, conceder à teoria criacionista o mesmo espaço que concedemos à teoria evolucionista nas aulas de Biologia. Para dar embasamento ao que diz, Ioschp cita as idéias de Weber sobre a necessidade da neutralidade em ambiente acadêmico. O interessante é que Max Weber é um pensador do país que, meio século mais tarde, estaria mandando seis milhões de seres humanos para a morte em campos de concentração. Se me perguntassem, diria que as idéias de Weber sobre neutralidade não deram muito certo, pois acho que faltou um pouco de formação humanista para os ideólogos das teorias pseudo-científicas que deram suporte ao nazismo; intelectuais, via de regra, formados na academia alemã.
A neutralidade do ensino, como regra universal, aplicável indistintamente a qualquer caso, é uma grave omissão e, portanto, eticamente reprovável. Pode-se, no entanto, defender uma neutralidade relativa, mas os critérios para escolher em que ocasiões a neutralidade não se faz desejável ou necessária não serão nunca neutros; nesse caso, teremos sempre uma neutralidade tendenciosa. Mas a quem caberá definir o que deve ou não ser “neutralizado” em sala de aula? O mais civilizado seria incumbir tal tarefa aos órgãos competentes do Estado, investidos pela autoridade que lhes foi outorgada pelo processo democrático. Mas, então, estaríamos abrindo um precedente para a censura e, o que é pior, legitimando-a democraticamente.
Acho que a ideologização do ensino é um problema real, que pode comprometer a compreensão histórica dos alunos, mas acho que as soluções apontadas pela revista, seja a priorização da capacitação profissional em detrimento da cidadania ou a “neutralidade” do ensino, representam a abdicação do papel civilizador que a educação deve desempenhar, sobretudo num país como o nosso, no qual os valores mais básicos de civilidade estão longe de estarem consolidados. Será que a inclusão no mercado de trabalho, a garantia de uma condição de vida digna, por si só garante que os valores necessários para uma boa convivência em sociedade brotem espontaneamente? Se assim o fosse, não veríamos tantas pessoas bem colocadas sem um mínimo de respeito pelos valores básicos prezados pela sociedade. Quando dizemos que o que falta ao país é educação, será que o que estamos querendo dizer é que falta mão-de-obra qualificada ou que falta senso de cidadania aos brasileiros? O desenvolvimento econômico prepara as condições objetivas para o exercício da cidadania, dando dignidade ao indivíduo, mas não a garante; é preciso cultivá-la.
O que a Veja propõe, por vezes confundindo cidadania, política e ideologia, é uma “desideologização” do ensino, e eu concordo com isso, mas não posso concordar que a cidadania deva ocupar uma posição inferior à economia, pois fazê-lo é subordinar toda a sociedade às suas estruturas econômicas. Talvez seja o caso de “desideologicizar” a cidadania nas escolas, mas não de “neutralizá-la”. Uma das coisas fundamentais que aprendemos com a cidadania é o respeito pelas instituições democráticas, e as instituições democráticas determinam que a melhor forma de intervir nas políticas públicas, como é o caso das políticas que orientam a educação, é através do voto consciente e da cobrança exercida sobre os órgãos competentes. Para melhorar a educação, portanto, o que precisamos é de mais cidadania, e não menos; precisamos de mais formação política, e não menos. Mas o que certamente não precisamos é da obtusidade da esquerda travestida de engajamento, nem do cinismo da direita disfarçado em neutralidade.
Reflexão sobre o cristal
Postado em
August 19, 2008
Categoria: poesia | 6 comentários
Observo o cristal:
o lampejo, sua língua
de relâmpago, labareda
em que as coisas se consomem
sem calor, límpida fagulha.
Observo o cristal
e o cristal disseca
os meus olhos, dissolve
os meus nervos retesos
em estado de pânico, o
cristal bebe os meus olhos.
Se observo o cristal,
o meu olhar toca
o cristal, e a sua textura
é um quase textura,
textura nenhuma.
Observo o cristal, esse
espesso vazio, abismo
adensado em superfície,
onde a vertigem, estática,
consiste no suspense;
espessa assepsia.
Observo o cristal
pressentindo o preciso
palpitar de um relógio; ad
miro o cristal: o seu tenso
silêncio, a fibra quebradiça.
Origami
Postado em
August 8, 2008
Categoria: poesia | 13 comentários
De papel de seda finíssimo
fiz o teu corpo: fibra a fibra
modelada na pétala, forma
de pura textura e volume.
Sobre a límpida e mínima
película, moldei os teus seios
em torneios e volutas,
lívidos torvelinhos,
e os dedos se dedicaram
a cada minúcia sinuosa
na delicada dobradura do
sexo, desdobrando lábios
em abismos, labirintos.
Assim te concebo: nua
e toda nuances, criada
da lâmina de sal e espuma
do mar, como as ondas
que se espiralam peroladas
durante a queda (tens
a idêntica consistência
de uma onda do mar).
Soneto branco
Postado em
July 21, 2008
Categoria: metalinguagem, poesia, soneto | 7 comentários
Queria o meu soneto da cor branca,
todo branco, que nunca fosse negro,
pois o negro é profundo, cheio de ecos
e coisas das quais só se sente o cheiro.
O branco não. O branco é superfície
e silêncio, o suspense de um relâmpago
retido na espessura de um espelho.
Branco é a cor das coisas sem conceito.
Não o branco solúvel, cor de gelo,
nem o branco volátil, cor de espuma,
ou o branco dourado do ouro branco;
quero um branco absoluto, branco abstrato,
o mais puro, o mais claro — mas sem brilho:
quadrado branco sobre fundo branco.
Soneto bossa nova
Postado em
July 17, 2008
Categoria: poesia, soneto | 8 comentários
Não conhecia o mar, mas já ouvia
por detrás das montanhas lá de Minas
a voz, o violão e a disciplina
de um certo João, vindo da Bahia,
que tantas coisas novas descrevia:
a beleza sem culpa das meninas,
as praias que o sol nítido ilumina,
a voz, o violão e a poesia.
Lá de Minas, eu via o Corcovado
e aprendia novíssimas tristezas,
um tênue desespero delicado.
E o que mais me ensinou João Gilberto?
Um rigor conjugado com leveza
que põe este soneto a descoberto.
Corolário da mesa (pré-genealógico)
Postado em
July 15, 2008
Categoria: poesia, pré-genealógico | 2 comentários
A matéria morta da mesa
nunca será flácida ou torta,
dela se faz porta, cadeira
e os braços daquele que a corta.
A matéria dura da mesa,
com sua difícil costura,
é feito nervura de pedra,
feito cirurgia sem cura.
A matéria densa da mesa,
sua arquitetura suspensa,
mantém sempre tensa postura
onde nunca pousa doença.
A matéria reta da mesa,
prato de severa dieta,
é magra de arestas agudas,
cheia de uma fome discreta.
A matéria bruta da mesa
tem disciplinada conduta
de quem mais escuta e só fala
numa prosa que é sempre curta.
A matéria tesa da mesa,
sua tessitura coesa,
consiste em firmeza de entrecho,
mesa mais discurso que mesa.
Soneto sem assunto
Postado em
July 11, 2008
Categoria: poesia, soneto | Comente
Escrevendo um soneto às dez e meia
da noite, este soneto que é sem tema
feito um ovo que é só casca, sem gema;
um soneto sem sangue, só de veias.
Como quem resolvesse um teorema
construindo um objeto sem matéria
prima, faço um soneto sem idéias.
Será que este soneto é um poema?
Não, pois como Aristóteles dizia:
“Por ser escrito em versos um tratado,
havemos de chamá-lo poesia?”.
Pirotecnia pura! Mas, agora,
que o soneto está quase terminado,
o relógio registra: duas horas.
Picnic em Auschwitz
Postado em
July 6, 2008
Categoria: poesia | 2 comentários
Entre um cigarro e outro
a Imperatriz de Auschwitz
tomava chá com bolachas
à luz do abajour encapado
com pele de cigano, projetando
sobre as paredes encardidas
um enxame de mariposas
incendiadas.
Através da janela vê-
se um poeta crucificado
entre dois psicanalistas e
sobre o seu cadáver delicado
abelhas esclerosadas
preparam a ferrugem.
Très chic, a
Imperatriz de Auschwitz
adubava com vísceras incineradas
as flores que germinavam flácidas
entre cactos e canteiros de
arame farpado.
Ao pé da cruz, onde o limo
encharcado de sangue coagula
cogumelos e lagartas, uma doce
garotinha mastiga um pássaro,
uma garota sem cabeça.
E a Imperatriz de Auschwitz
com seus músculos de chumbo
e borracha, um corpo se con
torcendo em colapso, urrava
currada por um panzer
entre um cigarro e outro.
O filantropo
Postado em
July 2, 2008
Categoria: conto | Comente
Madrugada de sábado para domingo
Uma caminhonete branca deslizava lentamente no asfalto, como um bicho farejando a presa. Através do vidro, os travestis eram bizarros manequins numa vitrine, afetados e desproporcionais, fazendo caras e bocas — sobretudo bocas; peixes exóticos num aquário de neon. A caminhonete se aproxima de uma esquina e o vidro desce, semicerrado:
— Quanto é o programa?
— É cinqüenta o completo, bonitão.
O travesti desaparece sugado para dentro do carro.
— Prá onde a gente vai?
— Prá minha chácara; fica aqui pertinho. Aproveita a viagem.
O barulho do chiclete rodando na boca escandalosamente escarlate do travesti incomodava; ligou o rádio — música sertaneja.
— Só toca bosta uma hora dessas.
E o chiclete girando na boca do travesti, estalando molhado, dando nos nervos…
— Já chega! Cospe fora essa porra logo!
— Tá bom, calma … credo! Eu hein? Homem estressado…
Baixou o vidro e cuspiu o chiclete.
— Falta muito ainda?
— Dá prá calar a boca?!
O travesti com a boca toda pintada parecia um palhaço desesperado, desses que assustam criancinhas.
Saíram da cidade, passaram por uma porteira e pegaram uma estrada de terra cercada de mato baixo por todos os lados, chegando num galpão. Estacionou o carro.
— É aqui. Pode descer.
Desceram e entraram no galpão subitamente iluminado por duas lâmpadas fluorescentes: dois pontos de exclamação interrompendo o escuro!!
— Que lugar mais esquisito…
Com um único golpe de machado, a cabeça do travesti foi arrebentada, deixando no assoalho uma mancha pastosa parecida com batom.
Domingo de noite
Atrás da igreja, uma caminhonete branca distribuía comida entre os mendigos. No prato, uma carne rosada e macia, adocicada, boiava num caldo meio ralo, meio morno.
Persistia no ar um levíssimo cheiro de perfume barato.
Pierre Menard, a fraude?
Postado em
June 23, 2008
Categoria: crítica | Comente
Salvo engano, o “Pierre Menard, autor do Quixote” é um dos textos mais citados, se não o mais citado, de Jorge Luís Borges. No entanto, ao que me parece, até agora um certo detalhe não foi devidamente levado em consideração, e esse detalhe, ainda que não mude a compreensão atual que se tem do conto, serve para relativizar algumas conclusões habituais. Em tempo: na falta do original em espanhol de Ficciones, estou me servindo da tradução, aliás muito satisfatória, de Carlos Nejar, que consegue transpor para o português algumas sutilezas do original, sem a consideração das quais este esboço de ensaio não faria o menor sentido.
No texto que abre Ficções e que antecede “Pierre Menard…”, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, o narrador e Bioy Casares discutem “a elaboração de um romance em primeira pessoa, cujo narrador omitisse ou desconfigurasse os fatos e incorresse em diversas contradições, que permitissem a poucos leitores — a muito poucos leitores — a adivinhação de uma realidade atroz ou banal”. Esse procedimento, que costumamos chamar de narrador não confiável e que é bastante familiar aos leitores de Machado de Assis, parece-me um princípio que se deve levar em conta em “Pierre Menard…”, no qual, por trás da execução parcial e milagrosa de uma tarefa impossível, a realidade banal da fraude se insinua.
Vários são os índices que contribuem na formação de um narrador não confiável, dentre eles um certo tom irônico dissimulado que em alguns momentos se torna explícito. Isso acontece, por exemplo, quando o narrador de “Pierre Menard…” trata da figura da condessa de Bagnoregio. Sobre o marido da condessa, o “filantropo internacional” Simón Kautzch, o narrador diz ser ele “tão caluniado — ai! — pelas vítimas de suas desinteressadas manobras”. Ora, como o autor de “manobras” que causam “vítimas” pode ser considerado um “filantropo”? E como tais manobras podem ser “desinteressadas”? A palavra “vítima”, ao que se deve acrescentar a afetação da interjeição “ai!”, aponta para a legitimidade das “calúnias” que deixam de ser, por isso mesmo, calúnias. No seu ensaio “Arte de injuriar”, Borges apresenta um catálogo de procedimentos difamatórios que parecem ter sido empregados ao longo do conto.
Tratando do periódico anual publicado pela condessa, o narrador o evoca como um “vitorioso volume” a partir das palavras Gabriele D’Anunzio, um de seus colaboradores, lançado com o objetivo de apresentar “uma autêntica efígie de sua pessoa [da condessa], tão exposta (na razão direta de sua beleza e de sua atuação) a interpretações errôneas ou apressadas”. A pretexto de defender a honra de sua benfeitora, o narrador acaba colocando-a em dúvida ao fazer menção às acusações que atestam contra a sua integridade moral.
Ao chamar a revista de “vitorioso volume”, o narrador deixa tudo muito claro. Vemos então que a ação do conto se passa no interior de um círculo fechado, apoiado sobre o mecenato da baronesa de Bacourt e da condessa de Bagnoregio, através do qual um grupo de homens de letras tenta obter prestígio social. Trata-se de uma via de mão dupla: os homens de letras conseguem certa visibilidade ao freqüentar os salões da elite, enquanto esta pode gozar do prestígio de patrocinadora das artes e das letras. Para que essa troca se dê, no entanto, os homens de letras se vêem obrigados a defender a honra questionável da condessa e de seu marido. É de dentro desse círculo que saem o narrador do conto e a sua personagem principal, Pierre Menard.
Para atestar a credibilidade do seu relato, o narrador cita o aval que lhe fora concedido pela condessa, sendo ela mesma alguém a quem não podemos dar nenhuma credibilidade. Nesse ponto, toda a confiabilidade do relato passa depender unicamente da boa vontade do leitor, mas a prudência aconselha que se mantenham todas as reservas. Logo de saída, o narrador critica o catálogo que Madame Henri Bachalier teria feito da obra de Pierre Menard, dizendo: “São, portanto, imperdoáveis, as omissões e adições perpetradas por Madame Henri Bachelier num catálogo falaz que certo jornal, cuja tendência protestante [grifo do autor] não é segredo, teve a desconsideração de infligir a seus deploráveis leitores — embora estes sejam poucos e calvinistas, quando não maçons e circuncisos”. O preconceito religioso demonstrado, ao qual se acrescenta uma nota anti-semita, é mais um índice a se somar na construção do caráter duvidoso do narrador e denuncia a sua total falta de isenção diante do que está sendo narrado.
A acusação feita contra o catálogo de Madame Bachalier tem também como função preservar o prestígio do grupo ao qual o narrador faz parte, numa tentativa de manter o monopólio sobre a obra de Pierre Menard, como atesta a seguinte passagem: “Os amigos autênticos de Menard viram com alarme esse catálogo e ainda com certa tristeza. Dir-se-ia que ontem nos reunimos diante do mármore final e entre os ciprestes infaustos já o Erro trata de empanar sua Memória…”. A retórica gordurosa da última frase, com os seus clichês detestáveis, como “mármore final”, é mais uma afetação que podemos pôr na conta desse narrador que cada vez mais se afasta do estilo habitual do autor de Ficções. Mas o que queríamos sublinhar com essa passagem é que o narrador pretende manter o exclusivismo do grupo da condessa Bagnoregio com relação aos escritos de Menard como uma espécie de espólio.
Identificado o narrador de “Pierre Menard…” como um narrador não confiável, cabe-nos agora nos determos sobre a “ação” do conto propriamente dita, ou seja: a história do esforço que Pierre Menard empreendeu na sua tentativa de escrever palavra por palavra o Dom Quixote de Cervantes sem, contudo, lançar mão de cópia ou de transcrição mecânica. Pierre Menard queria, por seus próprios meios e criação, chegar a um texto idêntico ao do Quixote de Cervantes. Antes, contudo, vale a pena dar uma olhada no perfil que o narrador constrói de Pierre Menard e na descrição de suas obras.
Se o narrador do conto não é confiável, o mesmo podemos dizer de Pierre Menard. Dentre sua produção ensaística, podemos encontrar uma invenctiva contra Paul Valéry que corresponderia ao “reverso exato de sua verdadeira opinião sobre Valéry”. Numa nota de rodapé, a respeito de “uma versão literal da versão literal que fez Quevedo da Introduction à la Vie Dévote de São Francisco de Sales”, o narrador, por não encontrar nenhum vestígio dessa obra na biblioteca de Menard, conclui: “Deve tratar-se de uma brincadeira de nosso amigo, mal-ouvida”. Outra obra do escritor seria “um artigo para enriquecer o xadrez eliminando um dos peões de torre”, no qual “Menard propõe, recomenda, polemiza e acaba por rejeitar essa inovação”. Esses elementos contribuem para a atribuição de um caráter não confiável e volúvel a Pierre Menard que deve ser levado em conta durante a leitura das passagens, citadas pelo narrador, de sua correspondência.
Numa carta escrita ao narrador, Menard explica o método pelo qual pretende concluir a sua tarefa de escrever novamente o Quixote: “Meu solitário jogo está governado por duas leis polares. A primeira permite-me ensaiar variantes de tipo formal ou psicológico; a segunda obriga-me a sacrificá-las ao texto ‘original’ e a raciocinar de modo irrefutável sobre essa aniquilação…”. A partir desse processo, Menard teria conseguido escrever os capítulos nono, trigésimo oitavo e um fragmento do vigésimo segundo da primeira parte de Dom Quixote. No entanto, o narrador não consegue encontrar um único rascunho dessas versões anteriores, aludindo a uma passagem da carta em que Menard disse ter resolvido, deliberadamente, perder as “etapas intermediárias” de seu trabalho. Numa nota de rodapé adiante, o narrador diz que o escritor costumava queimar os seus cadernos de rascunhos em seus passeios ao entardecer.
Isso nos leva às seguintes questões: será que esses rascunhos realmente existiram? Será que o conto nos leva a crer que Pierre Menard não teria escrito de fato os tais fragmentos do Quixote e que tudo não passaria de uma farsa ou de uma piada, ou ambas, criada pelo narrador do conto ou por Menard, ou ambos? Talvez sim, talvez não. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho? O que eu queria destacar é que não há sequer um ponto seguro no texto que torne o seu enunciado confiável, pois narrador e personagem principal mentem descaradamente e repetidas vezes. Diante da teia de mentiras em que os dois se embrenham, a possibilidade de que Menard tenha conseguido, pelo menos parcialmente, cumprir o seu ambicioso projeto se torna ainda mais incrível, com toda a ambigüidade que tal palavra possa ter.
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