Três ou quatro frases de efeito em um comentário sobre Michel Houellebecq

Postado em June 18, 2007
Categoria Literatura |

Se tem um escritor de cuja obra eu posso dizer com um mínimo de segurança que conheço é Michel Houellebecq. Isso não é um mérito. Foram lançados somente quatro livros seus no Brasil. Eu me orgulharia de dizer que li todo o Balzac, porque haveria esforço. Mas não é o caso.

Há um popular jornalista e professor universitário aqui de Porto Alegre, o Juremir Machado da Silva, que me induziu às primeiras leituras de Houellebecq. Contou-me que traduziu e publicou quase que às próprias custas Extensão do domínio da luta. Devia eu estar com uns 18 anos na época, não lembro. O fato é que eu era sugestionável mais do que sou. Hoje esse defeito ainda me resta, mas escolhi tão poucos e bons conselheiros, que não me importaria de dizer que li certos livros porque eles mandaram.

Dizia eu que, nessa fase, entrando na universidade, todos temos uma certa tendência a personagens deprimidos, apáticos e, no limite, destruídos física ou moralmente. Bem, foi assim comigo, pelo menos. Faziam-me crer que Houellebecq tinha um quê de Albert Camus (aparte: Diego, já que você vai fazer o seu doutorado em Meursault, talvez seja útil conhecer esse francês mais novo). Penso que o título em inglês, Whatever, para o que no Brasil foi lançado como Extensão… (tradução literal do título original, em francês), resume o espírito dos personagens de Houellebecq. Pois acreditei sem reservas nessa comparação. Atirei-me à leitura.

Fato é que a característica de um autor se solidifica conforme sua obra cresce. Isso não é bom nem mau. Simplesmente é. É por isso que temos mais razão em dizer de tal autor que ele é assim ou assado quanto mais prolífera tiver sido a sua produção e à medida que a conhecemos mais. No caso de Houellebecq, a sedimentação do seu estilo e dos temas de que trata está cada vez mais familiar para mim e não me tem agradado muito. Esse sentimento é intenso agora, ao fim de A possibilidade de uma ilha, que terminei há pouco.

O que Houellebecq escreve tem características marcantes. Se um escritor com tendência a polêmicas e ao choque não frear seu ímpeto - como é o caso de Houellebecq -, pode se tornar uma imitação enfadonha de si mesmo. Esta é a conseqüência de uma lei bem simples: quanto mais enfático é o que dizemos, tanto maior é o risco de nos tomarem por caricaturas. Viramos piada. Vejam o caso de um filósofo brasileiro tão virulento, mas tão virulento, e repetitivo, mas tão repetitivo, que só resta fazerem troça do que diz na escola primária. Porque já virou personagem de anedota há muito. É exatamente isso que me vem à mente quando se trata de Houellebecq: o francês aposta tudo no que lhe é mais literariamente próprio e o eleva à enésima potência. Às favas o leitor iniciado em sua obra.

Para não soar abstrato, preciso dizer para vocês o que é reincidente nos livros de Houellebecq. Há um desespero pela decadência do corpo e da sexualidade e uma exaltação da juventude e do vigor físico que são onipresentes. Passagens intercambiáveis. Abro ao acaso um dos quatro livros. Reconheceria a autoria, mas não saberia dizer de onde tirei os trechos:

De repente, bem na frente dele três adolescentes saíram das ondas. Dava-lhes no máximo 14 anos. Avistou as toalhas delas e estendeu a sua a alguns metros; não lhe deram a menor bola. Despiu rapidamente a camiseta, cobriu os flancos virou-se de lado e tirou o pau. Num conjunto perfeito, as ninfetas baixaram a parte de cima do maiô para bronzear os seios. Antes mesmo de ter tempo de tocar-se, Bruno descarregou-se violentamente sobre a camiseta. Soltou um gemido, caiu na areia. Estava acabado.

Comprar uma cama de solteiro significa confessar publicamente que não se tem vida sexual e que não se pretende ter uma no futuro próximo (…)

Pois bem: se não podemos dizer de Houellebecq que sua obra se resume à angústia de seus personagens - e, de fato, não podemos dizer isso -, podemos afirmar que seus protagonistas se restringem a isso: homens ao redor dos 40 anos sofrendo consciente e discursivamente a decadência de si mesmos, especialmente a decadência sexual. Rimos porque somos jovens. Mas deve ser duro perecer como um personagem de Houellebecq.

* * *

O que salva o escritor francês é que, como bem observou o Sérgio Rodrigues, além do humor provocativo, há nele uma ambição de dar conta de tudo o que existe. A sensação ao terminar A possibilidade… e Partículas elementares, mas que não me é tão presente em Extensão… e Plataforma, é de que Houellebec sofre imensamente a dor da humanidade inteira e pretende salvá-la. Ao contrário de  escritores menores (”menores” em pretensão, não em talento ou fama), Houellebecq não tem vergonha da seriedade do seu objetivo. A redenção não é constrangedora para ele. Isso é um mérito em minha opinião, uma vez que o escritor atual me parece cada vez mais medroso. Se assim é na literatura presente - um pequeno fragmento da realidade para um sarcasmo tão veemente quanto estéril -, é bom que Houellebecq escreva. Não será incomum se você ler A possibilidade… e tiver uma sensação absolutamente grandiosa sobre o homem, embora não saiba explicá-la. O livro parece ter sido feito para isso. E foi assim que me senti.

Comentários

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5 Comentários »

2007-06-18 08:16:18

Não li Houellebecq. Ainda. Tenho lido, isso sim, muito sobre o A Possibilidade…por aí, e minha vontade de experimentá-lo é grande. Gostei muito da sua referência sublimada ao tal ‘filósofo’ brasileiro. Diz tudo. E seu texto está muito bom.

Um abraço.

2007-06-18 15:50:18

Note que eu não emiti juízo de valor sobre a obra do filósofo. E as aspas são suas.

Não sei se você viu deboche na passagem, mas não foi minha intenção.

 
 
2007-06-28 11:41:03

Cara, tu tá vivo =] ?

 
2007-06-28 14:14:47

Primeiro de tudo: taí, gostei dessa padronização dos blogs do “Breviário” _ já era assim ao nascer? Nem notei. Mas gostei, o template é elegante.

Oh, diacho de coincidênça. Tô lendo o “Plataforma” e o “Possibilidade”. Ao mesmo tempo. Entre os pareceres, projetos de lei e relatórios de rigueur. E não consigo desgrudar dele. Isso mata?

Houellebecq tem certos requintes de crueldade, não? Mas me deixe acabar ao menos um dos livros para poder falar sobre ele direito. Confesso que estou meio deslumbrado, já há algum tempo não lia alguma literatura que não fosse de puro e descerebrado entretenimento.

 
2007-07-13 09:14:20

Terminei o “Possibilidade”, vou comentar depois.

 
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