Uma singela homenagem aos livros
Postado em June 2, 2007
Categoria Literatura |
Daquilo que o homem cria, literatura é o que realmente me interessa. Tenho as minhas lacunas - enormes - em outras artes, mas nada que me cause muito embaraço. Envergonho-me, sim, de ainda não ter exaurido toda a literatura universal.
Às vezes, chego a deplorar de que viverei pouco para ler tudo que existe. No entanto, a vontade de manusear o livro seguinte me é tão forte, que seria uma alternativa igualmente ruim saber que não há uma próxima obra a ser aberta. Talvez o que mantenha viva a paixão pela literatura seja exatamente a impossibilidade de vivê-la plenamente. Divago, mas a intensidade de uma paixão, qualquer que seja, parece ser inversamente proporcional à possibilidade de saciá-la. Enfim.
Mendiguei esse espaço para escrever sobre livros. E, sobretudo, para dizer o que eu acho dos livros que leio. Há uma grande diferença entre isto e aquilo. O fragmento do jornalismo especializado em fazer resenhas sobre literatura escreve de uma perspectiva extremamente impessoal, e, o que é pior, fazendo concessões a uma espécie de senso-comum literário. George Orwell escreveu mais ou menos sobre isso em Dentro da Baleia e outros ensaios. É como se os resenhistas tivessem o seu manual e o seguissem à risca.
O que ambiciono fazer aqui difere do que critico acima. Não me interessa relacionar a obra do autor ao seu tempo ou encaixá-lo em uma corrente. Isso pode ser interessante na academia, mas não em um blog, jornal ou revista. E, de qualquer foram, é o mais fácil de ser dito. Percebam: vocês gostaria de ler aqui que Max Brod recebeu algumas obras de Kafka para destruí-las e, ao contrário do que pediu o amigo, cuidou de publicá-las? Não, certo? Isso é coisa que vocês já sabem. Jornais e revistas parecem dizer sempre coisas que todo o mundo sabemos.
No fundo, o que me interessa ouvir de quem quer que seja é se chorou ao ler tal livro, se há alguma passagem especialmente brilhante e por que motivo, se achou o estilo do autor sentimental, ríspido, belo, se levaria o livro para uma ilha deserta, se presentearia o namorado ou a namorada com ele, se acha tal cânone o cúmulo da chatice literária (Cem anos de solidão, no meu caso) etc. É uma homenagem que prestamos à literatura dizer como ela nos toca a cada um de nós, individualmente, naquilo que temos de mais específico e no que diferimos das bilhões de outras pessoas que habitam o mundo. E é exatamente o tipo de coisa que pretendo fazer aqui. Uma singela homenagem.
…então já vou te contar a minha sensação ao ler um livro - desde criança tenho a sensação de que, se no ápice da aventura, quando o tiro foi disparado, ou o dragão cuspiu fogo, ou a espada foi desembainhada, ou o portal para outro mundo descoberto, ou a traição cobrada com sangue, enfim, se nesse momento fecho o livro, torturo os personagens, pois com o livro fechado, eles permanecem em sua última ação, presentes, até que eu abra o livro novamente e os liberte… como a sina de Sísafo, ao levar uma pedra morro acima, eternamente, sem nunca chegar ao topo.
Bom - e isso eu tenho que dizer - você não mendigou esse espaço; pelo contrário, quando eu discutia com o Diego quem convidaríamos, você foi o primeiro que me veio à mente, mas temi que você não aceitasse o convite devido ao recente registro do Mundus Minor. Suas resenhas, que, felizmente, não são como as dos jornais (que não passam de repetições e imposições da indústria cultural), são pungentes, e isso é o que eu mais gosto nos seus textos. O fato de não gostar do que gosta a maioria e de justificá-lo de maneira ímpar. Isso e o mais. Vida longa ao Prefácio.
E obrigado pelo comentário, hehe.
Subscrevo o Ed, tu não mendigou nada.
A Academia não está errada em organizar a Literatura por uma História. O problema é que ela faz muitas concessões a não-gênios (na História da Literatura Brasileira então…).
Mas os livros só são para serem lidos. Ler também é um processo: encontrar seu jeito de ler. “Encontra-te a ti próprio”.
[…] tipo de coisa boa, da poesia à crítica literária (que não ousa dizer seu nome); como disse o Cleber, é gente que se interessa, de tudo que o homem cria, pela […]
Compartilho plenamento com os seus sentimentos literários. Livro, pra mim, é uma conversa entre dois, autor e leitor, e se trocarmos um ou outro, a conversa nunca será a mesma.
Olá,
gostei muito do seu texto. E acho que a blogosfera (detesto essa palavra) carecia de um blogue assim - intuito de homenagear. Parabéns.
Vou marcá-lo para futuras visitas.
Eu cheguei por aqui pelo Mundus Minor. Agora nem me pergunte como eu fui parar lá…
Isabella =)
P.S.: comentário desnecessário, mas não me aguento, nascemos no mesmo dia.
Não sou lá um leito tão assíduo, entretanto também tenho meu que de paixão por esta arte! E saber isso ou aquilo tal obra, contextualizar, relacionar entre outros termos, são ações também importantes e prazerosas, mais para uns que para outros (os letrados, por exemplo), e igual a você, direciono minhas atenções para aquilo que me toca na obra. O resto é secundário. Parabéns, e prossiga.
Excelente propósito para um blog. Só espero que a tua freqüência de atualizações aumente, hahaha.
Estamos todos de acordo, Carla!
Há quem habite esta casa? =]