E você ainda quer que eu fale de literatura contemporânea?!

Postado em August 9, 2007
Categoria: Literatura | 11 comentários

Encontrei a mocinha chata na saída do Campus do Vale da UFRGS e lembrei-me de que tenho um meme a responder. Ela me pediu a lista dos meus cinco livros favoritos. Eu me sinto meio responsável por isso. Minha consciência pesa quando não correspondo às expectativas dos amigos. E sei que não tenho correspondido. Nem às minhas. Eu sempre esperei de mim mais fertilidade, escrever com mais freqüência etc. Confesso: eu queria escrever como o Ed, o talentoso blogaholic de quem tenho o privilégio de dividir o condomínio. Mas há que se contentar com o que se pode.

Não escrevo há tempos. Acho difícil elaborar qualquer texto sem uma idéia muito recorrente na minha cabeça. Estou sem nada para dizer, para ser sincero. E falar sobre o assunto em questão é ainda mais difícil. Não deveríamos tomar os livros por objeto com tanta facilidade. Sobre qualquer assunto, é necessário dizer algo, e, quanto à literatura, eu sou ainda mais cioso disso (talvez vocês discordem…). No entanto, abro um espaço para a falta de reflexão e digo sem medo os meus livros preferidos:

1. Suave é a noite, do Francis Scott Fitzgerald. Na verdade, o escritor norte-americano encabeçaria a minha lista com O grande Gatsby ou Este lado do paraíso ou mesmo com algum conto, como Bernice corta o cabelo. O título do primeiro, Suave é a noite, é o melhor: eis a razão da minha escolha. Eu diria, aristotelicamente, que Fitzgerald escreve com categoria, muita categoria. Lembro-me de ter comentado com alguém, ou mesmo dito em algum blog antigo, que me parecia que Fitzgerald escrevia às vésperas de uma festa, vestido a rigor. Fitzgerald é fino, mais do que qualquer outro autor que eu tenha lido. E a elegância do estilo, mais que a filosofia (a densidade de um personagem, a questão metafísica que o autor implicitamente aborda etc.) e o engenho (a costura da história, a reviravolta no enredo etc.), é o que mais admiro em um texto. É o escritor que com mais poder me transporta para o cenário da sua obra. E, o que é melhor, eu gosto desse ambiente. Meu ideal de vida era viver como os protagonistas de Fitzgerald, com toda a sua explosão e decadência. Na verdade, eu queria ser Fitzgerald, sabem. Mudam-se os nomes, mas no fundo era o tipo de vida que o autor levava.

2. O vermelho e o negro, de Stendhal. Uma recente descoberta, que me fez emendar um A Cartuxa de Parma na seqüência. Eu enlouqueci lendo esse livro, dizia que era o melhor livro da literatura de todos os tempos. O vermelho… tem ímpeto, paixões inconstantes, ambição, potência, tudo aquilo que sentimos mais intensamente à juventude. Só não nos batemos como os personagens de Stendhal porque não resolvemos mais as nossas questões de honra na ponta da espada. Quem ainda se importa com honra? Stendhal tem a violência que falta à lassidão dos nossos dias. Li como se tomasse um remédio (Questionário: que filósofo tinha o francês entre os seus escritores preferidos? Vamos, é facil. Stendhal escreveu no século XIX…). Se a vida é generosa, tem classe e delicadeza em Fitzgerald, em Stendhal ela é enérgica, tempestuosa. O que eu quero dizer, em suma, é: parem tudo e leiam O vermelho… E esqueçam o que eu escrevi.

3. O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. O escritor também participaria da lista com algum conto, pela beleza com que escreve. O retrato…, no entanto, condensa tanta ironia e sarcasmo que é difícil descartá-lo em nome de outra obra. Eu ainda tenho que verificar isso, mas Wilde parece ser o melhor frasista da literatura. Muito antes de o politicamente incorreto virar esse artigo distintivo de consumo que é nos nossos dias – dos quais fazemos uso mais para marcar a nossa distância da massa ignorante e correta do que por convicção -, Wilde já abusava. O mérito de Wilde está em ter dito antes de todo mundo coisas como “são somente os intelectualmente perdidos que discutem” ou que “posso simpatizar com tudo, menos com o sofrimento. Quanto menos se falar dos males do mundo, melhor”, ou, ainda, “o senhor é demasiado encantador para dedicar-se à filantropia”. Wilde choca (num sentindo agradável para quem não leva as letras a sério, como eu) com seus paradoxos. O escritor irlandês parece ter decidido escrever O retrato… como um compêndio para esses fragmentos de brilho inigualável. Duvidam? Meu argumento é o seguinte: “Acendeu um cigarro e começou a fumar com ar convencido e satisfeito, como se tivesse resumido o mundo numa só frase”.

* * *

Três livros, porque eu já demorei seis cigarros e a manhã inteira para escrever este post. Quando der tempo, eu completo a lista. E sintam-se todos convidados a participar.

Três ou quatro frases de efeito em um comentário sobre Michel Houellebecq

Postado em June 18, 2007
Categoria: Literatura | 5 comentários

Se tem um escritor de cuja obra eu posso dizer com um mínimo de segurança que conheço é Michel Houellebecq. Isso não é um mérito. Foram lançados somente quatro livros seus no Brasil. Eu me orgulharia de dizer que li todo o Balzac, porque haveria esforço. Mas não é o caso.

Há um popular jornalista e professor universitário aqui de Porto Alegre, o Juremir Machado da Silva, que me induziu às primeiras leituras de Houellebecq. Contou-me que traduziu e publicou quase que às próprias custas Extensão do domínio da luta. Devia eu estar com uns 18 anos na época, não lembro. O fato é que eu era sugestionável mais do que sou. Hoje esse defeito ainda me resta, mas escolhi tão poucos e bons conselheiros, que não me importaria de dizer que li certos livros porque eles mandaram.

Dizia eu que, nessa fase, entrando na universidade, todos temos uma certa tendência a personagens deprimidos, apáticos e, no limite, destruídos física ou moralmente. Bem, foi assim comigo, pelo menos. Faziam-me crer que Houellebecq tinha um quê de Albert Camus (aparte: Diego, já que você vai fazer o seu doutorado em Meursault, talvez seja útil conhecer esse francês mais novo). Penso que o título em inglês, Whatever, para o que no Brasil foi lançado como Extensão… (tradução literal do título original, em francês), resume o espírito dos personagens de Houellebecq. Pois acreditei sem reservas nessa comparação. Atirei-me à leitura.

Fato é que a característica de um autor se solidifica conforme sua obra cresce. Isso não é bom nem mau. Simplesmente é. É por isso que temos mais razão em dizer de tal autor que ele é assim ou assado quanto mais prolífera tiver sido a sua produção e à medida que a conhecemos mais. No caso de Houellebecq, a sedimentação do seu estilo e dos temas de que trata está cada vez mais familiar para mim e não me tem agradado muito. Esse sentimento é intenso agora, ao fim de A possibilidade de uma ilha, que terminei há pouco.

O que Houellebecq escreve tem características marcantes. Se um escritor com tendência a polêmicas e ao choque não frear seu ímpeto – como é o caso de Houellebecq -, pode se tornar uma imitação enfadonha de si mesmo. Esta é a conseqüência de uma lei bem simples: quanto mais enfático é o que dizemos, tanto maior é o risco de nos tomarem por caricaturas. Viramos piada. Vejam o caso de um filósofo brasileiro tão virulento, mas tão virulento, e repetitivo, mas tão repetitivo, que só resta fazerem troça do que diz na escola primária. Porque já virou personagem de anedota há muito. É exatamente isso que me vem à mente quando se trata de Houellebecq: o francês aposta tudo no que lhe é mais literariamente próprio e o eleva à enésima potência. Às favas o leitor iniciado em sua obra.

Para não soar abstrato, preciso dizer para vocês o que é reincidente nos livros de Houellebecq. Há um desespero pela decadência do corpo e da sexualidade e uma exaltação da juventude e do vigor físico que são onipresentes. Passagens intercambiáveis. Abro ao acaso um dos quatro livros. Reconheceria a autoria, mas não saberia dizer de onde tirei os trechos:

De repente, bem na frente dele três adolescentes saíram das ondas. Dava-lhes no máximo 14 anos. Avistou as toalhas delas e estendeu a sua a alguns metros; não lhe deram a menor bola. Despiu rapidamente a camiseta, cobriu os flancos virou-se de lado e tirou o pau. Num conjunto perfeito, as ninfetas baixaram a parte de cima do maiô para bronzear os seios. Antes mesmo de ter tempo de tocar-se, Bruno descarregou-se violentamente sobre a camiseta. Soltou um gemido, caiu na areia. Estava acabado.

Comprar uma cama de solteiro significa confessar publicamente que não se tem vida sexual e que não se pretende ter uma no futuro próximo (…)

Pois bem: se não podemos dizer de Houellebecq que sua obra se resume à angústia de seus personagens – e, de fato, não podemos dizer isso -, podemos afirmar que seus protagonistas se restringem a isso: homens ao redor dos 40 anos sofrendo consciente e discursivamente a decadência de si mesmos, especialmente a decadência sexual. Rimos porque somos jovens. Mas deve ser duro perecer como um personagem de Houellebecq.

* * *

O que salva o escritor francês é que, como bem observou o Sérgio Rodrigues, além do humor provocativo, há nele uma ambição de dar conta de tudo o que existe. A sensação ao terminar A possibilidade… e Partículas elementares, mas que não me é tão presente em Extensão… e Plataforma, é de que Houellebec sofre imensamente a dor da humanidade inteira e pretende salvá-la. Ao contrário de  escritores menores (“menores” em pretensão, não em talento ou fama), Houellebecq não tem vergonha da seriedade do seu objetivo. A redenção não é constrangedora para ele. Isso é um mérito em minha opinião, uma vez que o escritor atual me parece cada vez mais medroso. Se assim é na literatura presente – um pequeno fragmento da realidade para um sarcasmo tão veemente quanto estéril -, é bom que Houellebecq escreva. Não será incomum se você ler A possibilidade… e tiver uma sensação absolutamente grandiosa sobre o homem, embora não saiba explicá-la. O livro parece ter sido feito para isso. E foi assim que me senti.

Uma singela homenagem aos livros

Postado em June 2, 2007
Categoria: Literatura | 10 comentários

Daquilo que o homem cria, literatura é o que realmente me interessa. Tenho as minhas lacunas – enormes – em outras artes, mas nada que me cause muito embaraço. Envergonho-me, sim, de ainda não ter exaurido toda a literatura universal.

Às vezes, chego a deplorar de que viverei pouco para ler tudo que existe. No entanto, a vontade de manusear o livro seguinte me é tão forte, que seria uma alternativa igualmente ruim saber que não há uma próxima obra a ser aberta. Talvez o que mantenha viva a paixão pela literatura seja exatamente a impossibilidade de vivê-la plenamente. Divago, mas a intensidade de uma paixão, qualquer que seja, parece ser inversamente proporcional à possibilidade de saciá-la. Enfim.

Mendiguei esse espaço para escrever sobre livros. E, sobretudo, para dizer o que eu acho dos livros que leio. Há uma grande diferença entre isto e aquilo. O fragmento do jornalismo especializado em fazer resenhas sobre literatura escreve de uma perspectiva extremamente impessoal, e, o que é pior, fazendo concessões a uma espécie de senso-comum literário. George Orwell escreveu mais ou menos sobre isso em Dentro da Baleia e outros ensaios. É como se os resenhistas tivessem o seu manual e o seguissem à risca.

O que ambiciono fazer aqui difere do que critico acima. Não me interessa relacionar a obra do autor ao seu tempo ou encaixá-lo em uma corrente. Isso pode ser interessante na academia, mas não em um blog, jornal ou revista. E, de qualquer foram, é o mais fácil de ser dito. Percebam: vocês gostaria de ler aqui que Max Brod recebeu algumas obras de Kafka para destruí-las e, ao contrário do que pediu o amigo, cuidou de publicá-las? Não, certo? Isso é coisa que vocês já sabem. Jornais e revistas parecem dizer sempre coisas que todo o mundo sabemos.

No fundo, o que me interessa ouvir de quem quer que seja é se chorou ao ler tal livro, se há alguma passagem especialmente brilhante e por que motivo, se achou o estilo do autor sentimental, ríspido, belo, se levaria o livro para uma ilha deserta, se presentearia o namorado ou a namorada com ele, se acha tal cânone o cúmulo da chatice literária (Cem anos de solidão, no meu caso) etc. É uma homenagem que prestamos à literatura dizer como ela nos toca a cada um de nós, individualmente, naquilo que temos de mais específico e no que diferimos das bilhões de outras pessoas que habitam o mundo. E é exatamente o tipo de coisa que pretendo fazer aqui. Uma singela homenagem.