A tal da ‘blitz cultural’

Postado em September 24, 2007
Categoria: Cotidiano | 7 comentários

Alguém aí sofreu os mesmos danos morais que eu? É assim: você, após um dia do martírio de ter de trabalhar, pega seu ônibus pensando que agora tudo acabou, que logo estará em casa e assistirá ao jogo. Mas eis que, nesse ônibus, há um sujeito que você evita olhar: veste um casaco batido, usa luvas meticulosamente rasgadas nos dedos e, pasmem, agora põe um nariz de palhaço. Deus do céu, o que será? Hum, um criativo assalto no ônibus. A perda de um real e pouco não seria má, posta a história que eu legaria.

Vejo-o saindo de onde estava, usava uma calça de marca. E não é que o rapaz já de meia-idade começa então a sutilmente gritar alto no ônibus como se falasse a um hipotético celular e, alguns minutos depois de muita ‘conversa’ com um suposto ‘diretor‘, anuncia que esta é a blitz cultural, trazendo alegria ao busão! E não é que ele passa toda a viagem gritando e fazendo piada com os passageiros? E não é que o rapaz se acha um artista! Por sorte, desci logo. Me segurei, mas desci no ponto certo. Quase parava numa dessas ruas escuras clamando que me assaltassem.

E se nosso digno palhaço fosse um assaltante fantasiado, eu pelo menos teria uma história para contar aos netos que não terei. Mas que graça haveria contar como foi, contar de uma personagem cujo nome é P.M.: “palhaço maluco”? E contar que a platéia foi participativa? Ah, coisa de quem assistiu muito à Xuxa.

A rosa doente (William Blake)

Postado em September 17, 2007
Categoria: Poemas, Poesia, Tradução, William Blake | Comente

Já postei aqui a primeira versão de minha tradução de “The sick rose”, um dos mais comentados poemas de Blake. Levei cerca de três meses, desde que redescobri o poema até o dia em que consertei o último detalhe. Naturalmente ocorreu de depois ora trocar uma solução, ora resgatá-la. Mas a versão final, esta, é a que tenho já há um tempinho.

Também já iniciei, quando sequer tinha terminado a primeira versão da “Rosa”, uma tradução dos “Provérbios do Inferno”, que em hora oportuna terminarei.

Na ocasião da primeira versão, houve uma boa discussão nos comentários do post, que sem duvida influenciou esta aqui. Não perca o bom debate e o original do poema .

A Rosa Doente

Ó Rosa, estás doente.
Numa noite terrível
Na uivante torrente,
Voa o verme invisível:

Encontrou o teu leito
De alegria menina:
Seu negro amor secreto
A vida te assassina.

(William Blake. Tradução de Diego Barreto Ivo)

Estética e moral

Postado em August 8, 2007
Categoria: Arte, Estética, Filosofia, Literatura, Política | 4 comentários

Sinto-me extremamente preguiçoso, por isso não me incumbirei uma resenha sobre os dois excelentes posts do Osrevni, vizinho aqui no Breviário. Alias, não farei nada senão tecer comentários despretensiosos e ébrios sobre as partes I e II do De como a estética explica o mundo (a terceira e, suponho, última ainda não foi publicada), ou do que me convir. Tanto faz, o que me agrada é refletir estética. E, se você ainda não os leu, recomendo que o faça logo, sem se dar direito a um bocejo; a macunaimice cabe exclusivamente a mim. Alerto que tome cuidado, contudo: se os textos são bem escritos, não é por isso que você se deixará facilmente ser convencido. Pois ele mesmo, ao trazer a questão de a estética possibilitar influência sobre os homens (indiscordável), convoca-nos: “Ou seja, mesmo que nos sintamos dominados pelo mundo exterior, temos algum papel em sua formação e, por conseguinte, em sua transformação. É algo a se pensar.” Não quero ficar citando, mas às vezes realmente torna-se necessário; antes citar que parafrasear, posta minha prolixidade: “[A estética] explica o mundo porque não dá explicações, não desenvolve paradigmas e dogmas, como a ciência e a tecnologia, para ordenar o que já é percebido”.

Tudo bem que a estética tenha sido usada para as mais diversas finalidades, desde didática, religião (é desta que parte Osrevni), panfletos políticos ou mesmo arte pela arte, que hoje é atacada em massa. Meus caros, não consigo não pensar em Literatura! E, aliás, é esta uma das poucas coisas de que posso falar sem tão grande inocência. Agora, tudo isso me lembra uma indagação feita pelo Sartre, que sem considerável perda pode ser entendida à Estética: “até quando a Literatura é inofensiva?” Na verdade, eu nunca me havia dedicado muito a essa questão, sobretudo a relação da estética que não é unicamente a alta arte com o mundo, que, achemos feio ou belo, deseja estética. Talvez você seja um dândi, ou talvez um desleixado incorrigível, mas o fato é que a estética está inevitavelmente presente em seu cotidiano.

Quando vou à casa de minha avó, por exemplo. Ao contrário de mim, que mofo o dia inteiro no sofá ou lendo um livro ou vendo televisão, ela é hiperativa e não desliga seu radinho de pilha por nada (sim, de pilha; a família já lhe deu um aparelho de som top, mas ela não troca seu ritual por nenhuma tecnologia). Da última vez em que lhe fiz uma visita, reparei como pode que todas as músicas falem de amor (talvez houvesse uma exceção inotável)! Diga-se que minha querida avó escutava a mesma estação que sintonizaria um brasileiro médio: MPB, rock dos anos 80 e 90; enfim, música pop (sim, ela é moderna); não era nada evangélico ou intencionalmente “cafona”.

E por que só se tocam músicas de amor (melhor, “românticas”)? Porque é um sentimento humano do qual todo mundo partilha e talvez o mais explorado em toda a arte que possamos chamar universal (que é a ocidental, claro), alguém afirmaria sem pestanejar. E trata-se de uma estética carregada de significado, como qualquer outra.

Seu valor artístico é sempre inquestionavelmente inexistente, mas o moral não. Minha prima, um outro exemplo, põe a mp3 do Chico Buarque e escuta, canta e com alguma sorte até verte lágrimas. Depois, chega até mim eufórica, reflexiva e sem motivo já brigando: “o Chico é poeta sim, viu! Sabe pesar cada palavra e entende a alma feminina.” Mas não entremos no gosto poético nem na nostalgia de Ditadura de cada um (já viram a ironia mordaz de “Cálice”?). Entre familiares, mesmo o feminismo é perdoável.

Há uma interessante distinção que se faz entre arte e moral: poder e dever, respectivamente. Logo, uma é o oposto da outra. Mas ao mesmo tempo não podem andar separadamente, porque o próprio ato de escrever, se problematizado, torna-se moral. Por que você escreve? Por que você produz música? Devo escrever, devo compor?

Não são raras as pessoas que consomem a estética que lhe agrada moralmente, e nem por isso são tão maus leitores. Essa afeição se deve sobretudo ao conteúdo abordado: um poema de amor, um quadro que traz um panfleto. As pessoas gostam de encontrar a si mesmas no que é estético, ainda que seja o seu lado mais sórdido. E costumam também, através da estética, se convencer do que ela mesma é. Mantendo-se as devidas proporções, tanto no entretenimento quanto na arte idéias são igual e esteticamente compradas (como não dizer que ambas têm uma poderosa força retórica?). Dizem que, no entanto, isso não mais acontece e que a modernidade culta já aceita as opiniões erradas. Imagine então o caso: um excelente escritor, hoje, lança uma obra-prima que carrega consigo um explícito panfleto misógino ou racista. Se alcançasse a mídia, logo causaria grande polêmica e não seriam poucos os que o acusariam com o dedo enristado e diriam que liberdade de expressão tem limite etc.

Agora, já podemos sem dúvida dizer que o questionamento do Sartre é puramente retórico e já traz em si a resposta: a Literatura é perigosamente ofensiva! Assim, naquele momento de guerras, convocavam-se os escritores e leitores a uma Literatura engajada. Pelo que se percebe do Osrevni, o engajamento (Céus, essa palavra é feia e deturpada) é também uma de suas propostas à estética — e, ao que me parece, uma revisão do engajamento de não poucos escritores do último século.

Sua justificativa é bonita e a mim estimulante, não posso negar: “De tal maneira que, quando compreendemos o quanto todos esses conceitos, que aplicamos ao mundo que nos cerca, se resumem em manifestações de nossa própria capacidade de abstração e representação, podemos estimar, igualmente, o quanto nosso contexto depende da postura que tomamos em relação a ele”. Todavia, não me consigo desvencilhar de meu caráter brasileiro, sou preguiçoso inclusive para a política. De certa forma, sou semelhante a minha avó e prima: o que buscamos é uma moral, apesar de a minha ser sobretudo a de que a arte deve ser arte, pouco importando o que se defende, questiona etc.

Diz Orwell que, em determinados momentos da História, os escritores são levados a virar as costas ao engajamento político, vivendo em uma espécie de niilismo. É engraçado como Adorno via com certa empolgação os esteticismos, porque, segundo ele, na verdade o silêncio político não demonstraria indiferença ou apatia, e sim uma crítica negativa em que o calar torna-se um verdadeiro brado. Ele não me parece em absoluto errado, mas, sobretudo em nossos dias, não se pode ignorar o estrangeirismo que se apossa do indivíduo e o faz apático. O que torna, portanto, inviável que haja muito interesse no extra-artístico, extra-estético. A não ser que se assuma a responsabilidade de uma realidade melhor; mas eu enquanto poeta prefiro apenas sofrer a política, como Camus aconselhara a nosso grande poeta Gerardo Mello Mourão.

O dia em que conheci a Manoela Afonso

Postado em July 27, 2007
Categoria: Coisas | 6 comentários

Ontem, enfim, conheci a Manu. Nos falamos pela Internet desde 2005, ela sabe algumas cositas de mim, eu dela; já podíamos dizer que éramos amigos, apesar de nunca nos termos visto. Também participei de um vídeo que ela fez e escrevemos aqui no Breviário.

Ela mora em Goiânia e passou uns dias aqui em S. Paulo (foi-se embora hoje pra Curitiba, sua terra natal). Combinamos em frente ao Banco do Brasil lá da Rua Augusta: cheguei, pensei em me encostar para continuar fumando meu cigarro, mas logo um sotaque sulista me chamou: “Diego!”. Olhei e ela vinha, estávamos os dois pontualmente ali, como que ingleses.

Fazia muito frio (quando peguei o ônibus de volta o termômetro marcava 9º) e ela vinha impecavelmente elegante. Pena não termos tirado foto! Tomamos um café com conhaque num daqueles lugares em que se deve enrolar o máximo possível com a única coisa que você comprou e depois fomos a um boteco onde comemos polenta frita e tomamos uma bebida e conversamos mais e mais.

Depois nos despedimos, que pena. Ela foi pra um lado, eu pro outro.  Mas já combinamos: da próxima vez em que ela vier beberemos como se deve beber.

Rimbaud na Paulista

Postado em July 15, 2007
Categoria: Poemas | 2 comentários

Através da Av. Paulista, esta via
Onírica onde carro moto dão-se murros,
Desregrando os sentidos minh’alma corria,
Como se ela emitisse o Amor: sequer sussurros.

Evangelho segundo o pastor

Postado em July 11, 2007
Categoria: Poesia | 3 comentários

Com a mãe aprendi a amar cada mulher;
Com o pai, meu ofício e a arte do cortejo.
A vida é opaca: li Rimbaud e Baudelaire.
Hoje cobiço o peso e a medida dum beijo.

Revista Malagueta no ar

Postado em July 10, 2007
Categoria: Coisas, Literatura | Um comentário

Saiu a nova edição da Revista Malagueta e, como disse a Renata Miloni, sua editora, o Breviário invadiu a revista. Há, deste que vos escreve, três poemas e umas linhas sobre dois textos estéticos de Charles Baudelaire, um conto e uma crônica do Paulo e uma resenha do Rafael. Também publicou lá alguns poemas um amigo e poeta, o Emmanuel Santiago, que não tem blog para eu linkar. Leiam a revista antes de mim.

Não encontro tempo para nada esses dias. Meu irmão veio de Salvador e só o que faço é ciceroneá-lo. Mas amanhã retomo as atividades cotidianas, enfiim.

Da afobação

Postado em June 27, 2007
Categoria: Uncategorized | 5 comentários

cbf.jpg Enquanto escrevo este post o jogo da seleção brasileira está prestes a começar. Agora, se não me engano, tocarão o hino. Gostaria de prestar meu apreço ao Brasil, neste post.

Tenho alguns amigos que escrevem, conheço muita gente que escreve. Há uns dias enviei um e-mail ao Ed pedindo-lhe que, se possível, me enviasse o seu romance do qual certa vez ele falara. Sua resposta ao e-mail me deixou com um misto de tristeza e esperança. Tristeza porque ele não me enviou sua obra que, salvo engano, foi escrita há uns três anos. A esperança reside em sua justificativa: antes de conceder sua leitura a outrem, prefere/precisa revisá-lo.

Hoje toda a gente quer publicar logo. Aos escritores que nasceram prontos, aos artistas mal compreendidos, a gaveta é um lugar enfadonho. Contudo, Nietzsche bem lhes entendia o gênio: “quanto mais alto um homem voa, menor ele se parece para aqueles que não sabem voar”. Sou um Rimbaud, senhores.

Por alguma sorte, todos os meus amigos que escrevem são pacientes, percebem que a nossa geração é a de escritores por vir. Hoje, recebi o e-mail de um amigo poeta que, respondendo a uma de minhas perguntas, disse também não ter pressa de publicar.

Mas eu tenho. HURRY UP PLEASE IT’S TIME. O jogo já começou.

Fascistagem

Postado em June 27, 2007
Categoria: Coisas | 3 comentários

Dias atrás, recebi três e-mails consecutivos sobre um tal de Somaiê, que, dizia-se, não é uma terapia “autoritária”, ao contrário, é “anarquista”, sem essa coisa de hierarquia. Curar-se-ão os pacientes pela liberdade, porque a sociedade injusta os reprime, suponho.

Como a senhorita havia enviado a mensagem para uma lista de e-mail acadêmica, respondi que marquei como SPAM — uma simples mentirinha para alertá-la. Ela não entendeu, tentei explicar o que é uma mensagem não solicitada, que o provedor poderia até excluir sua conta por isso.

Ela, indignada, reclamou que isso era fascistagem (“desde quanto a mensagem tem de ser solicitada?”) e questionou onde estava a “liberdade de expressão”. Ah, bem longe de MINHA caixa de mensagens, honey.

Meditação sobre o café

Postado em June 25, 2007
Categoria: Coisas | 3 comentários

CaféO café é uma de minhas paixões. Sirvam-mo bastante forte e levemente açucarado e, por favor, passado na hora. Não como fazem em Ouro Preto ou na Bahia, onde é ralo e com muito açúcar, feito pela manhã e tomado à noite: esse famoso e tedioso chafé. Quem é fumante sabe, ou deveria saber, que não há nada como um bom café tomado ao poente que se estende, pouco a pouco. Um café e uns tragos de um cigarro — mas não dos lights, que correspondem a um chafé em forma de tabaco — é amenizar o dia, e não que os dias andem maus para mim. Mas o café, sim, configura o dia.

Nada contra quem toma café e não fuma. Entretanto, não posso dizer nada semelhante àqueles que fumam e não bebem café (exceção apenas aos que sofrem de restrições médicas e agem assim exclusivamente por má sina — destes deve-se ter pena). Quanta decepção os tolos nos causam, amigos! Só é pior ainda quando não lêem poesia, bem sabeis.

Em dias de branco, quando o despertador alarma dissipando-me as horas de terno sono, saio da cama em direção à cozinha, ponho a água para ferver e, só depois disso, posso pensar no mínimo gesto. Aos finais de semana, o método é semelhante, entretanto tomo café com mais alegria. Sento-me na varanda, quando o sol ainda está brando, sirvo-me bem desse líquido negro como a noite — oh, e o pão é secundário: se a Bíblia realmente fosse sábia, diria “o café nosso de cada dia” — e leio, em movimento de tranqüilo despertar, o jornal ou um bom livro. Além do mais, se a Bíblia realmente estivesse certa, diria que Deus reservou ao consumo de café o poder criativo das trevas e que Deus só disse que “achava o dia bom” após a primeira xícara de café.

Sempre me pergunto como alguém pode tomar um café como se fosse um remédio amargo e necessário apenas para se permanecer de pé, como se fosse ele vulgar, um xarope pela mera sobrevivência imediata. Ah, comprem cápsulas de cafeína! Não, a ciência decerto já inventou drogas mais eficazes. O café não é apenas um dispositivo que aciona a atenção. O café limita-se com Manuel Bandeira: é descaradamente simples, é quando fingimos ser menos do quão grande somos (conferir Poema só para Jaime Ovalle). O café é o senhor da simplicidade que guarda segredos, ao passo que o álcool demonstra além do que somos: o álcool é quando estamos algo rimbauds, picassos etc.: é a musa de nossos pensamentos e alegrias mais ébrios. E James Joyce, parece-me óbvio, bebia muito irish coffee, bebida irlandesa que combina café com uísque.

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