Uma lembrança, de repente

Postado em January 20, 2008
Categoria: Arte, Literatura | 5 comentários

Quase três horas da manhã de um domingo que ainda era a persistência de um sábado morno e de arrumação da casa. Eu lia Reparação, de McEwan. A princípio, tentando algum motivo para dormir. Mas a leitura, no entanto, me mantinha atento às nuances do texto, eu de fato o estava lendo com a devida atenção. No romance, e eu estou em seus primeiros capítulos ainda, há a Briony, menina de treze anos cheia de pretensões literárias. Ela escrevera uma peça, e agora a dirigia. Veio-me à cabeça, de repente, o fato de um escritor, não sei qual, dizer que aos dez anos tinha escrito uma peça. Eu aos dez anos nunca tinha escrito nada, pensei.

Mas não é que minha memória involuntária me traz um fato muito curioso! Pois eu, aos dez anos, escrevi uma peça – mas isso estava absolutamente esquecido em algum lugar de minha memória. Foi para as aulas de religião. Lembro que o último capítulo do livro da matéria (na faculdade se diria disciplina ou cadeira) era sobre a campanha da fraternidade, e faríamos algo especial baseado nisso. Salvo engano, o tema era “perdão”. Certamente não lhes interessa, mas no caso de sim: consulte-se qual foi o tema da campanha da fraternidade de 1997.

Numa noite, após ter feito o dever de casa e já ter jogado bola (jogar bola era o que eu me lembrava de meus dez anos), sentei-me, peguei duas folhas de papel sulfite e comecei a escrever com uma Bic. Foi tudo razoavelmente fácil: pessoa que passava por dificuldades financeiras reencontra um antigo conhecido que está bem de vida porque virara ladrão; este o inicia no mundo do crime, mas na cena seguinte são presos. Passa alguns minutos na cadeia, e quando sai procura emprego – mas ninguém lhe concede oportunidades, porque ele tinha sido preso. E a peça acabava, feliz, quando alguém lhe tinha dado uma chance de recomeçar. Mas a única coisa que me lembro de dificuldade em escrever era o fato de escolher nomes: familiares, amigos, que nomes dar? Se eu usar este, vão pensar que estou me referindo à pessoa etc. Deve ser por isso que escolhi a poesia.

Naturalmente toda a peça é besta, não vem ao caso. Mas é que escrevendo sobre, há também a rememoração. É delicioso e instigante encontrar, em seu passado quando se detestava a literatura, algum elo com você agora, pretensiosamente homem das letras. Como se, por um elo frágil, você se reconhecesse mais em algum lugar distante. Uma surpresa.

Conhecimentos de tecnologia e a poesia

Postado em January 5, 2008
Categoria: Arte, Poesia, Reflexão | Comente

Não pouca gente diz que eu, enquanto poeta, saio na frente por ter bons conhecimentos de informática e web. E que eu deveria usar meus conhecimentos na poesia. Para a poesia, de certa forma, uso-os. Não especificamente em poesia, sim para os bons textos. Veja-se o Breviário, por exemplo. De certa forma ele foi possível por eu ter conhecimentos, digamos, “avançados” de tecnologia. Mas, oras, não há poesia que precise de tecnologia.

Podem os poetas escrever diretamente no computador (o que deve ser difícil, já que não se alcançam as possibilidades do papel), podem poetas entre si se comunicarem via e-mail, e até chat. Tudo isso pode ser uma facilidade ao aspirante de poeta, e mesmo ao poeta formado. Contudo, façam-me o favor, poesia nada tem a ver com tecnologia, à parte essa chula rima.

Desculpem se desprezo estes movimentos todos que se utilizam da tecnologia para pretensamente produzir arte. Pode até ser que, um dia, quem sabe? Mas qualquer coisa deste sentido nas próximas décadas está absolutamente fadada ao fracasso, posto que, em menos de cinco anos,  uma solução informática pode ser percebida claramente ultrapassada (tecnologicamente limitada).

Um instrumento musical é capaz de sons que nem o ouvido humano nem os formatos digitais são capaz de perceber/gravar. Uma câmera digital, para determinadas necessidades, é inviável: porque sua resolução de 10mb pixels inviabiliza que seja impressa a foto em determinado tamanho (tamanho gigantesco, claro) mantendo-se a qualidade.  As pinturas, pobres elas. Sofremos porque não podemos vê-las como merecem ser vistas –  no original, inclusive sem os limites de correntes e faixas amarelas de um museu, devem ser avaliadas de perto. Quem dirá na tela de um computador!, onde tudo é dividido em meros pixels. Meros mesmo, porque muitas vezes o formato em pixel não é suficiente aos próprios profissionais de web.

Conservador? Devo sê-lo, afinal prefiro um livro a um pdf; se gostasse tanto de música, um cd (se é que ele é suficiente) a uma mp3 de alta qualidade; uma tela original a uma reprodução em jpeg. O texto, no entanto, ainda pode ser reproduzido em qualquer meio, porque é o mais artificial, o mais “abstrato” dos meios. E o maior inconveniente deve ser mesmo a luz que um monitor emite.

A poesia, portanto, ainda que seja a mais fácil das artes de ser transportada, é a que menos aproveitaria os benefícios da tecnologia. Ou diga-se, então, como eu deveria utilizar meus conhecimentos de informática na poesia? O máximo, o máximo, pode ser a reflexão que este mundo em seu auge e tão limitado pode me proporcionar. E se eu tiver arte suficiente para fazer isso em verso. O que é outra história.

Avaliando o que perdera

Postado em January 1, 2008
Categoria: Coisas | 7 comentários

Chega o fim do ano e ficamos mais sentimentais. A maioria dos blogs que leio está em seu balanço de fim de ano. E eu, influenciando por meus blogueiros preferidos, mas também por esta época, não faço de outro modo. Avalio o que perdera, para citar um verso do Drummond. Foi um ano longo este de 2007, muito longo. Ano de mudança, ano difícil, ano de (re)conhecimento e ano de preparação de alguma coisa que de certa forma já está a caminho.A princípio, em Salvador, percebi mais claramente que coisas em nossa vida podem ser eternamente perdidas, só persistindo na memória. A mim a vida de certa forma foi sempre assim. Também por ter mudado muito de cidade; assim, nunca fui de manter muitos amigos ou coisas. Mas, quando retorno a um lugar, posso muito bem revisitar algumas situações. Em Salvador procurei vários antigos amigos, sem sucesso. Coisas ficam para trás e pronto. Lembro-me de um dia em que desci ao playground do prédio de meus avós e fiquei, então, fumando um cigarro; uma sensação estranha, já que nos tempos em que ficava ali jamais eu imaginaria que um dia eu fumaria. Também era o lugar onde eu ficava com os amigos, quando criança e adolescente.

A seguir, houve a ida a Belo Horizonte; visitei um amigo da faculdade. Após alguns dias ali, segui a Ouro Preto, onde eu já iniciei o curso de Letras. Lá foi o primeiro lugar, ao que me lembro, de onde guardo amigos até hoje. Confirmou-se que, mesmo com o tempo, continuamos amigos; ainda que distantes, ainda que esse pessoal todo vá se separar, retornando cada um a sua terra natal. O nosso parece que se perderia mais pelo espaço, não tanto pelo tempo.

E, completando o percurso, cheguei a São Paulo. Voltaram as aulas, reencontraram-se os poucos e bons amigos que se fazem numa cidade como esta. Lembro-me, no curso das semanas, minha patética descoberta de Meursault – mas essencial para minha formação; a descoberta de uma espécie de anarquismo só do próprio ego, uma viagem pelo estrangeirismo. Acho que foi minha queda, efetivamente conhecia o mundo. E, mais tarde, por ainda ser volúvel, veio um radicalismo às avessas, um deslumbramento do conservadorismo, uma tentativa (falha) de se tornar católico de verdade etc. E, quando isso tudo passa, os dois lados, o espírito se acalma e pode-se especular melhor o que somos.

É claro que isso não foi tão simples, tendo durado boa parte do ano. Esses mergulhos deram reviravoltas em minha vida; chegou a hora em que quis largar a faculdade de Letras, como se partisse de uma decisão verdadeiramente racional (mas faltara eu me considerar a mim mesmo), que vinha acompanhada de uma decepção de mim enquanto poeta. Quis trocar de lado, pensar numa vida financeira, como se abandonasse a ilusão adolescente e inócua de ser poeta. Este processo também é longo, afinal veio da descoberta de que não se poderia levar a poesia esperando o instante em que seu gênio, como um Rimbaud, deslancharia.

Tendo decidido fazer Direito, iniciei o cursinho. Mal no segundo mês eu já o tinha largado. Só assim, levando uma patada, pude reconhecer meus próprios limites. Enquanto ia-me desviando do cursinho, voltava a tentar trabalhar via web: iniciei uns projetos, tentando de alguma forma estabelecer-me. Por alguma sorte, consegui um emprego de verdade. Trabalho com webdesign.

Mas as dúvidas quanto ao futuro não pararam. Foram dois meses difíceis, de certa angústia, de trabalho e projetos pessoais, de certo desespero. O trabalho me cansava, afinal pegam-se ônibus e trem, à parte o trabalho em si. A minha sorte foi, como já postei, ter ido a Itajubá e ter refletido melhor o que eu já especulava para o próximo ano. Assim, larguei mão de todos os projetos pessoais, que mal davam retorno e cansavam muito. Decidi, enfim, voltar à faculdade de Letras, afinal tenho de reconhecer que ainda tenho o que aprender. Volto, acredito, mais maduro, com mais experiência; também já não dependendo de luxos familiares; ganho eu mesmo meu dinheiro e gosto do que faço. Volto sabendo o que quero, o que me é importante. E a Literatura é uma das coisas mais importantes. Quero estudar muito, dedicar-me profundamente a ela. Lê-la. Entendê-la.

Querer ser poeta. Durante algum tempo, havia o querer ser poeta. O achar-se gênio quase pronto. Mas, nesse tempo, descobri que o que há é, realmente, a necessidade de escrever, o contato com as palavras, este mundo ao qual adentramos querendo entendê-lo, descobrindo que o buraco é cada vez mais embaixo. (Perdoem-me por eu estar meio clichê. Eu bem disse que ficamos sentimentais.) O poeta ainda está por vir, se vir.

E, humildemente, devo reconhecer que eu tinha iniciado a faculdade de Letras para ser poeta. Na dificuldade deste, larguei aquela. Acho que eu tive medo de não ser poeta, eu que já me achava tão poeta. Há e sempre haverá a insegurança de não sê-lo, mas é um risco que, para mim, agora vale a pena. Mais uma frase tola: eu estou fazendo o que gosto, é de mim fazer isso, vale a pena arriscar; antes assim do que seguir por um caminho mais falso, artificial, carregando a perda de um dia eu poder ter sido o que queria . Também não conseguiria ser diferente.

Espero que, de agora em diante, já tendo dado as caras e pedido desculpas pelo sumiço com estes textos sinceros, eu retome bem o Perambulagens e também algumas coisas que deixei no caminho e que não me deixaram.

*

Um bom ano novo para vocês. Muita literatura, muito uísque. Bons amigos, bons amores.

Arrumações

Postado em December 28, 2007
Categoria: Coisas | 6 comentários

Neste fim de ano me dei dois presentes: um notebook, que foi possível comprar graças ao meu novo emprego; e a minha entrega às coisas que realmente me satisfazem, o que inicialmente tenho conseguido graças, em partes, ao meu emprego e ao notebook (já que estou me organizando desde cedo, o que também será difícil de se manter, reconheço); a outra parte é o expurgamento do que me estava cansando. Porque, antes de começar o trabalho, eu estava atirando a todos os lados, em busca de uma manutenção financeira, que era e é não só importante quanto necessária. E, chegando ao trabalho, mantive todos os projetos e até criei outros. Pudera! eu estava inseguro e desconfiado quanto ao futuro. Passei tempos de medo, de nervosismo, de stress etc. De verdade.

Hoje, já que só ontem retornei da viagem a Itajubá, tenho me desfeito comigo mesmo de compromissos de diversas ordens, e que poucos de vocês sabiam. Desde um blog em que eu falava de tecnologia até um site para pára-quedistas que clicavam em meu AdSense. O problema disso tudo é que eu não estava tendo tempo para ler e escrever das coisas que mais importam para mim – ainda que tirasse o rendimento do uísque: o dinheiro recebido era gasto no alívio. Eu ficava preso nessas coisas chatas, sem poder de recusá-las.

Tem sido agora uma rotina de lavar a alma: estou me despedindo de alguns sites, cancelando contas, enviando alguns e-mails e excluindo a assinatura de dezenas ou centenas de feeds no Google Reader. Mantenho, agora, apenas os que realmente me interessam. Nas próximas horas, pretendo deixar limpinha minha caixa de entrada do Gmail. Depois, responder às pessoas com quem eu estou em falta. Não são poucas, não. Mas se acalmem, que eu chego lá.

E também tenho escrito e planejado textos para o Perambulagens, que terá toda minha atenção possível até que eu volte à faculdade de Letras, o que me parece, por ora, decidido.

Ah! este é apenas um post para eu demonstrar minha tranqüilidade e esperança e registrar para mim mesmo que sinto ter voltado ao que me satisfaz. E para comunicar aos meus amigos que voltem a contar comigo para discutir de nossas coisas.

Uma coisa sobre o natal

Postado em December 26, 2007
Categoria: Coisas | 7 comentários

Olá a todos. Estou em Itajubá, Sul de Minas, nuns dias de férias do trabalho e de S. Paulo, recuperando-me para que no dia 2 eu já esteja preparado para mais uns meses árduos, agora de trabalhador e estudante. Fazia muito tempo que eu não postava, e desde que estava aqui, entre as montanhas, vinha pensando em uns posts e em literatura. Mas como aqui há computador apenas na lanhouse, tudo será adiado. E mesmo que hoje cedo eu já tenha postado apressadamente, gostaria de responder a este post do Ed, e não necessariamente no sentido de retrucar. É que ele lembrou uma coisa que eu queria dizer.

A maior reclamação das pessoas quanto ao natal é que há muita hipocrisia ao se desejar felicidade e celebrar em conjunto com muitas pessoas às quais, na verdade, não se dá a mínima. Mas esta é a melhor parte do natal, a de simular, colocar-se num contexto ao qual você não está acostumado. É bom porque, se por um lado fazemos votos insinceros, por outro também reconhecemos algumas afinidades entre parentes. Há aqueles parentes que você sempre amará e alguns que são muito agradáveis de se passar junto nessas datas, e ao mesmo tempo há uns absolutamente desprezíveis nesta ocasião — ainda que outras vezes eles sejam amáveis.

O sonho de ser artista

Postado em December 26, 2007
Categoria: Coisas | 4 comentários

Muitos o deixam logo, outros o levam consigo durante bom tempo e alguns raros o realizam. É fato que quase todos nós passamos por uma época em que temos o sonho de ser um artista; no caso, falarei de escritores e poetas. Chegando à faculdade de Letras, esta que eu já iniciei em duas universidades, é o sonho de ser escritor o panorama mais geral dos que lá gostam de literatura (e creiam que há muita gente que a despreza). Esses todos desejam e até se esforçam por seu sonho. Entretanto, logo vêm as desilusões e descobertas de como é difícil sê-lo. Desistem, portanto. E não sei se muitos continuam lá por que realmente gostam do curso e da profissão que vão seguir, ou se é por comodidade, já que muitos, que ingressam na faculdade pura e simplesmente para serem poetas, agora temem perda maior de tempo. Não sei quando o sonho morre, não sei o que então sucede às pessoas.

Só no terceiro ano me veio a possibilidade de ser poeta, e logo em seguida achei razoável a idéia de ser professor, afinal lecionar não haveria de ser tão ruim assim. Passei no vestibular e fui estudar Letras na UFOP e, no ano seguinte, morava em São Paulo e estudava na USP.

No princípio somos aquela enorme pretensão, nos elevamos à condição de algum gênio pronto para desabrochar como algum Rimbaud e conquistar o mundo das letras. Mas isso não vem, não vivemos mais tempos de gênios, não há nada. Fora do meio acadêmico, principalmente no familiar, promessas de que se pode usar sua inteligência para ser alguém na vida. E ao mesmo tempo amamos a Literatura e dedicamos a ela nossas melhores horas de amor, havendo sacrifícios de diversas ordens. Em seu nome, encaramos, com algum medo e um desejo de certa forma quixotesco, uma espécie de roleta russa em que está em jogo o realizar-se enquanto poeta e viver em condições modestas ou simplesmente este último caso, já que o fracasso é sempre muito iminente. Mas na hora do disparo muitos desistem, entregam-se ao mundo, que é mais forte do que qualquer um de nós.

Também com o tempo vamos ficando mais desiludidos de nós e do mundo, até nos tornando mais debochados. Desconfiados de que algo valha alguma pena. E não sabemos se se encontra consolo disso nas letras, ou se é o contrário (isto é, se as letras são nossa investida contra o mundo), ou uma mistura, uma contradição, que é o que deve ser. Afinal, por que escrevemos? Temos de pensar por que se faz arte, por que esse sonho de ser artista, o quanto nos entregamos a isso e o quanto realmente vale para nós; se é a única satisfação que teremos ou se é apenas uma mania que aprendemos quando adolescentes. Até quando é mero sonho de ser artista e quando se deixa de sê-lo?

Dia da coincidência negra

Postado em November 20, 2007
Categoria: Cotidiano | 5 comentários

Logo hoje, neste dia tão marcante e fundamental, feriado em São Paulo, saudoso dia da coincidência negra, para mim não há nada de coincidente à parte o fato de a terça-feira ser o mesmíssimo dia laborioso e cotidiano, mas eu não trabalhar. Tudo igual, imutável, ainda que eu tenha levantado tarde. Agora vou sair de casa e tomar cerveja, para não ver o domingo passar. O dia de mais alguém terrivelmente se coincide com o meu?

De quando o lugar se torna seu

Postado em October 23, 2007
Categoria: Coisas | 10 comentários

Da minha janela, São Paulo cinzaEm São Paulo o clima tem oscilado entre o calor sudoríparo e um frio chuvoso e agradável. Dizem que não há mais garoa em São Paulo, mas deve se parecer com estes dias. Apesar de nunca ter me importado muito com o frio (tenho boa resistência a temperaturas), eu gostava mesmo é do verão. Não pelo carnaval, mas pela tranqüilidade de não precisar levantar da cama para calçar uma meia.

Nascido em Salvador, passei mais de dez invernos em Minas sempre esperando a hora de ou ir a Salvador de férias ou passar um verão nostálgico pela ausência da praia. Pensei que sempre seria assim, no entanto ultimamente tenho me encantado com os prazeres dessa ventania amena. Acho que estou amando São Paulo.

O primeiro meme deste blogueiro

Postado em October 12, 2007
Categoria: Blogosfera | 9 comentários

O Ed hoje me avisou que eu fui convidado por ele a participar de um meme. Nunca participei de um, e estou com uma sensação de coisa engraçada. Mas vamos lá, força. Eu tinha de pegar um livro, o que estivesse mais próximo, não importasse qual. O computador aqui em casa fica na sala. Dirigi-me, então, ao meu quarto pensando que o primeiro a aparecer seria um, mas lá estava, sobre minha escrivaninha em meio aos papéis, os Collected longer poems, de W.H. Auden. Abri na página 161, como recomendado, e procurei pela quinta frase completa. Transcrevo-a:

The third was the Kingdom of Infinite Number:
Last night it was Rule-of-Thumb, to-night it is To-a-T ;
Instead of Quite-a-lot, there is Exactly-so-many;
Instead of Only-a-few, there is Just-these;
Instead of saying, ‘You must wait until I have counted,’
We say, ‘Here you are. You will find this answer correct;’
Instead of a nodding acquaintance with a few integrers,
The Transcendentals are our personal friends.

Estes versos são do poema “The Temptation of St. Joseph” e minha edição é a da Faber&Faber, de 1968.

E, para continuar esste meme, vem a difícil escolha: quem serão os cinco indicados? (Alguns minutos depois…) Ei-los:

1) O xará Osrevni, que mantém os blogs Cálculo Renal, aqui no Breviário, e o Para ler sem olhar;
2) a Manoela Afonso, que mantém os blogs Cumulus nimbus, também aqui no Breviário, e o Diário de bordo;
3) a Myriam, que deve estar achando que eu morri;
4) a Renata Miloni, porque eu acho que ela morreu;
5) e o Eduardo Carvalho, que recentemente linkou para o Perambulagens e mantém um blog muito bom.

Os princípios, segundo transcrevo do blog do Ed, são os seguintes:
1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure);
2ª) Abra-o na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.

Anotação sobre a blogosfera

Postado em October 9, 2007
Categoria: Blogosfera, Coisas | 3 comentários

O Cleber dias atrás fez um post reclamando da blogosfera brasileira, e com toda razão: “Super Trunfo de… blogs, memes, garrafas de vodkas com logotipos de… blogs, memes, discussões e chats entre… blogueiros sobre os temas candentes entre os… blogueiros, mais memes, campanha (ou que quer que seja aquilo) para estampar na capa da Playboy… blogueiras, mais um meme sobre as capas da revista, e por aí vai.” Nos comentários, o Osrevni chamou a atenção para uma coisa que é óbvia, embora todo mundo insista em dizer o contrário. É claro que o “mundo virtual” é uma mera extensão de nossas próprias vidas, do “mundo real” (expressões caras estas). Na Internet, mudam-se os hábitos (porque a pessoa, oh, acostumou-se a entrar no Orkut) mas mantêm-se as idéias, as pessoas.

Há uns quatro anos, quando criei meu primeiro blog, junto com um amigo, muitos se espantavam de nós termos um, afinal blog não passava do que hoje se chama bloguxo. De um ano para cá, o número de blogs também cresceu verginosamente. Considero que isso se deve principalmente ao AdSense; viva, agora todo mundo pensa que vai ganhar dinheiro com seu blog! E talvez até ganhem, mas não todos.

Veja-se o ranking do Blogblogs, que julgo fazer um retrato fiel do que é a nossa blogosfera. A maioria dos blogs é sobre informática e tecnologia ou sobre ge-ne-ra-li-da-des, isto é, modinhas, coisas que fazem sucesso no que o Cleber chamou “auto-referencial” e pegam pára-quedistas do Google — estes, os que mais clicam nos anúncios do AdSense. E, pois, se esses blogueiros acham que podem ganhar dinheiro, investem seu conteúdo no Google. Não são mais pessoas que lêem seus blogs, sim o robô desse mecanismo de busca. Para os que não sabem, o robô do Google é um programa de computador que lê o texto e tenta organizar os resultados mais relevantes. Logo…

É certo que a blogosfera brasileira ainda não criou seu próprio modelo. E o pior é que, há uns dois anos, já esteve muito mais perto disso: as pessoas pensavam menos em AdSense, tinham menos influência do que “deu certo” e tudo era mais romântico — você tinha um blog simplesmente porque gostava de escrever. Nada contra ganhar dinheiro, mas o texto não poderia ser prejudicado por isso. Um parêntese. À medida em que se aumentaram os números da blogosfera, naturalmente surgiram blogueiros que têm bom conteúdo; então, isto não se estenda a torto e a direito, mas apenas a cerca de 90% dos blogs.

Voltando ao assunto, a questão é que os blogs brasileiros só sabem importar os modelos que deram certo lá fora, e pior ainda é que só escolhem um único modelo, o supracitado, o do pára-quedista. Por isso, esses 90% de nossa blogosfera são o seguinte: blogs que ensinam seus leitores a ganhar dinheiro e blogueiros que aplicam essa tática e também tentam ensinar embora nem eles mesmo ainda tenham obtido um bom resultado. Muitos especialistas além-pontobr recomendam, entretanto, que para ganhar dinheiro deve-se fazer um blog que atenda a determinado nicho. Mal temos isto no Brasil, e nem sei se é melhor ou pior.

Não obstante a falta de criatividade de nossos blogueiros, é óbvio que atingir esse nicho é tarefa difícil. Também porque os leitores ainda estão acostumados aos blogs pessoais que não pensam muito em ganhar o trocado da cerveja. Deixem-se os pessoais de lado, pois quem os visita decerto é amigo, ou geralmente não tem muito que fazer — apesar de algumas vezes o texto ser bom . Fora os metaprobloggers, há os blogs de informática e tecnologia, mas não passam de espectro de Slashdot. Blogs tecnológicos, no Brasil, servem apenas para quem não sabe ler em inglês. Tudo o que se fala está escrito na língua oficial do mundo, com muito mais qualidade, além de sempre acontecer antes. Aí, os nossos blogueiros copiam a notícia, ou a traduzem, preferencialmente com keywords que agradem ao Google. Eu até entendo que esses blogs devam existir, mas o problema é que, dentre os principais, são a esmagadora maioria. E o que se esperar de blogs tecnológicos em um país onde a tecnologia é importada? É teoricamente impossível que a primeira notícia de alguma coisa saia de um blog brasileiro.

É, sim, compreensível que aqui seja impossível que algum blogueiro traga a última da Apple ou imagens em primeira mão do próximo Windows. Mas não é compreensível que blogueiros jornalistas também não tragam novas notícias e apenas colem do que saiu na Folha ou do Estadão, posto que estão felicíssimos com nossa blogosfera já madura, autônoma e polêmica. Polêmica, de fato, porque a única coisa que souberam fazer foi bater pé quando o Estadão ironizou em uma propaganda um macaco que era blogueiro. Muita gente se sentiu ofendida, mas infelizmente são poucos os que passaram pelo processo de seleção natural do blog, pois de fato ainda passam o dia postando macaquices.

 

Um outro argumento, e, aliás, talvez o pior, é que o de que pelo menos as pessoas têm lido mais com a Internet e os blogs. Gente, o importante é ler, assim o brasileiro terá uma melhor educação e saberá discernir politicamente. Agora, vemos que chegamos mais ao nosso nicho, blogs que falam de livros, literatura, filosofia etc. As pessoas sentem-se felizes porque o blog tem ensinado o guri a ler e acham melhor do que há dez, trinta anos, porque é melhor ser educado pelo texto do que pela TV (vi um “escritor” falando isso).

Não, meu caro, por aqui se aprende pouca coisa, no máximo a gostar de literatura contemporânea, da qual só a gente chata não gosta, não gosta porque é careta e só sabe ler os clássicos. Além do mais, esses escritores gostam tanto da letra, mas tanto, que fazendo em letra o que quer que seja, ah, nem importa o que se faz dela. É letra, esse ícone!

*

Menti: o melhor argumento é o de que se vive uma democracia da informação.

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