Zii e Zie, mas também sobre o Cê

Postado em April 22, 2009
Categoria: Caetano Veloso, Zii e Zie | 9 comentários

Zii e Zie, o novo disco do Caetano Veloso com a Banda Cê, parece ser uma despedida inevitável do cantor e a banda formada por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Mas não que isso seja ruim; pelo contrário: é uma das grandes qualidades do disco à primeira ouvida, ainda mais se considerando a obra de Caetano como um todo.  Eis a minha primeira impressão ao sentar para ouvi-lo. Não imaginava que ele desse uma continuação ao seu projeto anterior do Cê, a não ser quando vi seu blog. É um disco de separação. Dele e da banda, certamente. Uma separação do que é São Paulo e do que é Rio de Janeiro. Separação, talvez, do Caetano e alguns temas que o perseguiram direta ou indiretamente desde o Circuladô. Desde Circuladô até o Cê, Caetano Veloso fez balanço de sua vida, sua música, seus temas. Zii e Zie, agora, quer um descolamento do disco anterior e também avalia todo esse processo. Também tem bastante de Lobão, principalmente o de Canções dentro da noite escura, se é que meus ouvidos não são tão ruins assim.

O Cê é um dos discos mais surpreendentes de Caetano (até a crítica o elogia bastante), porque naquela altura de sua carreira a última coisa que se esperava era ele fazendo rock. Também é um disco melancólico. Há um homem que se vê velho mas não quer sê-lo, é um Caetano bem diferente dos outros que  ele já foi. Disfarça-se na carapuça do rock, no exagero de gritos e metais. Consciente, ele se insere nessa música vendo-se velho e tendo visto o rock nascer e crescer. Precisa expressar que é e não é um velho. No Cê houve um encontro perfeito entre um homem velho e uma banda de rock formada por gente de “uns 25 anos”. Pois com sua experiência (tanto artística quanto na vida) ele pôde levar a uma radicalização muito interessante a linguagem do rock contemporâneo e a do próprio Caetano.

Cê, que é um disco roxo tanto em sua capa quanto na sua forma, não renova a linguagem desse rock anos 00 mas sim revela o quanto ele tem de cafona e outras coisas que tem. E se não tanto cafona, pelo menos explicita o quanto é estranho um mano Caetano, sexagenário, fazer um disco que é de rock. Ele não esconde isso. São também diálogos inevitáveis para mim os com Los Hermanos (que eu apenas intuo, mas não identifico referências diretas) e com o que se fez daqueles que já foram rock stars, como um Mick Jagger da vida. Não me refiro a uma personalidade especificamente, mas o que se tornaram esses rock stars depois que o “rock errou” e o seu tempo já ficou marcado na história. Eles, jovens e inovadores na época áurea, envelheceram. Caetano também envelheceu. Mas para demonstrar que musicalmente não envelheceu, e se manter coerente sendo Caetano, é que talvez esse disco lhe sirva bem.

As duas músicas que eu mais gosto no Cê são Rocks e Eu não me arrependo.  A primeira é a mais emblemática e que melhor representa o disco (esta palavra ainda entra em desuso, melhor seria “álbum”).  Trata-se de uma situação totalmente brega: uma mulher que tatuou um Ganesha na coxa e saiu por aí exigindo “rocks” e um cara que é apaixonado por ela, que passa a música cantando sua dor de cotovelo, reclamando que ela foi “rata comigo demais” (na verdade, sempre que eu escuto acho que a “mulher que tatuou o Ganesha na coxa” é descrição do próprio “cara” que canta com sinceridade a dor de cotovelo dele –  e em Caetano essa leitura é plausível). Caetano canta de uma forma que finge soar séria, mas é pastiche; a banda o acompanha bem num rock caricatural. Caricatural como é todo o disco, aliás. Mas nada que soe inocente, como já disse: é um disco da maturidade de Caetano Veloso. Já Eu não me arrependo é o contrario disso, uma singela balada. A única canção do Cê que se possa dizer “limpa” e que de alguma forma se pretenda mais séria e funcione longe do contexto do álbum. É a história dele com Paula Lavigne, com uma indeterminação do que há de particular, assim como em Itapuã (Circulado, 1991), que por sua vez fazia referências a Dedé, sua primeira esposa. E se não são duas músicas que falam de ex-mulheres, puts, estou muito enganado então.

Enquanto o Cê é rock ao extremo, e com todas as suas peculiaridades, Zii e Zie faz a mesma banda tocar uma mistura de samba com rock que não é “sambarock”.  Diz Caetano que é um disco feito no Rio mas pensando em São Paulo. Ele queria ter lançado o disco em Sampa mas será no Rio o primeiro show. “Zii e Zie”, que é italiano, significa em português “tio e tia”. Acho um nome feio pra caramba, mas é uma maneira engraçada de fazer sua referência inusitada a São Paulo. Ele já falou em entrevista recente que gosta desse jeito brega/deselegante de São Paulo (sobretudo aquela ponte espraiada, árvore de natal de novo rico) e já cantou a “deselegância discreta de suas meninas”. Em Zii e Zie acalma-se a rebeldia que havia no disco anterior. Quer dizer, as letras no geral são mais leves, mesmo quando se trata de problemas sociais: ou o do menino que entra para o tráfico (“Perdeu”) ou o da menina do Leblon que usa drogas ( “Falso Leblon”). Mesmo sua resposta à música Para o mano Caetano, que Lobão gravou em 2001, não traz propriamente uma resposta mas “aproveita a oportunidade” para exaltar o velho lobo. A música  Lobão tem razão emula as imagens exageradas, pretensiosas, confusas e às vezes belas do velho lobo e não revida nenhuma crítica que o mano Caetano recebeu. Mas isso retoricamente, claro, deixa o outro com a responsabilidade de ter razão. Assim, Caetano canta: “Lobão tem razão”. Ironia sim, mas não agressiva. É como se com o Zii e Zie Caetano Veloso dissesse que, apesar de motivos para o contrário, ele está dócil. Enfim, Zii e Zie é um disco dócil num ambiente que não o pede.

Mas Caetano eu nunca escuto em uma sentada só. Gosto de escutá-lo exaustivamente mas sem muita atenção, quando estou trabalhando. E daí ir identificando coisas que me chamam a atenção. Num processo que às vezes dura meses para eu parar e  sentar para escutar de verdade o disco (com meu ouvido pouco musical, diga-se). Aí sim eu conheço um pouco melhor o disco. Este post é também para eu de alguma forma registrar a minha apreciação ligeira de um disco novo do Caetano. E como faria disso um post, o que eu inclusive já havia tentado com outros discos. Mas esse quis sair, e nunca é bom recalcar um comentário sobre o Caetano. Devia ter dito isso no começo, mas não que faça diferença. Por isso está tudo embaralhado, disperso e sem um fio condutor que se possa exigir de alguém que saiba falar de música – pessoa essa que não sou, mas realmente não importa.

Aprovada lei antifumo em São Paulo

Postado em April 8, 2009
Categoria: Política, Reflexão | 5 comentários

Ontem foi aprovada a lei que proíbe o fumo em ambientes fechados, como bares e restaurantes. Agora aos fumantes resta fumar em sua própria casa (e na de amigos fumantes) ou na rua. Ok, há ainda a brecha da lei que pelo menos permite o fumo em tabacarias – e pelo visto até o Bar do Seu Vital vai se tornar uma, em mais ou menos tempo.

A Daia me lembrou um artigo do João Pereira Coutinho que comenta muito bem esse anti-tabagismo. Reproduzo na íntegra o texto:

Lauren Bacall, por favor

Conheço pessoas que não fumam. E conheço pessoas que não fumam e não querem que os outros fumem. As primeiras são infelizes. As segundas são miseráveis. Miseráveis mas realizadas: no mundo moderno, não fumar é marca de saúde física, mental –e, atenção, gente, moral também. Basta ver as medidas sanitárias que a Europa pretende aplicar. A curto prazo, os pacotes de cigarros dos europeus terão imagens-choque para afastar fumantes ativos ou passivos, presentes ou futuros. Como no Brasil. Mas pior, muito pior que o Brasil: corpos mutilados pelo câncer, cadáveres putrefatos. E, claro, a imagem triste de um pênis triste, precocemente arruinado. A idéia não é prevenir. Os fanáticos querem mais: querem humilhar o fumante, enfiar o fumante numa jaula de circo e dizer: “Olhem só como é decadente! Olhem só como é impotente!” Hitler não faria melhor.

Exagero? Longe disso. Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em The Nazi War on Cancer (Princeton University Press, 379 pp.). A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo.

Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco –tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.

Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da ‘mulher com barba’, fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.

Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil –e até contraproducente. Conheço gente que não fumava — e começou só por rebeldia. O velho spleen de que falava Baudelaire. Existe nos seres humanos um mecanismo de destruição que é preciso compreender, aceitar e tolerar. Se o mundo fosse feito de anjos, etc e tal.

Fumar faz mal. Mas também faz bem: as pessoas que fumam são mais tolerantes, mais calmas, mais interessantes. E invulgarmente mais pecaminosas. Uma mulher é uma mulher. Uma mulher que fuma é uma mulher que arrasa. Por isso proponho: todos os pacotes de cigarros deviam ter duas imagens. De um lado, o pênis caído. Do outro, Lauren Bacall chupando um Marlboro clássico. De um lado, pulmões enfiados em sujeira. Do outro, o rosto de Bacall enfiado em fumaça.

Fonte: Folha de São Paulo

Três novos poemas

Postado em February 19, 2009
Categoria: Poemas | 18 comentários

Após muito tempo perambulando em outras áreas e outros bares, o bom filho à casa torna. Antes para marcar seu território e não deixar que um blogueiro sem blog invada esta pequena propriedade. Os poemas abaixo, escritos entre outubro de 2008 e fevereiro de 2009, na verdade não são coisas que se publiquem; mas como aqui se equivale a uma mesa de bar, leiam os amigos que ainda não o fizeram. Seguem em ordem cronológica para que se possa, mesmo que pouco, observar o mínimo do caminho que os poemas têm trilhado. Quanto ao blog, está que nem uma casa abandonada, eu sei: vou ter que cortar o mato, pregar uns parafusos, passar uma mão de tinta e me esforçar para meu lado underground não continue a preferir os casebres abandonados.

(Perícope)

Como um fotógrafo,
Contornar-te-ei,

Coisa amorfa num
Espaço em transe.

Não resistes à palavra,
Exista esse tenso limite

— Sem que te vejas parar.
Minha poesia é um corpo

Oco: sem que o sintas
………………………………..ei-lo a ti
……………………………………………….(és feito um peito)

***

O pulo do gato é o movimento muscular
da ascese, abrir a boca quem tem fome de viver:
como um tigre, num lapso, lançar-se sobre a presa.

Riscar-se o vidro da vida em silêncio tátil, assim é
o pulo do gato (nele cabiam meus olhos, cabia meu ser):
momento em que, do ápice, se avistarão os estilhaços.

O pulo do gato são palavras
Recolhidas em papel, sem poder:
Conceito em natureza morta.

***

Pouco

Gota a gota,
a gotas
A agonizar-me de não ter vindo o jorro

que eu já fui
Sou
aos poucos

Vi-
me no escuro
E outros ângulos

Pude
apavorar-me com novos cacos de velhas asceses
Ou não poder

nada
À espera
da medida

que em segredo
arranquei de vocês
, fraco

fiz
poemas
vãos para livrar-me de mim e de nós

vendo
seus espectros
se descolorirem na bola cega do sol


Pouco
engendrei-

me
aonde
não doía

ter caído
Pouco pouco pouco.
A abraçá-los para que não vissem comigo.

Vinham os dias
Um sonho repentino
fazia-se

chance
Brilhava
esperança

Um sonho repetido
fazia-se
ranço

Esmaeci-me
no relicário
de meus clichês

Vivi a miséria
que não vira
em poesia

Feito zumbi
que viera dum livro
de Camus

sem crime
O que não assusta
A greve

de si ao menos
não agrava
uma garantida dor

Mas
nunca os vi
zumbis

Nem a cidade de São Paulo
:
transeunte zumbi

na imensa
Av. Paulista
Descobri-la

foi transgredir
as montanhas de Minas
Mas, Sampa,

não vira sua
saudade de nunca
ter se visto

Passo em falso é não
colocar-se alerta pro
tropeço

Poesia é para
consumar: seu sumo
some o ser,

como uma fruta
que a polpa
nadifica

e a casca
da palavra
é o cicerone

por mundos
maus e bons
que posso viver

Que me criaram
sem saber
a que levariam

Às vezes
ando ruas
vazio

Sento-me para fumar
Continuo escrevendo
para livrar-me

de por exemplo
ser feliz
aos poucos

Divirtam-se com meus velhos tempos: Infernando Pessoa

Postado em January 31, 2009
Categoria: Poemas | 4 comentários

Infernando Pessoa

Tu ecoas palavras à legião,
Dizes poeta ser um fingidor
e, fingindo em três, é mal que finges!
Oh verme! Oh… poeta?

Teus toscos versos do Tejo,
e todos aqueles que causam tédio,
todos daquela noite
todos d’Os Lusíadas do século vinte,
ou qualquer um do peito aberto:

não importa – antes são teus,
e sendo teus eu já detesto.

Seja até que como poeta eu não preste
mas tu prestas tanto menos,
pois és poeta de arestas.
De arestas, oh verme!

Mas se tu achas que
poeta é fingidor,
que aches!
Poeta não é fingidor:
Poeta é o brincador,
o ator que interpreta,
quem interpela sobre a dor
em ódio consigo mesmo e em amor.
E ele se acha que
de amor não sofre tanto,
é de amor que vem a sofrer,
por de amor não sofrer
ou nem ou nunca amar.

O prazer da leitura

Postado em May 6, 2008
Categoria: Erna Alfaro | 2 comentários

Eu estava ainda lidando com a desordem de uma mudança eterna e procurando um livro da Susan Sontag, passando por uma parada sobre “Las viejas putas” de Copi, e mais uma olhada no livro com os escritos e entrevistas de Louise Bourgeois onde ela disse que a vida é muito engraçada e muito ridícula; e aí então foi que o Diego, por médio de um mail, decidiu convidar-me para escrever umas linhas, aqui no Perambulagens.

Hoje de manhã acordei com a idéia e o sentimento de que talvez nada supere o prazer da leitura. A trama que imprimirá nas nossas cabeças será densa e também leve, ocupando espaços cada vez maiores, até tornar-se uma necessidade diária. Uma rota a levar-nos por caminhos, até então, insuspeitos; descoberta do mundo.

E como esse prazer estará destinado a uma pequena parte de nós, já que a maior inversão do Estado (estadão?) estará destinada à industria da diversão (entertainment), aonde serão jogados altos, gordos recursos para manter aos cidadãos uma soneca fácil, e se possível eterna, longe das descobertas e aberturas perigosas a que pode levar a leitura de poetas, filósofos e outros seres que convertem a escritura num possível raio de luz.

Bom, a “grosso modo”, – e sem entrar nos tenebrosos meandros a que nos pode levar essa apropriação da cultura feita pelo Estado – mais ou menos foi o que pensei intermitentemente parte do dia; e já transcrito, é melhor agora levantar daqui e fazer umas torradas, para depois continuar lendo.

***

Este post é de autoria de Erna Alfaro, poeta chilena e amiga. Um dia talvez eu conte de como nos conhecemos e de nossa amizade.

Todo mundo é tudo na web 2.0

Postado em March 23, 2008
Categoria: Tecnologia | 7 comentários

Partindo de um pressuposto à primeira vista interessante, o de que o usuário sabe o que é bom, e que ele pode fazê-lo (algo meio punk, do it your self), a web 2.0 abre suas portas para quem fizer, seja lá o que for.

Essa tal web 2.0, que anda chamando a atenção de todo mundo, é na verdade uma maneira cool de dizer que em um site desses você não precisa de muito critério nem ser lá estas coisas sério, afinal é tudo cada vez mais de massa e menos burocrático. Imagine-se quanta burocracia que há em você aprender a pegar em uma câmera profissional, quando há a webcam. Não, meu caro, você não é dos burocratas. Uma web cam à mão, uma idéia, puf, és o diretor!

O importante é o instante, nada de perder muito tempo com o que se expirará rapidamente. Em um site de vídeo, como o Youtube, você é o diretor; no Digg, você é o editor de um jornal (ou algo que o valha). Uma horizontalização das relações de hierarquia, exceto pelo fato de que há um investidor sobre tudo isso, que talvez não saiba muito além de pegar os e-mails.

Esta nova onda, que não é temporária e veio para ficar, me parece, tem sua força no desejo que a pessoa tem. As pessoas querem ser, querem fazer. Compram-se idéias, vendem-se satisfações. Você é web 2.0.

Aniversário em pleno carnaval

Postado em February 10, 2008
Categoria: Coisas, Cotidiano, Estética | 7 comentários

Este post vem meio atrasado. Comecei a escrevê-lo ainda na Rodoviária de Belo Horizonte, terça-feira última, numa lan house. Eu voltava de Ouro Preto e teria de esperar umas horas até vir meu ônibus. Acabou o tempo contratado e, chegando a São Paulo, trabalhei muito, sem tempo de respirar. Eis o post, às pressas.

*

Pois é, meus caros. Imaginem que meu aniversário veio a cair em pleno carnaval. Não me lembrava de já me ter acontecido isso, que teoricamente é uma catástrofe. Mas explicar-vos-ei por que não foi tão mau assim. Fui passar carnaval em Ouro Preto pelo simples motivo de lá ainda estarem vários amigos que fazem o curso de Letras da UFOP, que abandonei. O carnaval não me agrada, mas s companhias e as bebidas sim. Além do mais, era a única folga visível.

Não é por ser uma cidade com uma bela arquitetura que as comemorações lá são menos vulgares, esteticamente falando. Como era de se esperar, muita música ruim e dança de ir mexendo até o chão, que está sempre imundo (suor, cerveja e urina). Vocês sabem, eu não sei dançar.

O aniversário. Após ter acordado lá pelo meio-dia, vislumbrei pela janela uma merencória chuva. Entre um cigarro e outro, um telefonema que me parabenizava e outro, uma tarde semi-entediante foi-se acabando. Como só havia três pessoas na casa, jogávamos buraco um contra o outro, bebendo muita Coca-Cola, sendo que o vencedor jogava contra quem estava “de fora”. E todo mundo só queria estar de fora. Mas não mais do que de repente, eu e os meu amigos nos aprumamos. Bem vestidos, cabelos penteados e lavados, demos a graça de nosso ar na rua entupida de gente. Rompemos a multidão com nossos passos ritmados numa espécie de fuga, entretanto jamais fora do compasso intuitivo.

Dirigimo-nos, pois, ao melhor restaurante da cidade. Aqui, nas paredes havia quadros que podiam ser bons e a mobília, de madeira de lei, nos abrigou enquanto pessoas vindas do carnaval iam e viam. Comemos algumas boas coisas, bebemos boa cerveja etc. E então fechamos a conta brindando a superioridade de nossos espíritos aristocráticos com doses de Chivas 12 anos.

Em seguida, dirigimo-nos a pé até um bar que não é de meus tempos de estudante em Ouro Preto (oh! esqueço de dizer: eu estava em Mariana na verdade – eu uso OP para me referir a ambas as cidades, saibam) . Mais uma vez passando pela multidão que, em plenos farrapos morais e estéticos, estranhava aonde iam pessoas de tamanho requinte. Quer dizer, eles deviam exclamar para si mesmos, indignados, que porra é essa, estamos em carnaval etc.

Mas nós, meus caros, antes de tudo estávamos indo ao Scotch Art, bar construído em uma casa de arquitetura barroca, com boa música popular, bebidas e charutos. Sabíamos de nossa responsabilidade para com a estética universal. Comemos alguma coisa mais (era poética a culinária de lá), conversamos e – para que a noite se fechasse com uma chave de ouro parnasiana – bebi sublimes doses de absinto e acendi um charuto cubano, soltando baforadas densas. No bar dançava sensual a fada verde, que reprimia qualquer átomo que estivesse alheio ao nossa espírito dândi.

*

E lá ela continua eterna, e nós em sua retina que se surpreendera e petrificara-se.

Elogio do prazer

Postado em January 26, 2008
Categoria: Mimnermo | Comente

O que é a vida? O que é o prazer, sem a dourada Afrodite?
Que eu morra, quando estas coisas já não me interessarem:
o amor secreto, as suaves ofertas e a cama,
que são flores da juventude sedutoras
para homens e mulheres. Mas quando chega a dolorosa
velhice, que faz até do homem belo um homem repulsivo,
tristes preocupações sempre lhe moem os pensamentos
e já não sente prazer em contemplar a luz do sol,
mas é odiado pelos rapazes e desonrado pelas mulheres.
Assim áspera foi a velhice que o deus impôs.

(Mimnermo. Poesia grega de Álcman a Teócrito. Tradução de Frederico Lourenço. Lisboa: Cotovia, 2006)

***

Fui hoje à Livraria Cultura, esse mega-shopping de livros, com minha mãe, que já queria há algum tempo conhecer. Aproveitei a oportunidade para trocar o Poesia completa de Rimbaud, que eu comprei ali mas estava com defeito. Sim, vieram páginas invertidas (a 173 de junto da 178, talvez seja isso, e muito mais). Um azar, logo eu que já tive problemas no início de 2006 para comprar o livro (nunca comprem pela Livraria Pau-Brasil, uma confusão sem tamanho…), e que esperava tanto pela reedição. Mas acabei levando/ganhando este livro de poesia grega. Enquanto minha mãe olhava seus livros de saúde e felicidade, apaixonei-me por este livrinho. Salvo engano, era a edição que, xerocada, os professores da USP nos passavam. Não vêem como a xerox fotocópia é uma bela forma de marketing?

***

Estou ainda lendo o Reparação. E pretendo continuar agora, após compartilhar com vocês esse belo poema.

Esta vez medo

Postado em January 21, 2008
Categoria: Coisas | 6 comentários

Como se acostumaram, combinava-se de ir ao mesmo bar de sempre, aquele cujos rostos da moda sempre passavam batidos, mas para alcançá-lo bastava descer aquela rua, após a rápida condução. A pretensão de um lugar outro. Acertou-se, desta vez, na estação de metrô. Encontraram-se umas nove da noite, pediram informação ao fiscal de bigode sonolento, desceram ruas, dobraram algumas esquinas etc.  Ei-los lá. A região mais vazia do que se escutava dizer, ali todo dia é cheio, seria iminência de chuva ou por que era um feriado em plena quarta-feira? E os bares, de se assustar, tinham a cerveja além do que o bolso permitia, esperava-se ficar por ali até haver ônibus. Depois de o sol ter iluminado as ruas. Como a região era de muitos bares, haveriam de encontrar um onde a cerveja fosse mais barata. Foram duas cervejas até que chegasse a hora de fechar esse boteco sujo, mais caro que aquele bar saudoso.

No bar ao lado descoberto, tranqüilizaram-se, a cerveja mais gelada, o atendimento melhor e só tinham é de fazer o tempo ir-se rapidamente, para que cada qual pegasse seu ônibus.  Mas a umas três da madrugada, desolados. Viam as portas descidas e ventava e o norte, a esmo, por sorte não era prejudicado, foi pouca cerveja que beberam. Na esquina, ali na frente, havia um ponto de taxi. É de se juntarem os trocados, ir-se dali, o tempo é que não se irá depressa. Pergunta se havia algum bar 24h. Mas o taxista, intransigente em busca de um passageiro, recomendando ir embora, aqui não era bom andar à noite (quando as categorias de Kant não existem).

Gentilmente agradeceu e, lembrando de onde vieram, pegaram a rua, reconfortaram-se em silêncio, cada um em seu próprio passo, sim veio-se por aqui. A rua se alongava como um paciente anestesiado sobre a maca; de relance às vezes parecia diferente, um abismo, mas é certo que era esta, lembrava deste bar. Iam-se como se deve prosseguir, sob arbitrários implícitos. Para não dizer que as ruas estavam vazias, vinha alguém na frente, alguém suspeito?, mas se lhes passou tão logo quanto surgiu.

Você com o guarda-chuva o que está olhando? E antes que se pudesse premeditar reação, garrafa instantaneamente estourou atrás de nós, seus cacos se viam voando. Os olhos do sujeito deviam ser de fúria, não os vi, quando me percebi corria com fôlego que não tinha. O amigo vinha um pouco atrás, eu avaliava em esquinas a solução, um bar, olhava para trás e ele  nos perseguia. Parou um carro, não vi, vi quando o amigo afoito pedia socorro.  Ele mexia no lixo. Tentei falar com o motorista, não entendia, não ligava, procurando alguma rua no guia da cidade.

Se conseguimos lhes explicitar a difícil situação, sem conhecê-lo, risco havia, mas vendo que ele voltava do lixo com outra garrafa, nos falou com um olhar que deve ter sido irônico, debochado, há um café 24h aqui em frente. Um deus ex-machina de estragar qualquer literatura, por sorte é um post. Com um suspiro duradouro e aliviado e as pernas instáveis, à beira de eu não ter respiração , enfim viam-se seguros, bastou atravessar rápido a rua em linha reta, acendeu-se um cigarro, isso não me era bom embora necessário, tentava-se explicar ao casal que ali estava a terrível perseguição. Ele apontava o dedo rindo-se, não é aquele magrelo passando? Passou seco, com a garrafa erguida numa das mãos, ele indo aonde quebrá-la.

Uma lembrança, de repente

Postado em January 20, 2008
Categoria: Arte, Literatura | 5 comentários

Quase três horas da manhã de um domingo que ainda era a persistência de um sábado morno e de arrumação da casa. Eu lia Reparação, de McEwan. A princípio, tentando algum motivo para dormir. Mas a leitura, no entanto, me mantinha atento às nuances do texto, eu de fato o estava lendo com a devida atenção. No romance, e eu estou em seus primeiros capítulos ainda, há a Briony, menina de treze anos cheia de pretensões literárias. Ela escrevera uma peça, e agora a dirigia. Veio-me à cabeça, de repente, o fato de um escritor, não sei qual, dizer que aos dez anos tinha escrito uma peça. Eu aos dez anos nunca tinha escrito nada, pensei.

Mas não é que minha memória involuntária me traz um fato muito curioso! Pois eu, aos dez anos, escrevi uma peça – mas isso estava absolutamente esquecido em algum lugar de minha memória. Foi para as aulas de religião. Lembro que o último capítulo do livro da matéria (na faculdade se diria disciplina ou cadeira) era sobre a campanha da fraternidade, e faríamos algo especial baseado nisso. Salvo engano, o tema era “perdão”. Certamente não lhes interessa, mas no caso de sim: consulte-se qual foi o tema da campanha da fraternidade de 1997.

Numa noite, após ter feito o dever de casa e já ter jogado bola (jogar bola era o que eu me lembrava de meus dez anos), sentei-me, peguei duas folhas de papel sulfite e comecei a escrever com uma Bic. Foi tudo razoavelmente fácil: pessoa que passava por dificuldades financeiras reencontra um antigo conhecido que está bem de vida porque virara ladrão; este o inicia no mundo do crime, mas na cena seguinte são presos. Passa alguns minutos na cadeia, e quando sai procura emprego – mas ninguém lhe concede oportunidades, porque ele tinha sido preso. E a peça acabava, feliz, quando alguém lhe tinha dado uma chance de recomeçar. Mas a única coisa que me lembro de dificuldade em escrever era o fato de escolher nomes: familiares, amigos, que nomes dar? Se eu usar este, vão pensar que estou me referindo à pessoa etc. Deve ser por isso que escolhi a poesia.

Naturalmente toda a peça é besta, não vem ao caso. Mas é que escrevendo sobre, há também a rememoração. É delicioso e instigante encontrar, em seu passado quando se detestava a literatura, algum elo com você agora, pretensiosamente homem das letras. Como se, por um elo frágil, você se reconhecesse mais em algum lugar distante. Uma surpresa.

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