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	<title>Perambulagens</title>
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		<title>In Passim (Bruno Tolentino)</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Feb 2010 15:56:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[Bruno Tolentino]]></category>
		<category><![CDATA[Poema]]></category>
		<category><![CDATA[Soneto]]></category>

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		<description><![CDATA[In passim
Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.
E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:
intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>In passim</strong></p>
<p>Tudo vai-se acabando, tudo passa<br />
do que é ao que era; é tudo mais<br />
ou menos uns vestígios de fumaça<br />
no espaço do que deixas para trás.</p>
<p>E tudo o que deixaste ou deixarás<br />
de manso ou de repente, sem que faça<br />
diferença nenhuma no fugaz,<br />
é assim como a garoa na vidraça:</p>
<p>intimações de lágrima delida.<br />
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas<br />
a lamentar-te à porta da saída,</p>
<p>pois pouco importa a vida como a levas,<br />
que ela te leva a ti, de despedida<br />
em despedida, a uma lição de trevas.</p>
<p>(Bruno Tolentino. <em>O mundo como Ideia</em>. Editora Globo: 2002)</p>
<p>***</p>
<p>Na falta do que postar, vai o meu poema preferido do Tolentino. É daqueles que, vez e outra, seus versos ressoam e eu vou lê-lo.</p>
<p>***</p>
<p>Convém ainda sair em defesa e ao mesmo tempo acusá-lo: Bruno Tolentino, <a href="http://breviario.org/beharren/2009/07/02/alexei-bueno-e-o-mitomano-bruno-tolentino/">mitômano ou não</a>, é aquele poeta que <em>via de regra</em> encontra devoção ou repulsa, certamente muito menos por sua obra em si; essa paixão, para o bem ou para mal, parece que só está ligada ao tão conhecido sentimento de grupo, que divide opiniões e cria, cada qual ao seu modo, um certo politiquês que pretende julgar a poesia deste e de outros coitados poetas. (Afinal, isso não repete aquela estrutura de richa entre meninos e meninas de nossa tenra infância?) Depois de escolhido um grupo, justifica-se a crítica com o sistema político-estético-filosófico-etc, tolo embora difícil, que lhe ensinaram os superiores. E daí? se nunca entra em cena a poesia do sujeito. Poeta de versos cristalinos e cheio de elementos grotescos, atualizador de imagens da tradição literária recente, crente de uma certa ideia de Eterno (parece que sublima seu tempo presente, sem deixar de <em>senti-lo</em>), de expressão turva, borrificada e bela, Bruno Tolentino deve ser lido. Lido e só.</p>
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		<title>Tentei te amar de todas as maneiras</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/12/19/tentei-te-amar-de-todas-as-maneiras/</link>
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		<pubDate>Sat, 19 Dec 2009 06:34:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poemas]]></category>

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		<description><![CDATA[Tentei te amar de todas as maneiras,
E achando que não mais conseguiria
Eu me tornei cruel num triste dia&#8230;
Percebo hoje o tamanho da besteira!&#8230;
Ninguém pode ficar sem o Amor,
Pois ausência assemelha-se a um mau câncer
E a falta dum amor supera o câncer
Em infelicidade, angústia e dor!
Queria que estivesses ao meu lado
E tivéssemos lindos filhos, casas
E até [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Tentei te amar de todas as maneiras,<br />
E achando que não mais conseguiria<br />
Eu me tornei cruel num triste dia&#8230;<br />
Percebo hoje o tamanho da besteira!&#8230;</p>
<p>Ninguém pode ficar sem o Amor,<br />
Pois ausência assemelha-se a um mau câncer<br />
E a falta dum amor supera o câncer<br />
Em infelicidade, angústia e dor!</p>
<p>Queria que estivesses ao meu lado<br />
E tivéssemos lindos filhos, casas<br />
E até mesmo um cachorro alegre, o Bob&#8230;</p>
<p>Mas tu te fostes tal cavalo alado:<br />
Eu não te dei valor, bateste as asas&#8230;<br />
E hoje me culpo por ter sido esnobe!</p>
<p>*</p>
<p><a href="http://breviario.org/ptyx/2009/12/18/soneto-arcade/">Se o Emmanuel acha que vai superar o MEU soneto do Bob&#8230;</a></p>
]]></content:encoded>
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		<title>Teoria do &#8220;Eu estava pensando&#8230;&#8221;</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Dec 2009 17:27:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Teorias]]></category>

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		<description><![CDATA[
&#8220;Eu estava pensando&#8221;&#8230; Você certamente já ouviu essa expressão em diversas situações e quem sabe até mesmo já a tenha utilizado, mas o que talvez jamais tenha se dado conta é de que o seu uso, e ainda mais nos meios universitários e de nossa inteligenzia, indica que o usuário necessariamente irá, bem, como dizer? [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><img class="size-full wp-image-191 aligncenter" src="http://breviario.org/perambulagens/files/2009/12/eu_estava_pensando.png" alt="Eu estava pensando" width="470" height="240" /></p>
<p>&#8220;Eu estava pensando&#8221;&#8230; Você certamente já ouviu essa expressão em diversas situações e quem sabe até mesmo já a tenha utilizado, mas o que talvez jamais tenha se dado conta é de que o seu uso, e ainda mais nos meios universitários e de nossa inteligenzia, indica que o usuário necessariamente irá, bem, como dizer? Enfim, ao que se falará após sua introdução é sempre bem-vinda a já clássica forma de singela e sabiamente intrometer-se &#8211; e, o mais importante, interromper o discurso alheio -, que o Professor Gilmar fez ficar famosa: &#8220;aluno, você está defecando pela boca&#8221;.</p>
<p><!-- start insertion by YouTube Brackets, robertbuzink.nl --><span class="youtube"><object width="425" height="350" type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.youtube.com/v/QJbxWOffAMo"> <param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/QJbxWOffAMo" /><param name="wmode" value="transparent" /></object></span><!-- end Youtube Brackets insertion --></p>
<p>Fruto de uma observação obsessiva primeiramente nas salas de aula, esta minha teoria, que apesar de bastante simples, veio ao longo dos anos ganhando repertório e intensificando-se como valor de verdade. Hoje eu posso dizer, sem a menor sombra de dúvida, que é a mais pura verdade a <strong>Teoria do &#8220;Eu estava pensando&#8221;</strong>, que consiste em: quando alguma pessoa, homem ou mulher, começa uma fala ou um texto com a expressão &#8220;eu estava pensando&#8221;, ou mesmo a utiliza para introduzir, referenciar-se a ou referendar um tópico conversacional, é porque irá excretar pela boca, isto é, falar uma coisa estapafúrdia e completamente sem sentido.</p>
<p>Mas uma teoria precisa de provas e bons argumentos, apesar de tudo isso me parecer completa e facilmente verificável por qualquer leitor provido de bom senso. Mas não, não me furto a um debate profundo e sério sobre a <strong>Teoria do &#8220;Eu estava pensando&#8221;</strong>, que agora público em forma de post, ao contrário do que desejam meus inimigos, conhecidos ou não, que primam tanto por revelar seus dotes filosóficos ao início de qualquer fala.</p>
<p>Pois bem. Ontem eu e duas amigas fomos a um encontro internacional sobre Dostoiévski que ocorreu esta semana em São Paulo; só fiquei sabendo de última hora e mesmo não sendo o maior entusiasta de eventos do tipo, acompanhei de muito bom grado as minhas ilustres amigas. O tema do debate era &#8220;Dostoiévski e a Cultura Contemporânea&#8221;, o qual também encerrava o evento. É claro que não podia faltar à mesa um pós-moderno. &#8220;Aí vem, aí vem&#8221;, impacienta-se a plateia.</p>
<p>Depois da fala de uma senhora muito simpática, apresentou-se-nos uma também professora da USP que discorreria sobre uma peça contemporânea chamada <em>Dostoievski trip</em>, em que, resumidamente, viciados tomavam drogas que tinham nomes de escritores e no final tinham uma overdose com a recém-inventada &#8220;Dostoiévski&#8221;, ao que o traficante e o químico responsável concluíram ser necessário diluí-la com a &#8220;Stephen King&#8221;. Ainda que minimamente interessante a tal peça, é claro que como boa pós-modernista (meu grilo é com os pós-modernistas e não necessariamente com suas teorias, deixo claro) ela não falou nada sobre Dostoiévski e em sua apresentação alongava-se no debate da afirmação pela negação, do simulacro do eu, do vazio, dando voltas e mais voltas, saindo do nada e indo a lugar nenhum. Detalhe: ela começara sua intervenção mais ou menos assim: &#8220;Eu estava pensando&#8230; em como preparar algo que ao mesmo tempo considerasse o evento como um todo, afinal esta seria a última mesa, e pudesse trazer para vocês conclusões de minhas pesquisas&#8221;. Já no final da fala dela, impaciente o sr. Frank Castorf fez no intervalo de uns cinco minutos dois &#8220;cof-cof&#8221; geniais.</p>
<p>A seguir, sendo a sua vez de falar, ele deixou muito claro que achava que pós-modernismo é coisa de classe média burra e, depois, numa das respostas às perguntas feitas pelo público concluiu que crítica pós-modernista era como assistir televisão: você vai mudando de canal até encontrar o que deseja assistir, na medida em que essa crítica também retira do texto não o que ele diz e sim o que previamente já se procurava (mas, convenhamos, isso é válido para quase tudo o que versa sobre Literatura). Ele foi o melhor da mesa, e não só por causa de sua humilde acidez (para colocar os pingos nos is, ele simplesmente falou de Dostoiévski e ponto final.)</p>
<p>Pode estar parecendo que eu estou fugindo ao tópico e que, pelo uso de uma falsa modéstia, só queira posicionar-me como bom intelectual que vai a eventos literários e é crítico em relação aos mesmos. Todavia, faz-se mister trazer à luz esta noite porque foi muito significativa para a consolidação da <strong>Teoria do &#8220;Eu estava pensando&#8230;&#8221;</strong>. Não bastasse um exemplo tão vertiginoso para mim como o de nossa pós-modernosa, na última pergunta feita pelo público (e que se dirigia a ela &#8211; atentem-se à simetria deste ato!) uma moça, para o meu completo deleite, começou: &#8220;Eu estava pensando&#8230;&#8221;</p>
<p>Pára o mundo que eu quero descer! Apesar de saber que ali merda viria, eu senti aquela ponta de satisfação, dada em forma de prazer estético, de revelação final. Só podia ser um sinal, um indício de que até mesmo Deus, Ele próprio!, compactuava com a minha teoria e queria fazer de mim um instrumento de sua divulgação.</p>
<p>E ela continuou, murmurando alguma coisa sobre ética, o Grande Inquisidor, dando voltas e mais voltas, porque afinal ela tinha pensado em ética em Dostoiévski, e enfim interrompeu a si mesma com aquele tom interrogativo de quem semeava a discussão, melhor, o enfim debate inteligente. Só faltava mesmo a nossa pós-tudo compactuar novamente do &#8220;eu estava pensando&#8221; e repeti-lo, mas aí já seria demais, de tal modo tão exagerado que nenhum de meus leitores acreditaria em mim e tirar-se-ia o teor de revelação que há em minha <strong>Teoria do &#8220;Eu estava pensando&#8230;&#8221;</strong>.</p>
<p>Comentem vossas experiências com o &#8220;Eu estava pensando&#8230;&#8221;.</p>
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		<title>E que o Flamengo seja o grande campeão do Campeonato Brasileiro de 2009 contra a vergonhosa muricylização do futebol</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/11/29/e-que-o-flamengo-seja-o-grande-campeao-do-campeonato-brasileiro-de-2009-contra-a-vergonhosa-muricylizacao-do-futebol/</link>
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		<pubDate>Mon, 30 Nov 2009 00:39:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Futebol]]></category>

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		<description><![CDATA[Começo a escrever este texto ainda nos últimos minutos dos jogos de domingo, que aconteceram todos no mesmo horário. Para ser mais exato, justo no instante em que o Flamengo converte em gol um pênalti cuja cobrança fora interrompida por um torcedor que, se flamenguista, é tolo; se corintiano, só queria &#8220;aparecer&#8221;; ou sendo torcedor [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Começo a escrever este texto ainda nos últimos minutos dos jogos de domingo, que aconteceram todos no mesmo horário. Para ser mais exato, justo no instante em que o Flamengo converte em gol um pênalti cuja cobrança fora interrompida por um torcedor que, se flamenguista, é tolo; se corintiano, só queria &#8220;aparecer&#8221;; ou sendo torcedor de qualquer outro time, o que dizer se não que se trata de um completo babaca?</p>
<p>Esta semana, li o texto de um jornalista que, embora blogueiro e paulistano, nutre pelo futebol a mesma paixão que os torcedores nordestinos. Também é capaz, justo com a sua serenidade em opiniões futebolísticas, de vertê-lo em algo místico tal qual fazem os cariocas, que são os maiores torcedores do Brasil. De nome <a href="http://www.ricaperrone.com.br/">Rica Perrone</a>, embora dele discorde no que em geral tange a moral (porque dá claramente como resposta à Parada Gay uma Parada Hétero, e eu me pergunto por que ele não participa da Marcha por Jesus, que por sua vez, apesar da inocência evangélica, é algo claramente escroto), para mim é sem a menor sombra de dúvida o jornalista de Futebol mais certeiro em suas opiniões. Os outros, uns mais e outros menos, sofrem do mesmo Mal que o mestre Juca Kfouri: o paulistanismo politicamente correto que, aliás, já tem se infiltrado até mesmo nas redações cariocas.</p>
<p>Aos que se interessam por Futebol, dedico este parágrafo à <a href="http://www.ricaperrone.com.br/?p=4501">análise impecável, feita pelo Rica Perrone, do que é hoje o São Paulo Futebol Clube</a> a quem, embora seu torcedor, rogue-lhe as piores pragas para que não se sagre campeão brasileiro. E que antes caia à Segundona (que já se tornou “Série B”, termo que falsamente buscam emprestar das Letras o seu próprio politicamente correto uns socialmente imbecis), para que renasça como uma fênix. Pareça exagero, mas pelo menos neste instante me vejo como um bom são-paulino &#8211; o que é raro entre essa raça de bambis. E antes que venham encher-me o saco os mal-informados e digam que agora é fácil dizê-lo, quem segue meu Twitter (ok que Twitter não seja parâmetro de forma nenhuma entre pessoas sensatas) sabe que estou torcendo pelo Flamengo, que tem jogado Futebol, há muitas rodadas. Portanto, <a href="http://www.ricaperrone.com.br/?p=4501">leia o texto sobre o SPFC do Rica Perrone</a> – ainda que para isso abra mão de continuar a leitura de meu próprio texto.</p>
<p>Estamos chegando à Última Rodada do Brasileirão. O São Paulo, até então líder, perdera o antepenúltimo jogo da competição para o Botafogo, hoje perdeu para o Goiás (com um goleada incrível assim como a vontade do tricolor de jogar futebol – embora já fosse tarde) e, com as vitórias de hoje do Palmeiras e do Inter, caiu para a quarta posição. É claro que eu fiquei feliz porque, como já vinha dizendo há tempos, entre os amigos e os bebuns que encontrava nos bares, não seria justo o SPFC tornar-se campeão novamente &#8211; mas ao mesmo tempo sentido, como é de se esperar de um torcedor. É ruim para a competitividade do futebol brasileiro, tal como é ruim no campo da política a unanimidade que o Lula tem e o Caetano criticou (bom ou mau o seu Governo, não importa), meu maior desgosto em relação ao São Paulo é que o seu futebol está para o Futebol assim como uma boneca inflável deve estar para o sexo (só falta mesmo encontrar-se tal objeto plástico em forma de bambi na casa de algum torcedor, são-paulino ou não, que, vejam só, ainda corre na boca pequena que <em>viado</em> é quem dá e não só quem come alguém do mesmo sexo que o seu).</p>
<p>O que parecia improvável, unicamente pela mão do destino não se concretizou: imaginem todos os times com sessenta e dois pontos na última rodada? Na verdade, agora quase todos do G4 estão com 62 pontos, mas a tabela inverteu-se drasticamente: (em ordem) Flamengo (o único com 64), Internacional, Palmeiras e São Paulo, que é o mais perto de perder a vaga da Libertadores para o Cruzeiro, que vem com toda a força. Neste instante, não é preciso o time mineiro enviar-me uma mala preta cheia de torresmos para que eu emita energias positivas pela sua vitória e a derrota do São Paulo. Faço-o com graça e responsabilidade futebolística.</p>
<p>O campeão brasileiro para mim já estava definido mais em minha razão do que em meu coração (afinal, inconscientemente eu vibro é com os gols do São Paulo): será o Flamengo, cujo pilar está no ex-jogador-novo-craque Pet, mas é <em>Pet</em> só para os íntimos. Por falar num dos poucos estrangeiros que deveriam ter vestido a camisa verde-e-amarela, no pouco que o vi jogar Petkovic  mostrou-se o grande craque do campeonato. Foram dois gols olímpicos, sendo um deles em pleno Mineirão contra o Atlético, além daquela linda arrancada sobre a zaga do Palmeiras em pleno Palestra. Mudando de assunto mas que sem isso deixe de me ater a ele, lembro de tê-lo visto desembarcar no aeroporto de Salvador em 1997, ao vivo pela televisão local, quando ele viria a defender a camisa do Vitória: em grande medida o seu futebol dostoievskiano, ao lado de Túlio (sim, o Maravilha), fez desse time execrável o campeão baiano do ano.</p>
<p>No Brasil a paixão em si pela camisa e pelo maior dos esportes deve estar acima de tudo, ou pelo menos de muitas das coisas, o que demonstra que o futebol é ainda um dos poucos espaços onde o romantismo é possível e, mais do que isso, a nota que rege o espetáculo. Apesar da camisa 43 (não se iludam os mais desavisados, não se trata de sua idade – ele tem 37 – mas sim do minuto em que fez o glorioso gol que deu ao Flamengo mais um título de Cariocas sobre o Vasco), Pet foi o grande maestro que, tendo Adriano e Andrade ao lado (o último sendo técnico e merecedor de muitos méritos), além de um time que por acaso pouco conheço (antes de atirarem uma pedra, comprem-me o PFC), justamente consagrará o Flamengo como grande campeão.</p>
<p>Na era dos pontos corridos, o título do Flamengo será muito significativo. Contra a corrente, quando tudo no Futebol parecia apontar para uma muricylização total, à qual se entregou mesmo um dos estandartes do Futebol-para-frente, falo de Wanderley Luxemburgo, o Mengão (ainda que me seja difícil chamá-lo assim, eu que inevitavelmente me tornei tricolor em todos os cantos, assim como na Bahia como em São Paulo, assim como no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro) chamará os holofotes para o fato de que é possível, numa época em que o futebol é business e resultado prático,  um time que, apesar de inevitáveis e ruins jogos como foram por exemplo aquele contra o Goiás, ainda jogar futebol. Nada além de Futebol.</p>
<p>E até mesmo se não há mais jogadores como um Pelé ou um Garrincha nem nunca mais haverá, com a grandeza de um Adriano e a genialidade de um Pet, que são bem mais jogadores que todo o elenco do São Paulo a viver sob a ditadura mais infeliz que pode haver no Futebol e que domina os meios corporativos, este Flamengo já é o melhor time do ano: campeão carioca, boa campanha na Copa do Brasil e mui provavelmente campeão brasileiro (. Rivalizaria com o Fluminense dos últimos dois meses e <a href="http://breviario.org/perambulagens/2009/04/26/ronaldo-gorda-franga-gol-ouro/">o Corinthians da gorda franga dos gols de ouro no primeiro semestre</a>).</p>
<p>Digo isso tudo sobre o Brasileirão de 2009 com esperança, pois qualquer interessado por Futebol será capaz de ver que pelo menos desde o seu último jogo contra o Botafogo o São Paulo, este sempre previamente campeão, vem tentando jogar bola. Perdeu ambos os jogos, mas o futebol foi mais bonito e, pasmem, competitivo. Não fosse assim, arrancaria no máximo dois empates que de nada serviriam. Ainda mais com dois dos seus três últimos jogos fora de casa e a dificuldade inédita, tornou-se enfim indispensável nesta reta decisiva um futebol que vá para o ataque, defenda-se com raça, motive as peças novas que tem (mas o SPFC ainda as usa porcamente, e sem qualquer alusão consciente ao Palmeiras!) Tampouco vi os outros jogos desta rodada; na anterior, somente os de Flamengo e São Paulo.</p>
<p>Torço para que ano que vem novamente não se esqueça  a dimensão de um campeonato longo, tal como é o de pontos corridos, e faça-se de cada jogo uma espécie de final, mas não só os três últimos. Brincadeira, isso é impossível. E não será no Futebol –  esse delicioso ópio do povo – que se irá aprender a ter noção política sobre o passado de renovados candidatos a velhos cargos, porque se fala mais em política do que em futebol quando pedem que o brasileiro tenha memória! E, para além dos pontos corridos, eu sempre achei é que o Futebol Europeu é que deveria adequar o seu calendário ao do brasileiro. Seja como for (em tempo: o Flamengo está se adequando ao futebol brasileiro). Bom futebol é futebol brasileiro e fim de papo.</p>
<p>Mas se naquele instante em que comecei a escrever este texto a vitória de meu tricolor já era impossível, e apesar de ter me orgulhado enquanto são-paulino pois enfim tínhamos tentado jogar bola, obviamente não é de última hora que um time treinado para o resultado sem fome irá mudar de postura, ainda que por uma competitividade na reta final deste campeonato isso tenha se imposto – ressalto: imposto – necessário para um time que quisesse ser campeão. Alguma reação houve, isso é fato, mas como disse já era muito tarde. E o time com fome de ser campeão é o Flamengo, tanto que até mesmo o Adriano deve estar engajado junto com o time. E mesmo o Palmeiras, ainda que de última hora, correu atrás do prejuízo e apesar do Muricy, esse emblema do mau futebol no Brasil (mas não há de se reduzir o vencedor que ele fora no time do Morumbi), conseguiu ultrapassar o tricolor na tabela em boa goleada sobre o Atlético do sempre famigerado Celso Roth.</p>
<p>Atenção aos mais incautos: trata-se de um Campeonato com uma força que jamais se viu nos pontos corridos. Para citar caricaturalmente Hegel, o espírito imortal do Futebol brasileiro passará a encontrar-se com a era dos pontos corridos muito em breve. Não é fato consumado, mas fato insinuado, o que já é bom agouro entre nós. Torço mais que isso não seja falsa ilusão – tal os times que chegam ao topo e entregam os pontos – do que pelo título do meu próprio São Paulo. Lembrando <a href="http://www.ricaperrone.com.br/?p=4501">a boa análise do Rica Perrone</a>, e se isso tudo que eu tentei salientar não servir de lição aos cartolas, o SPFC poderá ano que vem ser hepta. Pois uma praga ronda o futebol e não é fácil eliminá-la. São-paulino e malandro que sou, é claro que ano que vem eu adoraria o hepta para nós. Desde que a conquista do mesmo não se assemelhasse,  nem remotamente, ao sujeito que se vangloriariasse de ter comido a tal boneca inflável. Mas, plasticofobismos de lado, esta é a hora de torcer para os piores adversários. Dá-lhe, Mengão, o nosso campeão.</p>
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		<title>Greve na USP: &#8220;confronto&#8221; entre estudantes e Polícia Militar</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/06/10/greve-na-usp-confronto-entre-estudantes-e-policia-militar/</link>
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		<pubDate>Wed, 10 Jun 2009 03:03:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Greve na USP]]></category>

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		<description><![CDATA[Não estava na USP quando houve o dito &#8220;confronto&#8221; entre estudantes e Polícia Militar. 
Deu na imprensa o seguinte: O coronel Cláudio Longo, responsável pela operação policial na USP, definiu a ação como &#8220;apenas uma dispersão&#8221;. Segundo ele, os estudantes provocaram os militares e ameaçaram os motoqueiros que garantiam o fluxo do trânsito de carros na [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não estava na USP quando houve o dito &#8220;confronto&#8221; entre estudantes e Polícia Militar. </p>
<p>Deu na imprensa o seguinte: <em>O coronel Cláudio Longo, responsável pela operação policial na USP, definiu a ação como &#8220;apenas uma dispersão&#8221;. Segundo ele, os estudantes provocaram os militares e ameaçaram os motoqueiros que garantiam o fluxo do trânsito de carros na entrada principal do campus.</em> (Fonte: G1)</p>
<p>Porém, como se pode observar nos vídeos abaixo, feitos por alunos, os policiais militares perseguiram os estudantes e lançaram bombas de efeito moral até mesmo ao prédio da História (que fica distante, digamos, uns 500m da Faculdade de Educação, onde a confusão começou). Confirme no vídeo:</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=deUf8An9Q1o">http://www.youtube.com/watch?v=deUf8An9Q1o</a></p>
<p>Na comunidade de Letras do Orkut, encontrei um depoimento que parece ser o mais próximo da verdade.</p>
<p><strong>A verdade sobre o confronto entre estudantes e PM na USP</strong></p>
<p><em>O que aconteceu foi que algum manifestante bestão jogou um pedregulho pra cima dos policiais. E quando a polícia correu atrás deste babaca, todo mundo começou a sair correndo desesperado, pois eram poucas as pessoas dali que que gostam de apanhar da polícia.</em></p>
<p><em>Mas aí o choque saiu jogando bomba pra cima do grupo de &#8220;franguinhos funjões&#8221;, foi uma perseguição mesmo! Imaginem que eles foram jogando bombas sobre o grupo &#8211; a maioria ali contra o ato idiota daquele infeliz &#8211; do P1 até a faculdade de educação.</em></p>
<p><em>(Só pra quem não sabe, junto à Educação fica a escola de aplicação, que oferece ensino fundamental. E isso foi bem na hora que os alunos estavam saindo. É bem provável que alguns deles tenham sentido o cheirinho agrad[avel da violência policial.)</em></p>
<p><em>Parece que o Brandão, que por exibicismo ou não &#8211; isso não importa agora &#8211; tomou a frente pra defender o pessoal que estava apanhado e foi preso.</em></p>
<p><em>Enfim, nada que a reitora não pudesse calcular facilmente antes de chamar a polícia pra dentro da universidade.</em></p>
<p><em><strong>Vídeos feitos pelos estudantes da USP mostram que Polícia Militar atacando estudantes</strong></em></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=sIVLuuag9G0">http://www.youtube.com/watch?v=sIVLuuag9G0</a></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=xwL-b6LUOb4">http://www.youtube.com/watch?v=xwL-b6LUOb4</a></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=PC37Kv-Jfiw">http://www.youtube.com/watch?v=PC37Kv-Jfiw</a></p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=YNAzxgGtGpA">http://www.youtube.com/watch?v=YNAzxgGtGpA</a></p>
<p>Se puder ajude a divulgar este artigo. Se houve alguma confusão ou erro de minha parte, deixe um comentário.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Poema que não será de amor</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/05/13/poema-que-nao-sera-de-amor/</link>
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		<pubDate>Wed, 13 May 2009 19:51:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poemas]]></category>
		<category><![CDATA[Reflexão]]></category>

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		<description><![CDATA[As pessoas às vezes não entendem que os poemas que venho escrevendo não valem propriamente pelo seu resultado poético. Antes, esses poemas devem ser lidos pela perspectiva do processo de escrevê-los, a procura de uma dicção própria e um caminho frutífero dentro da poesia contemporânea (não no sentido de se filiar a uma &#8220;escola&#8221;, e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As pessoas às vezes não entendem que os poemas que venho escrevendo não valem propriamente pelo seu resultado poético. Antes, esses poemas devem ser lidos pela perspectiva do processo de escrevê-los, a procura de uma dicção própria e um caminho frutífero dentro da poesia contemporânea (não no sentido de se filiar a uma &#8220;escola&#8221;, e sim no de encontrar, como disse, um início de arte poética). Portanto, são um estudo prático da linguagem poética e seus efeitos, sob a perspectiva de poemas que um dia serão escritos. São uma oficina à mostra, o rascunho de uma obra em progesso. Claro, o que publico aqui no blog é uma pequena parte do todo.</p>
<p>Quem os ler cronologicamente perceberá que, desde os <a href="http://breviario.org/perambulagens/2009/02/19/tres-novos-poemas/">Três novos poemas</a> a este de agora, passando pelos <a href="http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/poemas-cariocas/">&#8220;Cariocas&#8221;</a>, há uma evolução interna e de alguma forma coerente. &#8220;Evolução&#8221; sobretudo no sentido de se escrever avaliando o resultado anterior e, a partir dessa autocrítica, o desenvolvimento do novo poema. Comecei com um poema fechado, quadrado, teórico, &#8220;<a href="http://breviario.org/perambulagens/2009/02/19/tres-novos-poemas/">(Perícope)</a>&#8220;, e pouco a pouco fui aplicando em novos poemas o que esse prometia e não existia no próprio poema &#8211; ainda que o resultado não fosse melhor. Mas claro que surgem novas dificuldades, temas, formas, idéias, influências, etc.</p>
<p>Talvez não fique claro para todos o que tento explicar e nem posso exigir isso de meu leitor. E se o digo, é porque sinto que meus poemas ainda precisam dessa precaução. Entretanto, cada vez mais os poemas recentes têm se desprendido desse <em>projeto</em> que impus à minha poesia. Leiam vocês mesmos:<br />
 <br />
<strong>Poema que não será de amor</strong><br />
<em>Ao contrário de</em> Não sobre o amor<em>, peça de Felipe Hirsch</em></p>
<p>Sobre a escrivaninha,<br />
ainda os poemas são<br />
a cena de que paredes</p>
<p>perambulam igual a procura<br />
da palavra: rascunho a punho</p>
<p>madrugada afora,<br />
em silêncio sem vertigem.</p>
<p>Encorpam-se então<br />
no que da vida se ausenta;<br />
no traço magro do verso,<br />
o desterro onde encerrar<br />
um cadáver que te quero<br />
longe, amor, engendram:</p>
<p>de resto são corpo<br />
aberto em seu fim.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p>Sem querer conscientemente, reescrevi em <em>Poema que não será de amor </em>aquele que era o meu primeiro poema:</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p><strong>(Perícope)</strong></p>
<p>Como um fotógrafo,<br />
Contornar-te-ei,</p>
<p>Coisa amorfa num<br />
Espaço em transe.</p>
<p>Não resistes à palavra,<br />
Exista esse tenso limite</p>
<p>— Sem que te vejas parar.<br />
Minha poesia é um corpo</p>
<p>Oco: sem que o sintas<br />
<span style="color: #ffffff">………………………………..</span>ei-lo a ti<br />
<span style="color: #ffffff">……………………………………………….</span>(és feito um peito)</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p>Por um lado gostei do <em>Poema que não será de amor</em>, arrisco até dizer que é o melhor de todos os poemas que escrevi. Por outro, é estranho essa quase <em>reescrita</em> do primeiro poema, essa semelhança, essa volta a um princípio depois de tanto tempo. Ou o que seria pior: a retomada da mesma promessa que se fazia no <em>(Perícope)</em>, embora de alguma forma tenha sido renovada no <em>Poema que não será de amor</em>. Por mais chegar a isto fosse o que eu queria a princípio.</p>
<p>Mas a favor dele, existe uma problematização que não é resolvida. O <em>que não será de amor</em> tem uma descrição do processo de escrita, sob a vista da tese de que o poema que nele vai se escrevendo não será sobre amor. Como disse, ele não se resolve, mesmo que tente definir &#8220;de resto [os poemas] são corpo/ aberto em seu fim&#8221;, que ao mesmo tempo afirma e nega o resto do poema. E esse poema que se escreveu, além de não ser sobre amor, é sobre o quê?</p>
<p>Já no (Perícope) tudo é resolvido: o poema está como uma mera fantasia, um corpo cujo coração baterá se o leitor o fizer. Aliás, para saber, &#8220;perícope&#8221; é o recorte de um texto geralmente religioso ou literário usado para fins de pregação ou análise e que consegue se remeter ao seu todo. O objetivo era que o poema &#8220;recortasse&#8221; o que nele próprio era &#8220;oco&#8221; (ou seja, algo nele mesmo vazio), mostrando/pedindo que o leitor devesse dar sentido ao que não tinha e explicitando em seu verso o traço do recorte, por onde se fez o recorte. Mas isso acaba ficando meio que sem sentido&#8230;</p>
<p>Além disso, é como se o <em>Poema que não será de amor</em> demonstrasse que aquele projeto inicial chegou a algum ponto que eu planejava. O <em>que não será de amor</em>, menos de uns e mais de outros, tem um pouco de todos os meus poemas. É quase uma síntese, tanto dos poemas quanto do processo de escrita.</p>
<p>Mas a precaução acima continuará valendo.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>A crua poesia de Cazuza</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Apr 2009 17:50:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cazuza]]></category>

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		<description><![CDATA[Em tempos de música brasileira tão ruim quanto foram os anos 80, Cazuza é um alento. Poderiam contra-argumentar citando projetos interessantes como o do Grupo Rumo ou o de Arrigo Barnabé, entretanto o alcance destes é muito, muito restrito; ou ainda, na esfera do rock nacional, o de Lobão, que foi parceiro do próprio Cazuza [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Em tempos de música brasileira tão ruim quanto foram os anos 80, Cazuza é um alento. Poderiam contra-argumentar citando projetos interessantes como o do Grupo Rumo ou o de Arrigo Barnabé, entretanto o alcance destes é muito, muito restrito; ou ainda, na esfera do rock nacional, o de Lobão, que foi parceiro do próprio Cazuza e chegou a ser gravado por João Gilberto. Na verdade, Lobão e Cazuza foram o máximo que a música pop brasileira dos anos 80 pôde alcançar. Mais interessante que o Lobão, fiquemos com o Cazuza.</p>
<p>É indissociável em Cazuza o artista e a sua vida, que bem ou mal conhecemos pelo filme <em>Cazuza &#8211; o tempo não pára</em>. O garoto e o adulto mimados, o porra-louca, o maconheiro, o poeta, o cínico, o sincero, o sem limites: tudo está representado no filme (muito embora sua vida com o Ney Matogrosso e outras <em>promiscuidades</em> sejam encobertas). Falo de sua vida porque nós, que só a conhecemos através do filme e de mitos, ou ainda de um livro que sequer folheei, facilmente identificamos na sua poesia alguém que não se furta ao que ele realmente era, ou melhor, não se furta a expressar-se como via e vivia, se via e se vivia. Desde o cara que se derramava com uma <em>Down em mim</em> ao que se embananava ao fazer crítica social, como em <em>Burguesia</em>. Mesmo clichês odiáveis algumas vezes se salvam em Cazuza, porque ele tem um quê que lhes dá algo de forte, intenso.</p>
<p>Enquanto bandas como Legião Urbana ou Engenheiros do Hawaii (esta, a banda campeã em citar nomes de livros-cabeça!) buscavam uma canção profunda e &#8211; pasmem! &#8211; filosófica, e outros artistas aderiam às piores estéticas possíveis (quando não os dois), sempre se esbarrando em inocências pueris (sobre os anos 80, há a excelente música <em><a href="http://b.radio.musica.uol.com.br/radio/index.php?ad=on&amp;ref=Musica&amp;busca=os+outros+rom%E2nticos&amp;param1=homebusca&amp;q=os+outros+rom%E2nticos&amp;check=musica&amp;x=0&amp;y=0">Os outros românticos</a></em>, de Caetano Veloso), Cazuza parece ter encontrado uma &#8220;estranhas forma&#8221; que lhe garantiu as melhores canções dentre os músicos de sua geração. (A sua melhor certamente é <em>Só as mães são felizes</em>.)</p>
<p>A música dos anos 80 revela um problema grave do Brasil: a necessidade de ser político, lutando &#8220;contra o sistema&#8221;, contra &#8220;eles&#8221;; quando na verdade essa luta não passava de mais um produto da indústria cultural. Filho mimado da classe média, esses anos 80 apenas refletiam a alienação que era quase geral e que com os anos 90 só viria a se comprovar; assim, repetiam-se clichês sobre clichês, que entre os próprios  músicos eram redescobertos e ditos como se fossem novidade. Não que Cazuza não sofra deste e de outros &#8220;males de anos 80&#8243;. </p>
<p>Salva é que a Cazuza as coisas ao seu redor lhe eram estranhas, pois suas referências e influências não têm tanto um sentido <em>a priori;</em> tudo é a descoberta do sempre menino adolescente, que não evita ser o que é; ele incorpora o mundo que está ao seu redor e o expressa em sua música (que é sempre sincera, mesmo quando há cinismo), como percebe e vai descobrindo. Se era restrito o mundo dele, e talvez até o soubesse, tentava desvendar esse limite com uma intensidade que é uma de suas melhores armas, como já disse. Cazuza adere ao mundo, que para ele é <em>pirado</em>. Ele, portanto, tinha tudo para se expressar naquela mesma forma inocente que seus contemporâneos de geração. Mas a sua forma de aderir não é tão simples.</p>
<p>Em sua &#8220;estranha forma&#8221;, Cazuza também tinha uma expressão &#8220;cruel&#8221;. Estranha porque, como dizíamos, a sua expressão era a de quem se via ante o diferente e a partir deste passava a se ver (não raro ele próprio era o diferente para si); e este estranhamento não nos chegou apurado ou lapidado: Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes. As suas canções, parecem,  iam-se compondo sozinhas: o primeiro verso corresponde à primeira idéia, o segundo é o seu desenvolvimento e assim ia até julgar que tivesse ficado bom. E o bom era aquilo que correspondia ao que lhe emocionava. Até por isso, é incontável o tanto de canções suas que são muito ruins; mas ao mesmo tempo isso expressa com vigor, pelo menos a quem goste do menino, o que ele era.</p>
<p>Em sua trajetória, tecnicamente Cazuza não evolui nem involui. Aliás, a técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque <em>vive</em>. E tem uma sensibilidade muito exacerbada que também à própria poesia se vê limitada, e por isso tem de ser explicitada, com alarde para ser notado. Cazuza quer chamar a atenção para si. Em geral, a mesma coisa é dita sob diversas perspectivas em uma canção. Até por isso que em muitas canções ele mais parece falar do que cantar. E assim votamos ao que há de tão cru nele.</p>
<p>***</p>
<p>Não escutei Cazuza para escrever este post, embora ele estivesse tocando no iTunes. Foi tudo meio que de cabeça. Virei noite e este texto é meu passatempo sonâmbulo.</p>
<p><strong>Meu Top Five Cazuza</strong> (não necessariamente nesta ordem): <em>Só as mães são felizes, Down em mim, Quase um segundo </em>(Hebert Vianna)<em>, </em><em>Faz parte do meu show</em> e <em>Todo amor que houver nessa vida</em>.</p>
]]></content:encoded>
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		<title>Poemas cariocas</title>
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		<pubDate>Wed, 29 Apr 2009 08:46:44 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poemas]]></category>

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		<description><![CDATA[São poemas cariocas só porque os escrevi no Rio de Janeiro, neste feriado da semana santa.
Poema sonâmbulo
Para Fabiano Calixto
As lojas as pessoas muros
ficam tudo é estanque
da partida ao destino
a janela é um sonífero 
o ônibus na volta
ninguém vem em pé
uma senhora muito gorda 
espera dois assentos
sentar-se não lhe alegra
a boca que é um parêntese 
ontem um rascunho uns versos
te [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>São poemas cariocas só porque os escrevi no Rio de Janeiro, neste feriado da semana santa.</p>
<p><strong><span lang="EN-US">Poema sonâmbulo</span></strong></p>
<p><span><em>Para Fabiano Calixto</em></span></p>
<p>As lojas as pessoas muros<br />
ficam tudo é estanque<br />
da partida ao destino<br />
a janela é um sonífero <br />
o ônibus na volta<br />
ninguém vem em pé<br />
uma senhora muito gorda <br />
espera dois assentos<br />
sentar-se não lhe alegra<br />
a boca que é um parêntese <br />
ontem um rascunho uns versos<br />
te renderam e não há<br />
desculpa nem uma nova idéia<br />
me bastava escrever um poema<br />
como a lenda moçambicana<br />
a terra anda quando se sonha <br />
em São Paulo gente<br />
nenhuma vive sem insônia<br />
nem se atenta mas se espanta.</p>
<p><span lang="EN-US">*<em> </em></span></p>
<p><span><strong>Poema à beira da loucura</strong></span></p>
<p>Este poema procura<br />
tornar-se livre<br />
rimbaudianamente<br />
Ir-se na torrente<br />
que ao poeta escape<br />
e do papel se rapte<br />
Lembra o potencial<br />
louco na fronteira<br />
de não voltar a não sê-lo<br />
Segura-se por um fio<br />
que é a rédea do poema<br />
e pode acabá-lo</p>
<p>*</p>
<div>
<p><strong>Poema autopunitivo</strong></p>
<p>Quanto mais distante<br />
mais o seu princípio<br />
lhe dava as caras.<br />
Pune-se explicitando<br />
que antes já era clara<br />
a sua punição.<br />
O que se opta então<br />
é só passar de<br />
um a outro verso.<br />
Redima a redundância,<br />
sua punição<br />
de apenas se repetir.</p>
<p>*</p>
<p><strong>Poema fraturado</strong></p>
<p><span><span><em>Para Emmanuel Santhiago</em></span></span></p>
<p>O meu verso bonito<br />
soa falso e manca Ainda<br />
assim é bonito Mas se a minha<br />
palavra manca quando procura marchar<br />
como um poema bonito Forço então um poema<br />
não mais bonito Manco a fraturar-se pela própria marcha</p>
<p><span>*</span></p>
<p><strong>Escrevendo este poema</strong></p>
<p>Que o poema<br />
ainda revele<br />
o seu resvalo.<br />
Que se leve<br />
no fluxo das associações,<br />
assim como vivo.<br />
Cada dia não precise<br />
que o seu instante<br />
remeta-se à véspera.<br />
O apartamento de temporada<br />
que os lençóis desconheço<br />
há muito é o meu lar.</p></div>
]]></content:encoded>
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		<title>Ronaldo: a gorda franga dos gols de ouro</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/26/ronaldo-gorda-franga-gol-ouro/</link>
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		<pubDate>Mon, 27 Apr 2009 00:15:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Futebol]]></category>
		<category><![CDATA[Ronaldo]]></category>

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		<description><![CDATA[Copa de 1994, primeira a que assisti. Eu tinha meus sete anos. Brasil x Itália. Prorrogação de um jogo tenso. Estávamos na casa do meu tio Renato, a família reunida na sala, torcendo. Escutei que o ainda Ronaldinho entraria em campo e fiquei empolgado, como se ele fosse entrar para decidir o jogo. Eu só [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft size-full wp-image-147" src="http://breviario.org/perambulagens/files/2009/04/ronaldo.jpg" alt="ronaldo" width="160" height="284" />Copa de 1994, primeira a que assisti. Eu tinha meus sete anos. Brasil x Itália. Prorrogação de um jogo tenso. Estávamos na casa do meu tio Renato, a família reunida na sala, torcendo. Escutei que o ainda Ronaldinho entraria em campo e fiquei empolgado, como se ele fosse entrar para decidir o jogo. Eu só queria ver o Ronaldinho entrar e marcar o gol do título. Não entendia a complexidade do que acontecia naquele dia e o que tempos depois isso me significaria. Ainda mais quando Baggio chutou para fora e o Brasil, depois de décadas de jejum, consagrava-se tetra. O primeiro tetracampeão. Não entrou. Mas para minha memória, esta é a mas longínqua referência ao hoje Ronaldo.</p>
<p>Depois, há muitas. Muitos gols do Ronaldinho e outros tantos do Ronaldo. Aquelas arrancadas do meio de campo quando ele jogava pelo Barcelona. O melhor do mundo. Ronaldinho e Romário no ataque da seleção. Outra vez melhor do mundo. Uns podem ter feito seus mil gols, mas Ronaldo para mim será sempre o jogador que mais gostei de ver jogar. Cresci vendo-o despontar no futebol. Aquele francês que zidane, com o perdão do trocadilho. Houve as graves contusões querendo afastá-lo para sempre do futebol. E a Copa de 2002, em que ele ressurge como uma fênix.</p>
<p>Para meu desespero, Ronaldo agora joga pelo Corinthians. Talvez desde Zico, melhor jogador que ele não jogava em um time do Brasil. Mesmo são-paulino, e longe de virar a casaca como fizeram tantos por aí, rendo-me à gorda franga dos gols de ouro. O que posso eu fazer?</p>
<p>Hoje, é claro que assisti à final do Paulistinha. Santos x Corinthians. Ronaldo já tinha marcado contra o Palmeiras e o meu São Paulo. Hoje, mais dois gols do gordo. Chutou três vezes ao gol, marcou duas. A única forma de um time impedi-lo de fazer gol é não deixar que a bola chuegue aos seus pés. O último de hoje, gol de craque. E que tirou do Santos qualquer esperança de ser campeão paulista: primeiro, porque o placar foi 3&#215;1; depois, porque o mito estará no segundo jogo da final. É a prova de que o futebol brasileiro tem de ser jogado, como diria o professor Zé Miguel Wisnik, com poesia.</p>
<p>Nas entrevistas depois de cada jogo, Ronaldo tenta parecer modesto mas não consegue esconder que é um gênio com a bola nos pés. Sabia que hoje tinha marcado um gol digno do Rei Pelé, na Vila Belmiro do triste Santos do meu pai, do Wisnik e de tantos outros sofredores. O próprio Pelé viu o golaço, disse que era &#8220;gol de rei&#8221; e deixou a Vila. O dia era do Ronaldo. Sua primeira final desde a Copa de 2002. Fosse o Corinthians um time melhor, ainda assim o Fenômeno teria ganhado sozinho o Campeonato Paulista.</p>
<p>Mas tomara que os técnicos e cartolas brasileiros (hey Muricy!) voltem a perceber que um simples lance de pés dá um verdadeiro nó tático no time adversário. O Muricy Ramalho nunca será um grande técnico porque em seu time Ronaldo jogaria na retranca. Gosto do Mano Menezes porque ele sempre soube disso e dá ao jogador, ainda que não seja nenhum craque, a oportunidade de desequilibrar. Sabe que uns têm um breve lampejo do que o Ronaldo sempre é.</p>
<p>Qualquer que seja o tempo de permanência de Ronaldo no Brasil, ele será lembrado como um fantasma por qualquer zagueiro. Seus gols serão um intervalo em tempos de futebol feio. Ou uma luz para que brasileiro volte a jogar o seu futebol.</p>
<p>São-paulinos, palmeirenses, santistas, flamenguistas, tricolores, colorados, rubro-negros, botafoguenses, atleticanos, cruzeirenses, paranistas, coritibanos, alvirrubros, juventudistas, esmeraldinos e avaianos, tremei: a gorda franga dos gols de ouro vem aí e o bicho vai pegar.</p>
]]></content:encoded>
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		</item>
		<item>
		<title>Zii e Zie, mas também sobre o Cê</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/22/zii-e-zie/</link>
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		<pubDate>Wed, 22 Apr 2009 22:35:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
				<category><![CDATA[Caetano Veloso]]></category>
		<category><![CDATA[Zii e Zie]]></category>

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		<description><![CDATA[Zii e Zie, o novo disco do Caetano Veloso com a Banda Cê, parece ser uma despedida inevitável do cantor e a banda formada por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Mas não que isso seja ruim; pelo contrário: é uma das grandes qualidades do disco à primeira ouvida, ainda mais se considerando [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Zii e Zie, o novo disco do Caetano Veloso com a Banda Cê, parece ser uma despedida inevitável do cantor e a banda formada por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Mas não que isso seja ruim; pelo contrário: é uma das grandes qualidades do disco à primeira ouvida, ainda mais se considerando a obra de Caetano como um todo.  Eis a minha primeira impressão ao sentar para ouvi-lo. Não imaginava que ele desse uma continuação ao seu projeto anterior do Cê, a não ser quando vi seu blog. É um disco de separação. Dele e da banda, certamente. Uma separação do que é São Paulo e do que é Rio de Janeiro. Separação, talvez, do Caetano e alguns temas que o perseguiram direta ou indiretamente desde o Circuladô. Desde Circuladô até o Cê, Caetano Veloso fez balanço de sua vida, sua música, seus temas. Zii e Zie, agora, quer um descolamento do disco anterior e também avalia todo esse processo. Também tem bastante de Lobão, principalmente o de Canções dentro da noite escura, se é que meus ouvidos não são tão ruins assim.</p>
<p>O Cê é um dos discos mais surpreendentes de Caetano (até a crítica o elogia bastante), porque naquela altura de sua carreira a última coisa que se esperava era ele fazendo rock. Também é um disco melancólico. Há um homem que se vê velho mas não quer sê-lo, é um Caetano bem diferente dos outros que  ele já foi. Disfarça-se na carapuça do rock, no exagero de gritos e metais. Consciente, ele se insere nessa música vendo-se velho e tendo visto o rock nascer e crescer. Precisa expressar que é e não é um velho. No Cê houve um encontro perfeito entre um homem velho e uma banda de rock formada por gente de “uns 25 anos”. Pois com sua experiência (tanto artística quanto na vida) ele pôde levar a uma radicalização muito interessante a linguagem do rock contemporâneo e a do próprio Caetano.</p>
<p>Cê, que é um disco roxo tanto em sua capa quanto na sua forma, não renova a linguagem desse rock anos 00 mas sim revela o quanto ele tem de cafona e outras coisas que tem. E se não tanto cafona, pelo menos explicita o quanto é estranho um mano Caetano, sexagenário, fazer um disco que é de rock. Ele não esconde isso. São também diálogos inevitáveis para mim os com Los Hermanos (que eu apenas intuo, mas não identifico referências diretas) e com o que se fez daqueles que já foram rock stars, como um Mick Jagger da vida. Não me refiro a uma personalidade especificamente, mas o que se tornaram esses rock stars depois que o “rock errou” e o seu tempo já ficou marcado na história. Eles, jovens e inovadores na época áurea, envelheceram. Caetano também envelheceu. Mas para demonstrar que musicalmente não envelheceu, e se manter coerente sendo Caetano, é que talvez esse disco lhe sirva bem.</p>
<p>As duas músicas que eu mais gosto no Cê são Rocks e Eu não me arrependo.  A primeira é a mais emblemática e que melhor representa o disco (esta palavra ainda entra em desuso, melhor seria “álbum”).  Trata-se de uma situação totalmente brega: uma mulher que tatuou um Ganesha na coxa e saiu por aí exigindo “rocks” e um cara que é apaixonado por ela, que passa a música cantando sua dor de cotovelo, reclamando que ela foi “rata comigo demais” (na verdade, sempre que eu escuto acho que a “mulher que tatuou o Ganesha na coxa” é descrição do próprio “cara” que canta com sinceridade a dor de cotovelo dele &#8211;  e em Caetano essa leitura é plausível). Caetano canta de uma forma que finge soar séria, mas é pastiche; a banda o acompanha bem num rock caricatural. Caricatural como é todo o disco, aliás. Mas nada que soe inocente, como já disse: é um disco da maturidade de Caetano Veloso. Já Eu não me arrependo é o contrario disso, uma singela balada. A única canção do Cê que se possa dizer “limpa” e que de alguma forma se pretenda mais séria e funcione longe do contexto do álbum. É a história dele com Paula Lavigne, com uma indeterminação do que há de particular, assim como em Itapuã (Circulado, 1991), que por sua vez fazia referências a Dedé, sua primeira esposa. E se não são duas músicas que falam de ex-mulheres, puts, estou muito enganado então.</p>
<p>Enquanto o Cê é rock ao extremo, e com todas as suas peculiaridades, Zii e Zie faz a mesma banda tocar uma mistura de samba com rock que não é “sambarock”.  Diz Caetano que é um disco feito no Rio mas pensando em São Paulo. Ele queria ter lançado o disco em Sampa mas será no Rio o primeiro show. “Zii e Zie”, que é italiano, significa em português “tio e tia”. Acho um nome feio pra caramba, mas é uma maneira engraçada de fazer sua referência inusitada a São Paulo. Ele já falou em entrevista recente que gosta desse jeito brega/deselegante de São Paulo (sobretudo aquela ponte espraiada, árvore de natal de novo rico) e já cantou a “deselegância discreta de suas meninas”. Em Zii e Zie acalma-se a rebeldia que havia no disco anterior. Quer dizer, as letras no geral são mais leves, mesmo quando se trata de problemas sociais: ou o do menino que entra para o tráfico (“Perdeu”) ou o da menina do Leblon que usa drogas ( “Falso Leblon”). Mesmo sua resposta à música Para o mano Caetano, que Lobão gravou em 2001, não traz propriamente uma resposta mas “aproveita a oportunidade” para exaltar o velho lobo. A música  <em>Lobão tem razão</em> emula as imagens exageradas, pretensiosas, confusas e às vezes belas do velho lobo e não revida nenhuma crítica que o mano Caetano recebeu. Mas isso retoricamente, claro, deixa o outro com a responsabilidade de ter razão. Assim, Caetano canta: &#8220;Lobão tem razão&#8221;. Ironia sim, mas não agressiva. É como se com o Zii e Zie Caetano Veloso dissesse que, apesar de motivos para o contrário, ele está dócil. Enfim, Zii e Zie é um disco dócil num ambiente que não o pede.</p>
<p>Mas Caetano eu nunca escuto em uma sentada só. Gosto de escutá-lo exaustivamente mas sem muita atenção, quando estou trabalhando. E daí ir identificando coisas que me chamam a atenção. Num processo que às vezes dura meses para eu parar e  sentar para escutar de verdade o disco (com meu ouvido pouco musical, diga-se). Aí sim eu conheço um pouco melhor o disco. Este post é também para eu de alguma forma registrar a minha apreciação ligeira de um disco novo do Caetano. E como faria disso um post, o que eu inclusive já havia tentado com outros discos. Mas esse quis sair, e nunca é bom recalcar um comentário sobre o Caetano. Devia ter dito isso no começo, mas não que faça diferença. Por isso está tudo embaralhado, disperso e sem um fio condutor que se possa exigir de alguém que saiba falar de música – pessoa essa que não sou, mas realmente não importa.</p>
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