In Passim (Bruno Tolentino)

Postado em February 26, 2010
Categoria Poesia, Uncategorized | 8 comentários

In passim

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

(Bruno Tolentino. O mundo como Ideia. Editora Globo: 2002)

***

Na falta do que postar, vai o meu poema preferido do Tolentino. É daqueles que, vez e outra, seus versos ressoam e eu vou lê-lo.

***

Convém ainda sair em defesa e ao mesmo tempo acusá-lo: Bruno Tolentino, mitômano ou não, é aquele poeta que via de regra encontra devoção ou repulsa, certamente muito menos por sua obra em si; essa paixão, para o bem ou para mal, parece que só está ligada ao tão conhecido sentimento de grupo, que divide opiniões e cria, cada qual ao seu modo, um certo politiquês que pretende julgar a poesia deste e de outros coitados poetas. (Afinal, isso não repete aquela estrutura de richa entre meninos e meninas de nossa tenra infância?) Depois de escolhido um grupo, justifica-se a crítica com o sistema político-estético-filosófico-etc, tolo embora difícil, que lhe ensinaram os superiores. E daí? se nunca entra em cena a poesia do sujeito. Poeta de versos cristalinos e cheio de elementos grotescos, atualizador de imagens da tradição literária recente, crente de uma certa ideia de Eterno (parece que sublima seu tempo presente, sem deixar de senti-lo), de expressão turva, borrificada e bela, Bruno Tolentino deve ser lido. Lido e só.

Comentários

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8 Comentários »

2010-02-28 20:32:44

Li a entrevista que ele deu para a Veja, que o Emmanuel linkou. Achei escroto, ainda mais porque é quase interessante. Mas no fim das contas ele é tão sem noção quanto os poetinhas fefelechentos comunistas, só que em outra chave. Como é que o Rômulo falava? “Fútil às avessas.” Como assim “música popular não é cultura, é entretenimento”, cara? Eu, hein…

E esse sonetinho aí também é mó meia-boca, manja. Falo mermo.

Diego
2010-02-28 20:41:21

Lorena,

Ele é meio sem noção, não digo que não. Eu pelo menos acho engraçadíssima a entrevista da Veja. O Tolentino é que nem um Lobão, quer ser polêmico como o Caetano, ainda que tenha (bem) menos graça.

Mas isso não tira sua qualidade, ele tem um punhado de bons poemas e também fez uma tradução excelente da Máquina do Mundo para o inglês (é, claro, o que diz o meu parco inglês):

http://books.google.com.br/books?id=hok7LrNWzv0C&pg=PA167&lpg=PA167&dq=bruno+tolentino+machine+world&source=bl&ots=kEApxcDIbM&sig=Z-x_laE4h8Rxeneqe4BiDNtpbqI&hl=pt-BR&ei=qf6KS5DsGIWluAerh_2ADA&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=1&ved=0CAYQ6AEwAA#v=onepage&q=&f=false

 
 
2010-03-01 22:33:30

Seria engraçado se não fosse sério.

(Ou eu que ando neurótica demais.)

 
2010-03-03 19:51:07

“Lido e só”? Quem interditou a poesia dele às críticas? Poeta nenhum “deve” ser “lido e só”, se estamos tomando o verbo “dever” em seu sentido forte. Quem lê faz o que quiser com o que leu, inclusive submetê-lo a uma análise política-ideológica, se assim for de sua preferência. É como dizer que a poesia de fulano não é para ser entendida, mas sentida, e outros clichês impressionistas do tipo.

Diego
2010-03-13 17:28:16

“Ler” não exclui a leitura sob um ponto de vista de crítica literária. Aliás, idealmente o crítico é a pessoa que lê profissionalmente, escreve sobre isso, fazendo, digamos assim, uma triagem do joio e do trigo literários.

Pois bem, “ler e só”, dentro do contexto, é para ler sem o preconceito da visão política, como se só existissem poetas bons de esquerda ou o Tolentino, por ser talvez o melhor poeta da gangue da direita, se transformasse assim no maior poeta de que se tem notícia no Brasil… Fui num evento dedicado ao Tolentino há uns dois anos e era exatamente assim que o tratavam!

Por isso disse “ler e só”, que é não submeter a qualidade estética à opinião política. Ainda que chegue uma hora que o que se tem por ‘estética’ seja também político. Enfim..

Abs

Emmanuel
2010-04-01 15:59:08

Aí sim. “Ler e só” me pareceu uma outra coisa.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
Leonardo
2010-07-12 14:58:51

Falou bem. Esse mesmo poema, lido agora, soou ainda melhor pra mim do que quando o li pela primeira vez.

 
2011-05-02 12:35:19

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