Teoria do “Eu estava pensando…”

Postado em December 5, 2009
Categoria Teorias | 7 comentários

Eu estava pensando

“Eu estava pensando”… Você certamente já ouviu essa expressão em diversas situações e quem sabe até mesmo já a tenha utilizado, mas o que talvez jamais tenha se dado conta é de que o seu uso, e ainda mais nos meios universitários e de nossa inteligenzia, indica que o usuário necessariamente irá, bem, como dizer? Enfim, ao que se falará após sua introdução é sempre bem-vinda a já clássica forma de singela e sabiamente intrometer-se – e, o mais importante, interromper o discurso alheio -, que o Professor Gilmar fez ficar famosa: “aluno, você está defecando pela boca”.

Fruto de uma observação obsessiva primeiramente nas salas de aula, esta minha teoria, que apesar de bastante simples, veio ao longo dos anos ganhando repertório e intensificando-se como valor de verdade. Hoje eu posso dizer, sem a menor sombra de dúvida, que é a mais pura verdade a Teoria do “Eu estava pensando”, que consiste em: quando alguma pessoa, homem ou mulher, começa uma fala ou um texto com a expressão “eu estava pensando”, ou mesmo a utiliza para introduzir, referenciar-se a ou referendar um tópico conversacional, é porque irá excretar pela boca, isto é, falar uma coisa estapafúrdia e completamente sem sentido.

Mas uma teoria precisa de provas e bons argumentos, apesar de tudo isso me parecer completa e facilmente verificável por qualquer leitor provido de bom senso. Mas não, não me furto a um debate profundo e sério sobre a Teoria do “Eu estava pensando”, que agora público em forma de post, ao contrário do que desejam meus inimigos, conhecidos ou não, que primam tanto por revelar seus dotes filosóficos ao início de qualquer fala.

Pois bem. Ontem eu e duas amigas fomos a um encontro internacional sobre Dostoiévski que ocorreu esta semana em São Paulo; só fiquei sabendo de última hora e mesmo não sendo o maior entusiasta de eventos do tipo, acompanhei de muito bom grado as minhas ilustres amigas. O tema do debate era “Dostoiévski e a Cultura Contemporânea”, o qual também encerrava o evento. É claro que não podia faltar à mesa um pós-moderno. “Aí vem, aí vem”, impacienta-se a plateia.

Depois da fala de uma senhora muito simpática, apresentou-se-nos uma também professora da USP que discorreria sobre uma peça contemporânea chamada Dostoievski trip, em que, resumidamente, viciados tomavam drogas que tinham nomes de escritores e no final tinham uma overdose com a recém-inventada “Dostoiévski”, ao que o traficante e o químico responsável concluíram ser necessário diluí-la com a “Stephen King”. Ainda que minimamente interessante a tal peça, é claro que como boa pós-modernista (meu grilo é com os pós-modernistas e não necessariamente com suas teorias, deixo claro) ela não falou nada sobre Dostoiévski e em sua apresentação alongava-se no debate da afirmação pela negação, do simulacro do eu, do vazio, dando voltas e mais voltas, saindo do nada e indo a lugar nenhum. Detalhe: ela começara sua intervenção mais ou menos assim: “Eu estava pensando… em como preparar algo que ao mesmo tempo considerasse o evento como um todo, afinal esta seria a última mesa, e pudesse trazer para vocês conclusões de minhas pesquisas”. Já no final da fala dela, impaciente o sr. Frank Castorf fez no intervalo de uns cinco minutos dois “cof-cof” geniais.

A seguir, sendo a sua vez de falar, ele deixou muito claro que achava que pós-modernismo é coisa de classe média burra e, depois, numa das respostas às perguntas feitas pelo público concluiu que crítica pós-modernista era como assistir televisão: você vai mudando de canal até encontrar o que deseja assistir, na medida em que essa crítica também retira do texto não o que ele diz e sim o que previamente já se procurava (mas, convenhamos, isso é válido para quase tudo o que versa sobre Literatura). Ele foi o melhor da mesa, e não só por causa de sua humilde acidez (para colocar os pingos nos is, ele simplesmente falou de Dostoiévski e ponto final.)

Pode estar parecendo que eu estou fugindo ao tópico e que, pelo uso de uma falsa modéstia, só queira posicionar-me como bom intelectual que vai a eventos literários e é crítico em relação aos mesmos. Todavia, faz-se mister trazer à luz esta noite porque foi muito significativa para a consolidação da Teoria do “Eu estava pensando…”. Não bastasse um exemplo tão vertiginoso para mim como o de nossa pós-modernosa, na última pergunta feita pelo público (e que se dirigia a ela – atentem-se à simetria deste ato!) uma moça, para o meu completo deleite, começou: “Eu estava pensando…”

Pára o mundo que eu quero descer! Apesar de saber que ali merda viria, eu senti aquela ponta de satisfação, dada em forma de prazer estético, de revelação final. Só podia ser um sinal, um indício de que até mesmo Deus, Ele próprio!, compactuava com a minha teoria e queria fazer de mim um instrumento de sua divulgação.

E ela continuou, murmurando alguma coisa sobre ética, o Grande Inquisidor, dando voltas e mais voltas, porque afinal ela tinha pensado em ética em Dostoiévski, e enfim interrompeu a si mesma com aquele tom interrogativo de quem semeava a discussão, melhor, o enfim debate inteligente. Só faltava mesmo a nossa pós-tudo compactuar novamente do “eu estava pensando” e repeti-lo, mas aí já seria demais, de tal modo tão exagerado que nenhum de meus leitores acreditaria em mim e tirar-se-ia o teor de revelação que há em minha Teoria do “Eu estava pensando…”.

Comentem vossas experiências com o “Eu estava pensando…”.

Comentários

RSS feed | Trackback URI

7 Comentários »

2009-12-07 19:04:54

Você fez esse texto com objetivos adsensianos, pode falar. As negritagens não negam.

2009-12-07 23:37:10

O vício do cachimbo deixa a boca torta, you know.

 
 
2009-12-07 22:51:52

Fala logo que você foi na Casa do Saber.
Em tempo: que os pós-modernistas sejam engolidos por seus malditos simulacros. Eu ainda vou criar a camiseta “Eu odeio Baudrillard” com o desenho de um poodle. Quem viver verá.

2009-12-07 23:39:27

Pior que nem foi, visse? Foi lá no CCBB.

Mas não é que esta seria uma camisa puuuta pós-moderna, meu. Isso que é unir forma e conteúdo, demonstrando o simulacro do eu no mundo capitalista.

Carlos Soares
2009-12-17 10:29:24

Eu trabalho para a AABB (somos a parte atlética do BB, assim como o CCBB é a parte… a parte…, bem, lá tem aqueles debates em que tu fostes).
Não sei se tu conhece o Luis Felipe Pondé. Volta e meia ele tá no Café Filosófico. Foi até curador de uma das séries de lá. A despeito do fato d’ele também fumar cachimbo – assim como meu amigo estudante de lógica da linguagem e o seu mestre Frege -, recentemente li um texto dele falando sobre o tema de teu post: de como esses sintagmas (se é que é isso mesmo) acabam se tornando conformantes de enunciações totalmente sem validade alguma.
Vou tentar achar o link e deixo aqui depois.

Ah, quanto ao Baudrillard, bem, quando eu era pequeno minha mãe dizia sempre para eu tomar cuidado quando fosse fechar o zíper das minhas calças jeans. Acho que o Baudrillard não quis escutar a mãe dele.

Até mais ler e abraços.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
Lorena
Diego
2009-12-17 22:14:49

Foda a comunidade!

 
 
Nome (obrigatório)
E-mail (obrigatório - não será publicado)
URI
Seu Comentário
Você pode usar <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong> em seu comentário.