E que o Flamengo seja o grande campeão do Campeonato Brasileiro de 2009 contra a vergonhosa muricylização do futebol

Postado em November 29, 2009
Categoria Futebol | 7 comentários

Começo a escrever este texto ainda nos últimos minutos dos jogos de domingo, que aconteceram todos no mesmo horário. Para ser mais exato, justo no instante em que o Flamengo converte em gol um pênalti cuja cobrança fora interrompida por um torcedor que, se flamenguista, é tolo; se corintiano, só queria “aparecer”; ou sendo torcedor de qualquer outro time, o que dizer se não que se trata de um completo babaca?

Esta semana, li o texto de um jornalista que, embora blogueiro e paulistano, nutre pelo futebol a mesma paixão que os torcedores nordestinos. Também é capaz, justo com a sua serenidade em opiniões futebolísticas, de vertê-lo em algo místico tal qual fazem os cariocas, que são os maiores torcedores do Brasil. De nome Rica Perrone, embora dele discorde no que em geral tange a moral (porque dá claramente como resposta à Parada Gay uma Parada Hétero, e eu me pergunto por que ele não participa da Marcha por Jesus, que por sua vez, apesar da inocência evangélica, é algo claramente escroto), para mim é sem a menor sombra de dúvida o jornalista de Futebol mais certeiro em suas opiniões. Os outros, uns mais e outros menos, sofrem do mesmo Mal que o mestre Juca Kfouri: o paulistanismo politicamente correto que, aliás, já tem se infiltrado até mesmo nas redações cariocas.

Aos que se interessam por Futebol, dedico este parágrafo à análise impecável, feita pelo Rica Perrone, do que é hoje o São Paulo Futebol Clube a quem, embora seu torcedor, rogue-lhe as piores pragas para que não se sagre campeão brasileiro. E que antes caia à Segundona (que já se tornou “Série B”, termo que falsamente buscam emprestar das Letras o seu próprio politicamente correto uns socialmente imbecis), para que renasça como uma fênix. Pareça exagero, mas pelo menos neste instante me vejo como um bom são-paulino – o que é raro entre essa raça de bambis. E antes que venham encher-me o saco os mal-informados e digam que agora é fácil dizê-lo, quem segue meu Twitter (ok que Twitter não seja parâmetro de forma nenhuma entre pessoas sensatas) sabe que estou torcendo pelo Flamengo, que tem jogado Futebol, há muitas rodadas. Portanto, leia o texto sobre o SPFC do Rica Perrone – ainda que para isso abra mão de continuar a leitura de meu próprio texto.

Estamos chegando à Última Rodada do Brasileirão. O São Paulo, até então líder, perdera o antepenúltimo jogo da competição para o Botafogo, hoje perdeu para o Goiás (com um goleada incrível assim como a vontade do tricolor de jogar futebol – embora já fosse tarde) e, com as vitórias de hoje do Palmeiras e do Inter, caiu para a quarta posição. É claro que eu fiquei feliz porque, como já vinha dizendo há tempos, entre os amigos e os bebuns que encontrava nos bares, não seria justo o SPFC tornar-se campeão novamente – mas ao mesmo tempo sentido, como é de se esperar de um torcedor. É ruim para a competitividade do futebol brasileiro, tal como é ruim no campo da política a unanimidade que o Lula tem e o Caetano criticou (bom ou mau o seu Governo, não importa), meu maior desgosto em relação ao São Paulo é que o seu futebol está para o Futebol assim como uma boneca inflável deve estar para o sexo (só falta mesmo encontrar-se tal objeto plástico em forma de bambi na casa de algum torcedor, são-paulino ou não, que, vejam só, ainda corre na boca pequena que viado é quem dá e não só quem come alguém do mesmo sexo que o seu).

O que parecia improvável, unicamente pela mão do destino não se concretizou: imaginem todos os times com sessenta e dois pontos na última rodada? Na verdade, agora quase todos do G4 estão com 62 pontos, mas a tabela inverteu-se drasticamente: (em ordem) Flamengo (o único com 64), Internacional, Palmeiras e São Paulo, que é o mais perto de perder a vaga da Libertadores para o Cruzeiro, que vem com toda a força. Neste instante, não é preciso o time mineiro enviar-me uma mala preta cheia de torresmos para que eu emita energias positivas pela sua vitória e a derrota do São Paulo. Faço-o com graça e responsabilidade futebolística.

O campeão brasileiro para mim já estava definido mais em minha razão do que em meu coração (afinal, inconscientemente eu vibro é com os gols do São Paulo): será o Flamengo, cujo pilar está no ex-jogador-novo-craque Pet, mas é Pet só para os íntimos. Por falar num dos poucos estrangeiros que deveriam ter vestido a camisa verde-e-amarela, no pouco que o vi jogar Petkovic  mostrou-se o grande craque do campeonato. Foram dois gols olímpicos, sendo um deles em pleno Mineirão contra o Atlético, além daquela linda arrancada sobre a zaga do Palmeiras em pleno Palestra. Mudando de assunto mas que sem isso deixe de me ater a ele, lembro de tê-lo visto desembarcar no aeroporto de Salvador em 1997, ao vivo pela televisão local, quando ele viria a defender a camisa do Vitória: em grande medida o seu futebol dostoievskiano, ao lado de Túlio (sim, o Maravilha), fez desse time execrável o campeão baiano do ano.

No Brasil a paixão em si pela camisa e pelo maior dos esportes deve estar acima de tudo, ou pelo menos de muitas das coisas, o que demonstra que o futebol é ainda um dos poucos espaços onde o romantismo é possível e, mais do que isso, a nota que rege o espetáculo. Apesar da camisa 43 (não se iludam os mais desavisados, não se trata de sua idade – ele tem 37 – mas sim do minuto em que fez o glorioso gol que deu ao Flamengo mais um título de Cariocas sobre o Vasco), Pet foi o grande maestro que, tendo Adriano e Andrade ao lado (o último sendo técnico e merecedor de muitos méritos), além de um time que por acaso pouco conheço (antes de atirarem uma pedra, comprem-me o PFC), justamente consagrará o Flamengo como grande campeão.

Na era dos pontos corridos, o título do Flamengo será muito significativo. Contra a corrente, quando tudo no Futebol parecia apontar para uma muricylização total, à qual se entregou mesmo um dos estandartes do Futebol-para-frente, falo de Wanderley Luxemburgo, o Mengão (ainda que me seja difícil chamá-lo assim, eu que inevitavelmente me tornei tricolor em todos os cantos, assim como na Bahia como em São Paulo, assim como no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro) chamará os holofotes para o fato de que é possível, numa época em que o futebol é business e resultado prático,  um time que, apesar de inevitáveis e ruins jogos como foram por exemplo aquele contra o Goiás, ainda jogar futebol. Nada além de Futebol.

E até mesmo se não há mais jogadores como um Pelé ou um Garrincha nem nunca mais haverá, com a grandeza de um Adriano e a genialidade de um Pet, que são bem mais jogadores que todo o elenco do São Paulo a viver sob a ditadura mais infeliz que pode haver no Futebol e que domina os meios corporativos, este Flamengo já é o melhor time do ano: campeão carioca, boa campanha na Copa do Brasil e mui provavelmente campeão brasileiro (. Rivalizaria com o Fluminense dos últimos dois meses e o Corinthians da gorda franga dos gols de ouro no primeiro semestre).

Digo isso tudo sobre o Brasileirão de 2009 com esperança, pois qualquer interessado por Futebol será capaz de ver que pelo menos desde o seu último jogo contra o Botafogo o São Paulo, este sempre previamente campeão, vem tentando jogar bola. Perdeu ambos os jogos, mas o futebol foi mais bonito e, pasmem, competitivo. Não fosse assim, arrancaria no máximo dois empates que de nada serviriam. Ainda mais com dois dos seus três últimos jogos fora de casa e a dificuldade inédita, tornou-se enfim indispensável nesta reta decisiva um futebol que vá para o ataque, defenda-se com raça, motive as peças novas que tem (mas o SPFC ainda as usa porcamente, e sem qualquer alusão consciente ao Palmeiras!) Tampouco vi os outros jogos desta rodada; na anterior, somente os de Flamengo e São Paulo.

Torço para que ano que vem novamente não se esqueça  a dimensão de um campeonato longo, tal como é o de pontos corridos, e faça-se de cada jogo uma espécie de final, mas não só os três últimos. Brincadeira, isso é impossível. E não será no Futebol –  esse delicioso ópio do povo – que se irá aprender a ter noção política sobre o passado de renovados candidatos a velhos cargos, porque se fala mais em política do que em futebol quando pedem que o brasileiro tenha memória! E, para além dos pontos corridos, eu sempre achei é que o Futebol Europeu é que deveria adequar o seu calendário ao do brasileiro. Seja como for (em tempo: o Flamengo está se adequando ao futebol brasileiro). Bom futebol é futebol brasileiro e fim de papo.

Mas se naquele instante em que comecei a escrever este texto a vitória de meu tricolor já era impossível, e apesar de ter me orgulhado enquanto são-paulino pois enfim tínhamos tentado jogar bola, obviamente não é de última hora que um time treinado para o resultado sem fome irá mudar de postura, ainda que por uma competitividade na reta final deste campeonato isso tenha se imposto – ressalto: imposto – necessário para um time que quisesse ser campeão. Alguma reação houve, isso é fato, mas como disse já era muito tarde. E o time com fome de ser campeão é o Flamengo, tanto que até mesmo o Adriano deve estar engajado junto com o time. E mesmo o Palmeiras, ainda que de última hora, correu atrás do prejuízo e apesar do Muricy, esse emblema do mau futebol no Brasil (mas não há de se reduzir o vencedor que ele fora no time do Morumbi), conseguiu ultrapassar o tricolor na tabela em boa goleada sobre o Atlético do sempre famigerado Celso Roth.

Atenção aos mais incautos: trata-se de um Campeonato com uma força que jamais se viu nos pontos corridos. Para citar caricaturalmente Hegel, o espírito imortal do Futebol brasileiro passará a encontrar-se com a era dos pontos corridos muito em breve. Não é fato consumado, mas fato insinuado, o que já é bom agouro entre nós. Torço mais que isso não seja falsa ilusão – tal os times que chegam ao topo e entregam os pontos – do que pelo título do meu próprio São Paulo. Lembrando a boa análise do Rica Perrone, e se isso tudo que eu tentei salientar não servir de lição aos cartolas, o SPFC poderá ano que vem ser hepta. Pois uma praga ronda o futebol e não é fácil eliminá-la. São-paulino e malandro que sou, é claro que ano que vem eu adoraria o hepta para nós. Desde que a conquista do mesmo não se assemelhasse,  nem remotamente, ao sujeito que se vangloriariasse de ter comido a tal boneca inflável. Mas, plasticofobismos de lado, esta é a hora de torcer para os piores adversários. Dá-lhe, Mengão, o nosso campeão.

Comentários

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7 Comentários »

2009-11-30 09:28:31

Saindo domingo que vem o título que irá presentear e fazer chorar toda uma geração que não viu o Flamengo campeão brasileiro, volto aqui para também breviarizar essa alegria. Por enquanto fico apenas com a mala e o peso dos anos armados nas costas, que cantar vitória antes da hora é coisa de outras gentes.

2009-11-30 11:58:30

Pois eis a vantagem de não ser flamenguista e estar torcendo pelo Flamengo: adianto ao Brasil o título do Flamengo.

 
 
Luciano
2009-11-30 09:35:02

JOGO DA VERGONHA…

FLAMENGO x GRÊMIO

DOMINGO – 06/12/2009

MARACANÃ

2009-12-01 00:48:45

Oras, Luciano, acaso és colorado?

 
2009-12-01 18:04:15

O jogo da vergonha já foi Corinthians x Flamengo, nem tanto por entregar dessa vez, mas pela merda que o Corinthians virou no segundo semestre. Se mantivesse os jogadores e jogasse sério, esse jogo podia ser valendo o título pra gambazada.

 
 
2009-12-10 14:18:57

[...] tradições e seus mitos, o futebol que se habituaram a cultivar. Ainda hoje, nos tempos do execrável pragmatismo muricyano, com reflexos até na Seleção Brasileira (depois, um comentário sobre ela), os clubes e torcidas [...]

 
2009-12-13 09:02:44

Prometi voltar e não voltei. Vou resumir, só pra deixar o relato.

Fui a inúmeros maracanãs na vida, cresci com ele sempre perto. Lá dentro vi de tudo, desde um Junior Baiano tirando as calça e jogando pra torcida após garantir a vitória de 1×0 sobre o Coritiba num Brasileiro lá pelos idos de 95, até um Clemer levar frangos homéricos, passando por Athirsons dopados correndo de um lado a outro do campo durante 90 minutos, passando por Pimentel, pior lateral direito que vi jogar, batendo a cabeça na trave pra consumar sua carreira de forma pelo menos engraçada, passando por jovens Petkovics colocando 1000 graus de curva na bola em destino da coruja adormecida e da glória etc etc.

Mais recentemente, vi nossa torcida brigar pau-a-pau com a do Fluminense pelo posto de mosaico mais belo da história. Participar deles, levantando a plaquinha na expectativa de olhar o telão e ver se está ficando bonito (alguns decepcionaram, lembram do 2016 que virou 201b?) é experiência única.

Mas nada como o maracanã que toda uma geração esperou: o maracanã do hexacampeonato, e desse aí já me esgotei as descrições e emoções antes mesmo de se passarem duas semanas e, principalmente, antes mesmo da ficha cair. Caiu inda não.

Nem sei se cai. Rumo ao hepta? Patrícia Amorim é o Obama do Flamengo. Márcio Braga o Bush. Nossa torcida é muito mal acostumada, deu o leite agora tem que ir a vaca inteira.

 
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