Poema que não será de amor
Postado em May 13, 2009
Categoria Poemas, Reflexão | 3 comentários
As pessoas às vezes não entendem que os poemas que venho escrevendo não valem propriamente pelo seu resultado poético. Antes, esses poemas devem ser lidos pela perspectiva do processo de escrevê-los, a procura de uma dicção própria e um caminho frutífero dentro da poesia contemporânea (não no sentido de se filiar a uma “escola”, e sim no de encontrar, como disse, um início de arte poética). Portanto, são um estudo prático da linguagem poética e seus efeitos, sob a perspectiva de poemas que um dia serão escritos. São uma oficina à mostra, o rascunho de uma obra em progesso. Claro, o que publico aqui no blog é uma pequena parte do todo.
Quem os ler cronologicamente perceberá que, desde os Três novos poemas a este de agora, passando pelos “Cariocas”, há uma evolução interna e de alguma forma coerente. “Evolução” sobretudo no sentido de se escrever avaliando o resultado anterior e, a partir dessa autocrítica, o desenvolvimento do novo poema. Comecei com um poema fechado, quadrado, teórico, “(Perícope)“, e pouco a pouco fui aplicando em novos poemas o que esse prometia e não existia no próprio poema – ainda que o resultado não fosse melhor. Mas claro que surgem novas dificuldades, temas, formas, idéias, influências, etc.
Talvez não fique claro para todos o que tento explicar e nem posso exigir isso de meu leitor. E se o digo, é porque sinto que meus poemas ainda precisam dessa precaução. Entretanto, cada vez mais os poemas recentes têm se desprendido desse projeto que impus à minha poesia. Leiam vocês mesmos:
Poema que não será de amor
Ao contrário de Não sobre o amor, peça de Felipe Hirsch
Sobre a escrivaninha,
ainda os poemas são
a cena de que paredes
perambulam igual a procura
da palavra: rascunho a punho
madrugada afora,
em silêncio sem vertigem.
Encorpam-se então
no que da vida se ausenta;
no traço magro do verso,
o desterro onde encerrar
um cadáver que te quero
longe, amor, engendram:
de resto são corpo
aberto em seu fim.
Sem querer conscientemente, reescrevi em Poema que não será de amor aquele que era o meu primeiro poema:
(Perícope)
Como um fotógrafo,
Contornar-te-ei,
Coisa amorfa num
Espaço em transe.
Não resistes à palavra,
Exista esse tenso limite
— Sem que te vejas parar.
Minha poesia é um corpo
Oco: sem que o sintas
………………………………..ei-lo a ti
……………………………………………….(és feito um peito)
Por um lado gostei do Poema que não será de amor, arrisco até dizer que é o melhor de todos os poemas que escrevi. Por outro, é estranho essa quase reescrita do primeiro poema, essa semelhança, essa volta a um princípio depois de tanto tempo. Ou o que seria pior: a retomada da mesma promessa que se fazia no (Perícope), embora de alguma forma tenha sido renovada no Poema que não será de amor. Por mais chegar a isto fosse o que eu queria a princípio.
Mas a favor dele, existe uma problematização que não é resolvida. O que não será de amor tem uma descrição do processo de escrita, sob a vista da tese de que o poema que nele vai se escrevendo não será sobre amor. Como disse, ele não se resolve, mesmo que tente definir “de resto [os poemas] são corpo/ aberto em seu fim”, que ao mesmo tempo afirma e nega o resto do poema. E esse poema que se escreveu, além de não ser sobre amor, é sobre o quê?
Já no (Perícope) tudo é resolvido: o poema está como uma mera fantasia, um corpo cujo coração baterá se o leitor o fizer. Aliás, para saber, “perícope” é o recorte de um texto geralmente religioso ou literário usado para fins de pregação ou análise e que consegue se remeter ao seu todo. O objetivo era que o poema “recortasse” o que nele próprio era “oco” (ou seja, algo nele mesmo vazio), mostrando/pedindo que o leitor devesse dar sentido ao que não tinha e explicitando em seu verso o traço do recorte, por onde se fez o recorte. Mas isso acaba ficando meio que sem sentido…
Além disso, é como se o Poema que não será de amor demonstrasse que aquele projeto inicial chegou a algum ponto que eu planejava. O que não será de amor, menos de uns e mais de outros, tem um pouco de todos os meus poemas. É quase uma síntese, tanto dos poemas quanto do processo de escrita.
Mas a precaução acima continuará valendo.
A questão não é deixar de compreender que os poemas não sejam poemas e sim estudos que buscam encontrar uma voz poética. O caso é que a apreciação estética não pode senão considerar os poemas, ainda que estudos, como poemas. Não há uma gradação entre exercício e poema pronto quando se pede uma avaliação – e o ato de publicá-los, ou mesmo entregá-los a uma pessoa, é implicitamente pedir uma avaliação, ainda que esta não necessariamente precise ser exposta. Em suma, todo exercício tornado público ou apresentado a alguém é em si uma realização, e não há que julgá-lo senão como uma realização. Essa “precaução” de expor como um exercício avizinha-se perigosamente de um pedido de condescendência com eventuais erros – o que não é recomendável.
D’acord avec Viná.
ronaldo