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	<title>Comments on: A crua poesia de Cazuza</title>
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		<title>By: Vinícius</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22981</link>
		<dc:creator>Vinícius</dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 May 2009 12:03:20 +0000</pubDate>
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		<description>Não quis causar essa impressão, apenas formulei diferentemente e, digamos, mais diretamente. É claro que é possível apreender de seu própio texto a mesma opinião que emiti - mas às vezes o momento passa despercebido e o que fica é a formulação mais objetiva. O que fiz foi ressaltar, não discordar em si.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Não quis causar essa impressão, apenas formulei diferentemente e, digamos, mais diretamente. É claro que é possível apreender de seu própio texto a mesma opinião que emiti &#8211; mas às vezes o momento passa despercebido e o que fica é a formulação mais objetiva. O que fiz foi ressaltar, não discordar em si.</p>
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		<title>By: Emmanuel</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22975</link>
		<dc:creator>Emmanuel</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 May 2009 14:14:33 +0000</pubDate>
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		<description>Quanto a &quot;La maison dieu&quot;, eu disse que achava interessante a &quot;atmosfera&quot; dela. Continuo gostando da densidade dessa atmosfera. Se isso se deve a um &quot;minimalismo grave&quot;, repetitivo, que seja. Gosto de minimalismos e de coisas repetitivas; de gravidade, nem sempre.

A letra realmente possui uma qualidade discutível (não diria &quot;indefensável&quot;, pois não estou muito certo disso), mas possui algum relevo histórico, a meu ver, por tocar em feridas abertas quando ainda nem se discutia publicamente a legitimidade da anistia que os militares concederam a si mesmos:

&quot;Eu sou a lembrança do terror/ De uma revolução de merda/ De generais e de um exército de merda/ Não, nunca poderemos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém&quot;.

Se quando foi lançada (o álbum é póstumo) poderia parecer uma canção de protesto retardatária feita em espírito punk, &quot;para chocar&quot;, revelou-se de algum modo visionária, e hoje, quando figuras importantes do governo querem reabrir a discussão sobre a anistia, como foi feito no Chile, ela ganhou uma atualidade imprevista. Essa música expressa um ressentimento histórico, um mal-estar com relação ao passado recente do Brasil, como nenhuma outra que conheço.

Sob esse ponto de vista, se o minimalismo grave e repetitivo, que cria uma atmosfera densa e abafada, não se justifica esteticamente por si mesmo (o que talvez seja &quot;defensável&quot;), ao menos expressa perfeitamente o espírito da letra, a questão &quot;historicamente abafada&quot; trazida à tona, ou, em termos populares: a questão &quot;entalada na garganta&quot;.

Isso é algo a se levar em conta ao se tratar de uma canção: a unidade entre música e letra, que nesse caso é bem lograda; música e letra não são se relacionam apenas por uma adequação rítmica e temática, como acontece na maioria das vezes, mas há uma correspondência mais profunda, ao nível do espírito do conjunto.

Mas se isso ainda não é o suficiente para &quot;defender&quot; a minha predileção numa análise imanente, ao menos podemos dizer que a canção, que de modo algum é inferior a uma canção punk, por exemplo, passa numa análise ideológica, que, a rigor, é a análise mais adequada para os produtos da indústria cultura, isso segundo a erudita concepção adorniana da arte, de onde tirei a distinção entre análise imanente e ideológica.

Preconceitos adornianos à parte, o fato é que a canção possui um legítimo interesse histórico, o que já é alguma coisa, uma vez que os contemporâneos da Legião Urbana raramente conseguiram elevar-se além da superfície dos lugares-comuns da crítica social. Em &quot;La maison dieu&quot;, conseguiu-se dar forma a um mal-estar apenas pressentido em certos setores da sociedade, e que isso tenha sido feito por uma canção pop, e não por um figurão respeitável da MPB tradicional, é algo digno de nota.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Quanto a &#8220;La maison dieu&#8221;, eu disse que achava interessante a &#8220;atmosfera&#8221; dela. Continuo gostando da densidade dessa atmosfera. Se isso se deve a um &#8220;minimalismo grave&#8221;, repetitivo, que seja. Gosto de minimalismos e de coisas repetitivas; de gravidade, nem sempre.</p>
<p>A letra realmente possui uma qualidade discutível (não diria &#8220;indefensável&#8221;, pois não estou muito certo disso), mas possui algum relevo histórico, a meu ver, por tocar em feridas abertas quando ainda nem se discutia publicamente a legitimidade da anistia que os militares concederam a si mesmos:</p>
<p>&#8220;Eu sou a lembrança do terror/ De uma revolução de merda/ De generais e de um exército de merda/ Não, nunca poderemos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém&#8221;.</p>
<p>Se quando foi lançada (o álbum é póstumo) poderia parecer uma canção de protesto retardatária feita em espírito punk, &#8220;para chocar&#8221;, revelou-se de algum modo visionária, e hoje, quando figuras importantes do governo querem reabrir a discussão sobre a anistia, como foi feito no Chile, ela ganhou uma atualidade imprevista. Essa música expressa um ressentimento histórico, um mal-estar com relação ao passado recente do Brasil, como nenhuma outra que conheço.</p>
<p>Sob esse ponto de vista, se o minimalismo grave e repetitivo, que cria uma atmosfera densa e abafada, não se justifica esteticamente por si mesmo (o que talvez seja &#8220;defensável&#8221;), ao menos expressa perfeitamente o espírito da letra, a questão &#8220;historicamente abafada&#8221; trazida à tona, ou, em termos populares: a questão &#8220;entalada na garganta&#8221;.</p>
<p>Isso é algo a se levar em conta ao se tratar de uma canção: a unidade entre música e letra, que nesse caso é bem lograda; música e letra não são se relacionam apenas por uma adequação rítmica e temática, como acontece na maioria das vezes, mas há uma correspondência mais profunda, ao nível do espírito do conjunto.</p>
<p>Mas se isso ainda não é o suficiente para &#8220;defender&#8221; a minha predileção numa análise imanente, ao menos podemos dizer que a canção, que de modo algum é inferior a uma canção punk, por exemplo, passa numa análise ideológica, que, a rigor, é a análise mais adequada para os produtos da indústria cultura, isso segundo a erudita concepção adorniana da arte, de onde tirei a distinção entre análise imanente e ideológica.</p>
<p>Preconceitos adornianos à parte, o fato é que a canção possui um legítimo interesse histórico, o que já é alguma coisa, uma vez que os contemporâneos da Legião Urbana raramente conseguiram elevar-se além da superfície dos lugares-comuns da crítica social. Em &#8220;La maison dieu&#8221;, conseguiu-se dar forma a um mal-estar apenas pressentido em certos setores da sociedade, e que isso tenha sido feito por uma canção pop, e não por um figurão respeitável da MPB tradicional, é algo digno de nota.</p>
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		<title>By: Emmanuel</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22974</link>
		<dc:creator>Emmanuel</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 May 2009 13:20:09 +0000</pubDate>
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		<description>Vinícius,

Ao citar o meu comentário, faltou acrescentar:

&quot;(...) está-se partindo de impressões e intuições que, embora digam algo importante sobre as possibilidades interpretativas do texto, e por isso são valiosas, não podem servir para determinar algo tão prático e específico como o processo de composição utilizado.&quot;

De fato, ao não fazê-lo, você passou uma impressão errada do que eu disse, principalmente ao se levar em conta o fato de eu mesmo ter afirmado que os meus comentários também se baseavam em impressões subjetivas. O que está dito no meu comentário é que, embora a intuição sirva para se acercar do texto, possibilitando desdobrar o seu sentido para além do literal, algo da objetividade do texto só poderia ser desvelado a partir de uma análise mais criteriosa.

Invoquei o Iser porque o Diego, apesar do caráter provisório do post dele, fez asserções bastante definitivas, que suspendiam a possibilidade de uma variação interpretativa fora dos termos que ele determinou para o objeto. Se se parte do princípio de que não há uma elaboração técnica nas letras do Cazuza, fica vedada qualquer possibilidade interpretativa que leve em conta a sua desenvoltura técnica.

O meu objetivo era contrapor a visão do Diego, abrindo o horizonte da discussão, e não encerrar o objeto na minha própria visão. Para isso, pretendia mostrar o quanto a minha visão era defensável, e, logo, que as afirmações do Diego deveriam ser relativizadas, principalmente por conta de alguns pontos complicados da argumentação dele. Como já disse, não sei o quanto Cazuza trabalhava tecnicamente as letras dele, o que eu disse é que não é impossível que ele o fizesse, dadas certas caracteríticas dessas mesmas letras, como a concisão e a &quot;justeza&quot;. Não descarto a impossibilidade de estar redondamente enganado quanto a isso.

O que achei complicado na argumentação do Diego é a tentativa de chegar a uma conclusão sobre o processo de composição das letras partindo de algo vagamente intuído sobre elas. Para ver se consigo me expressar mais diretamente: ao contrário das possibilidades interpretativas da obra, digamos latentes ou &quot;virtuais&quot;, o processo de composição do Cazuza, que originou essas letras, é um fato circunscrito no tempo e no espaço, de alguma maneira &quot;material&quot; e inequívoco. Tal fato ocorreu e de um determinado modo, dizer que ele ocorreu de outro modo é falso; o mesmo não acontece com relação às possibilidades interpretativas: é possível duas interpretações contraditórias entre si sem que uma delas esteja necessariamente incorreta, desde que não seja contraditória com o objeto.

A meu ver, raramente as obras trazem indícios suficientes que permitam retraçar o seu processo de composição, a não ser naquelas em que a reflexão sobre a pópria criação aparece incorporada (mesmo assim devemos estar atentos para eventuais ironias ou mesmo para a falta de clareza do autor sobre o próprio processo de criação).

Fora desse enquadramento, que está dado no meu comentário (afinal, não fiz nada além de me repetir de maneira mais esmiuçada), a citação que você pescou pode realmente passar a impressão de que eu descarto a participação da intuição no trabalho de análise literária, do que eu absolutamente discordo. Além disso, seria bastante contraditório afirmar tal coisa em comentários que procuram salvaguardar a todo momento o seu caráter intuitivo e provisório.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Vinícius,</p>
<p>Ao citar o meu comentário, faltou acrescentar:</p>
<p>&#8220;(&#8230;) está-se partindo de impressões e intuições que, embora digam algo importante sobre as possibilidades interpretativas do texto, e por isso são valiosas, não podem servir para determinar algo tão prático e específico como o processo de composição utilizado.&#8221;</p>
<p>De fato, ao não fazê-lo, você passou uma impressão errada do que eu disse, principalmente ao se levar em conta o fato de eu mesmo ter afirmado que os meus comentários também se baseavam em impressões subjetivas. O que está dito no meu comentário é que, embora a intuição sirva para se acercar do texto, possibilitando desdobrar o seu sentido para além do literal, algo da objetividade do texto só poderia ser desvelado a partir de uma análise mais criteriosa.</p>
<p>Invoquei o Iser porque o Diego, apesar do caráter provisório do post dele, fez asserções bastante definitivas, que suspendiam a possibilidade de uma variação interpretativa fora dos termos que ele determinou para o objeto. Se se parte do princípio de que não há uma elaboração técnica nas letras do Cazuza, fica vedada qualquer possibilidade interpretativa que leve em conta a sua desenvoltura técnica.</p>
<p>O meu objetivo era contrapor a visão do Diego, abrindo o horizonte da discussão, e não encerrar o objeto na minha própria visão. Para isso, pretendia mostrar o quanto a minha visão era defensável, e, logo, que as afirmações do Diego deveriam ser relativizadas, principalmente por conta de alguns pontos complicados da argumentação dele. Como já disse, não sei o quanto Cazuza trabalhava tecnicamente as letras dele, o que eu disse é que não é impossível que ele o fizesse, dadas certas caracteríticas dessas mesmas letras, como a concisão e a &#8220;justeza&#8221;. Não descarto a impossibilidade de estar redondamente enganado quanto a isso.</p>
<p>O que achei complicado na argumentação do Diego é a tentativa de chegar a uma conclusão sobre o processo de composição das letras partindo de algo vagamente intuído sobre elas. Para ver se consigo me expressar mais diretamente: ao contrário das possibilidades interpretativas da obra, digamos latentes ou &#8220;virtuais&#8221;, o processo de composição do Cazuza, que originou essas letras, é um fato circunscrito no tempo e no espaço, de alguma maneira &#8220;material&#8221; e inequívoco. Tal fato ocorreu e de um determinado modo, dizer que ele ocorreu de outro modo é falso; o mesmo não acontece com relação às possibilidades interpretativas: é possível duas interpretações contraditórias entre si sem que uma delas esteja necessariamente incorreta, desde que não seja contraditória com o objeto.</p>
<p>A meu ver, raramente as obras trazem indícios suficientes que permitam retraçar o seu processo de composição, a não ser naquelas em que a reflexão sobre a pópria criação aparece incorporada (mesmo assim devemos estar atentos para eventuais ironias ou mesmo para a falta de clareza do autor sobre o próprio processo de criação).</p>
<p>Fora desse enquadramento, que está dado no meu comentário (afinal, não fiz nada além de me repetir de maneira mais esmiuçada), a citação que você pescou pode realmente passar a impressão de que eu descarto a participação da intuição no trabalho de análise literária, do que eu absolutamente discordo. Além disso, seria bastante contraditório afirmar tal coisa em comentários que procuram salvaguardar a todo momento o seu caráter intuitivo e provisório.</p>
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	<item>
		<title>By: Emmanuel</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22973</link>
		<dc:creator>Emmanuel</dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 May 2009 12:17:36 +0000</pubDate>
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		<description>Diego,

Sobre o primeiro ponto, só o mencionei porque me pareceu que para a sua argumentação a correspondência crueza/crueldade era evidente.

Sobre o quarto ponto, as canções que você citou (delas só não me recordo de &quot;Bilhetinho azul&quot;) não me parecem, com exceção de &quot;Todo amor que houver nesta vida&quot;, que tem lá as suas imagens interessantes, muito significantes.

Mas certamente eu entendi o caráter do seu post, só achei estranho que, apesar disso, você se mostrasse meio reticente em relativizá-lo; embora tenha feito isso aos poucos. Minhas próprias impressões sobre o assunto possuem também um caráter muito provisório, são também muito intuitivas; meu objetivo foi mostrar que o que para você era evidente no objeto não o era tanto assim. Sempre tive a impressão de que Cazuza era tecnicamente superior aos seus contemporâneos, isso no que se refere à poética de suas canções.

Quanto ao &quot;Só as mães são felizes&quot;, só um comentário. A terceira pessoa do singular evocada na letra, que funciona como uma segunda, não é necessariamente a mãe. Trata-se de uma figura feminina indeterminada, que tanto pode ser a mãe quanto não; isso não é importante. O título é uma referência à obra de Allen Ginsberg, o tal que paga michê na Alaska (o título foi tirado da obra deste). O objetivo de Cazuza com essa música era fazer uma homenagem a vários artistas &quot;marginais&quot;, como ele mesmo se considerava. Allen Ginsberg, Rimbaud, Lou Reed, Luiz Melodia e... Cazuza! Além dessa referência, o título se justifica internamente com &quot;nem quis comer a sua mãe&quot;. Allen Ginsberg tinha uma relação complicada com a mãe, que morreu louca, e isso está tematizado na obra dele de maneira muito recorrente. Cito isso não discordando de sua análise, mas acrescentando.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Diego,</p>
<p>Sobre o primeiro ponto, só o mencionei porque me pareceu que para a sua argumentação a correspondência crueza/crueldade era evidente.</p>
<p>Sobre o quarto ponto, as canções que você citou (delas só não me recordo de &#8220;Bilhetinho azul&#8221;) não me parecem, com exceção de &#8220;Todo amor que houver nesta vida&#8221;, que tem lá as suas imagens interessantes, muito significantes.</p>
<p>Mas certamente eu entendi o caráter do seu post, só achei estranho que, apesar disso, você se mostrasse meio reticente em relativizá-lo; embora tenha feito isso aos poucos. Minhas próprias impressões sobre o assunto possuem também um caráter muito provisório, são também muito intuitivas; meu objetivo foi mostrar que o que para você era evidente no objeto não o era tanto assim. Sempre tive a impressão de que Cazuza era tecnicamente superior aos seus contemporâneos, isso no que se refere à poética de suas canções.</p>
<p>Quanto ao &#8220;Só as mães são felizes&#8221;, só um comentário. A terceira pessoa do singular evocada na letra, que funciona como uma segunda, não é necessariamente a mãe. Trata-se de uma figura feminina indeterminada, que tanto pode ser a mãe quanto não; isso não é importante. O título é uma referência à obra de Allen Ginsberg, o tal que paga michê na Alaska (o título foi tirado da obra deste). O objetivo de Cazuza com essa música era fazer uma homenagem a vários artistas &#8220;marginais&#8221;, como ele mesmo se considerava. Allen Ginsberg, Rimbaud, Lou Reed, Luiz Melodia e&#8230; Cazuza! Além dessa referência, o título se justifica internamente com &#8220;nem quis comer a sua mãe&#8221;. Allen Ginsberg tinha uma relação complicada com a mãe, que morreu louca, e isso está tematizado na obra dele de maneira muito recorrente. Cito isso não discordando de sua análise, mas acrescentando.</p>
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	<item>
		<title>By: Vinícius</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22964</link>
		<dc:creator>Vinícius</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2009 21:19:41 +0000</pubDate>
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		<description>&lt;em&gt;Você, que conhece a teoria do efeito estético do Iser, deveria considerar mais a variabilidade interpretativa do texto, e considerá-lo a partir dessa variabilidade, e não circunscrevê-lo a uma possibilidade única de interpretação de resto baseada na sua intuição e não na objetividade do texto.&lt;/em&gt;

Claro, só tomando cuidado para não ficar tentando eliminar completamente o processo intuitivo - ou o esforço interpretativo fica paralizado na nascente.

Acho as letras do Cazuza em geral muito melhores que as do Legião. Musicalmente ambos são apenas formulinhas, e as tentativas de ambos em fazer algo além dos três acordes (quem ouviu o Acústico do Legião Urbana deve se lembrar do momento - engraçado às pampas) são em geral risíveis. &quot;La Maison Dieu&quot;, que o Emanuel citou é repetitiva demais em seu minimalismo grave - e a letra se encarrega de expurgar todo possível mérito:

&quot;se dez batalhões viessem à minha rua/ e vinte mil soldados batesse à minha porta à sua procura/ eu não diria nada/ pois eu lhe dei minha palavra// meu corpo branco já pegando pelo/ me lembra o tempo em que você era pequeno/ não pretendo me atormentar/ e de qualquer forma quem volta sozinho pra casa sou eu/ sexo compra dinheiro e companhia/ mas nunca amor e amizade, eu acho (...)&quot;

Indefensável.

Funcionou na minha adolescência bem melhor que Cazuza, até porque tinha certa birra deste. Hoje é engraçado. Até hoje rio pensando que eu cantava, com a maior emoção, coisas como &quot;sexo verbal não faz meu estilo&quot; ou &quot;eu sou metal... raio, relâmpago e trovão&quot;.

Só pra terminar e porque o último verso me lembrou, o V é o melhor disco do Legião; é o que mais tenta e consegue alguma coisa. Mas as letras são bisonhas: basta lembrar de &quot;Teatro dos vampiros&quot;, que se pretendia um hermetismozinho crítico tão sem-graça...</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p><em>Você, que conhece a teoria do efeito estético do Iser, deveria considerar mais a variabilidade interpretativa do texto, e considerá-lo a partir dessa variabilidade, e não circunscrevê-lo a uma possibilidade única de interpretação de resto baseada na sua intuição e não na objetividade do texto.</em></p>
<p>Claro, só tomando cuidado para não ficar tentando eliminar completamente o processo intuitivo &#8211; ou o esforço interpretativo fica paralizado na nascente.</p>
<p>Acho as letras do Cazuza em geral muito melhores que as do Legião. Musicalmente ambos são apenas formulinhas, e as tentativas de ambos em fazer algo além dos três acordes (quem ouviu o Acústico do Legião Urbana deve se lembrar do momento &#8211; engraçado às pampas) são em geral risíveis. &#8220;La Maison Dieu&#8221;, que o Emanuel citou é repetitiva demais em seu minimalismo grave &#8211; e a letra se encarrega de expurgar todo possível mérito:</p>
<p>&#8220;se dez batalhões viessem à minha rua/ e vinte mil soldados batesse à minha porta à sua procura/ eu não diria nada/ pois eu lhe dei minha palavra// meu corpo branco já pegando pelo/ me lembra o tempo em que você era pequeno/ não pretendo me atormentar/ e de qualquer forma quem volta sozinho pra casa sou eu/ sexo compra dinheiro e companhia/ mas nunca amor e amizade, eu acho (&#8230;)&#8221;</p>
<p>Indefensável.</p>
<p>Funcionou na minha adolescência bem melhor que Cazuza, até porque tinha certa birra deste. Hoje é engraçado. Até hoje rio pensando que eu cantava, com a maior emoção, coisas como &#8220;sexo verbal não faz meu estilo&#8221; ou &#8220;eu sou metal&#8230; raio, relâmpago e trovão&#8221;.</p>
<p>Só pra terminar e porque o último verso me lembrou, o V é o melhor disco do Legião; é o que mais tenta e consegue alguma coisa. Mas as letras são bisonhas: basta lembrar de &#8220;Teatro dos vampiros&#8221;, que se pretendia um hermetismozinho crítico tão sem-graça&#8230;</p>
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	<item>
		<title>By: Diego Barreto Ivo</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22963</link>
		<dc:creator>Diego Barreto Ivo</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2009 19:40:24 +0000</pubDate>
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		<description>Emmanuel,

Concordo que a discussão se encaminhou para um caminho de alguma forma fora de propósito, que aliás eu sequer imaginava, mas que o post provocou. Na verdade, o que escrevi foram impressões e nunca parei para escutar de modo suficiente a escrever um texto que se possa dizer profundo sobre o Cazuza. Este post, aliás, foi mais por tédio e uma noite sem dormir...

Acabei tentando, em nossas argumentações e contra-argumentações, encontrar um ponto melhor de tratar do que eu acho que em Cazuza há de crueza/crueldade, que para mim ainda é o mais instigante de sua canções. Eu não queria propriamente equiparar  o valor do processo de composição ao do resultado final da obra, que é o que de fato importa. O que fiz foram suposições e que valiam mais a título de curiosidade. Os comentários sobre o processo composicional foram sobre o que eu também intuía, e se tentei puxar sua vida pública é porque ela acaba sendo inevitável num comentário geral sobre o Cazuza. Aliás no meu texto isso era parte da  tentativa de encontrar uma justificativa para dizer que a sua era uma &quot;poesia crua&quot; - mas não necessariamente apenas pela composição, mas pelo efeito que produz. Eu parti do efeito para tentar explicar o processo de criação - este texto não é tão a sério, releve...

Mas após a discussão, e relendo meu texto, discordo dele quando digo coisas como  &quot;Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes&quot; e a &quot;técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque vive.&quot;  Eu procurava uma correspondência, ou até uma explicação, parca que fosse, para comentar essa minha impressão. E quando eu falo de inocência é, antes, uma constatação óbvia da música que se produzia na época. E do que se pode ver, política e intelectualmente os anos oitenta eram bastante inocentes. Eu queria situá-lo num contexto e tentar demonstrar como ele se sobressaiu mais que os companheiros dos anos 80.

E coisa que eu não consigo comentar é música em si. Só tenho ouvidos para escutar o que eu gosto, e o que eu gosto na maioria das vezes se foca na poesia - mesmo que seja uma poesia da canção. Embora esta às vezes possa se confundir com uma poesia propriamente literária, no geral tem características muito próprias. Quando eu falo de música é do que eu consigo perceber de um diálogo música/letra; veja que são poucas as coisas que escuto em inglês, por exemplo, e só gosto de &quot;música&quot; quando a música se sobressai em relação à letra (preciso de muita atenção para entendê-la, mesmo do meu modo que não é tão chegado em música).

Sobre seus pontos:

1) Eu não disse que crueldade quer dizer necessariamente crueza. Se o disse, sem querer, desfaço a confusão. O ponto que ainda mantenho é que Cazuza trata as suas referências a não querer aceitar delas um sentido &quot;a priori&quot;, como eu disse. Ele tem um processo (dentro da canção) de estranhamento, vê algo que ele não reconhece o sentido, e então trata essas coisas por cruas; aí, não sei, talvez por um escape, algum sentimento, expresse essas coisas com crueldade e crueza. Não existe uma conclusão do tema, embora ele deixa a crueldade como uma espécie de &quot;finalidade&quot; de sua canção. Enquanto isso, os outros de sua geração trazem uma conclusão - por mais que esta conclusão seja de ter a dúvida (&quot;E é inútil ter certeza&quot;, Enghaw). É meio bobo dizer isso, mas só na expressão do Cazuza vejo uma hesitação em relação ao mundo, uma falta de certeza que é expressada e não &quot;definitivada&quot;. Isso em relação aos anos 80, claro!

Iisso fica bem claro em &quot;Burguesia&quot;. Ele tenta fazer uma crítica social, imitar um tema muito comum na época, fazê-lo com &quot;poesia&quot;, mas acaba se voltando para si em relação ao &quot;social&quot;. E trata tudo com crueldade, ainda que se valha de clichês muito ruins (&quot;eu também cheiro mal&quot;). Não acho a melhor música ou letra dele, mas acho que ali a fórmula, como você disse, fica expressa.

Outra música, esta sim muito boa, é &quot;Só as mães são felizes&quot;. Aliás, esta música é um excelente exemplo para o meu argumento. Veja como numa primeira parte quase todos os versos fazem referência a uma terceira coisa, que serve para tratar do relacionamento mãe/filho pela distância do mundo dele em relação ao dela. Temos, comparada à figura materna, dezenas de referências, sejam artísticas ou da vida prática, que servem para encontrar na mãe uma não-correspondência de seu mundo; ao mesmo tempo, isso tudo é dirigido a essa figura com uma crueldade rara de tão direta. Essas referências, por sua vez, não têm um desenvolvimento em si: são como um ataque em que vão se jogando coisas, &quot;coisas&quot; que são esses versos - que daí sim acho &quot;crus&quot;. Do meio para o final, dirige seu foco propriamente à imagem da mãe, até o ponto em que temos uma das coisas mais cruéis dele: &quot;Você nunca sonhou/ Ser currada por animais/ Nem transou com cadáveres?/ Nunca traiu teu melhor amigo/ Nem quis comer a tua mãe?/ Só as mães são felizes...&quot;

2) Isso acho que já expliquei ao longo deste (longo) comentário.

4) Eu vejo mais uma mudança temática do que uma evolução técnica. Mas é claro que essa mudança temática denota uma maturidade, o que pode também ser posto como &quot;técnica&quot;... Eu precisaria escutá-lo com muita atenção para poder falar melhor. Veja só que o primeiro disco (com Barão Vermelho) tem quatro músicas pelo menos boas: &quot;Down em mim&quot;, &quot;Ponto fraco&quot;, &quot;Todo amor que houver nessa vida&quot; e &quot;Bilhetinho Azul&quot;.

Sobre o Iser, e a interpretação da poesia do Cazuza, o que eu quis fazer aqui não foi exatamente uma interpretação, mas apontar aspectos do Cazuza que me chamam a atenção. E, bem, saíram um pouco embaralhados na medida em que eu não havia realmente me dedicado a escutar para escrever. Coisa de blog</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Emmanuel,</p>
<p>Concordo que a discussão se encaminhou para um caminho de alguma forma fora de propósito, que aliás eu sequer imaginava, mas que o post provocou. Na verdade, o que escrevi foram impressões e nunca parei para escutar de modo suficiente a escrever um texto que se possa dizer profundo sobre o Cazuza. Este post, aliás, foi mais por tédio e uma noite sem dormir&#8230;</p>
<p>Acabei tentando, em nossas argumentações e contra-argumentações, encontrar um ponto melhor de tratar do que eu acho que em Cazuza há de crueza/crueldade, que para mim ainda é o mais instigante de sua canções. Eu não queria propriamente equiparar  o valor do processo de composição ao do resultado final da obra, que é o que de fato importa. O que fiz foram suposições e que valiam mais a título de curiosidade. Os comentários sobre o processo composicional foram sobre o que eu também intuía, e se tentei puxar sua vida pública é porque ela acaba sendo inevitável num comentário geral sobre o Cazuza. Aliás no meu texto isso era parte da  tentativa de encontrar uma justificativa para dizer que a sua era uma &#8220;poesia crua&#8221; &#8211; mas não necessariamente apenas pela composição, mas pelo efeito que produz. Eu parti do efeito para tentar explicar o processo de criação &#8211; este texto não é tão a sério, releve&#8230;</p>
<p>Mas após a discussão, e relendo meu texto, discordo dele quando digo coisas como  &#8220;Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes&#8221; e a &#8220;técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque vive.&#8221;  Eu procurava uma correspondência, ou até uma explicação, parca que fosse, para comentar essa minha impressão. E quando eu falo de inocência é, antes, uma constatação óbvia da música que se produzia na época. E do que se pode ver, política e intelectualmente os anos oitenta eram bastante inocentes. Eu queria situá-lo num contexto e tentar demonstrar como ele se sobressaiu mais que os companheiros dos anos 80.</p>
<p>E coisa que eu não consigo comentar é música em si. Só tenho ouvidos para escutar o que eu gosto, e o que eu gosto na maioria das vezes se foca na poesia &#8211; mesmo que seja uma poesia da canção. Embora esta às vezes possa se confundir com uma poesia propriamente literária, no geral tem características muito próprias. Quando eu falo de música é do que eu consigo perceber de um diálogo música/letra; veja que são poucas as coisas que escuto em inglês, por exemplo, e só gosto de &#8220;música&#8221; quando a música se sobressai em relação à letra (preciso de muita atenção para entendê-la, mesmo do meu modo que não é tão chegado em música).</p>
<p>Sobre seus pontos:</p>
<p>1) Eu não disse que crueldade quer dizer necessariamente crueza. Se o disse, sem querer, desfaço a confusão. O ponto que ainda mantenho é que Cazuza trata as suas referências a não querer aceitar delas um sentido &#8220;a priori&#8221;, como eu disse. Ele tem um processo (dentro da canção) de estranhamento, vê algo que ele não reconhece o sentido, e então trata essas coisas por cruas; aí, não sei, talvez por um escape, algum sentimento, expresse essas coisas com crueldade e crueza. Não existe uma conclusão do tema, embora ele deixa a crueldade como uma espécie de &#8220;finalidade&#8221; de sua canção. Enquanto isso, os outros de sua geração trazem uma conclusão &#8211; por mais que esta conclusão seja de ter a dúvida (&#8221;E é inútil ter certeza&#8221;, Enghaw). É meio bobo dizer isso, mas só na expressão do Cazuza vejo uma hesitação em relação ao mundo, uma falta de certeza que é expressada e não &#8220;definitivada&#8221;. Isso em relação aos anos 80, claro!</p>
<p>Iisso fica bem claro em &#8220;Burguesia&#8221;. Ele tenta fazer uma crítica social, imitar um tema muito comum na época, fazê-lo com &#8220;poesia&#8221;, mas acaba se voltando para si em relação ao &#8220;social&#8221;. E trata tudo com crueldade, ainda que se valha de clichês muito ruins (&#8221;eu também cheiro mal&#8221;). Não acho a melhor música ou letra dele, mas acho que ali a fórmula, como você disse, fica expressa.</p>
<p>Outra música, esta sim muito boa, é &#8220;Só as mães são felizes&#8221;. Aliás, esta música é um excelente exemplo para o meu argumento. Veja como numa primeira parte quase todos os versos fazem referência a uma terceira coisa, que serve para tratar do relacionamento mãe/filho pela distância do mundo dele em relação ao dela. Temos, comparada à figura materna, dezenas de referências, sejam artísticas ou da vida prática, que servem para encontrar na mãe uma não-correspondência de seu mundo; ao mesmo tempo, isso tudo é dirigido a essa figura com uma crueldade rara de tão direta. Essas referências, por sua vez, não têm um desenvolvimento em si: são como um ataque em que vão se jogando coisas, &#8220;coisas&#8221; que são esses versos &#8211; que daí sim acho &#8220;crus&#8221;. Do meio para o final, dirige seu foco propriamente à imagem da mãe, até o ponto em que temos uma das coisas mais cruéis dele: &#8220;Você nunca sonhou/ Ser currada por animais/ Nem transou com cadáveres?/ Nunca traiu teu melhor amigo/ Nem quis comer a tua mãe?/ Só as mães são felizes&#8230;&#8221;</p>
<p>2) Isso acho que já expliquei ao longo deste (longo) comentário.</p>
<p>4) Eu vejo mais uma mudança temática do que uma evolução técnica. Mas é claro que essa mudança temática denota uma maturidade, o que pode também ser posto como &#8220;técnica&#8221;&#8230; Eu precisaria escutá-lo com muita atenção para poder falar melhor. Veja só que o primeiro disco (com Barão Vermelho) tem quatro músicas pelo menos boas: &#8220;Down em mim&#8221;, &#8220;Ponto fraco&#8221;, &#8220;Todo amor que houver nessa vida&#8221; e &#8220;Bilhetinho Azul&#8221;.</p>
<p>Sobre o Iser, e a interpretação da poesia do Cazuza, o que eu quis fazer aqui não foi exatamente uma interpretação, mas apontar aspectos do Cazuza que me chamam a atenção. E, bem, saíram um pouco embaralhados na medida em que eu não havia realmente me dedicado a escutar para escrever. Coisa de blog</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Emmanuel</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22962</link>
		<dc:creator>Emmanuel</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2009 17:47:29 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://breviario.org/perambulagens/?p=158#comment-22962</guid>
		<description>Diego,

Acho que o grande problema dessa discussão toda é o fato de se tentar chegar ao processo de composição do Cazuza através da análise das letras; o que é quase impossível. Só se poderia fazê-lo com base numa análise genética, confrontando versões de uma mesma letra etc. Fora isso, os poucos indícios que podemos ter são as indicações do autor fora (entrevistas, por exemplo)e dentro da própria letra (metalinguagem), e mesmo assim não são informações sempre confiáveis. Lembre-se que trabalho com uma novela metalinguística do Guimarães Rosa e acabei constando que enunciado e enunciação não coincidem: Rosa diz uma coisa e faz outra, quer dizer: o resultado do processo de criação difere do objetivo que ele mesmo determina para essa composição.

Sei que você não está se baseando em declarações do Cazuza para defender a sua ideia do processo de composição dele, assim como não pode estar se baseando nas referências metalinguísticas, que são escassas e, via de regra, irônicas. O que me faz pensar que você está tirando essas conclusões do próprio conteúdo das letras, do temperamento da persona literária (eu-lírico) que as letras do Cazuza encenam, que não parece contradizer o temperamento do autor. Nesse caso, o de uma persona literária hedonista, imediatista, cheia de urgência, você intuiu um processo de composição condizente com essas características. Oponho alguns argumentos:

1) Este é só para constar. Uma poesia &quot;cruel&quot; não necessariamente corresponde a uma poesia &quot;crua&quot;. É possível ser cruel de uma maneira bem meditada, como João Cabral consegue ser muitas vezes e, sobretudo, Dalton Trevisan. Não estou dizendo que seja o caso do Cazuza, e que a poesia deste não alie crueza e crueldade (na verdade, ainda não sei), mas que o fato de as letras do Cazuza serem muitas vezes cruéis não é um argumento relevante para provar a sua crueza.

2) Embora a persona literária encenada nas letras do Cazuza não seja aparentemente discordante com a pessoa do autor, não podemos confundir os dois. Ainda que Cazuza tenha se tornado uma personagem de si mesmo, uma auto-ficção, não podemos inferir a partir disso o seu processo de composição. Não devemos nos esquecer de que Cazuza, além das letras, precisava compor também a música, e que isso é um processo complicado, tanto o de compor uma música quanto o de escrever uma letra que àquela se ajuste (ou vice-versa). Difícil imaginar que, todas as vezes que se sentou para fazer isso, Cazuza o fez de forma rápida e definitiva, e que quando se levantou já estava tudo pronto. Provavelmente, ele teve de retomar letra e música repetidas vezes, até que uma casasse bem com a outra. Sem que isso, no entanto, tivesse que passar por uma reflexão consciente sobre o próprio processo de composição, como eu já disse antes; trata-se, a meu ver, de um enfrentamento, de uma convivência com o texto, de uma exploração das suas possibilidades semânticas e musicais. Aqui caberia a comparação com Clarice, que, no entanto, trabalhava obsessivamente os seus textos, ao ponto de enjoar completamente deles.

3) Onde você vê uma &quot;coisa crua&quot; nas letras, eu vejo justeza e concisão, para não dizer &quot;precisão&quot;, nos melhores casos. Para mim, essas características denotam um certo apuro no trato com as palavras.

4) Você não vê evolução nas letras do Cazuza? Então compare as letras da fase Barão Vermelho com o que veio depois. Há uma regularidade muito maior nas letras de sua fase solo, o que não exclui a possibilidade de ele ter começado a se repetir depois de um tempo, quando certos achados técnicos converteram-se em fórmula e quando a sua persona literária chegou a um ponto morto, parando de evoluir. As letras mais penetrantes do Cazuza, mais consequentes, são todas, invariavelmente, pós-Barão Vermelho, ainda que eu goste bastante de &quot;Por que a gente é assim?&quot;.

Impressões como as de cima, sobre a precisão e a evolução do Cazuza, são, como está dito, apenas impressões, como as suas. Se as evoco aqui não é para afirmar que as minhas são mais corretas que as suas, o que só se confirmaria numa crítica genética que também contemplasse uma comparação entre as diversas fases do autor, mas para mostrar que o que você está atribuindo às letras é um resultado das suas intuições e não está, necessariamente, objetivado no texto. Portanto, é complicado deduzir algo &quot;prático&quot; do texto, como o processo de composição, pois sequer se está partindo de um dado seguro; está-se partindo de impressões e intuições que, embora digam algo importante sobre as possibilidades interpretativas do texto, e por isso são valiosas,não podem servir para determinar algo tão prático e específico como o processo de composição utilizado.

Você, que conhece a teoria do efeito estético do Iser, deveria considerar mais a variabilidade interpretativa do texto, e considerá-lo a partir dessa variabilidade, e não circunscrevê-lo a uma possibilidade única de interpretação de resto baseada na sua intuição e não na objetividade do texto. Objetivamente, é impossível reconhecer no texto os trajetos do seu processo de composição; o que se pode reconhecer é o resultado final desse trajeto, e quais os expedientes empregados. A não ser em casos muito específicos, em que o autor deixa, incorporados ao enunciado, elementos da sua constituição enunciativa, numa metalinguagem auto-descritiva, não simplesmente preceptiva.

De resto, veja como a sua concepção veio mudando ao longo desses comentários. No post, você tratava de um trabalho completamente espontâneo, alheio à técnica (&quot;não apurado&quot; e &quot;não lapidado&quot;), para aos poucos ir incorporando a técnica na sua concepção original.

Sei lá, a meu ver tudo está partindo de uma confusão sua entre enunciado e enunciação; em outras palavras, você está levando o aspecto de sinceridade nas letras do Cazuza a sério demais. Não podemos esquecer o quanto de convencional há nas letras do Cazuza, convenções de gênero, digamos, e o quanto há de invenção nelas. Cazuza é um fingidor, um criador de ficção, ou será que toda música dele trata de uma experiência realmente vivida? Claro que não! O que não exclui que isso tenha acontecido algumas vezes. Talvez por isso você esteja atribuindo ingenuidade a ele, uma inocência, esta sim, que realmente não está na obra (não se trata de impressão minha), já que as letras dele estão repletas de ironia, o que por si só já serviria para sugerir que devemos nos aproximar delas com um certo distanciamento crítico. De onde você tirou essa inocência? Talvez você é que esteja sendo inocente ao tomar as letras do Cazuza pelo critério da sinceridade, pelo âmbito do autor, e não pelo âmbito da obra, do eu-lírico configurado nela.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Diego,</p>
<p>Acho que o grande problema dessa discussão toda é o fato de se tentar chegar ao processo de composição do Cazuza através da análise das letras; o que é quase impossível. Só se poderia fazê-lo com base numa análise genética, confrontando versões de uma mesma letra etc. Fora isso, os poucos indícios que podemos ter são as indicações do autor fora (entrevistas, por exemplo)e dentro da própria letra (metalinguagem), e mesmo assim não são informações sempre confiáveis. Lembre-se que trabalho com uma novela metalinguística do Guimarães Rosa e acabei constando que enunciado e enunciação não coincidem: Rosa diz uma coisa e faz outra, quer dizer: o resultado do processo de criação difere do objetivo que ele mesmo determina para essa composição.</p>
<p>Sei que você não está se baseando em declarações do Cazuza para defender a sua ideia do processo de composição dele, assim como não pode estar se baseando nas referências metalinguísticas, que são escassas e, via de regra, irônicas. O que me faz pensar que você está tirando essas conclusões do próprio conteúdo das letras, do temperamento da persona literária (eu-lírico) que as letras do Cazuza encenam, que não parece contradizer o temperamento do autor. Nesse caso, o de uma persona literária hedonista, imediatista, cheia de urgência, você intuiu um processo de composição condizente com essas características. Oponho alguns argumentos:</p>
<p>1) Este é só para constar. Uma poesia &#8220;cruel&#8221; não necessariamente corresponde a uma poesia &#8220;crua&#8221;. É possível ser cruel de uma maneira bem meditada, como João Cabral consegue ser muitas vezes e, sobretudo, Dalton Trevisan. Não estou dizendo que seja o caso do Cazuza, e que a poesia deste não alie crueza e crueldade (na verdade, ainda não sei), mas que o fato de as letras do Cazuza serem muitas vezes cruéis não é um argumento relevante para provar a sua crueza.</p>
<p>2) Embora a persona literária encenada nas letras do Cazuza não seja aparentemente discordante com a pessoa do autor, não podemos confundir os dois. Ainda que Cazuza tenha se tornado uma personagem de si mesmo, uma auto-ficção, não podemos inferir a partir disso o seu processo de composição. Não devemos nos esquecer de que Cazuza, além das letras, precisava compor também a música, e que isso é um processo complicado, tanto o de compor uma música quanto o de escrever uma letra que àquela se ajuste (ou vice-versa). Difícil imaginar que, todas as vezes que se sentou para fazer isso, Cazuza o fez de forma rápida e definitiva, e que quando se levantou já estava tudo pronto. Provavelmente, ele teve de retomar letra e música repetidas vezes, até que uma casasse bem com a outra. Sem que isso, no entanto, tivesse que passar por uma reflexão consciente sobre o próprio processo de composição, como eu já disse antes; trata-se, a meu ver, de um enfrentamento, de uma convivência com o texto, de uma exploração das suas possibilidades semânticas e musicais. Aqui caberia a comparação com Clarice, que, no entanto, trabalhava obsessivamente os seus textos, ao ponto de enjoar completamente deles.</p>
<p>3) Onde você vê uma &#8220;coisa crua&#8221; nas letras, eu vejo justeza e concisão, para não dizer &#8220;precisão&#8221;, nos melhores casos. Para mim, essas características denotam um certo apuro no trato com as palavras.</p>
<p>4) Você não vê evolução nas letras do Cazuza? Então compare as letras da fase Barão Vermelho com o que veio depois. Há uma regularidade muito maior nas letras de sua fase solo, o que não exclui a possibilidade de ele ter começado a se repetir depois de um tempo, quando certos achados técnicos converteram-se em fórmula e quando a sua persona literária chegou a um ponto morto, parando de evoluir. As letras mais penetrantes do Cazuza, mais consequentes, são todas, invariavelmente, pós-Barão Vermelho, ainda que eu goste bastante de &#8220;Por que a gente é assim?&#8221;.</p>
<p>Impressões como as de cima, sobre a precisão e a evolução do Cazuza, são, como está dito, apenas impressões, como as suas. Se as evoco aqui não é para afirmar que as minhas são mais corretas que as suas, o que só se confirmaria numa crítica genética que também contemplasse uma comparação entre as diversas fases do autor, mas para mostrar que o que você está atribuindo às letras é um resultado das suas intuições e não está, necessariamente, objetivado no texto. Portanto, é complicado deduzir algo &#8220;prático&#8221; do texto, como o processo de composição, pois sequer se está partindo de um dado seguro; está-se partindo de impressões e intuições que, embora digam algo importante sobre as possibilidades interpretativas do texto, e por isso são valiosas,não podem servir para determinar algo tão prático e específico como o processo de composição utilizado.</p>
<p>Você, que conhece a teoria do efeito estético do Iser, deveria considerar mais a variabilidade interpretativa do texto, e considerá-lo a partir dessa variabilidade, e não circunscrevê-lo a uma possibilidade única de interpretação de resto baseada na sua intuição e não na objetividade do texto. Objetivamente, é impossível reconhecer no texto os trajetos do seu processo de composição; o que se pode reconhecer é o resultado final desse trajeto, e quais os expedientes empregados. A não ser em casos muito específicos, em que o autor deixa, incorporados ao enunciado, elementos da sua constituição enunciativa, numa metalinguagem auto-descritiva, não simplesmente preceptiva.</p>
<p>De resto, veja como a sua concepção veio mudando ao longo desses comentários. No post, você tratava de um trabalho completamente espontâneo, alheio à técnica (&#8221;não apurado&#8221; e &#8220;não lapidado&#8221;), para aos poucos ir incorporando a técnica na sua concepção original.</p>
<p>Sei lá, a meu ver tudo está partindo de uma confusão sua entre enunciado e enunciação; em outras palavras, você está levando o aspecto de sinceridade nas letras do Cazuza a sério demais. Não podemos esquecer o quanto de convencional há nas letras do Cazuza, convenções de gênero, digamos, e o quanto há de invenção nelas. Cazuza é um fingidor, um criador de ficção, ou será que toda música dele trata de uma experiência realmente vivida? Claro que não! O que não exclui que isso tenha acontecido algumas vezes. Talvez por isso você esteja atribuindo ingenuidade a ele, uma inocência, esta sim, que realmente não está na obra (não se trata de impressão minha), já que as letras dele estão repletas de ironia, o que por si só já serviria para sugerir que devemos nos aproximar delas com um certo distanciamento crítico. De onde você tirou essa inocência? Talvez você é que esteja sendo inocente ao tomar as letras do Cazuza pelo critério da sinceridade, pelo âmbito do autor, e não pelo âmbito da obra, do eu-lírico configurado nela.</p>
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	</item>
	<item>
		<title>By: Diego</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22960</link>
		<dc:creator>Diego</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2009 15:45:04 +0000</pubDate>
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		<description>Um comentário respeitável: quem do primeiro escalão da MPB gravou Legião Urbana e quem gravou Cazuza? Gravaram Cazuza: Ney Matogrosso (claro!), Gal Costa, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Gilberto Gil...</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Um comentário respeitável: quem do primeiro escalão da MPB gravou Legião Urbana e quem gravou Cazuza? Gravaram Cazuza: Ney Matogrosso (claro!), Gal Costa, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Gilberto Gil&#8230;</p>
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	</item>
	<item>
		<title>By: Diego</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22959</link>
		<dc:creator>Diego</dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2009 15:38:05 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://breviario.org/perambulagens/?p=158#comment-22959</guid>
		<description>Emmanuel,

Ainda que não ache o Cazuza um gênio (no sentido qualitativo, tipo &quot;Drummond é um gênio!&quot;), dá para enquadrá-lo como um &quot;artista gênio&quot;, sim. Embora se diga que &quot;genial&quot; seja aquele que tem um talento inato, prefiro pensar no &quot;gênio&quot; como aquele que rapidamente incorpora técnicas e pode reproduzi-las com sua personalidade e força artística, sem um processo artístico recluso, demorado, etc. Não digo, portanto, que o Cazuza tenha nascido com a sua arte pronta, mas sim que ele não precisou de um &quot;árduo trabalho&quot; para chegar à sua arte. Nem acho que ele ao longo de sua carreira tenha evoluído, isto é, melhorado. Tratá-lo como gênio não é mitificá-lo, pois não estou dando uma valoração nem positiva nem negativa: apenas ele era assim, ué. Isso artisticamente dava certo para ele, assim como para outros artistas dá certo o artesanato demorado e debruçado sobre o rascunho…

Mas gostei do que você falou sobre um processo de composição mais &quot;meditado&quot; do que &quot;imediato&quot;. Porque as canções do Cazuza sempre fazem referência a situações vividas, e talvez até chegar à expressão disso (na canção) haja um processo interiorizado. Mas ao exteriorizar, vejo sim uma coisa crua na expressão (no canto e na letra), sem que isso entretanto o desqualifique. É como se ao compor ele trouxesse os vários elementos em que ele vinha &quot;meditando&quot; e organizasse tudo isso em uma forma interessante. Não ser tão verborrágico não é indício de que ele necessariamente tenha um processo de criação tão complexo. 

Eu gosto muito que o Cazuza não tente &quot;elevar&quot; o seu conteúdo, repito. Ele tem uma coisa de dizer as coisas próximas como elas foram, mas há um trato superior a todos os de sua geração. Por isso, falo em &quot;crueldade&quot;, que tanto se refere ao &quot;cru&quot; quanto a uma &quot;crueldade&quot; muito peculiar (que o salvou de ser o mais do mesmo). Mesmo sendo inocente, como um Renato Russo, há uma ironia em suas inocência e sinceridade. Algo destrutivo, que de alguma forma desconhece o limite do que diz. Outros artistas dos anos 80, inclusive o Lobão, que é o melhor depois do Cazuza, não iam além do que a palavra dizia . Veja, isso de &quot;cruel&quot; também cabe em Clarice, mas não em seu processo artístico, e sim na forma em que mostra o seu conteúdo: ela expõe as coisas em seu estado cruel, mas sua escrita não é crua nem automática...

Quanto ao Renato Russo... faz MUITO tempo que não o escuto, realmente não tenho saco nem o que dizer sobre ele, Lorena.

Sobre &quot;vi(e)ado&quot;, fico com o Millôr: escrever com &quot;e&quot; é coisa de viado.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Emmanuel,</p>
<p>Ainda que não ache o Cazuza um gênio (no sentido qualitativo, tipo &#8220;Drummond é um gênio!&#8221;), dá para enquadrá-lo como um &#8220;artista gênio&#8221;, sim. Embora se diga que &#8220;genial&#8221; seja aquele que tem um talento inato, prefiro pensar no &#8220;gênio&#8221; como aquele que rapidamente incorpora técnicas e pode reproduzi-las com sua personalidade e força artística, sem um processo artístico recluso, demorado, etc. Não digo, portanto, que o Cazuza tenha nascido com a sua arte pronta, mas sim que ele não precisou de um &#8220;árduo trabalho&#8221; para chegar à sua arte. Nem acho que ele ao longo de sua carreira tenha evoluído, isto é, melhorado. Tratá-lo como gênio não é mitificá-lo, pois não estou dando uma valoração nem positiva nem negativa: apenas ele era assim, ué. Isso artisticamente dava certo para ele, assim como para outros artistas dá certo o artesanato demorado e debruçado sobre o rascunho…</p>
<p>Mas gostei do que você falou sobre um processo de composição mais &#8220;meditado&#8221; do que &#8220;imediato&#8221;. Porque as canções do Cazuza sempre fazem referência a situações vividas, e talvez até chegar à expressão disso (na canção) haja um processo interiorizado. Mas ao exteriorizar, vejo sim uma coisa crua na expressão (no canto e na letra), sem que isso entretanto o desqualifique. É como se ao compor ele trouxesse os vários elementos em que ele vinha &#8220;meditando&#8221; e organizasse tudo isso em uma forma interessante. Não ser tão verborrágico não é indício de que ele necessariamente tenha um processo de criação tão complexo. </p>
<p>Eu gosto muito que o Cazuza não tente &#8220;elevar&#8221; o seu conteúdo, repito. Ele tem uma coisa de dizer as coisas próximas como elas foram, mas há um trato superior a todos os de sua geração. Por isso, falo em &#8220;crueldade&#8221;, que tanto se refere ao &#8220;cru&#8221; quanto a uma &#8220;crueldade&#8221; muito peculiar (que o salvou de ser o mais do mesmo). Mesmo sendo inocente, como um Renato Russo, há uma ironia em suas inocência e sinceridade. Algo destrutivo, que de alguma forma desconhece o limite do que diz. Outros artistas dos anos 80, inclusive o Lobão, que é o melhor depois do Cazuza, não iam além do que a palavra dizia . Veja, isso de &#8220;cruel&#8221; também cabe em Clarice, mas não em seu processo artístico, e sim na forma em que mostra o seu conteúdo: ela expõe as coisas em seu estado cruel, mas sua escrita não é crua nem automática&#8230;</p>
<p>Quanto ao Renato Russo&#8230; faz MUITO tempo que não o escuto, realmente não tenho saco nem o que dizer sobre ele, Lorena.</p>
<p>Sobre &#8220;vi(e)ado&#8221;, fico com o Millôr: escrever com &#8220;e&#8221; é coisa de viado.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
	<item>
		<title>By: Lorena</title>
		<link>http://breviario.org/perambulagens/2009/04/29/a-crua-poesia-de-cazuza/#comment-22949</link>
		<dc:creator>Lorena</dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 May 2009 00:37:26 +0000</pubDate>
		<guid isPermaLink="false">http://breviario.org/perambulagens/?p=158#comment-22949</guid>
		<description>Intrigante. Acho que daqui pra frente escreverei &quot;bicha&quot; ou &quot;gay&quot; mesmo, na dúvida.</description>
		<content:encoded><![CDATA[<p>Intrigante. Acho que daqui pra frente escreverei &#8220;bicha&#8221; ou &#8220;gay&#8221; mesmo, na dúvida.</p>
]]></content:encoded>
	</item>
</channel>
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