A crua poesia de Cazuza

Postado em April 29, 2009
Categoria Cazuza | 29 comentários

Em tempos de música brasileira tão ruim quanto foram os anos 80, Cazuza é um alento. Poderiam contra-argumentar citando projetos interessantes como o do Grupo Rumo ou o de Arrigo Barnabé, entretanto o alcance destes é muito, muito restrito; ou ainda, na esfera do rock nacional, o de Lobão, que foi parceiro do próprio Cazuza e chegou a ser gravado por João Gilberto. Na verdade, Lobão e Cazuza foram o máximo que a música pop brasileira dos anos 80 pôde alcançar. Mais interessante que o Lobão, fiquemos com o Cazuza.

É indissociável em Cazuza o artista e a sua vida, que bem ou mal conhecemos pelo filme Cazuza – o tempo não pára. O garoto e o adulto mimados, o porra-louca, o maconheiro, o poeta, o cínico, o sincero, o sem limites: tudo está representado no filme (muito embora sua vida com o Ney Matogrosso e outras promiscuidades sejam encobertas). Falo de sua vida porque nós, que só a conhecemos através do filme e de mitos, ou ainda de um livro que sequer folheei, facilmente identificamos na sua poesia alguém que não se furta ao que ele realmente era, ou melhor, não se furta a expressar-se como via e vivia, se via e se vivia. Desde o cara que se derramava com uma Down em mim ao que se embananava ao fazer crítica social, como em Burguesia. Mesmo clichês odiáveis algumas vezes se salvam em Cazuza, porque ele tem um quê que lhes dá algo de forte, intenso.

Enquanto bandas como Legião Urbana ou Engenheiros do Hawaii (esta, a banda campeã em citar nomes de livros-cabeça!) buscavam uma canção profunda e – pasmem! – filosófica, e outros artistas aderiam às piores estéticas possíveis (quando não os dois), sempre se esbarrando em inocências pueris (sobre os anos 80, há a excelente música Os outros românticos, de Caetano Veloso), Cazuza parece ter encontrado uma “estranhas forma” que lhe garantiu as melhores canções dentre os músicos de sua geração. (A sua melhor certamente é Só as mães são felizes.)

A música dos anos 80 revela um problema grave do Brasil: a necessidade de ser político, lutando “contra o sistema”, contra “eles”; quando na verdade essa luta não passava de mais um produto da indústria cultural. Filho mimado da classe média, esses anos 80 apenas refletiam a alienação que era quase geral e que com os anos 90 só viria a se comprovar; assim, repetiam-se clichês sobre clichês, que entre os próprios  músicos eram redescobertos e ditos como se fossem novidade. Não que Cazuza não sofra deste e de outros “males de anos 80″. 

Salva é que a Cazuza as coisas ao seu redor lhe eram estranhas, pois suas referências e influências não têm tanto um sentido a priori; tudo é a descoberta do sempre menino adolescente, que não evita ser o que é; ele incorpora o mundo que está ao seu redor e o expressa em sua música (que é sempre sincera, mesmo quando há cinismo), como percebe e vai descobrindo. Se era restrito o mundo dele, e talvez até o soubesse, tentava desvendar esse limite com uma intensidade que é uma de suas melhores armas, como já disse. Cazuza adere ao mundo, que para ele é pirado. Ele, portanto, tinha tudo para se expressar naquela mesma forma inocente que seus contemporâneos de geração. Mas a sua forma de aderir não é tão simples.

Em sua “estranha forma”, Cazuza também tinha uma expressão “cruel”. Estranha porque, como dizíamos, a sua expressão era a de quem se via ante o diferente e a partir deste passava a se ver (não raro ele próprio era o diferente para si); e este estranhamento não nos chegou apurado ou lapidado: Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes. As suas canções, parecem,  iam-se compondo sozinhas: o primeiro verso corresponde à primeira idéia, o segundo é o seu desenvolvimento e assim ia até julgar que tivesse ficado bom. E o bom era aquilo que correspondia ao que lhe emocionava. Até por isso, é incontável o tanto de canções suas que são muito ruins; mas ao mesmo tempo isso expressa com vigor, pelo menos a quem goste do menino, o que ele era.

Em sua trajetória, tecnicamente Cazuza não evolui nem involui. Aliás, a técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque vive. E tem uma sensibilidade muito exacerbada que também à própria poesia se vê limitada, e por isso tem de ser explicitada, com alarde para ser notado. Cazuza quer chamar a atenção para si. Em geral, a mesma coisa é dita sob diversas perspectivas em uma canção. Até por isso que em muitas canções ele mais parece falar do que cantar. E assim votamos ao que há de tão cru nele.

***

Não escutei Cazuza para escrever este post, embora ele estivesse tocando no iTunes. Foi tudo meio que de cabeça. Virei noite e este texto é meu passatempo sonâmbulo.

Meu Top Five Cazuza (não necessariamente nesta ordem): Só as mães são felizes, Down em mim, Quase um segundo (Hebert Vianna), Faz parte do meu show e Todo amor que houver nessa vida.

Comentários

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29 Comentários »

Emmanuel
2009-04-30 06:27:34

Meu top five Cazuza:

1. “Só as mães são felizes”.
2. “A orelha de Eurídice”.
3. “Um trem para as estrelas”.
4. “Por que que a gente é assim?”.
5. “Blues da piedade”.

P.S.: Não necessariamente nessa mesma ordem.

 
2009-04-30 07:23:03

Fiquei curioso:

“As suas canções, parecem, iam-se compondo sozinhas: o primeiro verso corresponde à primeira idéia, o segundo é o seu desenvolvimento e assim ia até julgar que tivesse ficado bom”.

Como você intuiu disso? Esquece-se talvez que a canção, que é música e letra, dificilmente aceita esse tipo de composição em “linha reta”. Primeiro, deveríamos nos perguntar o que costuma vir primeiro: a música ou a letra? Provavelmente, ambos os casos deveriam ocorrer. Será que a letra, na maioria das vezes em que a música vem primeiro, não corre atrás da música, recobrindo primeiro alguns pontos mais fáceis, depois completando os espaços entre eles?

Sempre imagino ser mais natural começar uma letra pelo refrão… Deve ser essa a maneira mais espontânea de se letrear uma música. Apesar de parecer meio simplório começar uma letra pelo primeiro verso e ir desenvolvendo os versos seguintes a partir dele, esse processo parece basear-se num sistema de causalidade, de lógica interna, que, se não abole o trabalho da intuição sobre a sugestão musical, pelo menos a restringe um pouco. Afinal, um lance de dados jamais etc.

Agora, o que eu não concordo mesmo é a afirmação de que a técnica do Cazuza era “parca ou nula”. Impossível acreditar em tantos bons achados devidos à sorte, “tiro nas lebres de vidro do invisível”. Técnica tem muito a ver com a prática, mais do que com a reflexão consciente sobre os meios. Além disso, ele era leitor de poesia, e também escrevia os seus poemas, como o que agora se segue:

“Olhar o mundo
Com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras
Com a atenção do surdo
Falar com a mão e com os olhos
Como fazem os mudos”

Nesse poema a simplicidade resulta numa rara baleza, e tanta concisão(não há uma única palavra fora do lugar, ou sobrando)revela uma habilidade apurada. Note-se que esse poema é 1978, tirado de seu diário, antes, portanto, de sua atuação junto ao Barão Vermelho.

Acho difícil definir o quanto em Cazuza há um talento em estado bruto, ou o quanto esse talento foi devidamente lapidado. Acho que conta a favor da lapidação a justeza e a concisão de seus versos; como no poema acima, quase nunca há palavras sobrando.

Não sei, são impressões minhas, que não têm como objetivo negar a sua visão; é mais como um contraponto.

 
2009-04-30 08:33:41

As partes de meu textos que você citou são exageradas, de fato. Eu corrigiria o que eu disse sobre o primeiro verso corresponder à primeira idéia, etc. Mas mantenho que, no Cazuza, embora eu não tenha como comprovar, parece que a sua poesia ia se compondo “sozinha”, de uma forma “natural”, era um processo “orgânico” para ele mesmo. Porque em suas músicas, não em todas, há muito “detrito”. Não acho isso melhor ou pior. Há músicas que são dispensáveis individualmente, mas que ganham força num todo de sua obra

Não consigo pensar em um Cazuza que não fosse “cruel” (que tem a mesma origem etimológica de de “cru”). Outra coisa inevitável nele, e que eu não disse, é o que tem de corporal. Um corpo também cru, que tinha e seguia seus ímpetos. É assim também no poema que você postou. Em todo o Cazuza há uma sensualidade muito forte.

Mesmo nesse poema, existe o imediato, e para aproveitar a sua palavra, é como uma “habilidade crua”. Ele não parece ter tanta consciência do alcance do que ele diz, e não o procura, ele é instantâneo, diz para o corpo próximo ao seu, mas há coisas que resistem. É uma metralhadora ambulante que, afinal, acerta em cheio algumas coisas.

***

Fofoks: sabe como ele ele o o Ney terminaram? Isso foi o Ney que contou na Folha. Depois de um tempo “sumido”, o Cazuza reapareceu na casa do Ney, que foi reclamar que o Cazuza era galinha, etc. O Cazuza lhe cuspiu na cara e disse “vá tomar no cu”.

Emmanuel
2009-05-01 13:09:58

Diego,

Acho que você está mitificando o Cazuza; tentando torná-lo uma espécie de gênio (a ideia original de gênio é o de um talento absolutamente natural e espontâneo, não confundir com a de um Q.I. muito alto). Mas não está sozinho nisso, pois essa é a imagem que se faz do Cazuza habitualmente.

Mas repare, eu disse:”Técnica tem muito a ver com a prática, mais do que com a reflexão consciente sobre os meios”; o que você está dizendo então é que o Cazuza nunca se aprimorou no que fazia? Não aprendeu com a experiência do próprio processo criativo, ao longo do tempo?

Não acredito num grande talento “puro”, uma “habilidade crua”. Por mais que um artista não pense sobre os meios que utiliza (e eu não acredito ser esse o caso do Cazuaza) ele acaba adquirindo técnica à medida que se entrega ao processo de criação.

Você parece estar reduzindo as letras do Cazuza a uma espécie de escrita automática: “parece que a sua poesia ia se compondo ‘sozinha’, de uma forma ‘natural’”; “não parece ter tanta consciência do alcance do que ele diz, e não o procura, ele é instantâneo”. Isso simplesmente descarta um processo de seleção de palavras apropriadas, de descarte das que não funcionam bem, o que tornaria impossível colocar letra numa música, ou você acha que a letra já vinha pronta, a colar-se na música? Colocar letra é um processo de tentativa e erro. Não haveria rascunhos do Cazuza, versões de uma mesma música? Claro que sim.

O poema que citei, não o vejo como algo imediato, mas como algo meditado, em algum nível. Não há “detrito” nenhum nesse poema, o que demonstra um senso apurado de escolha e seleção de palavras – algo técnica. Também não vejo muito detrito nas letras do Cazuza (pelo menos não nas músicas boas e medianas); ele é sempre enxuto e econômico, mas sem chegar a ser elíptico. Quase nunca é verborrágico.

Para concluir: acho que a naturalidade das letras do Cazuza é “encontrada”, e não “dada”.

 
 
2009-05-02 00:24:14

Nem gosto de Cazuza. Um bom letrista? Pode ser. Mas e a MÚSICA, compañeros? Como vocês pensam analiticamente o fato das melodias dele serem todas variações de um mesmo quadrado de notas? Tudo no seu devido lugar, inclusive historicamente. Mas, vá lá, meu incômodo restringe-se à retidão musical. Nenhuma dissonância. Oh, por Deus, NENHUMA DISSONÂNCIA!

Fim de papo pra mim. Quando descobrirem na arca do Cazuza uma fita k7 com uma gravação em que a guitarra é toda afinada em A#, dou uma chance pra ele. Até lá — tirando as noites de insônia e coração partido em que “Faz parte do meu show” vem em seguida a “Vento no litoral” — apenas dói nos meus ouvidos.

ted
2011-02-11 02:11:02

vai te lasca sua doida tu nao entende de porra mem uma de rock cazuza foi o cara na queli tenpo sua boba

 
 
2009-05-02 00:38:35

E, pra dizer tudo e não deixar de dizer nada, prefiro muito mais “Vento no litoral”! Vida longa à Legião Urbana! MEU: quer coisa mais cafona e junky do que Legião? Quer coisa mais decadentista e gay e [estilete nos pulsos, batom borrado, conhaque barato no puteiro da esquina, meia-calça rasgada, fim dos tempos, sou seu para todo o sempre......]—-AAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Cafona cafona cafona! MUITO BOM!

Tá foda que o Renato Russo se levava totalmente a sério. Ele era um poço de auto-ironia, bicho. O Cazuza é um viadinho perto dele! É isso aí: perto da Legião, Cazuza é mera coisa de viadinho! lero-lero-lero, “fomos feitos um pro outro na maternidade”, blablabla, “eu sou uma bicha blasé e gosto que me chamem de poeta”, enquanto isso o Renato Russo tava fantasiado de Robert Smith, dormindo abraçado com algum traveco que não fazia idéia de quem ele era…

ted
2011-02-11 02:15:51

lolena vai te fude sua otaria tu e ese tau de renatorusso eu so mais Cazuza porra

 
 
2009-05-02 00:40:26

A diferença entre as duas bandas tá na DISSONÂNCIA, sacou?

Emmanuel
2009-05-02 05:47:02

Lorena em dia de fúria!

Para mim, tanto Legião Urbana quanto Cazuza, musicalmente falando, irritam os ouvidos; o som deles, como acontece com a grande maioria do rock anos 80, soa extremamente datado. Mas é óbvio que aqui estamos tratando das letras, e não da música.

Mas pergunto-me, Lorena, o quanto você conhece o Cazuza pós-Barão-Vermelho e extra-coletânea-da-Milleniun, pois as letras de Cazuza são mil anos luz mais ultrajantes do que qualquer coisa que o Renato Russo escreveu, incluindo o clichê total adolescente-deprimido de “Clarice”, com a melodia chupada de uma música do Joy Division:

“Clarice está trancada no banheiro/ E faz marcas no seu corpo com o seu pequeno canivete/ Deitada num canto, seus tornozelos sangram/ E a dor é menor do que parece/ Quando ela se corta ela se esquece/ Que é impossível ter da vida calma e força…”

Ou em “Dado viciado”:

“Você não tem heroína então usa algafan/ Viciou os seus primos, talvez sua irmã…”

Basta cotejar com esses trechos de letras do Cazuza para ver o quanto este último foge aos clichês requentados do Renato Russo:

“Mais uma dose, é claro que eu tô a fim/ (…)/ Cem gramas, cem dramas/ Por que que a gente é assim?” (“Por que a gente é assim?”)

“Agora eu vou cantar para os miseráveis/ Que vagam pelo mundo derrotados/ Para essas sementes mal plantadas/ Que já nascem com cara de abortadas…” (“Blues da piedade”)

“Trouxe uma orelha envolta num pano vermelho/ É a prova meu amor, me espera sem uma orelha…” (“A orelha de Eurídice”)

“Você nunca sonhou ser currada por animais/ Nem transou com cadáveres/ Nunca traiu seu melhor amigo/ Nem quis comer a sua mãe” (“Só as mães são felizes”)

“Estranho o seu cristo Rio/ Que mora tão longe além/ Com os braços sempre abertos/ Mas sem proteger ninguém/ Eu vou forrar as paredes/ Do meu quarto de misérias/ Com manchetes de jornal/ Para ver que não é nada sério” (“Um trem para as estrelas”)

“Nunca viram ninguém triste, por que não me deixam em paz?/ As guerras são todas tão tristes/ E não tem nada demais/ Me deixem um bicho acuado por um inimigo imaginário/ A correr atrás dos carros feito um cachorro otário/ Me deixem ataque equivocado por um falso alarde/ Quebrando objeto inúteis como quem leva uma porrada/ Me deixem esnurrar a faca, amolar a faca cega da paixão…” (em parceria com o Lobão – “Mal nenhum”)

“Pelos dias de cão muito obrigado/ Pela frase feita/ Por esculhambar meu coração/ Antiquado e careta/ Me trair e dar inspiração/ Para eu ganhar dinheiro…” (“Obrigado, por ter se mandado”)

E por aí vai…

Talvez o que o Diego quis dizer com “Renato Russo se levava muito a sério” deve ser que as letras do Renato Russo, quando comparadas às do Cazuza, são pretensiosas, e quando se escuta com atenção quase sempre encontramos clichês sobre a adolescência embalados em referências eruditas que não desempenham nenhuma função dentro da letra, a não ser demonstrar o quanto o seu autor era uma cara culto (e ao que tudo indica, era mesmo).

Isso para não falar que não há “fagulhas” nas letras da Legião Urbana. Explico: não há nada que fuja ao senso-comum, que propicie aquela impressão de que se ouve tal coisa pela primeira vez, como se fosse uma formulação original (liberando uma “fagulha” no nosso cérebro, que é algo que eu vejo no Cazuza). Ao contrário disso, Renato Russo explorava os clichês sentimentais da adolescência possibilitando uma identificação imediata com o seu público, dando a impressão típica de que “essa música foi escrita para mim”; não há estranhamento, uma vez decifrado o hermetismo superficial de algumas passagens.

Já em Cazuza, se é possível se identificar facilmente com algumas músicas mais “românticas” dele (romântico em seu sentido vulgar), por muitas vezes ele é tão desabusado ao falar do que seriam os seus sentimentos que o ouvinte só se identifica ultrapassando alguns recalques pessoais; outras vezes, ele é tão ultrajante que não conseguimos nos identificar mesmo. Além disso, há coisas que não conseguimos relacionar com a nossa própria experiência, tornando a experiência construída pela letra algo de totalmente singular, como o enigmático “segredos de liquidificador” que já me tirou algumas horas de sono tentando solucioná-lo.

Em todos os sentidos, as letras do Cazuza me parecem mais instigantes. Quanto à música, essa é a razão pela qual eu não o escuto mais.

 
 
Emmanuel
2009-05-02 05:56:13

Só para constar, também acho as letras do Renato Russo cafonas, mas as acho muito bem comportadas, mesmo na sua rebeldia adolescente pré-cara-pintada de “Que país é esse?”.

 
2009-05-02 14:23:56

É verdade, eu nunca ouvi Cazuza direito. Acho que por causa da música — intragável. Lá nos meus 13 anos a Legião (com seus violões meio roucos, com referências diretas a bandas que ná época eram “o must” pra mim — The Cure, The Smiths) fazia todo sentido e tomava todo o espaço.

Indiscutível a questão das letras clichês, e nesse quesito é bem provável (pelos trechos que você citou) que o Cazuza tenha escrito coisas que resistem à idade de cortar os pulsos (lá nos 13 anos eu realmente me emocionava com “Vento no litoral”… hoje eu até me emociono, mas ironicamente. E no entanto se trata de emoção).

Agora, quanto à música, acho Legião muito mais tolerável. O acústico MTV que eles gravaram — apenas dois violões e uma percussão de leve — é muito lindo, cheio de desafinações, envolto numa aura de delicadeza…

Eu acho que Legião soa único dentro da música brasileira, ao menos dentro da música brasileira que alcançou a nossa geração MTV-rocknroll-dont-come-talk-about-politics. Não sei, e pouco importa saber, por quais artifícios eles se “rebaixaram” para causar tais e quais efeitos nos ouvidos da geração coca-cola… Só sei que para mim há fagulhas, sim, e não as há com Cazuza.

É que se acaba incorrendo na questão do gosto pessoal.

Emmanuel
2009-05-03 08:52:09

Concordo com você, Lorena. Acho que algumas músicas da Legião têm uma “atmosfera” interessante. Gosto da sonoridade densa de “La maison dieu” (será que é esse mesmo o nome da música?), entre outras. No Cazuza, no entanto, é um rock de festa, bastante palatável, ou então balada (com exceção da mistura com bossa nova de algumas canções, como “Faz parte do meu show” e “Um trem para as estrelas”). Mas estávamos discutindo a questão das letras, mesmo porque eu e o Diego não temos formação musical.

 
 
Emmanuel
2009-05-04 22:12:51

Mas já que foi falado de veadice, aí vão duas pérolas homoeróticas do Renato Russo; uma meio cifrada e a outra bastante explícita:

“Aquele gosto amargo do teu corpo/ Ficou na minha boca por mais tempo/ De amargo então, salgado, ficou doce…”; “Daniel na cova dos leões”

“Aí você diz com aquele seu jeito:/ ‘Ai, preciso de um homem’/ E eu digo: ‘Ah, Leila, eu também’/ E a gente ri”; “Leila”

 
2009-05-05 02:14:36

Ah, tem também a que ele fala dos cavalos marinhos. E os cavalos marinhos são meio que hermafroditas, não sei bem, só sei que eles são viadinhos.

Aliás, Emmanuel: eu ouvi o seguinte argumento sobre a grafia do termo “viado” com sentido de homossexual: viria de “transviado”, daí se escrever “vi” e não “veado”. Mas não garanto a fonte disso. Você que é você, diz o que você acha.

 
Emmanuel
2009-05-05 09:10:18

Lorena,

A origem pode ser essa mesma, mas há outras hipóteses, o Caetano Veloso, que na capa do “Araça Azul” escreveu: “Um livro para entendidos”, brincando com a ambiguidade do termo “entendido”, arrisca uma outra origem; ele diz:

“Quando eu era nenino, a tradicional escolha da palavra ‘veado’ para designar um homossexual era popularmente interpretada, na Bahia, como explicando-se pela condição de caça do animal. Assim, à menor desconfiança quanto à virilidade de alguém, gritava-se: ‘Ti-bi!’ (essa era a onomatopéia baiana para os tiros de revólver), e em geral acrescentava-se: ‘Pode matar que é bicho’”(VELOSO, 2008: p. 471)

Apesar de parecer menos convicente do que a hipótese que você citou, ela tem a seu favor a identificação com o número do veado no jogo do bicho, que é 24.

Outra hipótese que conheço, e essa me parece a mais convicente, é que havia no final do século XIX uma marca de cigarros chamada “Cigarros Veado”, que era mais leve e muito estimada entre o público feminino. Dos homens afeminados costumava-se dizer: “Esse fuma veado”, acabando por ficar apenas “veado”, por metonímia.

A vantagem desta hipótese é que explica tanto a do Caetano quanto a relação com o jogo do bicho. Uma vez que ficou estabelecido que veado correspondia a homossexual, as pessoas podem ter começado a atribuir carcterísticas do animal àqueles, como o seu estatuto de animal de caça e o número no jogo do bicho.

 
2009-05-05 21:37:26

Intrigante. Acho que daqui pra frente escreverei “bicha” ou “gay” mesmo, na dúvida.

 
2009-05-08 12:38:05

Emmanuel,

Ainda que não ache o Cazuza um gênio (no sentido qualitativo, tipo “Drummond é um gênio!”), dá para enquadrá-lo como um “artista gênio”, sim. Embora se diga que “genial” seja aquele que tem um talento inato, prefiro pensar no “gênio” como aquele que rapidamente incorpora técnicas e pode reproduzi-las com sua personalidade e força artística, sem um processo artístico recluso, demorado, etc. Não digo, portanto, que o Cazuza tenha nascido com a sua arte pronta, mas sim que ele não precisou de um “árduo trabalho” para chegar à sua arte. Nem acho que ele ao longo de sua carreira tenha evoluído, isto é, melhorado. Tratá-lo como gênio não é mitificá-lo, pois não estou dando uma valoração nem positiva nem negativa: apenas ele era assim, ué. Isso artisticamente dava certo para ele, assim como para outros artistas dá certo o artesanato demorado e debruçado sobre o rascunho…

Mas gostei do que você falou sobre um processo de composição mais “meditado” do que “imediato”. Porque as canções do Cazuza sempre fazem referência a situações vividas, e talvez até chegar à expressão disso (na canção) haja um processo interiorizado. Mas ao exteriorizar, vejo sim uma coisa crua na expressão (no canto e na letra), sem que isso entretanto o desqualifique. É como se ao compor ele trouxesse os vários elementos em que ele vinha “meditando” e organizasse tudo isso em uma forma interessante. Não ser tão verborrágico não é indício de que ele necessariamente tenha um processo de criação tão complexo.

Eu gosto muito que o Cazuza não tente “elevar” o seu conteúdo, repito. Ele tem uma coisa de dizer as coisas próximas como elas foram, mas há um trato superior a todos os de sua geração. Por isso, falo em “crueldade”, que tanto se refere ao “cru” quanto a uma “crueldade” muito peculiar (que o salvou de ser o mais do mesmo). Mesmo sendo inocente, como um Renato Russo, há uma ironia em suas inocência e sinceridade. Algo destrutivo, que de alguma forma desconhece o limite do que diz. Outros artistas dos anos 80, inclusive o Lobão, que é o melhor depois do Cazuza, não iam além do que a palavra dizia . Veja, isso de “cruel” também cabe em Clarice, mas não em seu processo artístico, e sim na forma em que mostra o seu conteúdo: ela expõe as coisas em seu estado cruel, mas sua escrita não é crua nem automática…

Quanto ao Renato Russo… faz MUITO tempo que não o escuto, realmente não tenho saco nem o que dizer sobre ele, Lorena.

Sobre “vi(e)ado”, fico com o Millôr: escrever com “e” é coisa de viado.

Emmanuel
2009-05-08 14:47:29

Diego,

Acho que o grande problema dessa discussão toda é o fato de se tentar chegar ao processo de composição do Cazuza através da análise das letras; o que é quase impossível. Só se poderia fazê-lo com base numa análise genética, confrontando versões de uma mesma letra etc. Fora isso, os poucos indícios que podemos ter são as indicações do autor fora (entrevistas, por exemplo)e dentro da própria letra (metalinguagem), e mesmo assim não são informações sempre confiáveis. Lembre-se que trabalho com uma novela metalinguística do Guimarães Rosa e acabei constando que enunciado e enunciação não coincidem: Rosa diz uma coisa e faz outra, quer dizer: o resultado do processo de criação difere do objetivo que ele mesmo determina para essa composição.

Sei que você não está se baseando em declarações do Cazuza para defender a sua ideia do processo de composição dele, assim como não pode estar se baseando nas referências metalinguísticas, que são escassas e, via de regra, irônicas. O que me faz pensar que você está tirando essas conclusões do próprio conteúdo das letras, do temperamento da persona literária (eu-lírico) que as letras do Cazuza encenam, que não parece contradizer o temperamento do autor. Nesse caso, o de uma persona literária hedonista, imediatista, cheia de urgência, você intuiu um processo de composição condizente com essas características. Oponho alguns argumentos:

1) Este é só para constar. Uma poesia “cruel” não necessariamente corresponde a uma poesia “crua”. É possível ser cruel de uma maneira bem meditada, como João Cabral consegue ser muitas vezes e, sobretudo, Dalton Trevisan. Não estou dizendo que seja o caso do Cazuza, e que a poesia deste não alie crueza e crueldade (na verdade, ainda não sei), mas que o fato de as letras do Cazuza serem muitas vezes cruéis não é um argumento relevante para provar a sua crueza.

2) Embora a persona literária encenada nas letras do Cazuza não seja aparentemente discordante com a pessoa do autor, não podemos confundir os dois. Ainda que Cazuza tenha se tornado uma personagem de si mesmo, uma auto-ficção, não podemos inferir a partir disso o seu processo de composição. Não devemos nos esquecer de que Cazuza, além das letras, precisava compor também a música, e que isso é um processo complicado, tanto o de compor uma música quanto o de escrever uma letra que àquela se ajuste (ou vice-versa). Difícil imaginar que, todas as vezes que se sentou para fazer isso, Cazuza o fez de forma rápida e definitiva, e que quando se levantou já estava tudo pronto. Provavelmente, ele teve de retomar letra e música repetidas vezes, até que uma casasse bem com a outra. Sem que isso, no entanto, tivesse que passar por uma reflexão consciente sobre o próprio processo de composição, como eu já disse antes; trata-se, a meu ver, de um enfrentamento, de uma convivência com o texto, de uma exploração das suas possibilidades semânticas e musicais. Aqui caberia a comparação com Clarice, que, no entanto, trabalhava obsessivamente os seus textos, ao ponto de enjoar completamente deles.

3) Onde você vê uma “coisa crua” nas letras, eu vejo justeza e concisão, para não dizer “precisão”, nos melhores casos. Para mim, essas características denotam um certo apuro no trato com as palavras.

4) Você não vê evolução nas letras do Cazuza? Então compare as letras da fase Barão Vermelho com o que veio depois. Há uma regularidade muito maior nas letras de sua fase solo, o que não exclui a possibilidade de ele ter começado a se repetir depois de um tempo, quando certos achados técnicos converteram-se em fórmula e quando a sua persona literária chegou a um ponto morto, parando de evoluir. As letras mais penetrantes do Cazuza, mais consequentes, são todas, invariavelmente, pós-Barão Vermelho, ainda que eu goste bastante de “Por que a gente é assim?”.

Impressões como as de cima, sobre a precisão e a evolução do Cazuza, são, como está dito, apenas impressões, como as suas. Se as evoco aqui não é para afirmar que as minhas são mais corretas que as suas, o que só se confirmaria numa crítica genética que também contemplasse uma comparação entre as diversas fases do autor, mas para mostrar que o que você está atribuindo às letras é um resultado das suas intuições e não está, necessariamente, objetivado no texto. Portanto, é complicado deduzir algo “prático” do texto, como o processo de composição, pois sequer se está partindo de um dado seguro; está-se partindo de impressões e intuições que, embora digam algo importante sobre as possibilidades interpretativas do texto, e por isso são valiosas,não podem servir para determinar algo tão prático e específico como o processo de composição utilizado.

Você, que conhece a teoria do efeito estético do Iser, deveria considerar mais a variabilidade interpretativa do texto, e considerá-lo a partir dessa variabilidade, e não circunscrevê-lo a uma possibilidade única de interpretação de resto baseada na sua intuição e não na objetividade do texto. Objetivamente, é impossível reconhecer no texto os trajetos do seu processo de composição; o que se pode reconhecer é o resultado final desse trajeto, e quais os expedientes empregados. A não ser em casos muito específicos, em que o autor deixa, incorporados ao enunciado, elementos da sua constituição enunciativa, numa metalinguagem auto-descritiva, não simplesmente preceptiva.

De resto, veja como a sua concepção veio mudando ao longo desses comentários. No post, você tratava de um trabalho completamente espontâneo, alheio à técnica (“não apurado” e “não lapidado”), para aos poucos ir incorporando a técnica na sua concepção original.

Sei lá, a meu ver tudo está partindo de uma confusão sua entre enunciado e enunciação; em outras palavras, você está levando o aspecto de sinceridade nas letras do Cazuza a sério demais. Não podemos esquecer o quanto de convencional há nas letras do Cazuza, convenções de gênero, digamos, e o quanto há de invenção nelas. Cazuza é um fingidor, um criador de ficção, ou será que toda música dele trata de uma experiência realmente vivida? Claro que não! O que não exclui que isso tenha acontecido algumas vezes. Talvez por isso você esteja atribuindo ingenuidade a ele, uma inocência, esta sim, que realmente não está na obra (não se trata de impressão minha), já que as letras dele estão repletas de ironia, o que por si só já serviria para sugerir que devemos nos aproximar delas com um certo distanciamento crítico. De onde você tirou essa inocência? Talvez você é que esteja sendo inocente ao tomar as letras do Cazuza pelo critério da sinceridade, pelo âmbito do autor, e não pelo âmbito da obra, do eu-lírico configurado nela.

2009-05-08 16:40:24

Emmanuel,

Concordo que a discussão se encaminhou para um caminho de alguma forma fora de propósito, que aliás eu sequer imaginava, mas que o post provocou. Na verdade, o que escrevi foram impressões e nunca parei para escutar de modo suficiente a escrever um texto que se possa dizer profundo sobre o Cazuza. Este post, aliás, foi mais por tédio e uma noite sem dormir…

Acabei tentando, em nossas argumentações e contra-argumentações, encontrar um ponto melhor de tratar do que eu acho que em Cazuza há de crueza/crueldade, que para mim ainda é o mais instigante de sua canções. Eu não queria propriamente equiparar o valor do processo de composição ao do resultado final da obra, que é o que de fato importa. O que fiz foram suposições e que valiam mais a título de curiosidade. Os comentários sobre o processo composicional foram sobre o que eu também intuía, e se tentei puxar sua vida pública é porque ela acaba sendo inevitável num comentário geral sobre o Cazuza. Aliás no meu texto isso era parte da tentativa de encontrar uma justificativa para dizer que a sua era uma “poesia crua” – mas não necessariamente apenas pela composição, mas pelo efeito que produz. Eu parti do efeito para tentar explicar o processo de criação – este texto não é tão a sério, releve…

Mas após a discussão, e relendo meu texto, discordo dele quando digo coisas como “Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes” e a “técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque vive.” Eu procurava uma correspondência, ou até uma explicação, parca que fosse, para comentar essa minha impressão. E quando eu falo de inocência é, antes, uma constatação óbvia da música que se produzia na época. E do que se pode ver, política e intelectualmente os anos oitenta eram bastante inocentes. Eu queria situá-lo num contexto e tentar demonstrar como ele se sobressaiu mais que os companheiros dos anos 80.

E coisa que eu não consigo comentar é música em si. Só tenho ouvidos para escutar o que eu gosto, e o que eu gosto na maioria das vezes se foca na poesia – mesmo que seja uma poesia da canção. Embora esta às vezes possa se confundir com uma poesia propriamente literária, no geral tem características muito próprias. Quando eu falo de música é do que eu consigo perceber de um diálogo música/letra; veja que são poucas as coisas que escuto em inglês, por exemplo, e só gosto de “música” quando a música se sobressai em relação à letra (preciso de muita atenção para entendê-la, mesmo do meu modo que não é tão chegado em música).

Sobre seus pontos:

1) Eu não disse que crueldade quer dizer necessariamente crueza. Se o disse, sem querer, desfaço a confusão. O ponto que ainda mantenho é que Cazuza trata as suas referências a não querer aceitar delas um sentido “a priori”, como eu disse. Ele tem um processo (dentro da canção) de estranhamento, vê algo que ele não reconhece o sentido, e então trata essas coisas por cruas; aí, não sei, talvez por um escape, algum sentimento, expresse essas coisas com crueldade e crueza. Não existe uma conclusão do tema, embora ele deixa a crueldade como uma espécie de “finalidade” de sua canção. Enquanto isso, os outros de sua geração trazem uma conclusão – por mais que esta conclusão seja de ter a dúvida (“E é inútil ter certeza”, Enghaw). É meio bobo dizer isso, mas só na expressão do Cazuza vejo uma hesitação em relação ao mundo, uma falta de certeza que é expressada e não “definitivada”. Isso em relação aos anos 80, claro!

Iisso fica bem claro em “Burguesia”. Ele tenta fazer uma crítica social, imitar um tema muito comum na época, fazê-lo com “poesia”, mas acaba se voltando para si em relação ao “social”. E trata tudo com crueldade, ainda que se valha de clichês muito ruins (“eu também cheiro mal”). Não acho a melhor música ou letra dele, mas acho que ali a fórmula, como você disse, fica expressa.

Outra música, esta sim muito boa, é “Só as mães são felizes”. Aliás, esta música é um excelente exemplo para o meu argumento. Veja como numa primeira parte quase todos os versos fazem referência a uma terceira coisa, que serve para tratar do relacionamento mãe/filho pela distância do mundo dele em relação ao dela. Temos, comparada à figura materna, dezenas de referências, sejam artísticas ou da vida prática, que servem para encontrar na mãe uma não-correspondência de seu mundo; ao mesmo tempo, isso tudo é dirigido a essa figura com uma crueldade rara de tão direta. Essas referências, por sua vez, não têm um desenvolvimento em si: são como um ataque em que vão se jogando coisas, “coisas” que são esses versos – que daí sim acho “crus”. Do meio para o final, dirige seu foco propriamente à imagem da mãe, até o ponto em que temos uma das coisas mais cruéis dele: “Você nunca sonhou/ Ser currada por animais/ Nem transou com cadáveres?/ Nunca traiu teu melhor amigo/ Nem quis comer a tua mãe?/ Só as mães são felizes…”

2) Isso acho que já expliquei ao longo deste (longo) comentário.

4) Eu vejo mais uma mudança temática do que uma evolução técnica. Mas é claro que essa mudança temática denota uma maturidade, o que pode também ser posto como “técnica”… Eu precisaria escutá-lo com muita atenção para poder falar melhor. Veja só que o primeiro disco (com Barão Vermelho) tem quatro músicas pelo menos boas: “Down em mim”, “Ponto fraco”, “Todo amor que houver nessa vida” e “Bilhetinho Azul”.

Sobre o Iser, e a interpretação da poesia do Cazuza, o que eu quis fazer aqui não foi exatamente uma interpretação, mas apontar aspectos do Cazuza que me chamam a atenção. E, bem, saíram um pouco embaralhados na medida em que eu não havia realmente me dedicado a escutar para escrever. Coisa de blog

(Comments wont nest below this level)
Emmanuel
2009-05-10 09:17:36

Diego,

Sobre o primeiro ponto, só o mencionei porque me pareceu que para a sua argumentação a correspondência crueza/crueldade era evidente.

Sobre o quarto ponto, as canções que você citou (delas só não me recordo de “Bilhetinho azul”) não me parecem, com exceção de “Todo amor que houver nesta vida”, que tem lá as suas imagens interessantes, muito significantes.

Mas certamente eu entendi o caráter do seu post, só achei estranho que, apesar disso, você se mostrasse meio reticente em relativizá-lo; embora tenha feito isso aos poucos. Minhas próprias impressões sobre o assunto possuem também um caráter muito provisório, são também muito intuitivas; meu objetivo foi mostrar que o que para você era evidente no objeto não o era tanto assim. Sempre tive a impressão de que Cazuza era tecnicamente superior aos seus contemporâneos, isso no que se refere à poética de suas canções.

Quanto ao “Só as mães são felizes”, só um comentário. A terceira pessoa do singular evocada na letra, que funciona como uma segunda, não é necessariamente a mãe. Trata-se de uma figura feminina indeterminada, que tanto pode ser a mãe quanto não; isso não é importante. O título é uma referência à obra de Allen Ginsberg, o tal que paga michê na Alaska (o título foi tirado da obra deste). O objetivo de Cazuza com essa música era fazer uma homenagem a vários artistas “marginais”, como ele mesmo se considerava. Allen Ginsberg, Rimbaud, Lou Reed, Luiz Melodia e… Cazuza! Além dessa referência, o título se justifica internamente com “nem quis comer a sua mãe”. Allen Ginsberg tinha uma relação complicada com a mãe, que morreu louca, e isso está tematizado na obra dele de maneira muito recorrente. Cito isso não discordando de sua análise, mas acrescentando.

 
 
 
 
2009-05-08 12:45:04

Um comentário respeitável: quem do primeiro escalão da MPB gravou Legião Urbana e quem gravou Cazuza? Gravaram Cazuza: Ney Matogrosso (claro!), Gal Costa, Caetano Veloso, Luiz Melodia, Gilberto Gil…

 
2009-05-08 18:19:41

Você, que conhece a teoria do efeito estético do Iser, deveria considerar mais a variabilidade interpretativa do texto, e considerá-lo a partir dessa variabilidade, e não circunscrevê-lo a uma possibilidade única de interpretação de resto baseada na sua intuição e não na objetividade do texto.

Claro, só tomando cuidado para não ficar tentando eliminar completamente o processo intuitivo – ou o esforço interpretativo fica paralizado na nascente.

Acho as letras do Cazuza em geral muito melhores que as do Legião. Musicalmente ambos são apenas formulinhas, e as tentativas de ambos em fazer algo além dos três acordes (quem ouviu o Acústico do Legião Urbana deve se lembrar do momento – engraçado às pampas) são em geral risíveis. “La Maison Dieu”, que o Emanuel citou é repetitiva demais em seu minimalismo grave – e a letra se encarrega de expurgar todo possível mérito:

“se dez batalhões viessem à minha rua/ e vinte mil soldados batesse à minha porta à sua procura/ eu não diria nada/ pois eu lhe dei minha palavra// meu corpo branco já pegando pelo/ me lembra o tempo em que você era pequeno/ não pretendo me atormentar/ e de qualquer forma quem volta sozinho pra casa sou eu/ sexo compra dinheiro e companhia/ mas nunca amor e amizade, eu acho (…)”

Indefensável.

Funcionou na minha adolescência bem melhor que Cazuza, até porque tinha certa birra deste. Hoje é engraçado. Até hoje rio pensando que eu cantava, com a maior emoção, coisas como “sexo verbal não faz meu estilo” ou “eu sou metal… raio, relâmpago e trovão”.

Só pra terminar e porque o último verso me lembrou, o V é o melhor disco do Legião; é o que mais tenta e consegue alguma coisa. Mas as letras são bisonhas: basta lembrar de “Teatro dos vampiros”, que se pretendia um hermetismozinho crítico tão sem-graça…

Emmanuel
2009-05-10 10:20:09

Vinícius,

Ao citar o meu comentário, faltou acrescentar:

“(…) está-se partindo de impressões e intuições que, embora digam algo importante sobre as possibilidades interpretativas do texto, e por isso são valiosas, não podem servir para determinar algo tão prático e específico como o processo de composição utilizado.”

De fato, ao não fazê-lo, você passou uma impressão errada do que eu disse, principalmente ao se levar em conta o fato de eu mesmo ter afirmado que os meus comentários também se baseavam em impressões subjetivas. O que está dito no meu comentário é que, embora a intuição sirva para se acercar do texto, possibilitando desdobrar o seu sentido para além do literal, algo da objetividade do texto só poderia ser desvelado a partir de uma análise mais criteriosa.

Invoquei o Iser porque o Diego, apesar do caráter provisório do post dele, fez asserções bastante definitivas, que suspendiam a possibilidade de uma variação interpretativa fora dos termos que ele determinou para o objeto. Se se parte do princípio de que não há uma elaboração técnica nas letras do Cazuza, fica vedada qualquer possibilidade interpretativa que leve em conta a sua desenvoltura técnica.

O meu objetivo era contrapor a visão do Diego, abrindo o horizonte da discussão, e não encerrar o objeto na minha própria visão. Para isso, pretendia mostrar o quanto a minha visão era defensável, e, logo, que as afirmações do Diego deveriam ser relativizadas, principalmente por conta de alguns pontos complicados da argumentação dele. Como já disse, não sei o quanto Cazuza trabalhava tecnicamente as letras dele, o que eu disse é que não é impossível que ele o fizesse, dadas certas caracteríticas dessas mesmas letras, como a concisão e a “justeza”. Não descarto a impossibilidade de estar redondamente enganado quanto a isso.

O que achei complicado na argumentação do Diego é a tentativa de chegar a uma conclusão sobre o processo de composição das letras partindo de algo vagamente intuído sobre elas. Para ver se consigo me expressar mais diretamente: ao contrário das possibilidades interpretativas da obra, digamos latentes ou “virtuais”, o processo de composição do Cazuza, que originou essas letras, é um fato circunscrito no tempo e no espaço, de alguma maneira “material” e inequívoco. Tal fato ocorreu e de um determinado modo, dizer que ele ocorreu de outro modo é falso; o mesmo não acontece com relação às possibilidades interpretativas: é possível duas interpretações contraditórias entre si sem que uma delas esteja necessariamente incorreta, desde que não seja contraditória com o objeto.

A meu ver, raramente as obras trazem indícios suficientes que permitam retraçar o seu processo de composição, a não ser naquelas em que a reflexão sobre a pópria criação aparece incorporada (mesmo assim devemos estar atentos para eventuais ironias ou mesmo para a falta de clareza do autor sobre o próprio processo de criação).

Fora desse enquadramento, que está dado no meu comentário (afinal, não fiz nada além de me repetir de maneira mais esmiuçada), a citação que você pescou pode realmente passar a impressão de que eu descarto a participação da intuição no trabalho de análise literária, do que eu absolutamente discordo. Além disso, seria bastante contraditório afirmar tal coisa em comentários que procuram salvaguardar a todo momento o seu caráter intuitivo e provisório.

2009-05-12 09:03:20

Não quis causar essa impressão, apenas formulei diferentemente e, digamos, mais diretamente. É claro que é possível apreender de seu própio texto a mesma opinião que emiti – mas às vezes o momento passa despercebido e o que fica é a formulação mais objetiva. O que fiz foi ressaltar, não discordar em si.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
Emmanuel
2009-05-10 11:14:33

Quanto a “La maison dieu”, eu disse que achava interessante a “atmosfera” dela. Continuo gostando da densidade dessa atmosfera. Se isso se deve a um “minimalismo grave”, repetitivo, que seja. Gosto de minimalismos e de coisas repetitivas; de gravidade, nem sempre.

A letra realmente possui uma qualidade discutível (não diria “indefensável”, pois não estou muito certo disso), mas possui algum relevo histórico, a meu ver, por tocar em feridas abertas quando ainda nem se discutia publicamente a legitimidade da anistia que os militares concederam a si mesmos:

“Eu sou a lembrança do terror/ De uma revolução de merda/ De generais e de um exército de merda/ Não, nunca poderemos esquecer/ Nem devemos perdoar/ Eu não anistiei ninguém”.

Se quando foi lançada (o álbum é póstumo) poderia parecer uma canção de protesto retardatária feita em espírito punk, “para chocar”, revelou-se de algum modo visionária, e hoje, quando figuras importantes do governo querem reabrir a discussão sobre a anistia, como foi feito no Chile, ela ganhou uma atualidade imprevista. Essa música expressa um ressentimento histórico, um mal-estar com relação ao passado recente do Brasil, como nenhuma outra que conheço.

Sob esse ponto de vista, se o minimalismo grave e repetitivo, que cria uma atmosfera densa e abafada, não se justifica esteticamente por si mesmo (o que talvez seja “defensável”), ao menos expressa perfeitamente o espírito da letra, a questão “historicamente abafada” trazida à tona, ou, em termos populares: a questão “entalada na garganta”.

Isso é algo a se levar em conta ao se tratar de uma canção: a unidade entre música e letra, que nesse caso é bem lograda; música e letra não são se relacionam apenas por uma adequação rítmica e temática, como acontece na maioria das vezes, mas há uma correspondência mais profunda, ao nível do espírito do conjunto.

Mas se isso ainda não é o suficiente para “defender” a minha predileção numa análise imanente, ao menos podemos dizer que a canção, que de modo algum é inferior a uma canção punk, por exemplo, passa numa análise ideológica, que, a rigor, é a análise mais adequada para os produtos da indústria cultura, isso segundo a erudita concepção adorniana da arte, de onde tirei a distinção entre análise imanente e ideológica.

Preconceitos adornianos à parte, o fato é que a canção possui um legítimo interesse histórico, o que já é alguma coisa, uma vez que os contemporâneos da Legião Urbana raramente conseguiram elevar-se além da superfície dos lugares-comuns da crítica social. Em “La maison dieu”, conseguiu-se dar forma a um mal-estar apenas pressentido em certos setores da sociedade, e que isso tenha sido feito por uma canção pop, e não por um figurão respeitável da MPB tradicional, é algo digno de nota.

 
 
2011-08-26 20:29:41

Thanks – Enjoyed this blog post, how can I make is so that I get an email sent to me whenever there is a new update?

 
gustavo
2011-11-16 07:04:40

Você também pode utilisar a palavra “homosexual” sua escrota.

E pra você “sapatão”, ou você acha que a gente não percebeu ?

 
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