Zii e Zie, mas também sobre o Cê

Postado em April 22, 2009
Categoria Caetano Veloso, Zii e Zie | 9 comentários

Zii e Zie, o novo disco do Caetano Veloso com a Banda Cê, parece ser uma despedida inevitável do cantor e a banda formada por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Mas não que isso seja ruim; pelo contrário: é uma das grandes qualidades do disco à primeira ouvida, ainda mais se considerando a obra de Caetano como um todo.  Eis a minha primeira impressão ao sentar para ouvi-lo. Não imaginava que ele desse uma continuação ao seu projeto anterior do Cê, a não ser quando vi seu blog. É um disco de separação. Dele e da banda, certamente. Uma separação do que é São Paulo e do que é Rio de Janeiro. Separação, talvez, do Caetano e alguns temas que o perseguiram direta ou indiretamente desde o Circuladô. Desde Circuladô até o Cê, Caetano Veloso fez balanço de sua vida, sua música, seus temas. Zii e Zie, agora, quer um descolamento do disco anterior e também avalia todo esse processo. Também tem bastante de Lobão, principalmente o de Canções dentro da noite escura, se é que meus ouvidos não são tão ruins assim.

O Cê é um dos discos mais surpreendentes de Caetano (até a crítica o elogia bastante), porque naquela altura de sua carreira a última coisa que se esperava era ele fazendo rock. Também é um disco melancólico. Há um homem que se vê velho mas não quer sê-lo, é um Caetano bem diferente dos outros que  ele já foi. Disfarça-se na carapuça do rock, no exagero de gritos e metais. Consciente, ele se insere nessa música vendo-se velho e tendo visto o rock nascer e crescer. Precisa expressar que é e não é um velho. No Cê houve um encontro perfeito entre um homem velho e uma banda de rock formada por gente de “uns 25 anos”. Pois com sua experiência (tanto artística quanto na vida) ele pôde levar a uma radicalização muito interessante a linguagem do rock contemporâneo e a do próprio Caetano.

Cê, que é um disco roxo tanto em sua capa quanto na sua forma, não renova a linguagem desse rock anos 00 mas sim revela o quanto ele tem de cafona e outras coisas que tem. E se não tanto cafona, pelo menos explicita o quanto é estranho um mano Caetano, sexagenário, fazer um disco que é de rock. Ele não esconde isso. São também diálogos inevitáveis para mim os com Los Hermanos (que eu apenas intuo, mas não identifico referências diretas) e com o que se fez daqueles que já foram rock stars, como um Mick Jagger da vida. Não me refiro a uma personalidade especificamente, mas o que se tornaram esses rock stars depois que o “rock errou” e o seu tempo já ficou marcado na história. Eles, jovens e inovadores na época áurea, envelheceram. Caetano também envelheceu. Mas para demonstrar que musicalmente não envelheceu, e se manter coerente sendo Caetano, é que talvez esse disco lhe sirva bem.

As duas músicas que eu mais gosto no Cê são Rocks e Eu não me arrependo.  A primeira é a mais emblemática e que melhor representa o disco (esta palavra ainda entra em desuso, melhor seria “álbum”).  Trata-se de uma situação totalmente brega: uma mulher que tatuou um Ganesha na coxa e saiu por aí exigindo “rocks” e um cara que é apaixonado por ela, que passa a música cantando sua dor de cotovelo, reclamando que ela foi “rata comigo demais” (na verdade, sempre que eu escuto acho que a “mulher que tatuou o Ganesha na coxa” é descrição do próprio “cara” que canta com sinceridade a dor de cotovelo dele –  e em Caetano essa leitura é plausível). Caetano canta de uma forma que finge soar séria, mas é pastiche; a banda o acompanha bem num rock caricatural. Caricatural como é todo o disco, aliás. Mas nada que soe inocente, como já disse: é um disco da maturidade de Caetano Veloso. Já Eu não me arrependo é o contrario disso, uma singela balada. A única canção do Cê que se possa dizer “limpa” e que de alguma forma se pretenda mais séria e funcione longe do contexto do álbum. É a história dele com Paula Lavigne, com uma indeterminação do que há de particular, assim como em Itapuã (Circulado, 1991), que por sua vez fazia referências a Dedé, sua primeira esposa. E se não são duas músicas que falam de ex-mulheres, puts, estou muito enganado então.

Enquanto o Cê é rock ao extremo, e com todas as suas peculiaridades, Zii e Zie faz a mesma banda tocar uma mistura de samba com rock que não é “sambarock”.  Diz Caetano que é um disco feito no Rio mas pensando em São Paulo. Ele queria ter lançado o disco em Sampa mas será no Rio o primeiro show. “Zii e Zie”, que é italiano, significa em português “tio e tia”. Acho um nome feio pra caramba, mas é uma maneira engraçada de fazer sua referência inusitada a São Paulo. Ele já falou em entrevista recente que gosta desse jeito brega/deselegante de São Paulo (sobretudo aquela ponte espraiada, árvore de natal de novo rico) e já cantou a “deselegância discreta de suas meninas”. Em Zii e Zie acalma-se a rebeldia que havia no disco anterior. Quer dizer, as letras no geral são mais leves, mesmo quando se trata de problemas sociais: ou o do menino que entra para o tráfico (“Perdeu”) ou o da menina do Leblon que usa drogas ( “Falso Leblon”). Mesmo sua resposta à música Para o mano Caetano, que Lobão gravou em 2001, não traz propriamente uma resposta mas “aproveita a oportunidade” para exaltar o velho lobo. A música  Lobão tem razão emula as imagens exageradas, pretensiosas, confusas e às vezes belas do velho lobo e não revida nenhuma crítica que o mano Caetano recebeu. Mas isso retoricamente, claro, deixa o outro com a responsabilidade de ter razão. Assim, Caetano canta: “Lobão tem razão”. Ironia sim, mas não agressiva. É como se com o Zii e Zie Caetano Veloso dissesse que, apesar de motivos para o contrário, ele está dócil. Enfim, Zii e Zie é um disco dócil num ambiente que não o pede.

Mas Caetano eu nunca escuto em uma sentada só. Gosto de escutá-lo exaustivamente mas sem muita atenção, quando estou trabalhando. E daí ir identificando coisas que me chamam a atenção. Num processo que às vezes dura meses para eu parar e  sentar para escutar de verdade o disco (com meu ouvido pouco musical, diga-se). Aí sim eu conheço um pouco melhor o disco. Este post é também para eu de alguma forma registrar a minha apreciação ligeira de um disco novo do Caetano. E como faria disso um post, o que eu inclusive já havia tentado com outros discos. Mas esse quis sair, e nunca é bom recalcar um comentário sobre o Caetano. Devia ter dito isso no começo, mas não que faça diferença. Por isso está tudo embaralhado, disperso e sem um fio condutor que se possa exigir de alguém que saiba falar de música – pessoa essa que não sou, mas realmente não importa.

Comentários

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9 Comentários »

2009-04-23 09:13:21

Acho que você acertou bem dizendo que o Cê não renova, e sim explicita a cafonice do rock. Você diz que é o rock anos 00, eu digo que é o rock. Ou você acha que a década de 80, só um exemplo, está fora desse alcance do álbum? Quanto aos diálogos com antigos rockstars como Mick Jagger e com Los Hermanos, isso pra mim está muito vago, mas já que você previamente se defendeu sobre seu ouvido, entendo que é intuitivo e não pergunto.

Musicalmente, achei o Zii e Zie em retrocesso em relação ao Cê. Nos dois, o Caetano tanto acerta quando erra bastante na colocação e combinação da voz com a sonoridade do grupo. No Cê ele acerta muito mais. No Zii e Zie há músicas em que a voz dele não entra de jeito nenhum na sonoridade e soa horrorosamente, como em “A cor amarela”, “Tarado ni você” e principalmente no início de “Lobão tem razão”. Exemplo de músicas em que o contrário acontece e ele encaixa a voz perfeitamente é “Sem cais”, “Por quem” e “Minhas lágrimas”, minha preferida do Cê. Por isso acho uma pena que, se verdade, o álbum seja essa despedida. Ele e a banda ainda tinham muito pra consertar e crescer.

“É como se com o Zii e Zie Caetano Veloso dissesse que, apesar de motivos para o contrário, ele está dócil. Enfim, Zii e Zie é um disco dócil num ambiente que não o pede.” É exatamente isso.

 
2009-04-23 15:40:39

Marlon, vou responder ao seu e-mail e comentário por aqui. Mais fácil.

De fato este texto foi escrito bem às pressas e era um pouco de se esperar que ele ficasse redundante e até mesmo arrastado. Escrevi no trabalho, alternando entre faixas do Cê e do Zii e Zie.

Meu ouvido não foi feito para escutar música e acho que fica claro nesse texto. Em música, acaba que sempre falo de sua “poesia” e de aspectos mais gerais.

Eu gostei do Zii e Zie. Não sei onde li, mas disseram que ele era uma “estética do desagradável”. Em parte é sim. No Cê, Caetano e banda estão em boa sintonia. Mas a falta de sintonia também pode ser qualidade, e acho que o Zii conseguiu isso.

Acho ainda que o Cê dialoga com o rock 00. Mas claro que acaba dialogando com todo o rock, porque fez rock. Cê é um disco do Caetano se sentindo velho e se faz na linguagem pretensamente nova do rock 00. Mas que de alguma forma também é velha, porque é rock. Quando falo de um Mick Jagger, é que tem umas caricaturas muito acentuadas de alguém que é velho fazendo rock. Os Los Hermanos talvez porque eles são bem bregas e talvez não percebam muito isso.

O Caetano é um artista que o tempo todo dialoga com sua obra, conscientemente. Se fosse um outro artista, talvez esse disparate entre cantor e banda não tivesse proveito. Mas pensando em toda a sua obra faz muito sentido. Se no Cê Caê tinha o peso de ter se tornado velho, e buscar falar como um jovem, no Zii e Zie isso se supera e ele está mais em paz quanto a isso. Um dos problemas pode ser a separação da banda, a insuficiência dessa linguagem ou a procura de outros temas.

Se pá este comentário também estará arrastado. Acordei agora. Mas vai.

Marco
2009-06-18 18:49:42

Diego, nada como um velho moço como o Caetano para também enfiar a colher. Acho tanto o Cê como o Zii e Zie discos conceituais porém chatos de ouvir, a impressão que tenho é de escutar uma música só. Tem um disco do Macalé de 72 ou 73 que é fantástico c/ acompanhamento de 3, o próprio Macalé, o Lanny Gordin e o Tutty Moreno, e nem assim eles repetiram. Sinto falta dos arranjos do Rogério Duprat, que infelizmente já se foi, mas o Caetano ainda tem o Jacques Morelembaun e, fica muito melhor quando mistura sua irreverência c/ os eruditos e até quando experimenta, como com a Banda de pífanos de Caruarú, com o grupo Gereba. Para encerrar e não ser tão chato e atrapalhar a conversa dos “jovens”, acho o Caetano mais contemporâneo no Jóia, Muito e outros mais, nesses aí ele está só mantendo a polêmica,
Abraços

 
 
kelly~
2009-04-25 01:11:24

caetano, um querido!

amei o zii e zie e tb adoro o cê.

feliz em presenciar a trajetória de um gênio, em ser contemporânea de um cara como ele.

quis conmentar, pq procurando por críticas sobre o cd, caí no seu blog e achei bacana vc parar e fazer um post!

=)

 
2009-04-26 19:09:26

Kelly, o Zii e Zie realmente é muito bom. Obrigado pelo seu comentário :)

 
2009-05-26 22:25:39

Meu comentário também será arrastado e, posto isso, sinto-me a vontade para escrever as impressões da recém audição de Zii e Zie. Estou fascinado com o disco, com diversas canções na cabeça – o que é ótimo! –, sensação que há muito tempo não sentia em relação a um álbum (acho que o último e, com menor força, foi o 4 do Los Hermanos).

Primeiro, acho bastante precisa sua colocação sobre o Cê – descobrimento, no sentido lato, da linguagem indie rock 00. Desde a formação “guitarra-baixo-bateria”, o timbre docemente distorcido das guitarras, a incorporação das gírias (“cê”, “rata”, “já era”) – misturada com gírias do arco da velha, diga-se de passagem (o que corrobora com sua leitura sobre o sujeito velho que se reconhece mas não se quer velho). O diálogo com Los Hermanos, e sua turma, para mim está patente nos dois discos: meu ouvido não é tão musical – quanto se espera de um brasileiro – mas estas composições arranjadas com ênfase na guitarra (oscilante entre riffs obviamente calculados para soarem sujos – p. ex. os solos em “Cara estranho” no L. Hermanos, “Homem” e “Lobão tem razão” – e uma batida mais regular que repete e/ou contrapõe as frases melódicas do canto – evidenciado em “Conversa de botas batidas”, ” Outro ” e “Diferentemente”) que, no fundo, ecoam um violão requintado de samba são puro Bloco do eu sozinho.

Ainda tenho minhas dúvidas sobre a inevitável separação da banda, que para você é categórica, após a experiência de Zii e Zie. O que parece evidente é o complemento que o disco oferece ao Cê: “São Paulo em cheio nas luzes da Bahia” e “Pelourinho vezes Rio é Lapa”, frases quase espelhadas entre estes dois discos de mesma matriz (transambas / barra / transrocks). O arrefecimento da rebeldia “rock” parece, para mim, não um descolamento de Cê mas desdobramento complementar: não mais a dor de cotovelo por causa da rata mas o desejo e descoberta através da moça viciada do falso Leblon.

(Mesmo este complemento não é assim tão preto no branco: a recorrência da exaltação da beleza negra, o comentário sobre o idioleto tipicamente lusitano, as diferenças culturais entre Brasil e EUA permeiam ambos os discos)

Outras impressões: apesar da docilidade do disco, da aproximação com a turma jovem e, principalmente, na crença feliz no Brasil de Lula e FH, Caetano (como aliás, canta desde do fim dos anos 70) sente-se sozinho em seu jeito de corpo (como aparece desde “Minhas lágrimas”, “Waly Salomão”, “Odeio”, e agora “Falso Leblon”, “Lapa”), nunca ouvi tanta chuva no ensolarado Rio de Janeiro (“Lobão tem razão”, “Falso Leblon”), gosto da intimidade dos prenomes Osama e Condoleeza em “Diferentemente” e, apesar da minha desconfiança, da crença ainda evidente nas cartas e nas coordenadas de um mundo melhor a partir desta cidade (o Rio) e desta geração (Pedro Sá, Kassin, PUC e Fundição Progresso: Seu Jorge e os Hermanos). Já fui.

Em tempo: assino embaixo sobre “Lobão tem razão”. Você poderia aprofundar as relações com o Canções da noite escura! Me deixou curioso…

 
2009-06-12 15:39:10

Tal como a Kely, também cheguei a seu blog procurando críticas sobre “Zii e Zie”.

Concordo contigo e com os demais comentaristas quanto à presença de elementos “hermanísticos” tanto no “Cê” quanto no “Zii e Zie”.

Ainda não ouvi o “Zii e Zie” todo, mas me pareceu muitíssimo parecido com o “Cê”.

Acho que o “Cê” se define pelo próprio Caetano: “Minha contribuição para a discussão do rock contemporâneo”.

Batendo tudo no liquidificador: a estética do desagradável. Sem mais.

 
Pedro Albuquerque
2009-12-30 00:53:36

Crítica?
Sério?
Não creio que qualquer forma de arte seja suficientemente explícita e exata para tantas pessoas definirem.
Principalmente a arte de Caetano que é passível de qualquer espécie de definição.
Não que ele seja perfeito na expressão da sua arte, mas mesmo assim continua sendo totalmente passível de definições sejam elas quais forem.
Não percam tempo criticando, enquanto uma forma de expressão artística pessoal é o que todos buscam queiram ou não. Sejam capazes, ou não.
Vejo aqui apenas um aglomerado imenso de parágrafos furados, e opiniões que sinceramente ninguém quer saber.

Diego
2009-12-31 12:12:21

“Não creio que qualquer forma de arte seja suficientemente explícita e exata para tantas pessoas definirem.”

“Principalmente a arte de Caetano que é passível de qualquer espécie de definição.”

Bicho, ganhei o dia.

 
 
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