Esta vez medo

Postado em January 21, 2008
Categoria Coisas | 6 comentários

Como se acostumaram, combinava-se de ir ao mesmo bar de sempre, aquele cujos rostos da moda sempre passavam batidos, mas para alcançá-lo bastava descer aquela rua, após a rápida condução. A pretensão de um lugar outro. Acertou-se, desta vez, na estação de metrô. Encontraram-se umas nove da noite, pediram informação ao fiscal de bigode sonolento, desceram ruas, dobraram algumas esquinas etc.  Ei-los lá. A região mais vazia do que se escutava dizer, ali todo dia é cheio, seria iminência de chuva ou por que era um feriado em plena quarta-feira? E os bares, de se assustar, tinham a cerveja além do que o bolso permitia, esperava-se ficar por ali até haver ônibus. Depois de o sol ter iluminado as ruas. Como a região era de muitos bares, haveriam de encontrar um onde a cerveja fosse mais barata. Foram duas cervejas até que chegasse a hora de fechar esse boteco sujo, mais caro que aquele bar saudoso.

No bar ao lado descoberto, tranqüilizaram-se, a cerveja mais gelada, o atendimento melhor e só tinham é de fazer o tempo ir-se rapidamente, para que cada qual pegasse seu ônibus.  Mas a umas três da madrugada, desolados. Viam as portas descidas e ventava e o norte, a esmo, por sorte não era prejudicado, foi pouca cerveja que beberam. Na esquina, ali na frente, havia um ponto de taxi. É de se juntarem os trocados, ir-se dali, o tempo é que não se irá depressa. Pergunta se havia algum bar 24h. Mas o taxista, intransigente em busca de um passageiro, recomendando ir embora, aqui não era bom andar à noite (quando as categorias de Kant não existem).

Gentilmente agradeceu e, lembrando de onde vieram, pegaram a rua, reconfortaram-se em silêncio, cada um em seu próprio passo, sim veio-se por aqui. A rua se alongava como um paciente anestesiado sobre a maca; de relance às vezes parecia diferente, um abismo, mas é certo que era esta, lembrava deste bar. Iam-se como se deve prosseguir, sob arbitrários implícitos. Para não dizer que as ruas estavam vazias, vinha alguém na frente, alguém suspeito?, mas se lhes passou tão logo quanto surgiu.

Você com o guarda-chuva o que está olhando? E antes que se pudesse premeditar reação, garrafa instantaneamente estourou atrás de nós, seus cacos se viam voando. Os olhos do sujeito deviam ser de fúria, não os vi, quando me percebi corria com fôlego que não tinha. O amigo vinha um pouco atrás, eu avaliava em esquinas a solução, um bar, olhava para trás e ele  nos perseguia. Parou um carro, não vi, vi quando o amigo afoito pedia socorro.  Ele mexia no lixo. Tentei falar com o motorista, não entendia, não ligava, procurando alguma rua no guia da cidade.

Se conseguimos lhes explicitar a difícil situação, sem conhecê-lo, risco havia, mas vendo que ele voltava do lixo com outra garrafa, nos falou com um olhar que deve ter sido irônico, debochado, há um café 24h aqui em frente. Um deus ex-machina de estragar qualquer literatura, por sorte é um post. Com um suspiro duradouro e aliviado e as pernas instáveis, à beira de eu não ter respiração , enfim viam-se seguros, bastou atravessar rápido a rua em linha reta, acendeu-se um cigarro, isso não me era bom embora necessário, tentava-se explicar ao casal que ali estava a terrível perseguição. Ele apontava o dedo rindo-se, não é aquele magrelo passando? Passou seco, com a garrafa erguida numa das mãos, ele indo aonde quebrá-la.

Comentários

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6 Comentários »

Marlon
2008-01-22 15:02:35

Arbitrários implícitos, sim. Seriam também estúpidas?

Diego
2008-01-24 10:40:16

Estúpido só o sujeito que corria atrás de nós.

 
 
2008-01-24 10:25:57

Já lhe disse: largue os cigarros para que possa correr com mais, hum, facilidade =]

Ótimo post.

Diego
2008-01-24 10:42:08

Ed, mas faz tempo que eu não preciso correr com facilidade. E espero não precisar mais.

Obrigado.

2008-01-24 12:33:35

Eu também, eu também. Quando precisar, estarei em maus lençóis: sou um sedentário.

(Comments wont nest below this level)
 
 
 
2009-03-08 21:50:26

Quando as categorias de Kant não existem os bárbaros são temidos, quem que não seja o próprio medo erraria uma garrafada ou acertaria exatamente no chão, na môsca?
Na “Crítica da Razão Pura”, o outro lado da moeda, é o juizo perfeito, o Impossível/Inverbalisável, um fenõmeno, e ocorrido com voce é semelhante ao ficcional de “Alice…”, e voce só sobreviveu.
Salvo enganos humanos, é claro, quase como a quinta emenda americana, estarei certo.
Para entender como uso o termo Fenômeno, caso ainda não leu Deleuze, no seu “Lógica do Sentido”, pode-se entrever paridades com as cotegorias de Kant, apesar de dimensões do conhecimento opostas.
Basta uma pergunta, aparentemente sem lógica, para entender, não o suficiente, é claro, a diferença entre sentido e razão: Por que voce viveu determinada(?) experiência?
A Razão sempre vai perseguir o sentido, e este normalmente estará indiferente a ela.

aquele abraço

 
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