Uma lembrança, de repente
Postado em January 20, 2008
Categoria Arte, Literatura |
Quase três horas da manhã de um domingo que ainda era a persistência de um sábado morno e de arrumação da casa. Eu lia Reparação, de McEwan. A princípio, tentando algum motivo para dormir. Mas a leitura, no entanto, me mantinha atento às nuances do texto, eu de fato o estava lendo com a devida atenção. No romance, e eu estou em seus primeiros capítulos ainda, há a Briony, menina de treze anos cheia de pretensões literárias. Ela escrevera uma peça, e agora a dirigia. Veio-me à cabeça, de repente, o fato de um escritor, não sei qual, dizer que aos dez anos tinha escrito uma peça. Eu aos dez anos nunca tinha escrito nada, pensei.
Mas não é que minha memória involuntária me traz um fato muito curioso! Pois eu, aos dez anos, escrevi uma peça – mas isso estava absolutamente esquecido em algum lugar de minha memória. Foi para as aulas de religião. Lembro que o último capítulo do livro da matéria (na faculdade se diria disciplina ou cadeira) era sobre a campanha da fraternidade, e faríamos algo especial baseado nisso. Salvo engano, o tema era “perdão”. Certamente não lhes interessa, mas no caso de sim: consulte-se qual foi o tema da campanha da fraternidade de 1997.
Numa noite, após ter feito o dever de casa e já ter jogado bola (jogar bola era o que eu me lembrava de meus dez anos), sentei-me, peguei duas folhas de papel sulfite e comecei a escrever com uma Bic. Foi tudo razoavelmente fácil: pessoa que passava por dificuldades financeiras reencontra um antigo conhecido que está bem de vida porque virara ladrão; este o inicia no mundo do crime, mas na cena seguinte são presos. Passa alguns minutos na cadeia, e quando sai procura emprego – mas ninguém lhe concede oportunidades, porque ele tinha sido preso. E a peça acabava, feliz, quando alguém lhe tinha dado uma chance de recomeçar. Mas a única coisa que me lembro de dificuldade em escrever era o fato de escolher nomes: familiares, amigos, que nomes dar? Se eu usar este, vão pensar que estou me referindo à pessoa etc. Deve ser por isso que escolhi a poesia.
Naturalmente toda a peça é besta, não vem ao caso. Mas é que escrevendo sobre, há também a rememoração. É delicioso e instigante encontrar, em seu passado quando se detestava a literatura, algum elo com você agora, pretensiosamente homem das letras. Como se, por um elo frágil, você se reconhecesse mais em algum lugar distante. Uma surpresa.
Eu com menos de 10 anos escrevi um livreto sobre um pássaro amarelo engaiolado buscando a liberdade. Tenho-o até hoje, ora que merda.
Eu me lembro de já ter escrito várias coisas ao longo do tempo. Quando criança, queria escrever livros cheios de ilustrações, como os que eu lia. Na segunda série, dois “contos” meus tinham sido distribuídos aos colegas de classe - cada semana havia a seleção de um melhor. Aos doze anos, sob obrigação de nota, eu escrevi um livro com certa de vinte poemas - todos os alunos haviam escrito um (é claro que eu plagiei tudo!). Nada ficou, e não me emocionaria nada se ainda os tivesse. Mas esta peça, a lembrança dela, foi-me muito curiosa e divertida. Mas valeu só por estar perdida. Agora ela passará batida. He.
Belo post.
Obrigado, Lorena. E o escrevi semi-sonâmbulo. O pior é que estes, não raro, saem melhores.
por essa idade eu não escrevia nada, mas ilustrava. pegava um texto qualquer num livro da escola e punha-me a desenhar a estória. se precisar dum ilustrador pra tua peça. abraço.