Avaliando o que perdera
Postado em January 1, 2008
Categoria Cotidiano |
Chega o fim do ano e ficamos mais sentimentais. A maioria dos blogs que leio está em seu balanço de fim de ano. E eu, influenciando por meus blogueiros preferidos, mas também por esta época, não faço de outro modo. Avalio o que perdera, para citar um verso do Drummond. Foi um ano longo este de 2007, muito longo. Ano de mudança, ano difícil, ano de (re)conhecimento e ano de preparação de alguma coisa que de certa forma já está a caminho.A princípio, em Salvador, percebi mais claramente que coisas em nossa vida podem ser eternamente perdidas, só persistindo na memória. A mim a vida de certa forma foi sempre assim. Também por ter mudado muito de cidade; assim, nunca fui de manter muitos amigos ou coisas. Mas, quando retorno a um lugar, posso muito bem revisitar algumas situações. Em Salvador procurei vários antigos amigos, sem sucesso. Coisas ficam para trás e pronto. Lembro-me de um dia em que desci ao playground do prédio de meus avós e fiquei, então, fumando um cigarro; uma sensação estranha, já que nos tempos em que ficava ali jamais eu imaginaria que um dia eu fumaria. Também era o lugar onde eu ficava com os amigos, quando criança e adolescente.
A seguir, houve a ida a Belo Horizonte; visitei um amigo da faculdade. Após alguns dias ali, segui a Ouro Preto, onde eu já iniciei o curso de Letras. Lá foi o primeiro lugar, ao que me lembro, de onde guardo amigos até hoje. Confirmou-se que, mesmo com o tempo, continuamos amigos; ainda que distantes, ainda que esse pessoal todo vá se separar, retornando cada um a sua terra natal. O nosso parece que se perderia mais pelo espaço, não tanto pelo tempo.
E, completando o percurso, cheguei a São Paulo. Voltaram as aulas, reencontraram-se os poucos e bons amigos que se fazem numa cidade como esta. Lembro-me, no curso das semanas, minha patética descoberta de Meursault – mas essencial para minha formação; a descoberta de uma espécie de anarquismo só do próprio ego, uma viagem pelo estrangeirismo. Acho que foi minha queda, efetivamente conhecia o mundo. E, mais tarde, por ainda ser volúvel, veio um radicalismo às avessas, um deslumbramento do conservadorismo, uma tentativa (falha) de se tornar católico de verdade etc. E, quando isso tudo passa, os dois lados, o espírito se acalma e pode-se especular melhor o que somos.
É claro que isso não foi tão simples, tendo durado boa parte do ano. Esses mergulhos deram reviravoltas em minha vida; chegou a hora em que quis largar a faculdade de Letras, como se partisse de uma decisão verdadeiramente racional (mas faltara eu me considerar a mim mesmo), que vinha acompanhada de uma decepção de mim enquanto poeta. Quis trocar de lado, pensar numa vida financeira, como se abandonasse a ilusão adolescente e inócua de ser poeta. Este processo também é longo, afinal veio da descoberta de que não se poderia levar a poesia esperando o instante em que seu gênio, como um Rimbaud, deslancharia.
Tendo decidido fazer Direito, iniciei o cursinho. Mal no segundo mês eu já o tinha largado. Só assim, levando uma patada, pude reconhecer meus próprios limites. Enquanto ia-me desviando do cursinho, voltava a tentar trabalhar via web: iniciei uns projetos, tentando de alguma forma estabelecer-me. Por alguma sorte, consegui um emprego de verdade. Trabalho com webdesign.
Mas as dúvidas quanto ao futuro não pararam. Foram dois meses difíceis, de certa angústia, de trabalho e projetos pessoais, de certo desespero. O trabalho me cansava, afinal pegam-se ônibus e trem, à parte o trabalho em si. A minha sorte foi, como já postei, ter ido a Itajubá e ter refletido melhor o que eu já especulava para o próximo ano. Assim, larguei mão de todos os projetos pessoais, que mal davam retorno e cansavam muito. Decidi, enfim, voltar à faculdade de Letras, afinal tenho de reconhecer que ainda tenho o que aprender. Volto, acredito, mais maduro, com mais experiência; também já não dependendo de luxos familiares; ganho eu mesmo meu dinheiro e gosto do que faço. Volto sabendo o que quero, o que me é importante. E a Literatura é uma das coisas mais importantes. Quero estudar muito, dedicar-me profundamente a ela. Lê-la. Entendê-la.
Querer ser poeta. Durante algum tempo, havia o querer ser poeta. O achar-se gênio quase pronto. Mas, nesse tempo, descobri que o que há é, realmente, a necessidade de escrever, o contato com as palavras, este mundo ao qual adentramos querendo entendê-lo, descobrindo que o buraco é cada vez mais embaixo. (Perdoem-me por eu estar meio clichê. Eu bem disse que ficamos sentimentais.) O poeta ainda está por vir, se vir.
E, humildemente, devo reconhecer que eu tinha iniciado a faculdade de Letras para ser poeta. Na dificuldade deste, larguei aquela. Acho que eu tive medo de não ser poeta, eu que já me achava tão poeta. Há e sempre haverá a insegurança de não sê-lo, mas é um risco que, para mim, agora vale a pena. Mais uma frase tola: eu estou fazendo o que gosto, é de mim fazer isso, vale a pena arriscar; antes assim do que seguir por um caminho mais falso, artificial, carregando a perda de um dia eu poder ter sido o que queria . Também não conseguiria ser diferente.
Espero que, de agora em diante, já tendo dado as caras e pedido desculpas pelo sumiço com estes textos sinceros, eu retome bem o Perambulagens e também algumas coisas que deixei no caminho e que não me deixaram.
*
Um bom ano novo para vocês. Muita literatura, muito uísque. Bons amigos, bons amores.
Mas que bela notícia!
Vai ser um ótimo ano, você vai ver.
Eu não sei se você foi irônica ou sincera. o0
Sincera, óbvio. Como eu já tinha sido antes
Que seja mesmo um ótimo ano. Uma vez mais: fico feliz com as novas resoluções.
Vai ser um ano engraçado, eu já disse. Com uísque e charutos.
Te contaram que eu ganhei um Romeu e Julieta?
voltando ou não pra poesia, espero que não perca a sua alma de poeta!