O sonho de ser artista
Postado em December 26, 2007
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Muitos o deixam logo, outros o levam consigo durante bom tempo e alguns raros o realizam. É fato que quase todos nós passamos por uma época em que temos o sonho de ser um artista; no caso, falarei de escritores e poetas. Chegando à faculdade de Letras, esta que eu já iniciei em duas universidades, é o sonho de ser escritor o panorama mais geral dos que lá gostam de literatura (e creiam que há muita gente que a despreza). Esses todos desejam e até se esforçam por seu sonho. Entretanto, logo vêm as desilusões e descobertas de como é difícil sê-lo. Desistem, portanto. E não sei se muitos continuam lá por que realmente gostam do curso e da profissão que vão seguir, ou se é por comodidade, já que muitos, que ingressam na faculdade pura e simplesmente para serem poetas, agora temem perda maior de tempo. Não sei quando o sonho morre, não sei o que então sucede às pessoas.
Só no terceiro ano me veio a possibilidade de ser poeta, e logo em seguida achei razoável a idéia de ser professor, afinal lecionar não haveria de ser tão ruim assim. Passei no vestibular e fui estudar Letras na UFOP e, no ano seguinte, morava em São Paulo e estudava na USP.
No princípio somos aquela enorme pretensão, nos elevamos à condição de algum gênio pronto para desabrochar como algum Rimbaud e conquistar o mundo das letras. Mas isso não vem, não vivemos mais tempos de gênios, não há nada. Fora do meio acadêmico, principalmente no familiar, promessas de que se pode usar sua inteligência para ser alguém na vida. E ao mesmo tempo amamos a Literatura e dedicamos a ela nossas melhores horas de amor, havendo sacrifícios de diversas ordens. Em seu nome, encaramos, com algum medo e um desejo de certa forma quixotesco, uma espécie de roleta russa em que está em jogo o realizar-se enquanto poeta e viver em condições modestas ou simplesmente este último caso, já que o fracasso é sempre muito iminente. Mas na hora do disparo muitos desistem, entregam-se ao mundo, que é mais forte do que qualquer um de nós.
Também com o tempo vamos ficando mais desiludidos de nós e do mundo, até nos tornando mais debochados. Desconfiados de que algo valha alguma pena. E não sabemos se se encontra consolo disso nas letras, ou se é o contrário (isto é, se as letras são nossa investida contra o mundo), ou uma mistura, uma contradição, que é o que deve ser. Afinal, por que escrevemos? Temos de pensar por que se faz arte, por que esse sonho de ser artista, o quanto nos entregamos a isso e o quanto realmente vale para nós; se é a única satisfação que teremos ou se é apenas uma mania que aprendemos quando adolescentes. Até quando é mero sonho de ser artista e quando se deixa de sê-lo?
Talvez você peque quando diz que não há mais tempos de gênios. Gênios dificilmente aparecem em seu contemporâneo.
Ou talvez tenha dito isso pra exemplificar o pensamento que temos quando “somos aquela enorme pretensão”.
Marlon, quando disse que não é mais tempo de gênios, referi-me tanto à enorme pretensão quanto ao fato de um gênio hoje ser difícil. Claro que pode surgir algum. Mas o fato é que o tempo não é propício, como foram outros. No romantismo, por exemplo, devido ao próprio “movimento” literário e histórico, tudo era muito favorável. Mas, hoje, o que há cada vez mais é o trabalho em cima de uma obra, a busca (arrisco “racional”) de se fazer um bom poema etc.
Mas um movimento literário ou histórico muito dificilmente se mostra, conceituado, seja em síntese histórica ou claramente patente, a quem os vive. Não acredito, também, que o tempo de hoje seja menos propício que outros, puramente você está batendo com a fo(ô)rma de seu tempo, indiscutivelmente diferente do anterior, que indiscutivelmente foi diferente então do seu anterior.
Mas o que realmente queria dizer é que na grande maioria das vezes os gênios são criados pelo tempo, novamente: quase imperceptíveis para os contemporâneos da época em que vivem. Criar novos e talvez totalmente diferentes gênios, os do séc. XX são uns, os do XIX, outros. Mas chega por aqui, afinal seu despertador tocou.