A tal da ‘blitz cultural’
Postado em September 24, 2007
Categoria Cotidiano |
Alguém aí sofreu os mesmos danos morais que eu? É assim: você, após um dia do martírio de ter de trabalhar, pega seu ônibus pensando que agora tudo acabou, que logo estará em casa e assistirá ao jogo. Mas eis que, nesse ônibus, há um sujeito que você evita olhar: veste um casaco batido, usa luvas meticulosamente rasgadas nos dedos e, pasmem, agora põe um nariz de palhaço. Deus do céu, o que será? Hum, um criativo assalto no ônibus. A perda de um real e pouco não seria má, posta a história que eu legaria.
Vejo-o saindo de onde estava, usava uma calça de marca. E não é que o rapaz já de meia-idade começa então a sutilmente gritar alto no ônibus como se falasse a um hipotético celular e, alguns minutos depois de muita ‘conversa’ com um suposto ‘diretor‘, anuncia que esta é a blitz cultural, trazendo alegria ao busão! E não é que ele passa toda a viagem gritando e fazendo piada com os passageiros? E não é que o rapaz se acha um artista! Por sorte, desci logo. Me segurei, mas desci no ponto certo. Quase parava numa dessas ruas escuras clamando que me assaltassem.
E se nosso digno palhaço fosse um assaltante fantasiado, eu pelo menos teria uma história para contar aos netos que não terei. Mas que graça haveria contar como foi, contar de uma personagem cujo nome é P.M.: “palhaço maluco”? E contar que a platéia foi participativa? Ah, coisa de quem assistiu muito à Xuxa.
Ih, xará, esse pessoal está em todos os cantos. E se você não entra na onda, é um burguês desalmado que não liga pro teatro brasileiro. Veja só… eu e minha namorada ouvindo de um sujeito de nariz de palhaço que não gostamos de teatro brasileiro, justamente no dia da estréia de uma peça dela…
Pois Paulo, então eu sou um ‘burguês desalmado que não liga pro teatro brasileiro’. Essa gente é muito chata.
Diego, você pode contar para os seus filhos sobre os, err, horrores da sua época, etc.
Ed, “contar para os filhos” é uma figura de linguagem. Deus me livre tê-los.
Pois é. O pessoal pensa que arte é malabares, palhaçada e grafite no azulejo. Sobretudo se interativos.
Em um mundo onde um BBB é artista, eu só posso ser um palhaço.
Isso costuma acontecer comigo, mas com poetas que costumam vender seus poemas nas ruas. Acontecia sempre comigo em Mariana, aconteceu em São Lourenço e, saindo um dia do MASP, aconteceu também em São Paulo. Em todas as vezes, para não ser obrigado a ser ironicamente simpático ou grosseiramente sincero,desenvolvi a estratégia: digo que odeio poesia. Se o pretenso poeta insiste, digo que faço engenharia e o meu negócio são os números e as coisas exatas. Até hoje, tem dado certo.