Estética e moral

Postado em August 8, 2007
Categoria Arte, Estética, Filosofia, Literatura, Política |

Sinto-me extremamente preguiçoso, por isso não me incumbirei uma resenha sobre os dois excelentes posts do Osrevni, vizinho aqui no Breviário. Alias, não farei nada senão tecer comentários despretensiosos e ébrios sobre as partes I e II do De como a estética explica o mundo (a terceira e, suponho, última ainda não foi publicada), ou do que me convir. Tanto faz, o que me agrada é refletir estética. E, se você ainda não os leu, recomendo que o faça logo, sem se dar direito a um bocejo; a macunaimice cabe exclusivamente a mim. Alerto que tome cuidado, contudo: se os textos são bem escritos, não é por isso que você se deixará facilmente ser convencido. Pois ele mesmo, ao trazer a questão de a estética possibilitar influência sobre os homens (indiscordável), convoca-nos: “Ou seja, mesmo que nos sintamos dominados pelo mundo exterior, temos algum papel em sua formação e, por conseguinte, em sua transformação. É algo a se pensar.” Não quero ficar citando, mas às vezes realmente torna-se necessário; antes citar que parafrasear, posta minha prolixidade: “[A estética] explica o mundo porque não dá explicações, não desenvolve paradigmas e dogmas, como a ciência e a tecnologia, para ordenar o que já é percebido”.

Tudo bem que a estética tenha sido usada para as mais diversas finalidades, desde didática, religião (é desta que parte Osrevni), panfletos políticos ou mesmo arte pela arte, que hoje é atacada em massa. Meus caros, não consigo não pensar em Literatura! E, aliás, é esta uma das poucas coisas de que posso falar sem tão grande inocência. Agora, tudo isso me lembra uma indagação feita pelo Sartre, que sem considerável perda pode ser entendida à Estética: “até quando a Literatura é inofensiva?” Na verdade, eu nunca me havia dedicado muito a essa questão, sobretudo a relação da estética que não é unicamente a alta arte com o mundo, que, achemos feio ou belo, deseja estética. Talvez você seja um dândi, ou talvez um desleixado incorrigível, mas o fato é que a estética está inevitavelmente presente em seu cotidiano.

Quando vou à casa de minha avó, por exemplo. Ao contrário de mim, que mofo o dia inteiro no sofá ou lendo um livro ou vendo televisão, ela é hiperativa e não desliga seu radinho de pilha por nada (sim, de pilha; a família já lhe deu um aparelho de som top, mas ela não troca seu ritual por nenhuma tecnologia). Da última vez em que lhe fiz uma visita, reparei como pode que todas as músicas falem de amor (talvez houvesse uma exceção inotável)! Diga-se que minha querida avó escutava a mesma estação que sintonizaria um brasileiro médio: MPB, rock dos anos 80 e 90; enfim, música pop (sim, ela é moderna); não era nada evangélico ou intencionalmente “cafona”.

E por que só se tocam músicas de amor (melhor, “românticas”)? Porque é um sentimento humano do qual todo mundo partilha e talvez o mais explorado em toda a arte que possamos chamar universal (que é a ocidental, claro), alguém afirmaria sem pestanejar. E trata-se de uma estética carregada de significado, como qualquer outra.

Seu valor artístico é sempre inquestionavelmente inexistente, mas o moral não. Minha prima, um outro exemplo, põe a mp3 do Chico Buarque e escuta, canta e com alguma sorte até verte lágrimas. Depois, chega até mim eufórica, reflexiva e sem motivo já brigando: “o Chico é poeta sim, viu! Sabe pesar cada palavra e entende a alma feminina.” Mas não entremos no gosto poético nem na nostalgia de Ditadura de cada um (já viram a ironia mordaz de “Cálice”?). Entre familiares, mesmo o feminismo é perdoável.

Há uma interessante distinção que se faz entre arte e moral: poder e dever, respectivamente. Logo, uma é o oposto da outra. Mas ao mesmo tempo não podem andar separadamente, porque o próprio ato de escrever, se problematizado, torna-se moral. Por que você escreve? Por que você produz música? Devo escrever, devo compor?

Não são raras as pessoas que consomem a estética que lhe agrada moralmente, e nem por isso são tão maus leitores. Essa afeição se deve sobretudo ao conteúdo abordado: um poema de amor, um quadro que traz um panfleto. As pessoas gostam de encontrar a si mesmas no que é estético, ainda que seja o seu lado mais sórdido. E costumam também, através da estética, se convencer do que ela mesma é. Mantendo-se as devidas proporções, tanto no entretenimento quanto na arte idéias são igual e esteticamente compradas (como não dizer que ambas têm uma poderosa força retórica?). Dizem que, no entanto, isso não mais acontece e que a modernidade culta já aceita as opiniões erradas. Imagine então o caso: um excelente escritor, hoje, lança uma obra-prima que carrega consigo um explícito panfleto misógino ou racista. Se alcançasse a mídia, logo causaria grande polêmica e não seriam poucos os que o acusariam com o dedo enristado e diriam que liberdade de expressão tem limite etc.

Agora, já podemos sem dúvida dizer que o questionamento do Sartre é puramente retórico e já traz em si a resposta: a Literatura é perigosamente ofensiva! Assim, naquele momento de guerras, convocavam-se os escritores e leitores a uma Literatura engajada. Pelo que se percebe do Osrevni, o engajamento (Céus, essa palavra é feia e deturpada) é também uma de suas propostas à estética — e, ao que me parece, uma revisão do engajamento de não poucos escritores do último século.

Sua justificativa é bonita e a mim estimulante, não posso negar: “De tal maneira que, quando compreendemos o quanto todos esses conceitos, que aplicamos ao mundo que nos cerca, se resumem em manifestações de nossa própria capacidade de abstração e representação, podemos estimar, igualmente, o quanto nosso contexto depende da postura que tomamos em relação a ele”. Todavia, não me consigo desvencilhar de meu caráter brasileiro, sou preguiçoso inclusive para a política. De certa forma, sou semelhante a minha avó e prima: o que buscamos é uma moral, apesar de a minha ser sobretudo a de que a arte deve ser arte, pouco importando o que se defende, questiona etc.

Diz Orwell que, em determinados momentos da História, os escritores são levados a virar as costas ao engajamento político, vivendo em uma espécie de niilismo. É engraçado como Adorno via com certa empolgação os esteticismos, porque, segundo ele, na verdade o silêncio político não demonstraria indiferença ou apatia, e sim uma crítica negativa em que o calar torna-se um verdadeiro brado. Ele não me parece em absoluto errado, mas, sobretudo em nossos dias, não se pode ignorar o estrangeirismo que se apossa do indivíduo e o faz apático. O que torna, portanto, inviável que haja muito interesse no extra-artístico, extra-estético. A não ser que se assuma a responsabilidade de uma realidade melhor; mas eu enquanto poeta prefiro apenas sofrer a política, como Camus aconselhara a nosso grande poeta Gerardo Mello Mourão.

Comentários

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3 Comentários »

2007-08-21 14:23:54

Diego,

Parou com os posts? O que está havendo.

Bjs. Ludâmbula

 
Marlon
2007-09-18 19:15:59

Se a arte deve ser arte, arte e moral não são assim opostos, no sentido mais literal da palavra. Afinal, “arte deve ser arte” me parece apenas um julgamento moral. Afinal “moral é dever”. Ou não? Um viva à sua parcialidade, não sendo irônico.

 
2008-07-01 19:33:26

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