Não me fale de Ingmar Bergman
Postado em July 31, 2007
Categoria Cinema |
Sempre que morre algum artista ou comemora-se o aniversário de uma obra importante, fico gravemente mal-humorado: nos meus feeds não há outra coisa senão posts com cinco linhas sobre o acontecimento. O último evento tenebroso foram os dez anos de Ok Computer. Oras, se eu quiser apenas saber da notícia vou a um site, que, por pior que seja escrito, traz mais informações do que um blog. Chatos esses blogueiros que apenas copiam a Folha e a Wikipedia e inserem suas valiosas opiniões.
É bem verdade que ainda poucos blogs que leio postaram sobre a partida de Bergman. Ainda bem. Tanto melhor assim. Por que não comentam do jogo de amanhã, que nem sei qual é? Fiquem, pois, com o Notes for Canto XX, do amigo Ezra Pound, já que não posso dizer muita coisa:
Notes for Canto XX I have tried to write Paradise Do not move Let the wind speak that is paradise. Let the Gods forgive what I have made Let those I love try to forgive what I have made.
(Ezra Pound)
*
Até agora, a única coisa boa que encontrei foi o post do Osrevni, colega de Breviário, em seu outro blog:
Tão interessante quanto seus filmes é a própria figura de Bergman. Era um artista, na mais alta expressão do conceito. Transformava seus dias, seus sonhos, emoções, medos e idéias, em roteiros e filmes. Escreveu vários livros sobre o próprio trabalho e a própria vida; não são textos auto-laudatórios, mas verdadeiras análises da gênese de uma obra de arte. Há poucos anos, talvez dois, um documentário mostrava o idoso Bergman na ilha em que vivia (Fårö, que significa ovelha), ainda anotando seus sonhos e fazendo listas dos demônios que o atormentavam.
Em Para ler sem olhar, Seção obituário: Ingmar Bergman (1918-2007).
O Parada também postou alguns links interessantes em sua breve nota.
De resto, do que eu li, deixe o vento falar.
Quando ouvi, fiquei muito surpreso, passei duas horas lendo os obituários, e esqueci. Hoje, porém, uma tristeza e uma devastação enormes vêm tomando lentamente conta de mim. É como se o mundo tivesse uns poucos heróis e de repente um deles caísse. Nos últimos dois meses (de greve, férias e vagabundagem) assisti Bergman semanalmente. Era um escape magnífico. Arte serve para tudo. Bergman, ao mesmo tempo que te conforta - ao te seqüestrar nas imagens, no ritmo, na atmosfera - te torna mais afiado, quando ele te devolve; mais apto a combater na realidade. Mais humano, também. Um humanismo rigoroso. Ele te dá a certeza de não ser solitário na existência. Há sempre aquele velhinho em Fårö, na sua célebre choupana, amaldiçoando o imposto de renda, com medo da morte, ciúmes da Harriet Andersson, pensando em Deus, no rancor contra o pai, incomunicável, comunicável, debatendo-se de grandeza, pequeneza, metafísica. Bergman era tanto para mim, como pode morrer um homem desses?
Bem, perdão por ter falado dele. É fato que essas notícias recorrentes enchem o saco. Espero ao menos que a atenção sirva para que as pessoas assistam seus filmes (e não somente o Sétimo Selo), coisa que fazem pouquíssimo, por mais que o comentem.
Essa coisa toda me incomoda igualmente, Diego. Detesto efemérides.
Oi, meu caro Diego… desculpe fazer uma pergunta fora do assunto, mas que plugin de comentários vocês usam para permitir esse sistema de respostas individuais? Gostei muito! Abraços!
Não me fale de Antônio Carlos Magalhães (rs).
Você tem razão, caro Diego. Alguns blogs só reiteram um pensamento médio sobre tudo. No caso do Bergman uma postagem boba soa quase agressiva…
obs: vou ler o post do Osrevni inteiro! Abraço.