Meditação sobre o café
Postado em June 25, 2007
Categoria Coisas |
O café é uma de minhas paixões. Sirvam-mo bastante forte e levemente açucarado e, por favor, passado na hora. Não como fazem em Ouro Preto ou na Bahia, onde é ralo e com muito açúcar, feito pela manhã e tomado à noite: esse famoso e tedioso chafé. Quem é fumante sabe, ou deveria saber, que não há nada como um bom café tomado ao poente que se estende, pouco a pouco. Um café e uns tragos de um cigarro — mas não dos lights, que correspondem a um chafé em forma de tabaco — é amenizar o dia, e não que os dias andem maus para mim. Mas o café, sim, configura o dia.
Nada contra quem toma café e não fuma. Entretanto, não posso dizer nada semelhante àqueles que fumam e não bebem café (exceção apenas aos que sofrem de restrições médicas e agem assim exclusivamente por má sina — destes deve-se ter pena). Quanta decepção os tolos nos causam, amigos! Só é pior ainda quando não lêem poesia, bem sabeis.
Em dias de branco, quando o despertador alarma dissipando-me as horas de terno sono, saio da cama em direção à cozinha, ponho a água para ferver e, só depois disso, posso pensar no mínimo gesto. Aos finais de semana, o método é semelhante, entretanto tomo café com mais alegria. Sento-me na varanda, quando o sol ainda está brando, sirvo-me bem desse líquido negro como a noite — oh, e o pão é secundário: se a Bíblia realmente fosse sábia, diria “o café nosso de cada dia” — e leio, em movimento de tranqüilo despertar, o jornal ou um bom livro. Além do mais, se a Bíblia realmente estivesse certa, diria que Deus reservou ao consumo de café o poder criativo das trevas e que Deus só disse que “achava o dia bom” após a primeira xícara de café.
Sempre me pergunto como alguém pode tomar um café como se fosse um remédio amargo e necessário apenas para se permanecer de pé, como se fosse ele vulgar, um xarope pela mera sobrevivência imediata. Ah, comprem cápsulas de cafeína! Não, a ciência decerto já inventou drogas mais eficazes. O café não é apenas um dispositivo que aciona a atenção. O café limita-se com Manuel Bandeira: é descaradamente simples, é quando fingimos ser menos do quão grande somos (conferir Poema só para Jaime Ovalle). O café é o senhor da simplicidade que guarda segredos, ao passo que o álcool demonstra além do que somos: o álcool é quando estamos algo rimbauds, picassos etc.: é a musa de nossos pensamentos e alegrias mais ébrios. E James Joyce, parece-me óbvio, bebia muito irish coffee, bebida irlandesa que combina café com uísque.
“Sento-me na varanda”. Putz, que inveja!
“Nada contra quem toma café e não fuma”.
É o meu caso, poucos acreditam como posso ser viciada em café e não fumar. Além disso, leio poesia, deves saber. Acredito que assim me salvei de sua ira.
dias de cafés escuros.
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