Poetryblogging

Postado em June 21, 2007
Categoria Blogosfera, Poesia |

Quando me ocorre uma preguiça repentina e ponho o livro de lado, quando já não quero ficar a fumar Camel e a beber café com a vista a esgueirar-se na vida que prossegue além da janela, quando os e-mails não chegam e já me cansou verificá-los ininterruptamente, quando não há nenhum novo feed dos blogs que assino e quando eu adio a hora de arrumar as bagunças, navego então por uns blogs.

Como já disse em outro post, os blogs me interessam por seu caráter de laboratório. Sem o que fazer, sempre vejo o que se apronta por aí. Num bom blog, por exemplo, vi um comentário interessante sobre filosofia, com termos que jamais supunha — clico no link e abre-se um blog só de poemas. Pacientemente, leio cada um deles. Acho que os piores poetas de todos são os estudantes de filosofia.

(Não sei se vocês conhecem a extensão para o Firefox de “mouse gestures”: executam-se os principais comandos do navegador com um simples arrastar do botão direito do mouse, inclusive o de fechar o site. Só não inventaram uma opção de, com esse simples mas ágil mover do mouse, mandar a página direto à blacklist. )

Não sei qual o problema desses novos poetas, não só dos graduandos em filosofia. São pessoas intelectualmente bem formadas, têm excepcionais conhecimentos de cultura, filosofia, literatura, música e cinema, mas não têm a menor noção de poesia. Os poemas do tal blog não eram de todo mal, como é mais comum, entretanto também não eram de quase nenhum proveito literário. Sei, também eu publico vez ou outra uns maus versos por aqui: mas ainda estou em minha licença de laboratório, e procuro sempre compensar uma falha com um acerto. Mas se alguém lê mais de cinco posts (às vezes, sete) e não vê nada de razoável no blog, de onde tirará coragem para uma outra visita?

Eu, por exemplo, publicaria exclusivamente poemas em blog se tivesse segurança de minha poesia. Fato que se verifica, por exemplo, em João Filho, que definitivamente é poeta. Assim, seu blog deixou um pouco de lado o caráter de laboratório e tornou-se muito mais um meio de se aproximar dos leitores.

A poesia de João tem sua voz, é uma poética bem amadurecida, enquanto a poesia daquele blogueiro é uma coletânea de todos os pastiches, tudo o que eu já li nos grandes poemas reduzido a uma pilha de informações mal relacionadas. Identificamos, primeiramente, o interesse pela protuberância da forma, do estilo, pela marcação do ritmo no melhor estilo concretista. Por que a poesia que se faz hoje, não obstante seja pobre, esforça-se para exibir com o dedo enristado os ganhos da poesia concreta e da marginal, essas esbeltas propostas de modernidade? E a maioria dos novos poemas continua a ser, acho não há tanto exagero em dizê-lo, meras letras de rock.

Também é muito comum no poetryblogging a forma do poema breve. Preferem o poema também o mais breve possível em força e em sentido, para que mais facilmente consigam expor toda a verborragia e ascese que aprenderam com Haroldo de Campos e Ferreira Gullar — no caso deste, refiro-me aos seus maus momentos. Ora, quem já leu “In A Station Of The Metro”, de Ezra Pound, obviamente não pode dizer que um poema é mau porque é breve. Não me entendam mal, não estou pedindo que cada blog seja uma odisséia. Aliás, nem estou pedindo nada.

Apenas constato que a poesia anda em desuso. E, se o blog não é responsável por isso, ele demonstram que quase sempre é verdade. Porque a Internet é uma extensão do mundo.

*

Ah, alguém conhece um Del.icio.us que funcione como blacklist? Se não, aos empreendedores de plantão, está aí um ótimo negócio. Eu usaria.

Comentários

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8 Comentários »

Vinícius
2007-06-21 15:49:03

Faltou um linkinho aí, senão eu não acredito em você.

2007-06-21 15:54:29

Estou a evitar polêmicas, pá!

Mas, vamos, não é difícil. Fique quinze minutos trafegando por blogs e você será capaz de desenvolver uma tese de doutorado sobre isso. Inclusive na USP, mas desde que você crie uma razão sociológica e encontre, em Marx, a vidência de que hoje haveria blogs.

 
 
Vinícius
2007-06-21 15:58:54

Marx acreditava na democracia declarativa.

 
Rômulo
2007-06-21 22:10:44

Há gente que escreve mal e não tem qualquer vergonha de publicar, é fato. Ultimamente ando à procura de denominadores comuns de gostos para a avaliação de desconhecidos, e constato como é difícil arranjar um desses para a poesia. Explico: se um sujeito diz que não gosta de Wes Anderson, ao mesmo tempo que clama ser apreciador de cinema, imediatamente escuto tudo o que ele diz with a grain of salt; se não tem apreço por David Bowie, mas se considera íntimo do rock, encontra logo meu despeito; se não gostou de Matchpoint, não entende nada sobre a beleza (e que julgamento ter sobre um sujeito desses?). Como fazer isso em relação à poesia? Há gente sagaz que gosta dos irmãos Campos. Complicado.

 
2007-06-22 11:08:13

Quer saber? Admiro quem não tem pudor em publicar, mesmo escrevendo mal - e até tendo consciência disso. Alguns escritores, cineastas ou artistas plásticos consagrados realizaram obras indiscutivelmente ruins, de ínício.

Mesmo assim, confesso me sentir constrangida ao ler certos textos de pessoas pelas quais tenho simpatia. É um sentimento semelhante ao que se sente quando nosso sobrinho de cinco anos faz algo errado em público: dá vontade de pedir desculpas por ele.

 
2007-06-22 15:02:52

Gostei do seu blog, veio de encontro a um pensamento meu. Meu blog é na verdade um ensaio para o dia seguinte.
Nunca pensei em ter visitantes e tão pouco sou louca o bastante para publicar em língua portuguesa porque me considero aprendiz de uma arte que talvez um dia eu seja merecedora.
Por enquanto: rascunhos ganham forma em mim.
Vim até aqui graças ao comentário feito por você nos Verdes Trigos. A tal da Juliana que comentou lá me deu arrepios.
Vim e gostei, vou “favoritar” e volto depois para ler com mais calma. Li rapidamente e me encontrei com um dos meus autores favoritos: William Blake.
Abraços vespertinos com preguiça de sexta nas entranhas.

 
2007-06-23 11:38:47

Aprendi uma coisa interessante sobre poesia: poucos poetas as lêem.
Valeu pela dica do João Filho.

 
2007-06-25 12:07:02

Sobre poemas curtos ou longos, o condensado pode estar num copo ou num barril, num poema curto ou numa odisséia. Num verso ou numa estrofe inteira. “Poesia é linguagem condensada”, dizia Ezra Pound. “Literatura é o que é sempre novidade”.
Eu digo, o que há de pior em arte literária, prosa ou poesia, são as boas inenções. Não há maior tédio do que os versos bem-intencionados. O exercício de escrever versos pode ser catarse para todos. Mas a poesia jamais pode ser seara para os medíocres. Desde Horácio, há mais de dois mil anos, na sua “Arte Poética” está dito que ao poeta (ao artista)não é permitido ser medíocre.

“mediocribus esse poetis/ non homines, non di, non concessere columnae” (mas, nem os deuses, nem as colunas [dos livreiros] permitem que os poetas sejam regulares).

Mas os blogs em geral funcionam como centro de convivência. Em meio à pedreira uma estrela surgirá do caos. O talento de quem tem é visível, mesmo nos
poemas iniciantes, o que não quer dizer maus poemas.
O poeta na idade da inocência tem a potencialidade da experiência. Maus poetas nunca se tornarão bons poetas. Pois são falsos poetas, como falsos profetas. Mas têm o direito de se expressar. Enquanto o juízo que fazemos deles é outra coisa. Identificar os poetas entre a poetaria, trabalho para a nossa leitura ao ludambular pelos blogs. Beijos a todos, a você Diego, parabéns por este texto.

 
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