A ROSA DOENTIA
Postado em June 20, 2007
Categoria Poesia |
Enfim chegou a encomenda do The Complete Poetry & Prose of William Blake. Na portaria do prédio, o papel avisando que eu teria de buscar na agência dos Correios; fui correndo, não querendo ficar bravo com a Amazon, apesar de eu nunca ter comprado livro em site para depois ter que retirá-lo na agência. E, vejam, mais de 30% da compra foi frete, nunca foi tão caro. No entanto, como eu estava ávido pelo livro, não me irritei muito.
Agora não posso deixar de dizer: Bad bad shipping! Não bastasse eu ter de buscar o produto, ainda veio com uns amassadinhos. Whetever. O mais importante é o livro.
Aproveito a oportunidade para apresentar a primeira versão de minha tradução de um dos mais conhecidos poemas de William Blake, o The SICK ROSE. Estou razoavelmente satisfeito com a tradução, menos nos versos 6 e 8, onde eu não consegui manter o sentido do original, sobretudo a rima joy/destroy. Em algumas boas traduções que consultei, fez-se a rima com prazer/viver e carmesim/fim, que, apesar de não serem más, não mantêm o oxímoro, que é fundamental ao poema.
Atualizado: O carmesim/fim de certa forma mantém o oxímoro, entretanto não tem quase nada da força de joy/destroy.
No original os versos têm cinco sílabas, mas eu fiz em seis a fim de manter uma melhor dicção e sentido presentes no original.
*
The SICK ROSE
O Rose thou art sick.
The Invisible worm,
That flies in the night
In the howling storm:
Has found out thy bed
Of Crimson joy:
And his dark secret love
Does thy life destroy.
A ROSA DOENTIA
Ó Rosa, estás doentia.
O verme transparente,
Que voa na noite fria
Na uivante torrente:
Encontrou o teu leito
De alegria menina:
Seu negro amor secreto
A vida te assassina.
(Tradução: Diego Barreto Ivo)
não desenha nem mais do olho aberto? quéisso, você vive desenhando letras… arrisque um risco de vez em quando, bjinho
Continuo preferindo doente ao invés de doentia. Doentia é feio, extraordinariamente irritante, e deturpa o sentido original: Blake utilizou sick, não sickly. Ah, e cadê as exclamações?
Gostei da ‘uivante torrente’. Mas é interessante lembrar que torrente dá idéia de rio, não de chuva.
A solução das rimas na segunda estrofe é boa, mas acho que o Crimson tem um significado muito importante para o poema. Blake poderia ter colocado um milhão de adjetivos similares no lugar de Crimson.
Traduzir Blake é retraduzir o inferno, sempre…
O “doente” tem vários problemas: primeiro, porque prejudica muito o ritmo ea sonoridade, senão quase todas as rimas do poema seriam ente/ente.
Deturpou, toda tradução faz isso. Mas, nesse caso, não vejo problema, aliás gosto do que fiz como solução. Tradução é, antes de tudo, solução.
O “Of Crimson joy” rimando com “Does thy life destroy” me parece, até agora, impossível de ser traduzido. Naquele versão que te mostrei anteriormente o verso ficou muito pesado, perdia a fluência. Por isso arrisquei essa “De alegria menina”.
Ah: e, malandro que sou, conferi o poema no meu novo livro - não há exclamação.
O ‘doente’ só prejudica o ritmo e sonoridade no seu esquema de tradução. Obviamente, fica implícito no meu comentário que acredito que vale a pena mudar todo o esquema exclusivamente por causa dessa palavra. De fato. Vejo problema na deturpagem quando ela é gratuita. Entendo sua opção no caso do ‘Crimson’, but my point is, é mais importante reproduzir o Crimson do que o paradoxo da oposição semântica/proximidade sonora.
Quanto às exclamações, conferi no Google Images e realmente; indago porque as pessoas transcrevem com exclamação? Doentes.
Gostei da nova solução para o verso 6. Na medida do possível, acredito esta ser uma boa tradução!
Rômulo, consultei dois dicionários e digo: “torrente” pode também ser utilizado para chuva. O importante é ser de água. No caso, “storm” pede uma palavra que seja forte, e torrente me parece adequada.
Além de “doente” não ser necessariamente a tradução mais adequada de “sick”; a diferença entre “doente” e “doentia” é a seguinte: a primeira traz a idéia de doença, como tétano ou sarampo. A segunda tem mais ranço de loucura, evidente no poema.
“Crimson” é um caso complicado, pois é o tempo do “blooming” das flores, a amenidade contente, de certa forma, antiteticamente relacionável ao “cruellest April” de Eliot. Gostei da solução pois traz em “menina” a idéia de algo fresco, novo, que é uma das acepções possibilitadas por “Crimson”. Não abarca tudo? Não, mas está bastante adequado.
Resumindo: gostei, Diego.
Vinícius, também acho o ‘uivante torrente’ excelente, como disse, e fico agora feliz que este adota o sentido de chuva também. Naturalmente meu comentário teve como fundamento minha cabeça. Verifiquei em apenas um dicionário, quando o fiz, e dois é superior a um, e sela-se a questão.
‘Doente’ é a tradução mais adequada de ’sick’. Independentemente do sentido geral que o poema traz, a palavra que Blake usou foi ’sick’, not ’sickly’. Claro que um tradutor deve medir os ganhos e perdas para optar por uma coisa ou outra; o que digo é que eu optaria por ‘doente’. Além da referida questão sonora, acredito que a escolha de Blake tem precedência, e Blake incontestavelmente escolheu ’sick’.
É a tradução mais adequada se pensarmos em um contexto de aproximação completa, onde uma palavra e sua tradução (no caso, “doente” e “sick”) sempre foram usadas para as mesmas acepções, têm a mesma raiz e origem e nunca teviram conotação diversa sequer em quaisquer dos períodos em que tenha sido usada em duas línguas diferentes. Ou seja, um contexto inexistente e utópico.
Em espanhol, italiano, por exemplo, existem palavras que são idênticas ao português, e não necessariamente devam ser traduzidas por suas correlatas imediatas. Que dirá então o inglês e a palavra “sick”, cuja raiz é bárbara, em comparação com “doente”, cuja raiz é do latim vulgar, ainda por cima?
Não que isso seja argumento para uma decisão contra “doente”: na verdade é uma justificativa da minha posição de considerar que, comparando as duas palavras, de Blake e de Diego (”sick” e “doentia”), esta é perfeitamente aceitável como tradução daquela. Invoco aqui não só meus conhecimentos parcos de inglês (que, mesmo sendo parcos, conhecem esta possibilidade de tradução, pelos motivos que citei acima, tais como a conotação de loucura que “doentia” propõe melhor que “doente”), mas além de tudo isso, afirmo que “doente” é uma palavra por demais comum - não que isso seja impedimento, pois “sick” também o é - e desgastada dentro de poemas em língua portuguesa desde o Romantismo (talvez desde Camões, mas não quis exagerar). “Doentia” dá ao poema um frescor, algo de mais poético do que simplesmente “Rosa, estás doente”.
Ou isso, ou também estou doentio.
PS: Quando você comentou da palavra “torrente”, lembrei-me da expressão “chuva torrencial” - curiosamente, a mesma foi dita por Roger “Somos Inútil”, no RockGol do mesmo dia.
É a tradução mais adequada se pensarmos num contexto de aproximação semântica. Não precisa esmiuçar as obviedades do processo de tradução.
‘Sick’ é um adjetivo que se aproxima de ‘doente’; ’sickly’ é um adjetivo que se aproxima de ‘doentio’. Pense no significado de doente/doentio em termos de etimologia: ‘doente’ é aquilo que padece de doença; ‘doentio’ é aquilo que se assemelha a algo doente. A relação é indireta. O mesmo ocorre com ’sick’ e ’sickly’, e por isso as palavras se aproximam. Ainda que as etimologias sejam diferentes (aliás, “bárbaro”? De onde você tirou isso? Anglo-saxão ou old english, please), os processos etimológicos são semelhantes. Acontece.
Averigüei nos dicionários que tenho, o Concise Oxford Dictionary e o Larousse Cultural. Pasmem:
sick 1. Ill, incapacitated by illness, feeling effects of some disease.
doente 1. Que tem a saúde alterada; enfermo.
sickly 1. Apt to be ill, chronically ailing, of weak health; suggesting sickness, as of sick person.
doentio 1. Que adoece fácil ou freqüentemente.
Eu nunca disse que ‘doentio’ não é uma possibilidade de tradução. Disse que não é a melhor possibilidade. Desde o princípio disse isso pensando não no que ’sick’ é, mas sim no que não é, isto é, ’sickly’. Repito: Independentemente do sentido geral que o poema traz, a palavra que Blake usou foi ’sick’, not ’sickly’. Blake poderia ter utilizado ’sickly’. A parte da loucura também está presente em ’sickly’. Mas ele não quis. Respeite-o.
Agora veja, a relação entre doente/doentio/sick/sickly é internalizada para quem tem o pensamento bilíngüe. As correspondências entre as palavras me parecem muito claras. Por isso acho difícil explicar o que acontece; mas o dicionário já deu uma ajuda, e se você pesquisar mais tenho certeza que concordará comigo.
Além de tudo isso, há a parte da sonoridade que, repito, é arruinada pelo ‘i’ de ‘doentio’. Meu ouvido é sensível demais? Talvez - ou o de vocês é muito rude. Cito um trecho do Itinerário de Pasárgada: “As provas me foram dadas sem as capitulares, de sorte que a edição saiu com um erro que se repetiu na 2a edição e de que até hoje não me consolei. (…) A estrofe inicial do poema ‘Metade da vida’ é
Pêras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.
Provavelmente o linotipista não acreditava que se pudesse misturar pêras a rosas e imaginou que devia ser ‘heras’ e não ‘pêras’. Assim quê, todos os que estas insossas memórias estiverem lendo, fiquem cientes que não escrevi nem jamais escreveria aquele horrendo verso ‘Heras amarelas’.”
A sensação que tenho com o “Rosa, estás doentia” é quase essa. Por isso a reação meio exaltada: foi tipo um Diego, não faça isso.
Hey, “heras amarelas” tem uma assonância bastante desagradável, não precisa ser gênio, minha irmã vê a hagada que fizeram aí. Quando ao “doentia”, acredito em você e nos dicionários, mas ainda acho boa solução, sonora e semanticamente. Bem pior é o “problema” no terceiro verso, emq ue o Diego inventa um “fria” que não está no original, ou no verso 2, em que “transparente” não traduz perfeitamente a palavra “Invisible”. Para resumir meu pensamento: boa tradução, aidna que sick or sickly.
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