O texto pobre
Postado em June 11, 2007
Categoria Coisas |
Ando a tentar escrever um texto. E nada.
Há algum tempo eu sabia que escrevia bem. Mas, hoje, quando releio velhos escritos, já sei que me iludia. Se eu supuser que tenho muitas coisas a dizer e tentar pôr alguma coisa em papel, verificarei que o texto não cabe fora de mim. Ah, sim, mas pelo menos não mais me iludo – que alegria!
Constato que apenas falo de vazios e que isso a ninguém pode interessar. E, logo, não consigo escrever nenhum texto, porque ainda escrevo mal. Fazer catálogo de informações é fácil e em todo lugar há isso. Eu também sei fazer e faço. Bem-vindo. Mas deveríamos ter vergonha. Será que compartilham de meu ar de patético ou, sem pestanejar, verificam eles que são, de fato, novos gênios?
Fujo ao vulgar, sendo-o. Tenho dezenas de críticas por fazer a esses sites que se dizem literários mas incorporaram o espírito medíocre do texto sem pensamento e imaginação. Tudo o que um literato deve abominar, diga-se. Dez modelos de se fazer crítica literária. Mas não as faço porque ainda nada posso escrever. Querem que eu cite seus nomes? Oras, ao contrário, cito um bom texto: o do João Pereira Coutinho, que faz talvez a única coluna que preste em toda a imprensa nacional. Ironicamente é português. Ele sabiamente deve ser abolido da Folha, façamos uma campanha. Gente que escreve bem assim não pode aparecer em um jornal no Brasil. Pega mal.
Aí talvez vocês se perguntem por que eu falo que praticamente só há textos pobres se participo de um coletivo de blogs, o Breviário (de que, aliás, gosto muito). Aí, chegamos a uma insidiosa questão.
Devo dizer que leio muitos blogs. E o que me atrai em um blog? Ou alguém que diga o que eu tenho interesse de ler ou alguém que escreva minimamente bem, eis a resposta. Alguns ainda postam poemas pelo menos bons, enquanto os bons contos, entretanto, são raríssimos (o que talvez confirme minha idéia de que a prosa razoável é muito mais difícil que a poesia razoável).
Dentre os blogs que considero bons, deposito esperança no texto de muita gente. E, às pessoas de quem posso esperar algo, não há como dizer que não são amigas do texto.
O Breviário é um reduto de amigos do texto, talvez mais que qualquer outro coletivo. Também porque nós nos fazemos como um coletivo; ainda que tenhamos começado há pouco mais de uma semana, dou meu pé direito a quem provar que não há correspondência entre cada blog. Há, em nós, o ímpeto breviarista, o que quer que isso venha a significar. É também por isso, porque nos propusemos à incerteza do que é o nosso Breviário.
No blog o laboratório é permitido. Eis talvez o motivo máximo de lermos blogs: o laboratório nos interessa. Os bons laboratórios, não os laboratórios que compram a estética barata da polêmica-pela-polêmica.
E, para ser honesto, não posso deixar de dizer que o Paulo faz um dos melhores blogs em língua portuguesa. O Cálculo Renal, no Breviário, e o Para ler sem olhar.
(Se tu não gostas do que digo, ou mesmo se te sentes ofendido, sentar-nos-emos num bar e, sabendo que uma boa cerveja já é indício de amizade, amigavelmente conversaremos sobre este post.)
Mas o leitor está habituado ao texto pobre. Deixa ele. Apertemos sua mão de tal modo que a traguemos ao nosso Google Ads, que dá dinheiro. Em dóllar.
Ah, e se você aceitou ler o texto até aqui, leu-o aceitando que eu escrevia mal. Eu só não disse que meu texto não tem uma linha muito clara de raciocínio: ora vou por aqui, ora por ali – e os argumentos quase sempre insustentáveis e contraditórios. Mas, se você leu o título deste blog, deve ter imaginado que minha mente também é uma eterna perambulagem.
acho q vou citar o perambulagens na minha dissertação…
“(…)a prosa razoável é muito mais difícil que a poesia razoável.” Perfeito, Diego. Eu também acho; não, tenho certeza. Gostei especialmente deste post.
Aliás, você deve conhecer o blog do JPCoutinho, né?http://www.jpcoutinho.com/
Um abraço.
Estás a escrever como um português, poeta.
É um bom caminho, creio eu.
sintetizado no último parágrafo, fica claro que trata-se de um texto um tanto vagabundo, eu diria
mas com todo respeito!
abs
ps, ah sim, se for perambular pelo meu blog clique nos últimos arquivos, estou mudando de fase e meu blog anda meio vagabundo (no sentido que restou…)