Três elefantes de peso

Postado em June 7, 2007
Categoria Literatura |

O Elefante Infante, Musa EditoraEste é o meu primeiro texto publicado em livro. Saiu como posfácio de O elefante infante, de Rudyard Kipling, pela Musa Editora.

Assim como o texto, essa edição ficou belíssima. As ilustrações são de Fernando Vilela e o projeto gráfico de Raquel Matsushita. É o primeiro livro trilíngüe que já vi. A saber: o original em inglês e traduções para português e francês. Ótimo para cortejar.

Três elefantes de peso

“As palavras são, certamente, a mais poderosa das drogas que o homem usa.”
RUDYARD KIPLING

No Hinduísmo, religião henoteísta tradicional da Índia, Ganesha é uma das mais veneradas representações de deus, e considerado o mestre do intelecto e da sabedoria. Em sua representação, o deus aparece em tons de vermelho e amarelo e tem cabeça de elefante. Conta uma lenda indiana que um dia Parvarti, deusa-mãe da mitologia hindu, queria tomar banho e, como não havia guardas para protegê-la, deu vida a um boneco, e este boneco era Ganesha. Ordenou que ele ficasse na porta e não deixasse ninguém entrar. Apareceu, porém, Shiva, um dos mais poderosos deuses, pedindo que o deixasse entrar, pois era o esposo de Parvarti. Ganesha não cedeu, já que só obedeceria a sua mãe. Causou assim tamanha ira em Shiva que este decapitou Ganesha. Ao ficar sabendo, Parvarti ordenou a seu esposo que devolvesse a vida a seu filho. Como a cabeça fora arremessada muito longe, não podendo ser encontrada, Brahma, deus criador do universo, sugeriu que se colocasse a cabeça do primeiro animal que aparecesse. O primeiro animal a ser visto foi um elefante. Assim, com uma cabeça de elefante, deu-se vida a Ganesha.

Rudyard Kipling, como sabemos, nasceu em Bombaim (atual Mumbai), capital do estado Maharashtra, na Índia. Ainda que fosse inglês e vivesse grande parte de sua vida na Inglaterra, prezava a cultura indiana, fazendo dela sua maior influência literária. O Elefantinho, um animal muito curioso, e que apanhava a cada pergunta que fazia, ao fazer a mais terrível das perguntas: “O que o Crocodilo come no jantar?”, apanhou como nunca e partiu em busca da resposta, viajando até o Rio Limpopo. É como se nosso Elefantinho tivesse a cabeça do mestre do intelecto e da sabedoria.

O crocodilo comia também elefantes, e quis comer o Elefante Infante andante, e o agarrou pelo nariz, que ainda era curto; mas a Serpente-Píton-Bicolor-das-Rochas o ajudou a desprender-se da boca do Crocodilo, juntou sua força à do Elefantinho, e tiveram de lutar contra toda a força do monstro. E durante a peleja seu pequeno nariz foi esticando, até não ser mais nariz. Virou sua tromba! Que lhe trouxe novidades a desfrutar e muita astúcia para encarar os amigos e parentes.

Esse conto mostra como a curiosidade é caminho para a inteligência desenvolver-se, e mostra como os curiosos são mal compreendidos neste mundo. Nessa história, se não fosse a curiosidade do Elefantinho, hoje nenhum elefante teria tromba. Se fizermos um paralelo com nosso mundo, o Elefantinho é como alguém que se sente fora dele, todos querem bater-lhe, castigá-lo pelas boas ações (embora ele consiga seu final feliz), o crocodilo não decepou-lhe a cabeça, como Shiva fez com Ganesha, mas Ganesha revive sendo um deus com a cabeça de elefante.

A Literatura faz muitos caminhos, parte da cultura popular, parte de outras obras literárias, parte de onde for, mas sempre se reinventa. Os textos clássicos e os modernos nunca são independentes. Podemos observar isso no poema O Elefante, do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, que conta a história de um elefante que também é estranho ao mundo (e repassa-nos assim a cultura hindu e sua provável leitura de Kipling):

“Eis meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê nos bichos
e duvida das coisas.”

O elefante de Drummond é muito parecido com o de Kipling! Seria o próprio? Seria uma nova leitura de uma mesma idéia? Esses versos poderiam muito bem descrever a cena em que o nosso Elefantinho, guiado por sua “insaciável curiosidade”, dá adeus a sua família e sai à procura de respostas a um mundo que não (o) compreende. É o gênio Kipling reverberando outro gênio, Drummond. Dois elefantes de peso da Literatura, encantando leitores e escritores. Três, com Ganesha – afinal, dele veio a idéia de Kipling, que contaminou Drummond.

Em nossos dias, o Elefante Infante, de Kipling, e todos os livros de boa literatura podem “sentir-se” mais uma vez como um elefante.Em um mundo que não a deseja, a Literatura é um triste elefante. E apenas nós, lendo literatura de peso, podemos melhor entendê-la – e quem entende a Literatura, entende melhor o mundo.

_________
In: Kipling, Rudyard. O elefante infante: um elefantinho bem curioso. Tradução de Adriano de Messias (português) e Jean-Cristophe Loubet del Bayle (francês). S. Paulo: Musa, 2006)

Comentários

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7 Comentários »

2007-06-08 08:32:24

Parabéns, Diego. Mais um para o portifólio. Só não entendi isso: “É o primeiro livro trilíngüe que já vi. A saber: o original em inglês e traduções para português e inglês.”

 
Vinícius
2007-06-08 09:44:17

Deve ser tradução para o internetês anglicano.

 
Rômulo
2007-06-08 13:00:46

Deslize.
As traduções são para o português e francês.

 
2007-06-08 17:47:51

Obrigado, Ed.

Ops, comi queijo: mas o Rômulo já vos esclareceu o embróglio.

[Atualizei no post]

 
Camila
2007-07-01 18:26:49

Eu vi esse livro, gostei muito, qui-lo muito, mas não tinha dinheiro para compra-lo.

 
Camila
2007-07-01 18:32:45

Acabo de desconrir que na livraria é mais caro ainda…
:(

 
2008-06-29 08:14:26

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