Caro Gerardo, notas de um novíssimo leitor

Postado em June 6, 2007
Categoria Literatura, Poesia |

Gerardo Mello MourãoEm 2002, quando eu tinha meus quinze anos, numa semana de recesso escolar, a “semana da criança”, eu passava uns dias no Rio de Janeiro. Conversando com meus amigos, arrisquei que se meu avô morresse eu não sentiria sua falta. Ele morria justamente nesse dia, no Sul de Minas. Os meus amigos foram à praia, fiquei em casa, estranhando o que dissera e contemplando uma espécie de vazio, num atordoamento tranqüilo: sim, a morte existe, passava a existir.

Sexta-feira passada tomei a decisão de escrever uma carta ao poeta Gerardo Mello Mourão, naquele dia consegui por acaso um endereço dele para correspondência. E, pasmem: no sábado (9/3/07) recebo a notícia de que exatamente na sexta também ele tombara, aos 90 anos. Morreu um dos maiores poetas brasileiros, desconhecido em sua terra; embora mesmo o talvez mais importante fabbro do século XX, estou falando de Ezra Pound, houvesse aclamado-lhe pelo O país dos Mourões, que integra a trilogia Os peãs. O início do século XXI é ainda o fim dos últimos poetas do século anterior…

Li a notícia primeiramente na Folha de S. Paulo, depois no Estadão. Na Internet, consultei meia-dúzia de sites, contudo não havia uma notícia que se diferenciasse de outra. Para minha surpresa, e desolação, o conteúdo das notícias refletia basicamente o artigo da Wikipédia sobre o poeta. No domingo, nem mesmo o suplemento Mais! da Folha fez-lhe as merecidas homenagens. Pode-se argumentar que não tiveram tempo, até entendo, mas não houve sequer um textozinho; espero que a próxima edição corrija essa falta fazendo-lhe uma edição especial.

Recentemente um grupo de estudantes da UFRJ, que mantém a talvez mais relevante revista literária do país, a Confraria do Vento, começou a divulgar e estudar Mello Mourão, publicando textos dele e sobre ele, tentando chamar a atenção do público em relação ao poeta que reconhecem como mestre. Provavelmente não se obteve o êxito que o grupo esperava, mas o certo é que ao menos a mim e alguns outros valeu a pena. Não sou, entretanto, nenhum profundo conhecedor do Gerardo Mello Mourão, decerto o ensaísta Márcio-André, desse grupo, poderia falar-lhes com muito mais propriedade desse artista que ele freqüentou. Quanto a mim, espero que com esta espécie de carta-aberta possa dizer o que eu queria escrever para o Gerardo (mas não me limitarei a isso) e, conseqüentemente, instigá-los a conhecer o autor de Invenção do mar.

Após ouvir o nome de Gerardo Mello Mourão, procurei por ele no Google, encontrei uma página no Jornal de Poesia. Comecei então a ler o primeiro canto de O país dos Mourões e tão logo pude reconhecer, naquela primeira leitura, amortecedora de Realidade, que a impressão que eu tinha era a do grande poeta de que disseram – não é fato que geralmente se reconhecem os grandes autores com um pouquinho de seu texto? Entretanto, depois li poucos textos do Gerardo, alguns poemas e um estudo sobre o Kaváfis (de quem nunca ouvira falar!), todos na Confraria. E após umas três semanas fui a um sebo no centro de São Paulo e comprei por uma pechincha as primeiras edições de Invenção do Mar e Os peãs, e, confesso, este ainda não li por completo.

Sobre Mello Mourão, disse Carlos Drummond de Andrade: “É um poeta que não se pode pedir a palmo e conseguiu o máximo de expressão usando recursos artísticos que nenhum outro empregou em nossa língua.” Não há nenhum exagero em Drummond, ainda que ele quase sempre fosse elogioso. Depois do poeta itabiritense e Cabral (que foram gênios não só do Brasil, mas de toda a moderna poesia), diria eu que Gerardo Mello Mourão é o poeta mais relevante de nossa raça; se pensarmos apenas em poesia épica, direi sem o menor receio que Mourão é o inaudito, o inovador da poesia épica no Brasil e – agora acho que não há grande risco nesta afirmação – seu findador. Gerardo foi também romancista, com destaque para O valete de espadas, do qual nada posso dizer, apesar de alguns acharem sua obra-prima.

Os Brasileidas, de Carlos Alberto Nunes, uma das primeiras tentativas de épica brasileira, que não tive paciência de ler muita coisa, parece-me não ter alcançado o êxito que tentava a pretensão do autor; do que li é uma mera uma visão carnavalesca da exoticidade do Brasil, patente na linguagem capenga. Enquanto Invenção, este sim, é o nosso épico, digno de o ser, ainda que não alcance o Mensagem de Fernando Pessoa – o que está longe de ser mínimo desmerecimento, afinal Pessoa é quase imensurável. A obra de Gerardo é de momentos antológicos não só no País, não só na Língua Portuguesa, mas também na Literatura Universal:

 

“Ai táboas que foram verdes
tão táboas para fragatas
tão táboas para guitarras.”

“não importa chegar – o que importa é partir.

(…) E os que nascem no mar são portugueses
e o mar é o chão maior de Portugal.”

(trechos de Invenção do mar)

 

Tenho de dizer, todavia, para ser justo, que Invenção (que, ao contrário da história lusitana de mar em Os Lusíadas, conta a história de terra do Brasil) em determinados momentos perde o fôlego, como acontece também n’Os Lusíadas, tornando-se aquele, em alguns momentos, quase um catálogo de nomes e lugares, algo prosaico, mas nunca um mal texto. Segundo T.S. Eliot isso se verifica em sua própria poesia, o que ele julga como certo, porque nunca se deveria dizer em poesia aquilo que pode ser dito em prosa. Fazendo-se deste modo será sempre melhor, um poema deve ter desses momentos (fato com o qual eu não exatamente concordo, nem todos os poetas épicos parecem-me prosaicos). Enquanto Os peãs não me pareceram serem perdidos, a obra (até aqui) vai com bom fôlego, aliás querendo ir com mais gás! E quando eu terminar sua leitura espero confirmar o que agora vou concluindo: Os peãs são sua obra máxima.

Mourão é, no Brasil, o maior representante da poesia poundiana, mais até do que os concretistas. Essa opinião não surgiu comigo, foi a partir dessa “curiosidade” que me levei a conhecer a poesia do Gerardo. Sobre este, chegou Ezra Pound a dizer: “em toda minha obra, o que tentei foi escrever a epopéia da América. Creio que não consegui. Quem o conseguiu foi o poeta de O país dos Mourões”. Entretanto, apesar de poundiano, não poderia dizer que Mello Mourão é uma simples tentativa de Pound. Almeida Garret não gostava dos poetas que ele dizia “tradutores”, pois estes não criavam, perpetuavam, e não traziam o povo à poesia, e vice-versa (como era-lhe o caso de Camões, que “apenas traduziu Virgílio”): o que Gerardo faz é aprender com o inventor Pound, e introduzir suas conquistas formais à uma poesia que é “exclusivamente” mellomourana (exclusivamente entre aspas, afinal não há poeta que não tenha relido outros), tornando-se, portanto, um mestre. (Utilizei-me dos termos inventor e mestre no sentido poundiano.)

Pelo contato que tive, há um grupo de católicos estudantes de Direito em Pernambuco que é bastante entusiasta da poesia de Gerardo Mello Mourão (que quase foi padre). À parte a Confraria do Vento, da pouca crítica que li quase tudo foi escrito pela “velha-guarda”, como, por exemplo, Tristão de Ataíde, que lhe fez os mais empolgantes elogios, colocando-o como o ápice da poesia brasileira. Gerardo é de fervorosos elogios ou puro desprezo.

Um dos problemas ao se tratar de Literatura no Brasil é a linha sociológica, que todos conhecem, além do elevado moralismo ao se olhar um texto literário. É ridículo ainda termos a necessidade de reafirmar (repetindo) O Retrato de Dorian Gray: “Não existe livro moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.” Por que sempre quando se vai falar de Mourão tem de se impor uma pedra ao meio do caminho e discutir apenas se ele foi ou não nazista por ter participado do movimento integralista? Por que será tão difícil ver o texto do poeta que por infortúnio do destino se veste sempre de azul enquanto o crítico só gosta da cor vermelha?

Em O país dos Mourões a caracterização dos Mourões é feita, dentre outras virtudes, pelo privilégio de serem varões. Sim, há o machismo (e daí?), mas, diabos, o quanto isso é relevante perante a qualidade dos versos? Uma outra “falha” da “agradabilidade” de Gerardo consiste talvez no fato de ser ele algo “baixo”, remetendo-se comumente a sexo, metafórica ou explicitamente. O eu-lírico de Gerardo Mello Mourão é um safado e sarcástico que enganou muito bem os leitores que usam critérios mais mofados que uma almofada do século XIX; falta aparecer um que queira processá-lo como se fez a Flaubert. Entretanto, acaso lhes mostrassem um poema “promíscuo” de Catulo ou Horácio, clássicos, talvez o aceitassem, ou relevassem, mais pelo autor do que pela obra. Ou é que talvez a poesia “descarada” só possa ser feita em latim ou grego, assim como, o Caetano Veloso se diverte ao dizê-lo: só se pode filosofar em alemão. Então, se esse estranho tipo de leitor que não raro se considera melhor entendedor de política, sociedade, humanidade, Realidade enfim, não (re)conhece Mourão, é no mínimo curioso por que “os tais reacionários” recebem melhor a poesia de Gerardo, ainda que seja ela “imoral”. Os versos seguintes são uma sublime imagem ou imoralidade?

 

“Ao pênis de ouro que se erguer do lírio,

a rosa de teu ventre se abrirá,

e onde o touro pisar no chão dorido,

a rosa de teu ventre se abrirá,

e onde o lombo do touro se reclinar contigo,

a rosa de teu ventre se abrirá

ao pênis de ouro que se erguer do lírio

e der nome às cidades e agraciar

as armas das cidades.”

(Gerardo Mello Mourão, No país dos Mourões)

 

Mas, inteligentemente diz Sartre: só se deveria prestar homenagem aos que já morreram. A partir de agora, quem sabe, a Academia não comece a conhecer e divulgar o nosso grande épico Gerardo Mello Mourão. Para você, quem quer que seja, não recomendo senão a leitura de Gerardo. Parte de sua obra pode ser encontrada gratuita e integralmente no Jornal de Poesia; acesse através deste link: http://www.revista.agulha.nom.br/mour.html. Mas não é necessário dizer que os bons livros merecem estar em nossa estante.

Se eu acreditasse no Além, quereria que o espírito de Gerardo fosse encaminhado agora ao seu Deus e a todos os seus Mourões que já tombaram, com a justiça que aqui não se fez. Mas, ele estando no Céu, em que acreditava como católico, espero que tenha recebido bem estas linhas simplesmente sinceras. Assim como espero que meu avô, que também acreditava no Paraíso, não tenha me levado a mal, e, ao contrário, lá-de-cima risse do acontecido… Aliás, dizem, o bom humor é também uma das características do Gerardo.

O meu avô foi minha primeira perda presenciável na minha família de gente e o Gerardo na família de poetas. Quaisquer outros que tenham morrido antes fazem parte apenas de genealogias.

________________________________________

Este texto foi escrito à ocasião da morte do poeta. Reproduzo-o aqui com imperceptíveis alterações.

Comentários

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3 Comentários »

2007-06-06 19:37:45

Como vocês perceberam, o texto foi escrito no calor da situação. E às pressas.

 
2007-06-06 20:33:41

Vivam os nossos grandes poetas, para quem não basta amar a palavra; também é preciso lutar por ela e ser um herói.

 
Vinícius
2007-06-07 17:30:45

Gerardo é um poeta bastante respeitável; prova da degeneração do estudo das letras o fato, de além de raramente lermos adequadamente nossos autores, ainda por cima negligenciamos a existência de outros; enquanto isso, leiamos Paulo Coelho.

 
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