Greve na USP: “confronto” entre estudantes e Polícia Militar
Postado em
June 10, 2009
Categoria: Greve na USP | 12 comentários
Não estava na USP quando houve o dito “confronto” entre estudantes e Polícia Militar.
Deu na imprensa o seguinte: O coronel Cláudio Longo, responsável pela operação policial na USP, definiu a ação como “apenas uma dispersão”. Segundo ele, os estudantes provocaram os militares e ameaçaram os motoqueiros que garantiam o fluxo do trânsito de carros na entrada principal do campus. (Fonte: G1)
Porém, como se pode observar nos vídeos abaixo, feitos por alunos, os policiais militares perseguiram os estudantes e lançaram bombas de efeito moral até mesmo ao prédio da História (que fica distante, digamos, uns 500m da Faculdade de Educação, onde a confusão começou). Confirme no vídeo:
http://www.youtube.com/watch?v=deUf8An9Q1o
Na comunidade de Letras do Orkut, encontrei um depoimento que parece ser o mais próximo da verdade.
A verdade sobre o confronto entre estudantes e PM na USP
O que aconteceu foi que algum manifestante bestão jogou um pedregulho pra cima dos policiais. E quando a polícia correu atrás deste babaca, todo mundo começou a sair correndo desesperado, pois eram poucas as pessoas dali que que gostam de apanhar da polícia.
Mas aí o choque saiu jogando bomba pra cima do grupo de “franguinhos funjões”, foi uma perseguição mesmo! Imaginem que eles foram jogando bombas sobre o grupo - a maioria ali contra o ato idiota daquele infeliz - do P1 até a faculdade de educação.
(Só pra quem não sabe, junto à Educação fica a escola de aplicação, que oferece ensino fundamental. E isso foi bem na hora que os alunos estavam saindo. É bem provável que alguns deles tenham sentido o cheirinho agrad[avel da violência policial.)
Parece que o Brandão, que por exibicismo ou não - isso não importa agora - tomou a frente pra defender o pessoal que estava apanhado e foi preso.
Enfim, nada que a reitora não pudesse calcular facilmente antes de chamar a polícia pra dentro da universidade.
Vídeos feitos pelos estudantes da USP mostram que Polícia Militar atacando estudantes
http://www.youtube.com/watch?v=sIVLuuag9G0
http://www.youtube.com/watch?v=xwL-b6LUOb4
http://www.youtube.com/watch?v=PC37Kv-Jfiw
http://www.youtube.com/watch?v=YNAzxgGtGpA
Se puder ajude a divulgar este artigo. Se houve alguma confusão ou erro de minha parte, deixe um comentário.
Poema que não será de amor
Postado em
May 13, 2009
Categoria: Poemas, Reflexão | 3 comentários
As pessoas às vezes não entendem que os poemas que venho escrevendo não valem propriamente pelo seu resultado poético. Antes, esses poemas devem ser lidos pela perspectiva do processo de escrevê-los, a procura de uma dicção própria e um caminho frutífero dentro da poesia contemporânea (não no sentido de se filiar a uma “escola”, e sim no de encontrar, como disse, um início de arte poética). Portanto, são um estudo prático da linguagem poética e seus efeitos, sob a perspectiva de poemas que um dia serão escritos. São uma oficina à mostra, o rascunho de uma obra em progesso. Claro, o que publico aqui no blog é uma pequena parte do todo.
Quem os ler cronologicamente perceberá que, desde os Três novos poemas a este de agora, passando pelos “Cariocas”, há uma evolução interna e de alguma forma coerente. “Evolução” sobretudo no sentido de se escrever avaliando o resultado anterior e, a partir dessa autocrítica, o desenvolvimento do novo poema. Comecei com um poema fechado, quadrado, teórico, “(Perícope)“, e pouco a pouco fui aplicando em novos poemas o que esse prometia e não existia no próprio poema - ainda que o resultado não fosse melhor. Mas claro que surgem novas dificuldades, temas, formas, idéias, influências, etc.
Talvez não fique claro para todos o que tento explicar e nem posso exigir isso de meu leitor. E se o digo, é porque sinto que meus poemas ainda precisam dessa precaução. Entretanto, cada vez mais os poemas recentes têm se desprendido desse projeto que impus à minha poesia. Leiam vocês mesmos:
Poema que não será de amor
Ao contrário de Não sobre o amor, peça de Felipe Hirsch
Sobre a escrivaninha,
ainda os poemas são
a cena de que paredes
perambulam igual a procura
da palavra: rascunho a punho
madrugada afora,
em silêncio sem vertigem.
Encorpam-se então
no que da vida se ausenta;
no traço magro do verso,
o desterro onde encerrar
um cadáver que te quero
longe, amor, engendram:
de resto são corpo
aberto em seu fim.
Sem querer conscientemente, reescrevi em Poema que não será de amor aquele que era o meu primeiro poema:
(Perícope)
Como um fotógrafo,
Contornar-te-ei,
Coisa amorfa num
Espaço em transe.
Não resistes à palavra,
Exista esse tenso limite
— Sem que te vejas parar.
Minha poesia é um corpo
Oco: sem que o sintas
………………………………..ei-lo a ti
……………………………………………….(és feito um peito)
Por um lado gostei do Poema que não será de amor, arrisco até dizer que é o melhor de todos os poemas que escrevi. Por outro, é estranho essa quase reescrita do primeiro poema, essa semelhança, essa volta a um princípio depois de tanto tempo. Ou o que seria pior: a retomada da mesma promessa que se fazia no (Perícope), embora de alguma forma tenha sido renovada no Poema que não será de amor. Por mais chegar a isto fosse o que eu queria a princípio.
Mas a favor dele, existe uma problematização que não é resolvida. O que não será de amor tem uma descrição do processo de escrita, sob a vista da tese de que o poema que nele vai se escrevendo não será sobre amor. Como disse, ele não se resolve, mesmo que tente definir “de resto [os poemas] são corpo/ aberto em seu fim”, que ao mesmo tempo afirma e nega o resto do poema. E esse poema que se escreveu, além de não ser sobre amor, é sobre o quê?
Já no (Perícope) tudo é resolvido: o poema está como uma mera fantasia, um corpo cujo coração baterá se o leitor o fizer. Aliás, para saber, “perícope” é o recorte de um texto geralmente religioso ou literário usado para fins de pregação ou análise e que consegue se remeter ao seu todo. O objetivo era que o poema “recortasse” o que nele próprio era “oco” (ou seja, algo nele mesmo vazio), mostrando/pedindo que o leitor devesse dar sentido ao que não tinha e explicitando em seu verso o traço do recorte, por onde se fez o recorte. Mas isso acaba ficando meio que sem sentido…
Além disso, é como se o Poema que não será de amor demonstrasse que aquele projeto inicial chegou a algum ponto que eu planejava. O que não será de amor, menos de uns e mais de outros, tem um pouco de todos os meus poemas. É quase uma síntese, tanto dos poemas quanto do processo de escrita.
Mas a precaução acima continuará valendo.
A crua poesia de Cazuza
Postado em
April 29, 2009
Categoria: Cazuza | 24 comentários
Em tempos de música brasileira tão ruim quanto foram os anos 80, Cazuza é um alento. Poderiam contra-argumentar citando projetos interessantes como o do Grupo Rumo ou o de Arrigo Barnabé, entretanto o alcance destes é muito, muito restrito; ou ainda, na esfera do rock nacional, o de Lobão, que foi parceiro do próprio Cazuza e chegou a ser gravado por João Gilberto. Na verdade, Lobão e Cazuza foram o máximo que a música pop brasileira dos anos 80 pôde alcançar. Mais interessante que o Lobão, fiquemos com o Cazuza.
É indissociável em Cazuza o artista e a sua vida, que bem ou mal conhecemos pelo filme Cazuza - o tempo não pára. O garoto e o adulto mimados, o porra-louca, o maconheiro, o poeta, o cínico, o sincero, o sem limites: tudo está representado no filme (muito embora sua vida com o Ney Matogrosso e outras promiscuidades sejam encobertas). Falo de sua vida porque nós, que só a conhecemos através do filme e de mitos, ou ainda de um livro que sequer folheei, facilmente identificamos na sua poesia alguém que não se furta ao que ele realmente era, ou melhor, não se furta a expressar-se como via e vivia, se via e se vivia. Desde o cara que se derramava com uma Down em mim ao que se embananava ao fazer crítica social, como em Burguesia. Mesmo clichês odiáveis algumas vezes se salvam em Cazuza, porque ele tem um quê que lhes dá algo de forte, intenso.
Enquanto bandas como Legião Urbana ou Engenheiros do Hawaii (esta, a banda campeã em citar nomes de livros-cabeça!) buscavam uma canção profunda e - pasmem! - filosófica, e outros artistas aderiam às piores estéticas possíveis (quando não os dois), sempre se esbarrando em inocências pueris (sobre os anos 80, há a excelente música Os outros românticos, de Caetano Veloso), Cazuza parece ter encontrado uma “estranhas forma” que lhe garantiu as melhores canções dentre os músicos de sua geração. (A sua melhor certamente é Só as mães são felizes.)
A música dos anos 80 revela um problema grave do Brasil: a necessidade de ser político, lutando “contra o sistema”, contra “eles”; quando na verdade essa luta não passava de mais um produto da indústria cultural. Filho mimado da classe média, esses anos 80 apenas refletiam a alienação que era quase geral e que com os anos 90 só viria a se comprovar; assim, repetiam-se clichês sobre clichês, que entre os próprios músicos eram redescobertos e ditos como se fossem novidade. Não que Cazuza não sofra deste e de outros “males de anos 80″.
Salva é que a Cazuza as coisas ao seu redor lhe eram estranhas, pois suas referências e influências não têm tanto um sentido a priori; tudo é a descoberta do sempre menino adolescente, que não evita ser o que é; ele incorpora o mundo que está ao seu redor e o expressa em sua música (que é sempre sincera, mesmo quando há cinismo), como percebe e vai descobrindo. Se era restrito o mundo dele, e talvez até o soubesse, tentava desvendar esse limite com uma intensidade que é uma de suas melhores armas, como já disse. Cazuza adere ao mundo, que para ele é pirado. Ele, portanto, tinha tudo para se expressar naquela mesma forma inocente que seus contemporâneos de geração. Mas a sua forma de aderir não é tão simples.
Em sua “estranha forma”, Cazuza também tinha uma expressão “cruel”. Estranha porque, como dizíamos, a sua expressão era a de quem se via ante o diferente e a partir deste passava a se ver (não raro ele próprio era o diferente para si); e este estranhamento não nos chegou apurado ou lapidado: Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes. As suas canções, parecem, iam-se compondo sozinhas: o primeiro verso corresponde à primeira idéia, o segundo é o seu desenvolvimento e assim ia até julgar que tivesse ficado bom. E o bom era aquilo que correspondia ao que lhe emocionava. Até por isso, é incontável o tanto de canções suas que são muito ruins; mas ao mesmo tempo isso expressa com vigor, pelo menos a quem goste do menino, o que ele era.
Em sua trajetória, tecnicamente Cazuza não evolui nem involui. Aliás, a técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque vive. E tem uma sensibilidade muito exacerbada que também à própria poesia se vê limitada, e por isso tem de ser explicitada, com alarde para ser notado. Cazuza quer chamar a atenção para si. Em geral, a mesma coisa é dita sob diversas perspectivas em uma canção. Até por isso que em muitas canções ele mais parece falar do que cantar. E assim votamos ao que há de tão cru nele.
***
Não escutei Cazuza para escrever este post, embora ele estivesse tocando no iTunes. Foi tudo meio que de cabeça. Virei noite e este texto é meu passatempo sonâmbulo.
Meu Top Five Cazuza (não necessariamente nesta ordem): Só as mães são felizes, Down em mim, Quase um segundo (Hebert Vianna), Faz parte do meu show e Todo amor que houver nessa vida.
Poemas cariocas
Postado em
April 29, 2009
Categoria: Poemas | Comente
São poemas cariocas só porque os escrevi no Rio de Janeiro, neste feriado da semana santa.
Poema sonâmbulo
Para Fabiano Calixto
As lojas as pessoas muros
ficam tudo é estanque
da partida ao destino
a janela é um sonífero
o ônibus na volta
ninguém vem em pé
uma senhora muito gorda
espera dois assentos
sentar-se não lhe alegra
a boca que é um parêntese
ontem um rascunho uns versos
te renderam e não há
desculpa nem uma nova idéia
me bastava escrever um poema
como a lenda moçambicana
a terra anda quando se sonha
em São Paulo gente
nenhuma vive sem insônia
nem se atenta mas se espanta.
*
Poema à beira da loucura
Este poema procura
tornar-se livre
rimbaudianamente
Ir-se na torrente
que ao poeta escape
e do papel se rapte
Lembra o potencial
louco na fronteira
de não voltar a não sê-lo
Segura-se por um fio
que é a rédea do poema
e pode acabá-lo
*
Poema autopunitivo
Quanto mais distante
mais o seu princípio
lhe dava as caras.
Pune-se explicitando
que antes já era clara
a sua punição.
O que se opta então
é só passar de
um a outro verso.
Redima a redundância,
sua punição
de apenas se repetir.
*
Poema fraturado
Para Emmanuel Santhiago
O meu verso bonito
soa falso e manca Ainda
assim é bonito Mas se a minha
palavra manca quando procura marchar
como um poema bonito Forço então um poema
não mais bonito Manco a fraturar-se pela própria marcha
*
Escrevendo este poema
Que o poema
ainda revele
o seu resvalo.
Que se leve
no fluxo das associações,
assim como vivo.
Cada dia não precise
que o seu instante
remeta-se à véspera.
O apartamento de temporada
que os lençóis desconheço
há muito é o meu lar.
Ronaldo: a gorda franga dos gols de ouro
Postado em
April 26, 2009
Categoria: Futebol, Ronaldo | 4 comentários
Copa de 1994, primeira a que assisti. Eu tinha meus sete anos. Brasil x Itália. Prorrogação de um jogo tenso. Estávamos na casa do meu tio Renato, a família reunida na sala, torcendo. Escutei que o ainda Ronaldinho entraria em campo e fiquei empolgado, como se ele fosse entrar para decidir o jogo. Eu só queria ver o Ronaldinho entrar e marcar o gol do título. Não entendia a complexidade do que acontecia naquele dia e o que tempos depois isso me significaria. Ainda mais quando Baggio chutou para fora e o Brasil, depois de décadas de jejum, consagrava-se tetra. O primeiro tetracampeão. Não entrou. Mas para minha memória, esta é a mas longínqua referência ao hoje Ronaldo.
Depois, há muitas. Muitos gols do Ronaldinho e outros tantos do Ronaldo. Aquelas arrancadas do meio de campo quando ele jogava pelo Barcelona. O melhor do mundo. Ronaldinho e Romário no ataque da seleção. Outra vez melhor do mundo. Uns podem ter feito seus mil gols, mas Ronaldo para mim será sempre o jogador que mais gostei de ver jogar. Cresci vendo-o despontar no futebol. Aquele francês que zidane, com o perdão do trocadilho. Houve as graves contusões querendo afastá-lo para sempre do futebol. E a Copa de 2002, em que ele ressurge como uma fênix.
Para meu desespero, Ronaldo agora joga pelo Corinthians. Talvez desde Zico, melhor jogador que ele não jogava em um time do Brasil. Mesmo são-paulino, e longe de virar a casaca como fizeram tantos por aí, rendo-me à gorda franga dos gols de ouro. O que posso eu fazer?
Hoje, é claro que assisti à final do Paulistinha. Santos x Corinthians. Ronaldo já tinha marcado contra o Palmeiras e o meu São Paulo. Hoje, mais dois gols do gordo. Chutou três vezes ao gol, marcou duas. A única forma de um time impedi-lo de fazer gol é não deixar que a bola chuegue aos seus pés. O último de hoje, gol de craque. E que tirou do Santos qualquer esperança de ser campeão paulista: primeiro, porque o placar foi 3×1; depois, porque o mito estará no segundo jogo da final. É a prova de que o futebol brasileiro tem de ser jogado, como diria o professor Zé Miguel Wisnik, com poesia.
Nas entrevistas depois de cada jogo, Ronaldo tenta parecer modesto mas não consegue esconder que é um gênio com a bola nos pés. Sabia que hoje tinha marcado um gol digno do Rei Pelé, na Vila Belmiro do triste Santos do meu pai, do Wisnik e de tantos outros sofredores. O próprio Pelé viu o golaço, disse que era “gol de rei” e deixou a Vila. O dia era do Ronaldo. Sua primeira final desde a Copa de 2002. Fosse o Corinthians um time melhor, ainda assim o Fenômeno teria ganhado sozinho o Campeonato Paulista.
Mas tomara que os técnicos e cartolas brasileiros (hey Muricy!) voltem a perceber que um simples lance de pés dá um verdadeiro nó tático no time adversário. O Muricy Ramalho nunca será um grande técnico porque em seu time Ronaldo jogaria na retranca. Gosto do Mano Menezes porque ele sempre soube disso e dá ao jogador, ainda que não seja nenhum craque, a oportunidade de desequilibrar. Sabe que uns têm um breve lampejo do que o Ronaldo sempre é.
Qualquer que seja o tempo de permanência de Ronaldo no Brasil, ele será lembrado como um fantasma por qualquer zagueiro. Seus gols serão um intervalo em tempos de futebol feio. Ou uma luz para que brasileiro volte a jogar o seu futebol.
São-paulinos, palmeirenses, santistas, flamenguistas, tricolores, colorados, rubro-negros, botafoguenses, atleticanos, cruzeirenses, paranistas, coritibanos, alvirrubros, juventudistas, esmeraldinos e avaianos, tremei: a gorda franga dos gols de ouro vem aí e o bicho vai pegar.
Zii e Zie, mas também sobre o Cê
Postado em
April 22, 2009
Categoria: Caetano Veloso, Zii e Zie | 7 comentários
Zii e Zie, o novo disco do Caetano Veloso com a Banda Cê, parece ser uma despedida inevitável do cantor e a banda formada por Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes. Mas não que isso seja ruim; pelo contrário: é uma das grandes qualidades do disco à primeira ouvida, ainda mais se considerando a obra de Caetano como um todo. Eis a minha primeira impressão ao sentar para ouvi-lo. Não imaginava que ele desse uma continuação ao seu projeto anterior do Cê, a não ser quando vi seu blog. É um disco de separação. Dele e da banda, certamente. Uma separação do que é São Paulo e do que é Rio de Janeiro. Separação, talvez, do Caetano e alguns temas que o perseguiram direta ou indiretamente desde o Circuladô. Desde Circuladô até o Cê, Caetano Veloso fez balanço de sua vida, sua música, seus temas. Zii e Zie, agora, quer um descolamento do disco anterior e também avalia todo esse processo. Também tem bastante de Lobão, principalmente o de Canções dentro da noite escura, se é que meus ouvidos não são tão ruins assim.
O Cê é um dos discos mais surpreendentes de Caetano (até a crítica o elogia bastante), porque naquela altura de sua carreira a última coisa que se esperava era ele fazendo rock. Também é um disco melancólico. Há um homem que se vê velho mas não quer sê-lo, é um Caetano bem diferente dos outros que ele já foi. Disfarça-se na carapuça do rock, no exagero de gritos e metais. Consciente, ele se insere nessa música vendo-se velho e tendo visto o rock nascer e crescer. Precisa expressar que é e não é um velho. No Cê houve um encontro perfeito entre um homem velho e uma banda de rock formada por gente de “uns 25 anos”. Pois com sua experiência (tanto artística quanto na vida) ele pôde levar a uma radicalização muito interessante a linguagem do rock contemporâneo e a do próprio Caetano.
Cê, que é um disco roxo tanto em sua capa quanto na sua forma, não renova a linguagem desse rock anos 00 mas sim revela o quanto ele tem de cafona e outras coisas que tem. E se não tanto cafona, pelo menos explicita o quanto é estranho um mano Caetano, sexagenário, fazer um disco que é de rock. Ele não esconde isso. São também diálogos inevitáveis para mim os com Los Hermanos (que eu apenas intuo, mas não identifico referências diretas) e com o que se fez daqueles que já foram rock stars, como um Mick Jagger da vida. Não me refiro a uma personalidade especificamente, mas o que se tornaram esses rock stars depois que o “rock errou” e o seu tempo já ficou marcado na história. Eles, jovens e inovadores na época áurea, envelheceram. Caetano também envelheceu. Mas para demonstrar que musicalmente não envelheceu, e se manter coerente sendo Caetano, é que talvez esse disco lhe sirva bem.
As duas músicas que eu mais gosto no Cê são Rocks e Eu não me arrependo. A primeira é a mais emblemática e que melhor representa o disco (esta palavra ainda entra em desuso, melhor seria “álbum”). Trata-se de uma situação totalmente brega: uma mulher que tatuou um Ganesha na coxa e saiu por aí exigindo “rocks” e um cara que é apaixonado por ela, que passa a música cantando sua dor de cotovelo, reclamando que ela foi “rata comigo demais” (na verdade, sempre que eu escuto acho que a “mulher que tatuou o Ganesha na coxa” é descrição do próprio “cara” que canta com sinceridade a dor de cotovelo dele – e em Caetano essa leitura é plausível). Caetano canta de uma forma que finge soar séria, mas é pastiche; a banda o acompanha bem num rock caricatural. Caricatural como é todo o disco, aliás. Mas nada que soe inocente, como já disse: é um disco da maturidade de Caetano Veloso. Já Eu não me arrependo é o contrario disso, uma singela balada. A única canção do Cê que se possa dizer “limpa” e que de alguma forma se pretenda mais séria e funcione longe do contexto do álbum. É a história dele com Paula Lavigne, com uma indeterminação do que há de particular, assim como em Itapuã (Circulado, 1991), que por sua vez fazia referências a Dedé, sua primeira esposa. E se não são duas músicas que falam de ex-mulheres, puts, estou muito enganado então.
Enquanto o Cê é rock ao extremo, e com todas as suas peculiaridades, Zii e Zie faz a mesma banda tocar uma mistura de samba com rock que não é “sambarock”. Diz Caetano que é um disco feito no Rio mas pensando em São Paulo. Ele queria ter lançado o disco em Sampa mas será no Rio o primeiro show. “Zii e Zie”, que é italiano, significa em português “tio e tia”. Acho um nome feio pra caramba, mas é uma maneira engraçada de fazer sua referência inusitada a São Paulo. Ele já falou em entrevista recente que gosta desse jeito brega/deselegante de São Paulo (sobretudo aquela ponte espraiada, árvore de natal de novo rico) e já cantou a “deselegância discreta de suas meninas”. Em Zii e Zie acalma-se a rebeldia que havia no disco anterior. Quer dizer, as letras no geral são mais leves, mesmo quando se trata de problemas sociais: ou o do menino que entra para o tráfico (“Perdeu”) ou o da menina do Leblon que usa drogas ( “Falso Leblon”). Mesmo sua resposta à música Para o mano Caetano, que Lobão gravou em 2001, não traz propriamente uma resposta mas “aproveita a oportunidade” para exaltar o velho lobo. A música Lobão tem razão emula as imagens exageradas, pretensiosas, confusas e às vezes belas do velho lobo e não revida nenhuma crítica que o mano Caetano recebeu. Mas isso retoricamente, claro, deixa o outro com a responsabilidade de ter razão. Assim, Caetano canta: “Lobão tem razão”. Ironia sim, mas não agressiva. É como se com o Zii e Zie Caetano Veloso dissesse que, apesar de motivos para o contrário, ele está dócil. Enfim, Zii e Zie é um disco dócil num ambiente que não o pede.
Mas Caetano eu nunca escuto em uma sentada só. Gosto de escutá-lo exaustivamente mas sem muita atenção, quando estou trabalhando. E daí ir identificando coisas que me chamam a atenção. Num processo que às vezes dura meses para eu parar e sentar para escutar de verdade o disco (com meu ouvido pouco musical, diga-se). Aí sim eu conheço um pouco melhor o disco. Este post é também para eu de alguma forma registrar a minha apreciação ligeira de um disco novo do Caetano. E como faria disso um post, o que eu inclusive já havia tentado com outros discos. Mas esse quis sair, e nunca é bom recalcar um comentário sobre o Caetano. Devia ter dito isso no começo, mas não que faça diferença. Por isso está tudo embaralhado, disperso e sem um fio condutor que se possa exigir de alguém que saiba falar de música – pessoa essa que não sou, mas realmente não importa.
Aprovada lei antifumo em São Paulo
Postado em
April 8, 2009
Categoria: Política, Reflexão | 5 comentários
Ontem foi aprovada a lei que proíbe o fumo em ambientes fechados, como bares e restaurantes. Agora aos fumantes resta fumar em sua própria casa (e na de amigos fumantes) ou na rua. Ok, há ainda a brecha da lei que pelo menos permite o fumo em tabacarias - e pelo visto até o Bar do Seu Vital vai se tornar uma, em mais ou menos tempo.
A Daia me lembrou um artigo do João Pereira Coutinho que comenta muito bem esse anti-tabagismo. Reproduzo na íntegra o texto:
Lauren Bacall, por favor
Conheço pessoas que não fumam. E conheço pessoas que não fumam e não querem que os outros fumem. As primeiras são infelizes. As segundas são miseráveis. Miseráveis mas realizadas: no mundo moderno, não fumar é marca de saúde física, mental –e, atenção, gente, moral também. Basta ver as medidas sanitárias que a Europa pretende aplicar. A curto prazo, os pacotes de cigarros dos europeus terão imagens-choque para afastar fumantes ativos ou passivos, presentes ou futuros. Como no Brasil. Mas pior, muito pior que o Brasil: corpos mutilados pelo câncer, cadáveres putrefatos. E, claro, a imagem triste de um pênis triste, precocemente arruinado. A idéia não é prevenir. Os fanáticos querem mais: querem humilhar o fumante, enfiar o fumante numa jaula de circo e dizer: “Olhem só como é decadente! Olhem só como é impotente!” Hitler não faria melhor.
Exagero? Longe disso. Robert Proctor, que as patrulhas higiênicas deviam ler, explicou tudo em The Nazi War on Cancer (Princeton University Press, 379 pp.). A leitura de Proctor é arrepiante mas a tese é magistral: as campanhas antitabagistas do mundo moderno nasceram na Alemanha das décadas de 1930 e 1940. Nasceram com a preocupação nazi em combater o vício e, óbvio, humilhar publicamente os viciosos. Humilhar consumidores de morfina. Cocaína. Coca-Cola. E enfiar os fumantes no gueto da vergonha social. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, o tabaco era reconhecido como semente do mal. Causa de tudo.
Infertilidade. Impotência. Câncer. Enfarte. Comunismo. Uma ameaça direta à pureza da raça ariana e sua excelência física e mental. O próprio Adolfo se empenhou pessoalmente no caso. Ele não fumava. Ele gostava de dizer que não fumava. Nem ele, nem Mussolini, nem Franco –tudo boa gente. Pelo contrário: Churchill e Roosevelt eram conhecidos fumantes, exemplos de ruína pessoal e moral. A evitar.
Falou e disse: a partir de 1933, as campanhas estavam nas ruas. Gigantescas imagens onde o fumante típico era tratado como débil sem dignidade ou vergonha (tradução: um judeu manipulador que introduzira o cigarro na Alemanha para exterminar o povo nativo). Ninguém escapou. As donzelas viciosas eram pintadas em pose masculina, a versão clássica da ‘mulher com barba’, fenômeno de circo para horrorizar a burguesia. E homens fumantes eram seres sexualmente arruinados, com traços femininos, lânguidos, tristemente adocicados. O tabaco surgia em sagrada aliança com tudo que era condenável. Jazz. Swing. Álcool. Jogo. Cupidez. Devassidão. Orgia.
Azar: seis anos depois, os alemães estavam fumando a dobrar. Em 1933, o alemão médio fumava 570 cigarros por ano. Em 1939, antes da Segunda Guerra, fumava 900. Proctor avança razões. Todas elas sublinham o essencial: fruto proibido é mais apetecido. Histórica clássica. Bíblica. Razão de nossos prazeres e nossas desgraças. Ninguém deixa de fumar por causa do fanatismo de terceiros. Pior: o fanatismo de terceiros acaba por ser inútil –e até contraproducente. Conheço gente que não fumava — e começou só por rebeldia. O velho spleen de que falava Baudelaire. Existe nos seres humanos um mecanismo de destruição que é preciso compreender, aceitar e tolerar. Se o mundo fosse feito de anjos, etc e tal.
Fumar faz mal. Mas também faz bem: as pessoas que fumam são mais tolerantes, mais calmas, mais interessantes. E invulgarmente mais pecaminosas. Uma mulher é uma mulher. Uma mulher que fuma é uma mulher que arrasa. Por isso proponho: todos os pacotes de cigarros deviam ter duas imagens. De um lado, o pênis caído. Do outro, Lauren Bacall chupando um Marlboro clássico. De um lado, pulmões enfiados em sujeira. Do outro, o rosto de Bacall enfiado em fumaça.
Três novos poemas
Postado em
February 19, 2009
Categoria: Poemas | 18 comentários
Após muito tempo perambulando em outras áreas e outros bares, o bom filho à casa torna. Antes para marcar seu território e não deixar que um blogueiro sem blog invada esta pequena propriedade. Os poemas abaixo, escritos entre outubro de 2008 e fevereiro de 2009, na verdade não são coisas que se publiquem; mas como aqui se equivale a uma mesa de bar, leiam os amigos que ainda não o fizeram. Seguem em ordem cronológica para que se possa, mesmo que pouco, observar o mínimo do caminho que os poemas têm trilhado. Quanto ao blog, está que nem uma casa abandonada, eu sei: vou ter que cortar o mato, pregar uns parafusos, passar uma mão de tinta e me esforçar para meu lado underground não continue a preferir os casebres abandonados.
(Perícope)
Como um fotógrafo,
Contornar-te-ei,
Coisa amorfa num
Espaço em transe.
Não resistes à palavra,
Exista esse tenso limite
— Sem que te vejas parar.
Minha poesia é um corpo
Oco: sem que o sintas
………………………………..ei-lo a ti
……………………………………………….(és feito um peito)
***
O pulo do gato é o movimento muscular
da ascese, abrir a boca quem tem fome de viver:
como um tigre, num lapso, lançar-se sobre a presa.
Riscar-se o vidro da vida em silêncio tátil, assim é
o pulo do gato (nele cabiam meus olhos, cabia meu ser):
momento em que, do ápice, se avistarão os estilhaços.
O pulo do gato são palavras
Recolhidas em papel, sem poder:
Conceito em natureza morta.
***
Pouco
Gota a gota,
a gotas
A agonizar-me de não ter vindo o jorro
que eu já fui
Sou
aos poucos
Vi-
me no escuro
E outros ângulos
Pude
apavorar-me com novos cacos de velhas asceses
Ou não poder
nada
À espera
da medida
que em segredo
arranquei de vocês
, fraco
fiz
poemas
vãos para livrar-me de mim e de nós
vendo
seus espectros
se descolorirem na bola cega do sol
Só
Pouco
engendrei-
me
aonde
não doía
ter caído
Pouco pouco pouco.
A abraçá-los para que não vissem comigo.
Vinham os dias
Um sonho repentino
fazia-se
chance
Brilhava
esperança
Um sonho repetido
fazia-se
ranço
Esmaeci-me
no relicário
de meus clichês
Vivi a miséria
que não vira
em poesia
Feito zumbi
que viera dum livro
de Camus
sem crime
O que não assusta
A greve
de si ao menos
não agrava
uma garantida dor
Mas
nunca os vi
zumbis
Nem a cidade de São Paulo
:
transeunte zumbi
na imensa
Av. Paulista
Descobri-la
foi transgredir
as montanhas de Minas
Mas, Sampa,
não vira sua
saudade de nunca
ter se visto
Passo em falso é não
colocar-se alerta pro
tropeço
Poesia é para
consumar: seu sumo
some o ser,
como uma fruta
que a polpa
nadifica
e a casca
da palavra
é o cicerone
por mundos
maus e bons
que posso viver
Que me criaram
sem saber
a que levariam
Às vezes
ando ruas
vazio
Sento-me para fumar
Continuo escrevendo
para livrar-me
de por exemplo
ser feliz
aos poucos
Divirtam-se com meus velhos tempos: Infernando Pessoa
Postado em
January 31, 2009
Categoria: Poemas | 4 comentários
Infernando Pessoa
Tu ecoas palavras à legião,
Dizes poeta ser um fingidor
e, fingindo em três, é mal que finges!
Oh verme! Oh… poeta?
Teus toscos versos do Tejo,
e todos aqueles que causam tédio,
todos daquela noite
todos d’Os Lusíadas do século vinte,
ou qualquer um do peito aberto:
não importa – antes são teus,
e sendo teus eu já detesto.
Seja até que como poeta eu não preste
mas tu prestas tanto menos,
pois és poeta de arestas.
De arestas, oh verme!
Mas se tu achas que
poeta é fingidor,
que aches!
Poeta não é fingidor:
Poeta é o brincador,
o ator que interpreta,
quem interpela sobre a dor
em ódio consigo mesmo e em amor.
E ele se acha que
de amor não sofre tanto,
é de amor que vem a sofrer,
por de amor não sofrer
ou nem ou nunca amar.
O prazer da leitura
Postado em
May 6, 2008
Categoria: Erna Alfaro | 2 comentários
Eu estava ainda lidando com a desordem de uma mudança eterna e procurando um livro da Susan Sontag, passando por uma parada sobre “Las viejas putas” de Copi, e mais uma olhada no livro com os escritos e entrevistas de Louise Bourgeois onde ela disse que a vida é muito engraçada e muito ridícula; e aí então foi que o Diego, por médio de um mail, decidiu convidar-me para escrever umas linhas, aqui no Perambulagens.
Hoje de manhã acordei com a idéia e o sentimento de que talvez nada supere o prazer da leitura. A trama que imprimirá nas nossas cabeças será densa e também leve, ocupando espaços cada vez maiores, até tornar-se uma necessidade diária. Uma rota a levar-nos por caminhos, até então, insuspeitos; descoberta do mundo.
E como esse prazer estará destinado a uma pequena parte de nós, já que a maior inversão do Estado (estadão?) estará destinada à industria da diversão (entertainment), aonde serão jogados altos, gordos recursos para manter aos cidadãos uma soneca fácil, e se possível eterna, longe das descobertas e aberturas perigosas a que pode levar a leitura de poetas, filósofos e outros seres que convertem a escritura num possível raio de luz.
Bom, a “grosso modo”, - e sem entrar nos tenebrosos meandros a que nos pode levar essa apropriação da cultura feita pelo Estado - mais ou menos foi o que pensei intermitentemente parte do dia; e já transcrito, é melhor agora levantar daqui e fazer umas torradas, para depois continuar lendo.
***
Este post é de autoria de Erna Alfaro, poeta chilena e amiga. Um dia talvez eu conte de como nos conhecemos e de nossa amizade.
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