“Avaliando o que perdera”

Postado em June 3, 2012
Categoria: Cotidiano, Filosofia, Literatura, Niilismos chatos, Poesia, Política, Reflexão, Religião, Tecnologia | Comente

Estas perambulagens foram parte significativa de minha vida.

Imprimi, em muitos dos posts, a minha intenção, o meu caos, as minhas dúvidas; encontrava-se naqueles artigos a minha vontade, ainda cheia de força e vigor juvenis, de um dia tornar-me grande poeta, ou ao menos um ensaísta; ou um tradutor de poesia, quem sabe. Entretanto, chegou o dia que muitas vezes eu temi, mas que entretanto hoje para mim é tranqüilo, brando: eu digo adeus às perambulagens e é boa a despedida. Mais do que isso, digo adeus a um antigo projeto de vida. E dou boas-vindas ao novo.

O começo

Diz a minha amiga Lorena que eu não entendo muito dos conceitos do que é Essência, do que é Mudança; e é provável que ela tenha razão, que outros amigos cultos o confirmem. Desde a minha puberdade, cresci com uma normal e, muitas vezes, justa revolta com as coisas e pessoas ao medor; eu queria transformar o mundo, eu queria ser agente de uma mudança significativa. Muito tardiamente, aos 16, 17 anos eu descobri a poesia de Olavo Bilac, e com ela uma vontade incontrolável de busca pela verdade, tanto a minha verdade interior, manifesta no sentimento lírico, quanto a verdade do mundo, a verdade das injustiças sociais provocadas pelo capitalismo (tenham paciência, eu era um mero adolescente!).

É provável que eu nunca tenha entendido muito de estética, do valor que realmente tivesse a poesia e a literatura no contexto da tradição. Interessava-me só e somente a sua verdade pura, cifradamente manifesta, para que eu pudesse entender o mundo, entender-me. O blog Perambulagens surge mais ou menos neste turbilhão, quando eu já tinha 18 anos, e viria a perdurar durante todo esse período de minha vida em que procurei ser “intelectual”.

O império do inocente

Antes de a literatura fazer folia em minha vida, encontrei muito cedo uma outra paixão: a Internet.

Aos doze anos, sonhava em construir uma empresa, um império, que fizesse afronta a Bill Gates; eu, lá com a minha inocência, dizia que o futuro de Bill Gates lhe aguardaria muita dor de cabeça. Nesta época, editava códigos-fonte de sites no saudoso Front Page, criei uma “Pokéagenda” porque gostava de pokémons e montei uma home page do Raul Seixas, na época meu cantor favorito.

A escola nunca me interessou muito. Sempre entendia que se estava ensinando algo de inútil, algo que não exigia pensamento: eu via que apenas tinha de dar as respostas que os professores pediam. Com o vestibular não foi diferente: passei na Fuvest e na UFOP dando as respostas que mais agradavam os professores de história, geografia, português; e não posso dizer que não contei com alguma sorte nas exatas.

Por isso, durante toda a escola dormi em muitas aulas para ficar até mais tarde nos tempos de Internet discada, matei muitas outras quando minha mãe viajava e, quando ainda as assistia, não raro estava projetando algum site revolucionário; às vezes, chegava a ser um portal inteiro. Aos 17 anos, quando eu era anarquista, tinha cabelo grande e mais parecia um hippie, abri a minha primeira empresa, que rendia uns cem reais por mês, suficientes para eu sair para beber com os amigos e ainda fazer investimentos publicitários.

Foi nessa época que criei os meus primeiros sites mais sérios: o da própria empresa de hospedagem, criei o primeiro concurso de blogs do Brasil e até cheguei a lançar um concorrente do Blogger, que era baseado em um software open source e chegou a ter uns 300 usuários — mas, como não tinha condições de mantê-lo, fui obrigado a fechar. Também fazia negócios internacionais: contratei servidores de hospedagem de fora do Brasil e, com meus empreendimentos em hospedagem de sites, cheguei a ter um sócio do qual só cheguei a saber o nickname. Ele investiu uma boa quantidade de dólares na empresa, que também fracassou; e depois eu a vendi de modo que pagasse os investimentos daquela boa alma que acreditou em mim.

Quando passei na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), para o Curso de Letras, decidi parar com todos os empreendimentos e dedicar-me à faculdade, posto que pela primeira vez em minha vida fazia sentido estudar; e de fato, eu amava a cidade de Mariana, onde estava o campus; eu amava as noites boêmias em Ouro Preto, a sua arquitetura barroca e todos os bons amigos que fiz por lá. Tive a sorte de ter, logo no meu primeiro período (e único que faria na UFOP), aula de Teoria Literária com o professor Duda Machado, um marco em minha vida. Ele ensinou-me que em literatura não se importa o que se diz, mas como se diz. Entendi isso com profundidade e, depois das aulas, fazia os rascunhos de meu primeiro livro de poemas. Até hoje isso interfere em meu trabalho.

Eu não sei qual dos dois era mais infantil: ser grande poeta ou criar o império que derrubaria o então homem mais rico do mundo, Bill Gates. Mas eram dois impérios de sonhos pueris, ambos tão belos, ambos tão sinceros, mas ao mesmo tempo sem experiência vivida. Experiência essa que eu viria a adquirir passando pelo pior inferno que eu poderia viver neste mundo.

A vida na USP

Mas como ambas as coisas não estivessem em mim concluídas, mudei-me para São Paulo para fazer intensivo de cursinho, aproveitando o ensejo de que a UFOP havia entrado em greve. Embora gostasse muito de Ouro Preto (assim chamo Mariana, de Ouro Preto, porque é mais belo), criara uma relação de desejo louco por São Paulo. Uma vez na região da Praça da Sé, apaixonei-me por esta maravilhosa cidade; o meu espírito via-se realizado naquelas pessoas que corriam apressadas, todo mundo vestido de social embora usando mochila de colegial; mas o mais impressionante é, talvez, que eram muitas pessoas, cada uma mais interessante que a outra, fazendo acontecer em uma cidade viva.

A USP, para meu espanto, foi um verdadeiro choque de realidade. Eu descobri que muito do que eu imaginava de São Paulo era uma pura tara. Logo vi que, ao contrário de Ouro Preto, não havia convivência universitária na USP, porque as pessoas estavam ali por causa de um compromisso formal; ao contrário de mim, para a maioria das pessoas a USP não era o centro de suas vidas. No primeiro semestre, pensei em trancar e cursar Jornalismo na PUC; no segundo, em voltar para Ouro Preto e recuperar o que deixara, como se as vidas dentro da vida permanecessem intactas.

Mas aí, a vida deu-me como presente os amigos mais maravilhosos que uma pessoa já pôde encontrar. Éramos em quatro, todos de fora de São Paulo: eu, baiano que morou muito tempo em Minas, outro mineiro, outra paraense e outro do interior do estado. Foram bons tempos de descobrir juntos a USP, a Rua Augusta, São Paulo, a literatura e compartilhar a experiência intensa de vida em uma terra estrangeira, tão cheia de maravilhas, outras vezes tão vazia.

Eu escrevia, nessa época, poemas palavrosos e prometia aos quatro ventos que preparava-me para escrever minha opus magnum. Mantinha o Perambulagens, na época em outro domínio, e conheci muita gente interessante e inteligente pelos blogs. Reuni alguns deles neste Breviário, que pretendia ser – sem o menor pudor – uma grande revista cultural online. Eu até hoje me pergunto como pessoas inteligentes acreditavam em mim, logo eu que era – intelectualmente – uma farsa. Um farsante inocente.

Idas e vindas

A Faculdade de Letras da USP nunca foi algo muito certo para meu futuro. Jamais deixei, por outro lado, de manter projetos paralelos, de realizar frilas e estudar sobre desenvolvimento web, e principalmente Otimização de Sites, que se tornou primeiro uma necessidade e, mais tarde, a profissão que exerço até hoje. Certas vezes me desiludia com a vida de poeta, mas cria que ainda me seria interessante uma carreira como professor universitário. Eu, apesar dos pesares, estava ligado à vida uspiana.

Devo ter trancado a faculdade umas três vezes. Primeiro, porque tinha-me cansado e, no desespero de não saber aonde ir, decidi por uma vida que não era a minha: fui prestar vestibular para Direito, seguindo o amigo que também deixava a Letras. Na segunda semana do cursinho, também havia largado e, por ironia do destino, comecei a estudar profundamente as técnicas de SEO, vindo logo em seguida a conseguir um emprego em um lugar meio duvidoso para desenvolver estratégias de posicionamento de sites no Google.

Ao mesmo tempo, eu não estava completamente distante do mundo da Letras, e menos ainda da poesia; voltei à USP no semestre seguinte, continuando naquele emprego que me pagava um excelente salário, e mantinha-me dividido entre ambas as coisas. Carreguei durante muito, muito tempo a imagem de uma bifurcação de minha vida que eu não sabia como decidir: de um lado, a vida intelectual; e de outro, a empresa que eu já tinha aberto e atendia alguns clientes com consultoria em Otimização de Sites.

Numa época bem turbulenta, deixei a casa materna e fui morar sozinho; eu já odiava São Paulo com todas as minhas forças, pensava em juntar as malas e mudar para o Rio de Janeiro, onde decerto eu seria feliz, distante de todo este cinza e das pessoas frias. A faculdade estava trancada e, inciando o ano de 2010, decidi retomar o curso de Letras e concluí-lo duma vez, pegar meu diploma e ficar livre de uma vez por todas de toda aquela porcaria.

Adeus à USP

Acontece que se tornou insuportável continuar na USP. Eu ainda gostava muito de literatura, já não sei se posso dizer que a amava; pudera, era uma época de muito poucas certezas, de dúvidas profundas sobre o meu ser, sobre a própria realidade. A minha alma encontrava-se mergulhada no mais degradante relativismo; eu era ateu, mas não um ateu de carteirinha e chato, e sim um homem totalmente desprovido de fé. Deus era impossível, a realidade era impossível. E a USP pela primeira vez já não correspondia à absolutamente nada do que eu poderia esperar para minha vida.

Freqüentei a faculdade por cerca de duas semanas até que decidi chutar o pau da barraca, como se diz. As aulas que eram para ser sobre literatura tinham a finalidade única de formar novos socialistas, ou petistas. E de algum modo eu intuía que a forma da literatura era algo não revolucionário como queriam os professores universitários, mas sim aristocrático. O que, aliás, está em sua origem.

Eu, que sempre me considerei um revolucionário, e posso dizer que ainda o sou, embora hoje sob outra perspectiva, tive mais um choque de realidade: a literatura não dizia tanta coisa sobre a realidade tal como eu a conhecia. Os uspianos, por sua vez, acabavam por viver em uma bolha, e dentro dela moldavam a realidade ao seu modo, ao seu desejo.

Eu sentia que isso era falso.

Vidas partidas

Sem saber muito o que fazer, resolvi investir na minha empresa, que na época chamava-se ainda Primeiro Lugar, chegando a ter diversos clientes e uma certa reputação. Aluguei um escritório ao lado do prédio onde morava, contratei dois estagiários e comecei a trabalhar a sério, muito embora ainda estivesse indeciso, incerto sobre qualquer coisa sobre o meu futuro. Eu gostava do que fazia, mas me sentia culpado porque julgava que marketing fosse algo errado, como se as coisas existissem simplesmente para iludir o consumidor. Eu levei às últimas conseqüências aquele preconceito popular.

Tudo ia bem na empresa, mas como dizia T.S. Eliot, eu era um homem partido; eu era duas pessoas, como se confirmando a máxima do poeta rebelde Rimbaud: o eu é um Outro. No escritório, era um que empreendia, mantinha contatos e contratos, fora de lá eu era um escritor frustrado. As minhas intuições me conduziam a certas verdades que eu não via, em lugar nenhum, falar-se delas. Concluía que, sim, eu ainda haveria de vir a desenvolvê-las mais adiante, assim que adquirisse a maturidade necessária de um adulto.

Nesta época, eu já não lia literatura, mas comecei a me interesar um pouco por filosofia (além dos livros de marketing.) Veio parar em minhas mãos um livro que mudou a minha vida por completo: Metafísica do Belo, de Schopenhauer; era um livro elegante, mais ou menos fácil de ler, onde encontrei uma explicação filosófica e complexa para certa intuição que eu tinha: a de que a inteligência provinha da intuição, de que todas as coisas provinham de outras coisas. Mas, afinal de contas, foi esse bendito livro que me conduziu de volta a ponderar sobre a existência de Deus porque, como metafísico e embora ateu, Schopenhauer falava da Vontade, que era algo como, digamos assim, o motor do mundo, sua essência.

Foi uma época em que também lia muito do Nietzsche e ia me reconstruindo, compreendendo a mim e ao mundo, embora ainda muito incerto das coisas. Pensando em retrospectiva, foi de fato algo, embora doloroso, muito importante para eu ser o que sou; não sei se de outro modo chegaria a me realizar, se não me forjasse reconhecendo a própria liberdade que é inerente ao ser humano, e que mais tarde me traria ao catolicismo.

Adolescência no retrovisor

Ser adolescente é estar perplexo consigo mesmo.

O homem, enquanto não se conhece, enquanto não tem uma certeza mínima de quem é, provavelmente continuará se espantando consigo mesmo. Quando temos o espírito adolescente, achamos isso normal. Foi no álbum Zii e Zie, de Caetano Veloso, que eu ouvia uma frase que ele creditava à Madonna, como parte da canção: “eu nunca achei que uma pessoa pudesse se conhecer”, ou algo que o valha; sim, estava em minha devoção quase religiosa à Caetano, que mesmo já velho continua adolescente, a manifestação do Mal que era a vida adulta, cheia de homens velhos com cabelo nas narinas.

Demorei muito tempo para entender a cultura em que eu estava inserido. Foi por causa de uns novos amigos que chegaram ao grupo, que me apresentaram Olavo de Carvalho, que consegui entender um pouco mais sobre a cultura brasileira, e como ela estava dominada pelo pensamento esquerdista e, no fundo, de como eu próprio era uma cria dele. Talvez hoje ainda o seja. O pensamento esquerdista, mesmo que não o diga com essas palavras, cria uma linha de raciocínio negativo em relação à realidade, porque a revolução proletária não era mais possível, e desde isso não há mais esperanças neste mundo.

Compreendi, com o passar do tempo, que eu fora domesticado e treinado a pensar como um socialista; que a culpa que eu sentia por fazer marketing era culpa de estar servindo ao mundo porco-capitalista, e que se eu percebia que estava melhorando a vida de uma outra pessoa, que eu estava ajudando uma pessoa a realizar o seu sonho; bem, isso não podia passar de mera ideologia de minha parte. Foi graças ao Olavo de Carvalho que eu adquiri maturidade intelectual e, mesmo hoje já não me interessando muito por essas coisas, sei mais ou menos bem as coisas de política em que acredito.

Para mim, que sempre quis ser um intelectual, o ressugirmento de um pensamento interessante como o de Olavo de Carvalho, bem como uma maturidade crescente e a auto-descoberta, despertou aqueles antigos desejos que nunca terminaram, mas simplesmente dormiam dentro de mim, e eu novamente pensei na possibilidade de vir a escrever. Ora bolas, por que eu não poderia dedicar uma parte da vida ao trabalho e a outra aos estudos?

Fim de partida

Eu havia chegado aos vinte e cinco anos e não sabia o que queria da vida.

A vida intelectual e a vida empreendedora, eu percebia, continuavam a me dividir; ou antes, reacendiam uma antiga divisão que não estava de todo desfeita. As minhas impressões da psiquê humana, sobre as quais eu diariamente refletia, apontavam sua seta para a escrita, para o desenvolvimento desse talento adormecido e ao mesmo tempo deseducado, com muito que desenvolver. Eu sentia que tinha algo a dizer, algo que todos os meus colegas não diziam e lhes parecia imperceptível. Isto porque eu tive como amigo decerto as pessoas mais intelectualmente hábeis, mais inteligentes, de minha geração. Já a realidade, apontava-me o concreto.

Então, criei uma maneira saudável de conciliar o tanto que eu trabalhava com duas horas de estudo diário que fossem. Resolvi aprofundar os meus estudos sobre três vias: a religiosa, com estudo do Evangelho e de Amigos de Deus, uma reunião das homilias de Escrivá; a psicológica, lendo alguns ensaios do Freud e, por fim, a literária, retomando a leitura de textos fundamentais da língua portuguesa, que eu logo viria a substituir por algo mais “fácil”, como Drummond e Cabral.

Foi quando eu percebi que estava reclamando de boca cheia em ter dilema como este. Mais do que isso, que o melhor que eu construíra da vida fora na empresa e que, embora talvez pudessem ser muito válidas, as minhas intuições de nada valeriam para o mundo intelectual ou, em última análise, mais serviriam à minha compreensão da realdiade, dos seres humanos, mas dentro da instituição que é a empresa, que é onde eu melhor posso criar e crescer como ser humano. Não sei, talvez pelo meu histórico particular ou pela polarização política dos círculos intelectuais, tudo acabaria por ser mais um fechar-se ao encontro do mundo, mergulhar em cápsulas que são as ideias.

Inclusive a verdade. Talvez a minha última descoberta foi a de que a verdade, mesmo existindo, e existe, pela sua complexidade acabava por me tirar do mundo real, porque o seu conhecimento teórico exige um nível de abstração que nos afasta das coisas que acontecem ao redor, do irmão que tem fome de vida. Que paradoxo. Em grande parte, foi por conta disso que consegui amarrar dois pontos de minha vida. Eu prefiro a fé na verdade a estar distante do real, na verdade, e não poder modificá-lo.

E com essa conclusão, não tenho mais por que perambular. Já sou jovem de novo, não mais homem velho de cabelo nas narinas tal como, perplexo, certo dia me descobrira.

O clã vulgar

Postado em December 6, 2010
Categoria: Cotidiano | Um comentário

“Todas as companhias são más – menos a dos iguais” (Nietzsche)

Percorrendo os misteriosos labirintos que conduzem da direita à esquerda, não é difícil descobrir que os aparentemente tortuosos caminhos não passam, afinal de contas, de uma simplicíssima linha reta como que em gradiente: de um lado as afetações socialistas, de outro umas afetações mais ou menos liberais, e no meio termo disso há indivíduos reunidos em clãs que vão se definindo por um senso de comuns inteligência, elegância e justiça. Quem se importa com a verdade!

Afirmam-se pela sua inteligência superior embora, de fato, seja toda a gente um pouquinho humilde em suas colocações, ó mundo complicado, como é precária a nossa educação! Como eu preferia viver em uma era de áurea educação – e ter sido eleito para viver entre os aristocratas, brada um deles. Quem os entende? Pouco importa onde se encontra algum tipo de razão, onde a verdade é mais suculenta ou a ética, mais universal — oras, mas não é apenas em nós próprios que elas existem, ainda que possuam um fundamento inevitavelmente natural, tão provavelmente selvagem? Nós, homens cosmopolitas, como cedemos a instintos tão mesquinhos!

Mas não é propriamente de esquerda ou direita que quero falar, aliás tanto faz se o que reúne indivíduos em grupo é certo ideal antifascista dos que se aglomeram nas academias de humanas, se é o ideal antiacadêmico dos liberais aristotélicos que tiveram a academia surrupiada pelos marxistas ou ainda o ideal não menos digno dos marombados que freqüentam academias de musculação à procura do corpo sarado. Se há algo um tanto quanto romântico que os séculos não apagaram e que decerto há de acompanhar o indivíduo hoje já moderno também pelas décadas vindouras, e cada vez mais e mais modernas, “avançadas”, é o digamos assim “arquétipo de ideal”, uma gregária forma oca e muito semelhante em qualquer um dos clãs que se encontram por aí (o emo, o comunista, o direitista, etc.), fórmula essa que é recheada com ideologias como que escolhidas em um restaurante self-service – no Subway por exemplo. Preferem o Bob’s? Desse modo, os indivíduos agem por maneiras mais ou menos iguais, apenas defendendo a sua causa e tratando de nomear os inimigos – para se definir. Quanta insegurança!

O mais curioso de tudo, como seria de esperar, é que dentro desse panorama a minha verdade não tem qualquer tipo de valor, e esta é curiosamente descartada em nome da nossa verdade­ – nós, iguais até na verdade; entretanto, não há nada de novo em se pensar numa verdade coletiva, afinal não são hoje praticamente os mesmos seres humanos que há poucos séculos se amontoavam sob guarda-chuvas de uma cultura que os fazia semelhantes a podar-lhes qualquer liberdade pelo bom convívio? Lembrem do filho pródigo: educa-se mesmo o mais indignado a preparar a sua volta, não é Michael Corleone? Os mais iguais, os mais previsíveis, não serão por conseqüência os mais revoltados? Pois bem, é improvável que nisso não haja uma característica do que seja a “natureza humana”, com o perdão da expressão assim deselegante, tão gasta. Será muito absurdo afirmar que o projeto de indivíduo nunca passou de um golpe de marketing de uns primeiros burgueses que pagavam a bons poetas por uma mentirazinha sincera e assim pudessem construir impérios tão poderosos? Até hoje, o que mais se vende é a idéia de liberdade, e para isso é preciso aprisionar o consumidor.

Nossa memória é curta, caros amigos, e não nos caberá, portanto, deixar de notar as nuances de um mundo contemporâneo que inevitavelmente se define pelo seu passado mais recente – isto é, pelo século mais vulgar e sublime de todos, aquele século 20 em que se vivenciou o amálgama das delícias e absurdos de uma cultura de massa como oposição à aristocracia ainda vigente, de ideologias de massa, o nazismo, o comunismo; jamais se proliferaram tantos e tão sutis matizes de pensamento, ó século onde os gênios se multiplicaram como leporídeos, a sem dúvida nenhuma mais profícua era das diferenças radicais que, como era de se esperar, encontraram o acordo para a convivência pacífica desses radicais que já não suportavam a própria radicalidade. Um acordo político, covarde na medida em que a qualquer custo evita-se o combate das diferenças, procuram-se as semelhanças entre os chamados indivíduos senhores das próprias vontades, o que permite compartilhar um mesmo espaço, ideologicamente se proteger. É a primeira vez que vemos o fim das lutas, ainda mais da luta de classes, e agora a realidade praticamente sem nenhuma dureza e muitas afetações típicas de clãs –  e o que dizer do Brasil cujo Governo que faz a economia dos mais pobres crescer 12% e agrada tanto aos pobres quanto aos mais ricos – exceto pelo preconceito puro e simples de o presidente ser “analfabeto”, embora economicamente eles o amem, esses conservadores natos. Nada restou de perigoso, não há nem mesmo um ideal pelo que lutar ou um inimigo real, digno, a combater. Nada restou, e quem sabe o próprio nada é que talvez seja o inimigo: onde ele está? Não digo, não está em lugar nenhum. – Acaso estará em toda a parte? Isso já é intriga da oposição.

Somos quase iguais uns aos outros; a democracia nos poliu, o passado amargo nos tornou bons, embora seja verdade que para isso a própria verdade tenha de ter perdido o seu valor: ela própria é esvaziada de sentido assim como a vida. Ser existencialista lato sensu, com maior ou menor grau de consciência disso, não é mais tarefa exclusiva de filósofos meio vesgos e esse exercício cabe a qualquer indivíduo, o mais cristão dos homens precisará constantemente reafirmar a sua fé combatendo o nada, idem para a fé do ateu. Não há tarefa mais ingrata que a afirmação ou, em outras palavras, combater os diferentes em busca de comprovar racionalmente uma verdade, que só é o valor em que se acredita – porque só a razão salva! A dificuldade, talvez impossibilidade, reside no fato meio óbvio de que não há qualquer tipo de argumento que se comprove completamente através da razão, e mesmo a realidade mais simples – eu estou aqui, eu existo, este papel está em minhas mãos – exige uma fé desgraçada. Mas evitemos falar de duvidar, que se conduz a própria dúvida a um estado de loucura irreversível.

A mais cruel das invenções humanas foi uma palavrinha maldita, utilizada em tantos contextos e com a intenção que mais convinha, a recair sobre nós como uma pedra sobre os ombros: liberdade. Haverá homens livres? Mas é claro que sim, eu sou livre, tenho pensamentos privilegiados, não me igualo à massa irracional, à massa cega incapaz de perceber um elefante à frente dos olhos! Eu sou livre, mas não sou o único a ser livre, tenho amigos igualmente livres, tenho meu grupo reduzido em quantidade mas valoroso em qualidade que é avalista de minha liberdade: ouso dizer que obtive muita sorte do destino em encontrar pessoas tão inteligentes, tão livres quanto eu, ah! já diziam que os fortes se reúnem, as boas companhias andam juntas para combater a turba frenética e medícore que habita esse mundo de meu deus! Quanto aos reles: diz com quem andas e direi quem és.

Não consigo evitar a digressão dentro de digressões, é mais forte do que eu. E se falávamos de amigos, sou levado por um impulso de repentina sinceridade a acrescentar que uma amizade só é boa com o seu dessemelhante: para se tornar amigo e não um bajulador ideológico, é indispensável desprezar completamente a ideologia daquele com o qual se relaciona, no sentido de combatê-la, provocá-la. Somente assim, será possível – mas não garantido – que essa relação de amizade ao invés de se concretizar nas aparências se construa tão forte que supere questões irrelevantes como a moral ou a verdade. Estas devem ser reservadas aos inimigos. Concordo contigo, logo te desprezo tanto quanto a mim mesmo – eis meu emblema.

Os homens só se reúnem para atividades esdrúxulas, mas não necessariamente indignas como um chope gelado, futebol no Maracanã ou uma passeata contra o maltrato aos animais; o único mal é se crêem nas suas certezas! Hum, vejam como pude um pensamento tão profundo, tão metafísico, que só poderia vir de minha natureza inevitavelmente superior. Vocês viram aquele filme do Bope? Que fascista, como pode usar de tanta violência, isso só engedra mais violência mesmo… por isso eu nem posso andar à noite no meu bairro, se não roubam meu BlackBerry. Opa – Asdrúbal, traz a conta aí! – Você chama um taxi?

Um clã começa por um valor compartilhado e esse valor pode ser o mais diverso possível: um time de futebol, uma posição política, uma música que se ouve, uma religião, enfim qualquer motivo que permita idealizar uma situação melhor -  e mesmo um clã de suicidas mira-se num tempo melhor, o tempo futuro em que terão fugido desse mundo de sofrimento; é certo que falar da morte, seduzirem-se uns aos outros pele comum aniquilamento, proporciona-lhes um prazer hedonista! É preciso mirar-se num totem invisível: seja um deus, uma ideia, uma banda, uma filosofia, um objetivo. Outra coisa: é preciso demonizar, por isso há de se encontrar um clã rival, mesmo que esse clã seja afinal de contas toda a sociedade – em geral todavia é sempre algo muito próximo do clã (a direita e a esquerda, os médicos e os enfermeiros, etc.)  e via de regra simplesmente se invertem determinados valores para termos a justificativa sublime para o embate ideológico, em outras palavras, para debate de ideias, para o questionamento da Verdade. É A, não: é B, seus burros: é C. Está aí o ABC dos clãs, com o perdão do trocadilho. Por que o sapo-cururu, transido de frio, soluça lá da beira do rio?

No caso do futebol a relação entre clãs se dá de uma maneira bastante infantil, todos sabem – mas quem disse que não temos direito a ser infantis! Todos ali afinal são futebolistas, são iguais ao menos naquele instante, no grito enérgico do gol – e são ainda mais iguais quando se negam, cada qual com o seu time de coração. Há clãs onde se encontram pessoas mais sutis, é verdade, e por isso elas não podem parecer tão vulgares quanto um: corintiano! Tudo é mera questão de linguagem, e para se diferenciar de seus inimigos, demonstrar a sua superioridade, o sujeito utiliza-se de termos técnicos compartilhados pelo clã: é preciso ser hermético para o inimigo, que ele jamais possa saber como atacar, afinal o ataque é fácil diante de uma falta de perspectivas generalizada, é preciso que os indivíduos reunidos em clãs jamais possam ser atacados – por vezes eles até criam seitas secretas em cavernas protegidas do convívio com a turba. Há nisso uma grande lição a se retirar, um profundo ensinamento: afaste o inimigo sem deixá-lo questionar o que você tem de pensamento, use palavras como barricadas, chame-o de fascista ou de feio. Em oposição a tudo o que foi dito, só um grande homem, como o artista por exemplo, poderá discutir as suas principais questões sem precisar recorrer a cientificismos baratos – ele as levará a um estado de realidade, sem preconceitos cuja única função é proteger-se de ataques rivais. Só o artista não é covarde, não se rebaixa ao ponto de pedir o aval de seu próximo: caso o artista não seja um cavaleiro solitário, que ao menos a sua criação o seja – e é.

O Estrangeiro – Caetano Veloso e Jaques Morelenbaum

Postado em August 8, 2010
Categoria: Caetano Veloso | Comente

In Passim (Bruno Tolentino)

Postado em February 26, 2010
Categoria: Poesia, Uncategorized | 8 comentários

In passim

Tudo vai-se acabando, tudo passa
do que é ao que era; é tudo mais
ou menos uns vestígios de fumaça
no espaço do que deixas para trás.

E tudo o que deixaste ou deixarás
de manso ou de repente, sem que faça
diferença nenhuma no fugaz,
é assim como a garoa na vidraça:

intimações de lágrima delida.
Não valeu chorar nada. Nem te atrevas
a lamentar-te à porta da saída,

pois pouco importa a vida como a levas,
que ela te leva a ti, de despedida
em despedida, a uma lição de trevas.

(Bruno Tolentino. O mundo como Ideia. Editora Globo: 2002)

***

Na falta do que postar, vai o meu poema preferido do Tolentino. É daqueles que, vez e outra, seus versos ressoam e eu vou lê-lo.

***

Convém ainda sair em defesa e ao mesmo tempo acusá-lo: Bruno Tolentino, mitômano ou não, é aquele poeta que via de regra encontra devoção ou repulsa, certamente muito menos por sua obra em si; essa paixão, para o bem ou para mal, parece que só está ligada ao tão conhecido sentimento de grupo, que divide opiniões e cria, cada qual ao seu modo, um certo politiquês que pretende julgar a poesia deste e de outros coitados poetas. (Afinal, isso não repete aquela estrutura de richa entre meninos e meninas de nossa tenra infância?) Depois de escolhido um grupo, justifica-se a crítica com o sistema político-estético-filosófico-etc, tolo embora difícil, que lhe ensinaram os superiores. E daí? se nunca entra em cena a poesia do sujeito. Poeta de versos cristalinos e cheio de elementos grotescos, atualizador de imagens da tradição literária recente, crente de uma certa ideia de Eterno (parece que sublima seu tempo presente, sem deixar de senti-lo), de expressão turva, borrificada e bela, Bruno Tolentino deve ser lido. Lido e só.

Tentei te amar de todas as maneiras

Postado em December 19, 2009
Categoria: Poemas | 2 comentários

Tentei te amar de todas as maneiras,
E achando que não mais conseguiria
Eu me tornei cruel num triste dia…
Percebo hoje o tamanho da besteira!…

Ninguém pode ficar sem o Amor,
Pois ausência assemelha-se a um mau câncer
E a falta dum amor supera o câncer
Em infelicidade, angústia e dor!

Queria que estivesses ao meu lado
E tivéssemos lindos filhos, casas
E até mesmo um cachorro alegre, o Bob…

Mas tu te fostes tal cavalo alado:
Eu não te dei valor, bateste as asas…
E hoje me culpo por ter sido esnobe!

*

Se o Emmanuel acha que vai superar o MEU soneto do Bob…

Teoria do “Eu estava pensando…”

Postado em December 5, 2009
Categoria: Teorias | 8 comentários

Eu estava pensando

“Eu estava pensando”… Você certamente já ouviu essa expressão em diversas situações e quem sabe até mesmo já a tenha utilizado, mas o que talvez jamais tenha se dado conta é de que o seu uso, e ainda mais nos meios universitários e de nossa inteligenzia, indica que o usuário necessariamente irá, bem, como dizer? Enfim, ao que se falará após sua introdução é sempre bem-vinda a já clássica forma de singela e sabiamente intrometer-se – e, o mais importante, interromper o discurso alheio -, que o Professor Gilmar fez ficar famosa: “aluno, você está defecando pela boca”.

Fruto de uma observação obsessiva primeiramente nas salas de aula, esta minha teoria, que apesar de bastante simples, veio ao longo dos anos ganhando repertório e intensificando-se como valor de verdade. Hoje eu posso dizer, sem a menor sombra de dúvida, que é a mais pura verdade a Teoria do “Eu estava pensando”, que consiste em: quando alguma pessoa, homem ou mulher, começa uma fala ou um texto com a expressão “eu estava pensando”, ou mesmo a utiliza para introduzir, referenciar-se a ou referendar um tópico conversacional, é porque irá excretar pela boca, isto é, falar uma coisa estapafúrdia e completamente sem sentido.

Mas uma teoria precisa de provas e bons argumentos, apesar de tudo isso me parecer completa e facilmente verificável por qualquer leitor provido de bom senso. Mas não, não me furto a um debate profundo e sério sobre a Teoria do “Eu estava pensando”, que agora público em forma de post, ao contrário do que desejam meus inimigos, conhecidos ou não, que primam tanto por revelar seus dotes filosóficos ao início de qualquer fala.

Pois bem. Ontem eu e duas amigas fomos a um encontro internacional sobre Dostoiévski que ocorreu esta semana em São Paulo; só fiquei sabendo de última hora e mesmo não sendo o maior entusiasta de eventos do tipo, acompanhei de muito bom grado as minhas ilustres amigas. O tema do debate era “Dostoiévski e a Cultura Contemporânea”, o qual também encerrava o evento. É claro que não podia faltar à mesa um pós-moderno. “Aí vem, aí vem”, impacienta-se a plateia.

Depois da fala de uma senhora muito simpática, apresentou-se-nos uma também professora da USP que discorreria sobre uma peça contemporânea chamada Dostoievski trip, em que, resumidamente, viciados tomavam drogas que tinham nomes de escritores e no final tinham uma overdose com a recém-inventada “Dostoiévski”, ao que o traficante e o químico responsável concluíram ser necessário diluí-la com a “Stephen King”. Ainda que minimamente interessante a tal peça, é claro que como boa pós-modernista (meu grilo é com os pós-modernistas e não necessariamente com suas teorias, deixo claro) ela não falou nada sobre Dostoiévski e em sua apresentação alongava-se no debate da afirmação pela negação, do simulacro do eu, do vazio, dando voltas e mais voltas, saindo do nada e indo a lugar nenhum. Detalhe: ela começara sua intervenção mais ou menos assim: “Eu estava pensando… em como preparar algo que ao mesmo tempo considerasse o evento como um todo, afinal esta seria a última mesa, e pudesse trazer para vocês conclusões de minhas pesquisas”. Já no final da fala dela, impaciente o sr. Frank Castorf fez no intervalo de uns cinco minutos dois “cof-cof” geniais.

A seguir, sendo a sua vez de falar, ele deixou muito claro que achava que pós-modernismo é coisa de classe média burra e, depois, numa das respostas às perguntas feitas pelo público concluiu que crítica pós-modernista era como assistir televisão: você vai mudando de canal até encontrar o que deseja assistir, na medida em que essa crítica também retira do texto não o que ele diz e sim o que previamente já se procurava (mas, convenhamos, isso é válido para quase tudo o que versa sobre Literatura). Ele foi o melhor da mesa, e não só por causa de sua humilde acidez (para colocar os pingos nos is, ele simplesmente falou de Dostoiévski e ponto final.)

Pode estar parecendo que eu estou fugindo ao tópico e que, pelo uso de uma falsa modéstia, só queira posicionar-me como bom intelectual que vai a eventos literários e é crítico em relação aos mesmos. Todavia, faz-se mister trazer à luz esta noite porque foi muito significativa para a consolidação da Teoria do “Eu estava pensando…”. Não bastasse um exemplo tão vertiginoso para mim como o de nossa pós-modernosa, na última pergunta feita pelo público (e que se dirigia a ela – atentem-se à simetria deste ato!) uma moça, para o meu completo deleite, começou: “Eu estava pensando…”

Pára o mundo que eu quero descer! Apesar de saber que ali merda viria, eu senti aquela ponta de satisfação, dada em forma de prazer estético, de revelação final. Só podia ser um sinal, um indício de que até mesmo Deus, Ele próprio!, compactuava com a minha teoria e queria fazer de mim um instrumento de sua divulgação.

E ela continuou, murmurando alguma coisa sobre ética, o Grande Inquisidor, dando voltas e mais voltas, porque afinal ela tinha pensado em ética em Dostoiévski, e enfim interrompeu a si mesma com aquele tom interrogativo de quem semeava a discussão, melhor, o enfim debate inteligente. Só faltava mesmo a nossa pós-tudo compactuar novamente do “eu estava pensando” e repeti-lo, mas aí já seria demais, de tal modo tão exagerado que nenhum de meus leitores acreditaria em mim e tirar-se-ia o teor de revelação que há em minha Teoria do “Eu estava pensando…”.

Comentem vossas experiências com o “Eu estava pensando…”.

E que o Flamengo seja o grande campeão do Campeonato Brasileiro de 2009 contra a vergonhosa muricylização do futebol

Postado em November 29, 2009
Categoria: Futebol | 7 comentários

Começo a escrever este texto ainda nos últimos minutos dos jogos de domingo, que aconteceram todos no mesmo horário. Para ser mais exato, justo no instante em que o Flamengo converte em gol um pênalti cuja cobrança fora interrompida por um torcedor que, se flamenguista, é tolo; se corintiano, só queria “aparecer”; ou sendo torcedor de qualquer outro time, o que dizer se não que se trata de um completo babaca?

Esta semana, li o texto de um jornalista que, embora blogueiro e paulistano, nutre pelo futebol a mesma paixão que os torcedores nordestinos. Também é capaz, justo com a sua serenidade em opiniões futebolísticas, de vertê-lo em algo místico tal qual fazem os cariocas, que são os maiores torcedores do Brasil. De nome Rica Perrone, embora dele discorde no que em geral tange a moral (porque dá claramente como resposta à Parada Gay uma Parada Hétero, e eu me pergunto por que ele não participa da Marcha por Jesus, que por sua vez, apesar da inocência evangélica, é algo claramente escroto), para mim é sem a menor sombra de dúvida o jornalista de Futebol mais certeiro em suas opiniões. Os outros, uns mais e outros menos, sofrem do mesmo Mal que o mestre Juca Kfouri: o paulistanismo politicamente correto que, aliás, já tem se infiltrado até mesmo nas redações cariocas.

Aos que se interessam por Futebol, dedico este parágrafo à análise impecável, feita pelo Rica Perrone, do que é hoje o São Paulo Futebol Clube a quem, embora seu torcedor, rogue-lhe as piores pragas para que não se sagre campeão brasileiro. E que antes caia à Segundona (que já se tornou “Série B”, termo que falsamente buscam emprestar das Letras o seu próprio politicamente correto uns socialmente imbecis), para que renasça como uma fênix. Pareça exagero, mas pelo menos neste instante me vejo como um bom são-paulino – o que é raro entre essa raça de bambis. E antes que venham encher-me o saco os mal-informados e digam que agora é fácil dizê-lo, quem segue meu Twitter (ok que Twitter não seja parâmetro de forma nenhuma entre pessoas sensatas) sabe que estou torcendo pelo Flamengo, que tem jogado Futebol, há muitas rodadas. Portanto, leia o texto sobre o SPFC do Rica Perrone – ainda que para isso abra mão de continuar a leitura de meu próprio texto.

Estamos chegando à Última Rodada do Brasileirão. O São Paulo, até então líder, perdera o antepenúltimo jogo da competição para o Botafogo, hoje perdeu para o Goiás (com um goleada incrível assim como a vontade do tricolor de jogar futebol – embora já fosse tarde) e, com as vitórias de hoje do Palmeiras e do Inter, caiu para a quarta posição. É claro que eu fiquei feliz porque, como já vinha dizendo há tempos, entre os amigos e os bebuns que encontrava nos bares, não seria justo o SPFC tornar-se campeão novamente – mas ao mesmo tempo sentido, como é de se esperar de um torcedor. É ruim para a competitividade do futebol brasileiro, tal como é ruim no campo da política a unanimidade que o Lula tem e o Caetano criticou (bom ou mau o seu Governo, não importa), meu maior desgosto em relação ao São Paulo é que o seu futebol está para o Futebol assim como uma boneca inflável deve estar para o sexo (só falta mesmo encontrar-se tal objeto plástico em forma de bambi na casa de algum torcedor, são-paulino ou não, que, vejam só, ainda corre na boca pequena que viado é quem dá e não só quem come alguém do mesmo sexo que o seu).

O que parecia improvável, unicamente pela mão do destino não se concretizou: imaginem todos os times com sessenta e dois pontos na última rodada? Na verdade, agora quase todos do G4 estão com 62 pontos, mas a tabela inverteu-se drasticamente: (em ordem) Flamengo (o único com 64), Internacional, Palmeiras e São Paulo, que é o mais perto de perder a vaga da Libertadores para o Cruzeiro, que vem com toda a força. Neste instante, não é preciso o time mineiro enviar-me uma mala preta cheia de torresmos para que eu emita energias positivas pela sua vitória e a derrota do São Paulo. Faço-o com graça e responsabilidade futebolística.

O campeão brasileiro para mim já estava definido mais em minha razão do que em meu coração (afinal, inconscientemente eu vibro é com os gols do São Paulo): será o Flamengo, cujo pilar está no ex-jogador-novo-craque Pet, mas é Pet só para os íntimos. Por falar num dos poucos estrangeiros que deveriam ter vestido a camisa verde-e-amarela, no pouco que o vi jogar Petkovic  mostrou-se o grande craque do campeonato. Foram dois gols olímpicos, sendo um deles em pleno Mineirão contra o Atlético, além daquela linda arrancada sobre a zaga do Palmeiras em pleno Palestra. Mudando de assunto mas que sem isso deixe de me ater a ele, lembro de tê-lo visto desembarcar no aeroporto de Salvador em 1997, ao vivo pela televisão local, quando ele viria a defender a camisa do Vitória: em grande medida o seu futebol dostoievskiano, ao lado de Túlio (sim, o Maravilha), fez desse time execrável o campeão baiano do ano.

No Brasil a paixão em si pela camisa e pelo maior dos esportes deve estar acima de tudo, ou pelo menos de muitas das coisas, o que demonstra que o futebol é ainda um dos poucos espaços onde o romantismo é possível e, mais do que isso, a nota que rege o espetáculo. Apesar da camisa 43 (não se iludam os mais desavisados, não se trata de sua idade – ele tem 37 – mas sim do minuto em que fez o glorioso gol que deu ao Flamengo mais um título de Cariocas sobre o Vasco), Pet foi o grande maestro que, tendo Adriano e Andrade ao lado (o último sendo técnico e merecedor de muitos méritos), além de um time que por acaso pouco conheço (antes de atirarem uma pedra, comprem-me o PFC), justamente consagrará o Flamengo como grande campeão.

Na era dos pontos corridos, o título do Flamengo será muito significativo. Contra a corrente, quando tudo no Futebol parecia apontar para uma muricylização total, à qual se entregou mesmo um dos estandartes do Futebol-para-frente, falo de Wanderley Luxemburgo, o Mengão (ainda que me seja difícil chamá-lo assim, eu que inevitavelmente me tornei tricolor em todos os cantos, assim como na Bahia como em São Paulo, assim como no Rio Grande do Sul como no Rio de Janeiro) chamará os holofotes para o fato de que é possível, numa época em que o futebol é business e resultado prático,  um time que, apesar de inevitáveis e ruins jogos como foram por exemplo aquele contra o Goiás, ainda jogar futebol. Nada além de Futebol.

E até mesmo se não há mais jogadores como um Pelé ou um Garrincha nem nunca mais haverá, com a grandeza de um Adriano e a genialidade de um Pet, que são bem mais jogadores que todo o elenco do São Paulo a viver sob a ditadura mais infeliz que pode haver no Futebol e que domina os meios corporativos, este Flamengo já é o melhor time do ano: campeão carioca, boa campanha na Copa do Brasil e mui provavelmente campeão brasileiro (. Rivalizaria com o Fluminense dos últimos dois meses e o Corinthians da gorda franga dos gols de ouro no primeiro semestre).

Digo isso tudo sobre o Brasileirão de 2009 com esperança, pois qualquer interessado por Futebol será capaz de ver que pelo menos desde o seu último jogo contra o Botafogo o São Paulo, este sempre previamente campeão, vem tentando jogar bola. Perdeu ambos os jogos, mas o futebol foi mais bonito e, pasmem, competitivo. Não fosse assim, arrancaria no máximo dois empates que de nada serviriam. Ainda mais com dois dos seus três últimos jogos fora de casa e a dificuldade inédita, tornou-se enfim indispensável nesta reta decisiva um futebol que vá para o ataque, defenda-se com raça, motive as peças novas que tem (mas o SPFC ainda as usa porcamente, e sem qualquer alusão consciente ao Palmeiras!) Tampouco vi os outros jogos desta rodada; na anterior, somente os de Flamengo e São Paulo.

Torço para que ano que vem novamente não se esqueça  a dimensão de um campeonato longo, tal como é o de pontos corridos, e faça-se de cada jogo uma espécie de final, mas não só os três últimos. Brincadeira, isso é impossível. E não será no Futebol –  esse delicioso ópio do povo – que se irá aprender a ter noção política sobre o passado de renovados candidatos a velhos cargos, porque se fala mais em política do que em futebol quando pedem que o brasileiro tenha memória! E, para além dos pontos corridos, eu sempre achei é que o Futebol Europeu é que deveria adequar o seu calendário ao do brasileiro. Seja como for (em tempo: o Flamengo está se adequando ao futebol brasileiro). Bom futebol é futebol brasileiro e fim de papo.

Mas se naquele instante em que comecei a escrever este texto a vitória de meu tricolor já era impossível, e apesar de ter me orgulhado enquanto são-paulino pois enfim tínhamos tentado jogar bola, obviamente não é de última hora que um time treinado para o resultado sem fome irá mudar de postura, ainda que por uma competitividade na reta final deste campeonato isso tenha se imposto – ressalto: imposto – necessário para um time que quisesse ser campeão. Alguma reação houve, isso é fato, mas como disse já era muito tarde. E o time com fome de ser campeão é o Flamengo, tanto que até mesmo o Adriano deve estar engajado junto com o time. E mesmo o Palmeiras, ainda que de última hora, correu atrás do prejuízo e apesar do Muricy, esse emblema do mau futebol no Brasil (mas não há de se reduzir o vencedor que ele fora no time do Morumbi), conseguiu ultrapassar o tricolor na tabela em boa goleada sobre o Atlético do sempre famigerado Celso Roth.

Atenção aos mais incautos: trata-se de um Campeonato com uma força que jamais se viu nos pontos corridos. Para citar caricaturalmente Hegel, o espírito imortal do Futebol brasileiro passará a encontrar-se com a era dos pontos corridos muito em breve. Não é fato consumado, mas fato insinuado, o que já é bom agouro entre nós. Torço mais que isso não seja falsa ilusão – tal os times que chegam ao topo e entregam os pontos – do que pelo título do meu próprio São Paulo. Lembrando a boa análise do Rica Perrone, e se isso tudo que eu tentei salientar não servir de lição aos cartolas, o SPFC poderá ano que vem ser hepta. Pois uma praga ronda o futebol e não é fácil eliminá-la. São-paulino e malandro que sou, é claro que ano que vem eu adoraria o hepta para nós. Desde que a conquista do mesmo não se assemelhasse,  nem remotamente, ao sujeito que se vangloriariasse de ter comido a tal boneca inflável. Mas, plasticofobismos de lado, esta é a hora de torcer para os piores adversários. Dá-lhe, Mengão, o nosso campeão.

Greve na USP: “confronto” entre estudantes e Polícia Militar

Postado em June 10, 2009
Categoria: Greve na USP | 20 comentários

Não estava na USP quando houve o dito “confronto” entre estudantes e Polícia Militar. 

Deu na imprensa o seguinte: O coronel Cláudio Longo, responsável pela operação policial na USP, definiu a ação como “apenas uma dispersão”. Segundo ele, os estudantes provocaram os militares e ameaçaram os motoqueiros que garantiam o fluxo do trânsito de carros na entrada principal do campus. (Fonte: G1)

Porém, como se pode observar nos vídeos abaixo, feitos por alunos, os policiais militares perseguiram os estudantes e lançaram bombas de efeito moral até mesmo ao prédio da História (que fica distante, digamos, uns 500m da Faculdade de Educação, onde a confusão começou). Confirme no vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=deUf8An9Q1o

Na comunidade de Letras do Orkut, encontrei um depoimento que parece ser o mais próximo da verdade.

A verdade sobre o confronto entre estudantes e PM na USP

O que aconteceu foi que algum manifestante bestão jogou um pedregulho pra cima dos policiais. E quando a polícia correu atrás deste babaca, todo mundo começou a sair correndo desesperado, pois eram poucas as pessoas dali que que gostam de apanhar da polícia.

Mas aí o choque saiu jogando bomba pra cima do grupo de “franguinhos funjões”, foi uma perseguição mesmo! Imaginem que eles foram jogando bombas sobre o grupo – a maioria ali contra o ato idiota daquele infeliz – do P1 até a faculdade de educação.

(Só pra quem não sabe, junto à Educação fica a escola de aplicação, que oferece ensino fundamental. E isso foi bem na hora que os alunos estavam saindo. É bem provável que alguns deles tenham sentido o cheirinho agrad[avel da violência policial.)

Parece que o Brandão, que por exibicismo ou não – isso não importa agora – tomou a frente pra defender o pessoal que estava apanhado e foi preso.

Enfim, nada que a reitora não pudesse calcular facilmente antes de chamar a polícia pra dentro da universidade.

Vídeos feitos pelos estudantes da USP mostram que Polícia Militar atacando estudantes

http://www.youtube.com/watch?v=sIVLuuag9G0

http://www.youtube.com/watch?v=xwL-b6LUOb4

http://www.youtube.com/watch?v=PC37Kv-Jfiw

http://www.youtube.com/watch?v=YNAzxgGtGpA

Se puder ajude a divulgar este artigo. Se houve alguma confusão ou erro de minha parte, deixe um comentário.

Poema que não será de amor

Postado em May 13, 2009
Categoria: Poemas, Reflexão | 3 comentários

As pessoas às vezes não entendem que os poemas que venho escrevendo não valem propriamente pelo seu resultado poético. Antes, esses poemas devem ser lidos pela perspectiva do processo de escrevê-los, a procura de uma dicção própria e um caminho frutífero dentro da poesia contemporânea (não no sentido de se filiar a uma “escola”, e sim no de encontrar, como disse, um início de arte poética). Portanto, são um estudo prático da linguagem poética e seus efeitos, sob a perspectiva de poemas que um dia serão escritos. São uma oficina à mostra, o rascunho de uma obra em progesso. Claro, o que publico aqui no blog é uma pequena parte do todo.

Quem os ler cronologicamente perceberá que, desde os Três novos poemas a este de agora, passando pelos “Cariocas”, há uma evolução interna e de alguma forma coerente. “Evolução” sobretudo no sentido de se escrever avaliando o resultado anterior e, a partir dessa autocrítica, o desenvolvimento do novo poema. Comecei com um poema fechado, quadrado, teórico, “(Perícope)“, e pouco a pouco fui aplicando em novos poemas o que esse prometia e não existia no próprio poema – ainda que o resultado não fosse melhor. Mas claro que surgem novas dificuldades, temas, formas, idéias, influências, etc.

Talvez não fique claro para todos o que tento explicar e nem posso exigir isso de meu leitor. E se o digo, é porque sinto que meus poemas ainda precisam dessa precaução. Entretanto, cada vez mais os poemas recentes têm se desprendido desse projeto que impus à minha poesia. Leiam vocês mesmos:
 
Poema que não será de amor
Ao contrário de Não sobre o amor, peça de Felipe Hirsch

Sobre a escrivaninha,
ainda os poemas são
a cena de que paredes

perambulam igual a procura
da palavra: rascunho a punho

madrugada afora,
em silêncio sem vertigem.

Encorpam-se então
no que da vida se ausenta;
no traço magro do verso,
o desterro onde encerrar
um cadáver que te quero
longe, amor, engendram:

de resto são corpo
aberto em seu fim.

 

 

Sem querer conscientemente, reescrevi em Poema que não será de amor aquele que era o meu primeiro poema:

 

 

(Perícope)

Como um fotógrafo,
Contornar-te-ei,

Coisa amorfa num
Espaço em transe.

Não resistes à palavra,
Exista esse tenso limite

— Sem que te vejas parar.
Minha poesia é um corpo

Oco: sem que o sintas
………………………………..ei-lo a ti
……………………………………………….(és feito um peito)

 

 

Por um lado gostei do Poema que não será de amor, arrisco até dizer que é o melhor de todos os poemas que escrevi. Por outro, é estranho essa quase reescrita do primeiro poema, essa semelhança, essa volta a um princípio depois de tanto tempo. Ou o que seria pior: a retomada da mesma promessa que se fazia no (Perícope), embora de alguma forma tenha sido renovada no Poema que não será de amor. Por mais chegar a isto fosse o que eu queria a princípio.

Mas a favor dele, existe uma problematização que não é resolvida. O que não será de amor tem uma descrição do processo de escrita, sob a vista da tese de que o poema que nele vai se escrevendo não será sobre amor. Como disse, ele não se resolve, mesmo que tente definir “de resto [os poemas] são corpo/ aberto em seu fim”, que ao mesmo tempo afirma e nega o resto do poema. E esse poema que se escreveu, além de não ser sobre amor, é sobre o quê?

Já no (Perícope) tudo é resolvido: o poema está como uma mera fantasia, um corpo cujo coração baterá se o leitor o fizer. Aliás, para saber, “perícope” é o recorte de um texto geralmente religioso ou literário usado para fins de pregação ou análise e que consegue se remeter ao seu todo. O objetivo era que o poema “recortasse” o que nele próprio era “oco” (ou seja, algo nele mesmo vazio), mostrando/pedindo que o leitor devesse dar sentido ao que não tinha e explicitando em seu verso o traço do recorte, por onde se fez o recorte. Mas isso acaba ficando meio que sem sentido…

Além disso, é como se o Poema que não será de amor demonstrasse que aquele projeto inicial chegou a algum ponto que eu planejava. O que não será de amor, menos de uns e mais de outros, tem um pouco de todos os meus poemas. É quase uma síntese, tanto dos poemas quanto do processo de escrita.

Mas a precaução acima continuará valendo.

A crua poesia de Cazuza

Postado em April 29, 2009
Categoria: Cazuza | 30 comentários

Em tempos de música brasileira tão ruim quanto foram os anos 80, Cazuza é um alento. Poderiam contra-argumentar citando projetos interessantes como o do Grupo Rumo ou o de Arrigo Barnabé, entretanto o alcance destes é muito, muito restrito; ou ainda, na esfera do rock nacional, o de Lobão, que foi parceiro do próprio Cazuza e chegou a ser gravado por João Gilberto. Na verdade, Lobão e Cazuza foram o máximo que a música pop brasileira dos anos 80 pôde alcançar. Mais interessante que o Lobão, fiquemos com o Cazuza.

É indissociável em Cazuza o artista e a sua vida, que bem ou mal conhecemos pelo filme Cazuza – o tempo não pára. O garoto e o adulto mimados, o porra-louca, o maconheiro, o poeta, o cínico, o sincero, o sem limites: tudo está representado no filme (muito embora sua vida com o Ney Matogrosso e outras promiscuidades sejam encobertas). Falo de sua vida porque nós, que só a conhecemos através do filme e de mitos, ou ainda de um livro que sequer folheei, facilmente identificamos na sua poesia alguém que não se furta ao que ele realmente era, ou melhor, não se furta a expressar-se como via e vivia, se via e se vivia. Desde o cara que se derramava com uma Down em mim ao que se embananava ao fazer crítica social, como em Burguesia. Mesmo clichês odiáveis algumas vezes se salvam em Cazuza, porque ele tem um quê que lhes dá algo de forte, intenso.

Enquanto bandas como Legião Urbana ou Engenheiros do Hawaii (esta, a banda campeã em citar nomes de livros-cabeça!) buscavam uma canção profunda e – pasmem! – filosófica, e outros artistas aderiam às piores estéticas possíveis (quando não os dois), sempre se esbarrando em inocências pueris (sobre os anos 80, há a excelente música Os outros românticos, de Caetano Veloso), Cazuza parece ter encontrado uma “estranhas forma” que lhe garantiu as melhores canções dentre os músicos de sua geração. (A sua melhor certamente é Só as mães são felizes.)

A música dos anos 80 revela um problema grave do Brasil: a necessidade de ser político, lutando “contra o sistema”, contra “eles”; quando na verdade essa luta não passava de mais um produto da indústria cultural. Filho mimado da classe média, esses anos 80 apenas refletiam a alienação que era quase geral e que com os anos 90 só viria a se comprovar; assim, repetiam-se clichês sobre clichês, que entre os próprios  músicos eram redescobertos e ditos como se fossem novidade. Não que Cazuza não sofra deste e de outros “males de anos 80″. 

Salva é que a Cazuza as coisas ao seu redor lhe eram estranhas, pois suas referências e influências não têm tanto um sentido a priori; tudo é a descoberta do sempre menino adolescente, que não evita ser o que é; ele incorpora o mundo que está ao seu redor e o expressa em sua música (que é sempre sincera, mesmo quando há cinismo), como percebe e vai descobrindo. Se era restrito o mundo dele, e talvez até o soubesse, tentava desvendar esse limite com uma intensidade que é uma de suas melhores armas, como já disse. Cazuza adere ao mundo, que para ele é pirado. Ele, portanto, tinha tudo para se expressar naquela mesma forma inocente que seus contemporâneos de geração. Mas a sua forma de aderir não é tão simples.

Em sua “estranha forma”, Cazuza também tinha uma expressão “cruel”. Estranha porque, como dizíamos, a sua expressão era a de quem se via ante o diferente e a partir deste passava a se ver (não raro ele próprio era o diferente para si); e este estranhamento não nos chegou apurado ou lapidado: Cazuza se expressava como que nu, cru, instantâneo. É poesia-polaróide captando matérias fortes. As suas canções, parecem,  iam-se compondo sozinhas: o primeiro verso corresponde à primeira idéia, o segundo é o seu desenvolvimento e assim ia até julgar que tivesse ficado bom. E o bom era aquilo que correspondia ao que lhe emocionava. Até por isso, é incontável o tanto de canções suas que são muito ruins; mas ao mesmo tempo isso expressa com vigor, pelo menos a quem goste do menino, o que ele era.

Em sua trajetória, tecnicamente Cazuza não evolui nem involui. Aliás, a técnica dele é parca ou nula, e de algum modo ele é consciente disso. Não se importa, porque vive. E tem uma sensibilidade muito exacerbada que também à própria poesia se vê limitada, e por isso tem de ser explicitada, com alarde para ser notado. Cazuza quer chamar a atenção para si. Em geral, a mesma coisa é dita sob diversas perspectivas em uma canção. Até por isso que em muitas canções ele mais parece falar do que cantar. E assim votamos ao que há de tão cru nele.

***

Não escutei Cazuza para escrever este post, embora ele estivesse tocando no iTunes. Foi tudo meio que de cabeça. Virei noite e este texto é meu passatempo sonâmbulo.

Meu Top Five Cazuza (não necessariamente nesta ordem): Só as mães são felizes, Down em mim, Quase um segundo (Hebert Vianna), Faz parte do meu show e Todo amor que houver nessa vida.

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