Comentário coletivo Ir ao cinema “Otávio e as Letras” e livros

Postado em April 26, 2008
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Agora que nos chega um novo editor para o Breviário, o Diego passou o cetro e não disse o motivo (sou curiosa, quero sempre saber por quê). Bem-vindo, Vinícius. Mas esse comentário é para dizer que estou vendo novas postagens da Manoela e do Edson Júnior, além das belíssimas postagens  filosóficas do outro Diego, e por tudo o mais, acho que o Breviário dorme e acorda, e o que é dito para ser dito é muito bom para todos, os de casa e os invisíveis leitores da blogosfera. Obrigada a todos.

 Ontem rabisquei algo como um poema e, ao ler o Estadão de hoje, Caderno 2, p. D3, vi que foi lançado um filme com o tema dos meus rabiscos, “Otávio e as Letras”,  do cineasta Marcelo Masagão, que “brinca dizendo que um milhão de pessoas vão assistir ao seu novo filme”.  Que seja. Que um milhão de pessoas comprem livros, o consumo necessário. Vou repetir esta frase como um bordão: “Comprar livros: o consumo necessário”. Em homenagem ao Marcelo Mazagão, crio outra frase: “Ir ao cinema: uma saída necessária.” ou “Ir ao cinema: um destino obrigatório.” A Musa publicou um livro, “Ir ao cinema: um olhar sobre filmes”, do Humberto Pereira da Silva, colaborador da Revista de Cinema. Lá vão meus rabiscos:

Sineta e Silêncio

Eu enchi o mundo de letras,

as vidraças de letras, os cadernos

de letras, a areia da praia

de letras, jardins de letras, o

chão de letras, tudo marcado

de letras com o monograma

da minha poesia  Posso cantarolá-la

Quem irá lê-la baixinho

com o seu coração?  Pegá-la

nos altos e baixos  A repetição

e o inesperado do inédito A revolução?

A taça com fezes E o copo

de plástico com o melhor vinho

tinto na mesa do livro.

 25/4/2008

Abraço

Postado em April 21, 2008
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Eu levo para esta festa
os meus lutos   Carrego meu coração
com o filho morto   À lembrança, vivo

Caminho maquiada, adentro com meu rosto
A vestimenta carrego com meus prantos

A alegria é uma face, um ponto outrora
Uma captação do lembrar-se   Recordo
seus passos   Uma expressão de seu gesto

Adentro a esta festa  Carrego meus lutos
Cumprimento-os um a um   Eu me sento

Uma cadeira para sustentar as dores
do mundo, as dores dos outros e a sua.

19-4-2008/21-4-2008

O Sapo Apaixonado no Estadinho, Dia do Índio, 19 de abril

Postado em April 20, 2008
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Sapo apaixonadoO que escrever hoje? Um poema novo? Dilema.

Darei boas-vindas ao rito

da sua chegada Sem aviso

o inusitado Uma boa notícia

o jornal estampa A mim

dirigiu-se a matéria

Um livro que fizemos

O Sapo Apaixonado, do Donizete Galvão

na página do Estadinho  Dentro do Estadão

Diego, brindemos  As molduras com as ilustrações

de Mariana Massarani, do nosso livro,

 cercando todos os textos. O sapo é o penetra da festa no céu.

Devoradores, de Astolfo Araújo, da Musa Editora

Postado em April 10, 2008
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DevoradoresSaturno devorando um de seus filhos, de Goya. A capa de Devoradores, por Entrelinha Design.

Houve uma revista literária no Brasil chamada “Escrita”. Astolfo Araújo, cineasta de Ibrahim do Subúrbio e outros filmes, ao lado de Wladyr Nader e Hamilton Trevisan, era um dos editores. A “Escrita” revelou muitos dos escritores que hoje fazem hoje parte da literatura brasileira: Ivan Angelo, Moacyr Scliar, Flavio Moreira da Costa, Marcia Denser, Adelia Prado, além de publicar Borges, Samuel Becket e Dalcídio Jurandir e Dyonélio Machado (o romancista de “Os ratos”), entre outros notáveis.

Devoradores” é um romance policial político ou político policial. Passa-se no Brasil e na Espanha,  uma história em que se digladiam comunistas e anarquistas, desde os anos 1930, percorrendo os anos de 1964 e 1968, aportando aos nossos dias de internet. Algumas personagens trocam e-mails sobre eventos da história recente. Mas não é uma narrativa por meio do correio eletrônico. É uma história bem contada, de forma enxuta e surpreendente. “O sonho  acabou?” Anarquistas e comunistas burgueses e stalinistas que o digam no entrecho deste livro, cuja capa ostenta uma obra de Goya, “Saturno devorando um de seus filhos”.

Lançamento na Casa das Rosas, 11 de abril, sexta-feira, das 19 às 22 horas. Será servido um bom vinho. E um bolo, com a capa do livro impressa em papel de arroz, será partido e repartidas suas fatias entre os presentes. Uma curiosidade: o livro pode ser devorado como um bolo de cenoura recheadado com quindim. Todos estão convidados.

Lançamento especial da Musa Editora

Relento

Postado em November 17, 2007
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Os feios nos desprezam porque somos bonitos

Por que não se enfeitam à transfiguração

de um batom que ilumina em rouge A face

mais tímida? E pálido o rosto a nudez carola

diante da alegria que é promessa para aprendermos

a liberdade Sermos filhos de Deus Não nos despirmos

frente aos que nos rasgam a carne por baixo dos panos

Não me caças, ó tu, que me pões armadilhas

e os buracos para tropeçar Conheço desvios

e as carícias na música do pisar folhas secas

Atalhos de estrelas Vejo os vasos colocados nos postes

da Avenida Paulista Acima deste massacre Flores

Pairam sobre o trânsito Sobre os negócios Sobre a guerra

Sobre o embuste e torpe do visitante que nos trai

A saga dos traidores inscreve-se na desconstrução dos princípios

na farsa que se supõe M o d e r n o o descaramento tênue

Malsã inconsciência Precisamos todos reler Shakespeare!

Hamlet indignado pelo clamor do fantasma – Um pai assassinado

e mergulhar no abismo onde se fincam as raízes da terra

E de lá trazer o Céu o Gênio Não os insetos – Nunca adaptado

Uma luz especial que detecte em nossos sapatos a urina dos ratos

Vestígios que matam em nossa sala Nosso quarto Nossos íntimos armários

Tocar a pelagem nas gavetas o susto ameaçar-nos na manhã

Tumores em flores Pois cultivo jardim Mas o antídoto é Música

a flauta que afoga-os pelos rios desde Hamelin. Assim.

29-05-2004

Perfume

Postado em November 11, 2007
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Tudo é fumaça e eu me entrego à esperança

ao Invisível ver o dia ao terminar esta noite

Não tenho mérito Entre glória e pecado

Misericordiosos galhos e pássaros cantando

Árvores trêmulas as folhas tênue a brisa

aplacar o sol Impele-me o passo

Gargalhadas rosas Vermelhas O sangue

que derramamos Ao mesmo tempo purpúreas

A realeza se manifesta Amada que sou

mesmo infelizes dias nesse pranto Espera

Aspergirei meu frasco sobre São Paulo [a cidade]

(Quem for de outra cidade poderá mudar o verso final, aspergir sobre a cidade, que era o original, mas por causa do Diego Perambulagens, de nossa relação amor/rejeição com São Paulo, preferi aspergir a minha essência sobre São Paulo, apesar da minha nostalgia das montanhas de Minas, as mantiqueiras lilases, como dói.)

Obstáculos

Postado em November 4, 2007
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06-01-2004

Obstáculos

Corridas de azul e sustos em cascata

Horror de horror em horror Tudo espalha-se

A destruição pecaminosa dos soberbos

Incautos mordem como bichos Os ambiciosos

atropelam as estrelas Com os pés nos céus

Despencando-se ao Inferno Inimigos

Levantam-me para a glória Humilhando-nos

empurram-nos ao festim Não sucumbimos

ao escárnio Superarmos ofensas e o contágio

o efeito em escala que o rebanho capta

Estoura a história E do desequilíbrio

removemos a montanha Para fora

Entramos na sala do Banquete

06-01-2004

Marketing Cultural Apoio à Cultura

Postado em November 1, 2007
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Uma coisa não é outra. O apoio à Cultura passa longe das ações do marketing cultural, que reforça imagens, premiando o vazio e as espertezas de plantão. Bom para bancos, sobretudo os bancos oficiais, que cobram tarifas escorchantes e as aumentam vezes e vezes por ano. O apoio à Cultura passa longe de qualquer rapinagem, é coisa séria. Supõe boas condições para artistas fazerem seu trabalho, escritores escreverem, editores editarem, atores e diretores verem montadas suas peças, livrarias independentes sobreviverem. Esses bancos deveriam rever suas políticas de falso mecenato, promovendo a Cultura, não apenas fazendo marketing em causa própria como fariseus paramentados tocando trombetas. São figurações recheadas de mortos, canibais que se banqueteiam roubando a vida e a alma daqueles que podem elevar a Cultura à fruiçao de todos, os artistas de todos os meios. Estamos tristes. Queremos chorar. Vamos boicotar o escândalo do marketing cultural, que nos obriga a ser mendigos, vamos exigir apoio efetivo à Cultura, pelo respeito às empresas deixando-as trabalhar, aos artistas, aos escritores, sobretudo ao bom livro, que essa gente despreza a despeito de todos os seus fogos de artifício. A vida real é aqui. Nós somos o Brasil real. Ajudem a prosperar os bons livros, os bons quadros, as boas peças de teatro, os bons filmes.Que a tecnoburocracia se contenha no seu ímpeto exterminador de barrar para apreciação os melhores autores do cânone da literatura universal. Para citar dois exemplos: Robert Browning e Rudyard Kipling. Quem compra livros para bibliotecas públicas deve entender que os grandes autores devem ser lidos.

 Obrigada Erna, pelo seu comentário.

Triagens Kipling, Nobel 1907, triado na entrada

Postado em October 20, 2007
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A burocracia é uma forma de censura. Ela arranca aos leitores e aos futuros leitores o direito à leitura de um conto de Kipling, “O Elefante Infante”, que é uma obra-prima. Não por causa do texto, da edição primorosa com projeto gráfico de Raquel Matsushita e Marina Mattos, tradução do Adriano Messias, ilustrações de Fernando Vilela, posfácio do nosso Diego Perambulagens, mas pelo fervor homicida por uma regrinha que nada altera, ditada de cima. Nem a equipe de seleção pôde ler o livro, porque mesmo os competentes representantes do IPT não puderam obter a flexibilidade para contrariar o FNDE (quer que o número da primeira edição esteja registrado), quando desde tempos editoriais remotos, em livro de catálogo não colocamos o primeira edição, só passamos a registrar o número a partir da segunda edição. E isto barra um livro antes de ser examinado, na sua inscrição. Foram muitos bons livros barrados. Não tenho ainda como expressar minha dor ou escrever sobre este assunto. Então todos que puderem, compareçam às livrarias, à Primavera dos Livros no Rio de Janeiro e peçam para ver “O Elefante Infante”, este conto sobre o elefantinho curioso, que é uma obra-prima. Foi barrado à leitura até dos juízes. Mas outras pessoas leram E eu terei de contar esta história direito, ainda não consigo, estou em vertigem. Acrescentarei abaixo o que postei no blog Ana Candocha Opinião própria:

Sei que visitam o meu blog. Poucos deixam comentários por escrito. Por que não escrevem? Escrevam. Ficaremos todos felizes, eu muito mais.

Wilton Chaves já disse em seu comentário: Livro virou objeto de última necessidade. Por mais que celebrem o livro com a retórica dos eventos, ele diz a verdade.

O que vale mesmo é parar, pegar, folhear e comprar um livro. Visitar livrarias. Jamais se fiar em falsas estatísticas. Em ufanismos indiscretos. Nada disso importa. O que importa é ler um bom livro de um bom autor, muito longe dos 30 mais vendidos, um vício mecânico de rebanhos. Temos de garimpar os fundos de catálogo, lá estão os livros à espera de leitores na sua diversidade. Tem muita gente lendo porcaria e difundindo a porcaria como se fosse hábito de boa leitura. Da porcaria pode-se passar ao bom livro. Só por exceção. Como regra, é uma falácia. Quem lê porcaria vai continuar na mesma a vida inteira, porque seu discernimento está esgotado (sic) ou embotado.

Por isso, hoje, temos de prestigiar muito as chamadas editoras independentes, as livrarias independentes. O sortimento de títulos. A diversidade além da obviedade. A Mostra de Cinema de São Paulo é um exemplo, ela nos traz o inusitado, os filmes fora de fórmulas do mundo inteiro.

Mas o título deste post, Triagens, era para falar de outra coisa, era para contar sobre a burrice burocrática que barra no baile a obra-prima de um Prêmio Nobel, por causa de um pequeno número. É tão chocante que ainda não consegui escrever a respeito. Com nomes aos bois.

Falar de livro, mesmo em carta para grande jornal, não dá certo. Nem a Folha, nem o Estadão publicam comentários a respeito de matérias sobre livros e mercado editorial publicadas por eles mesmos em suas páginas. Escrevi para a Folha, ignoraram. Outros amigos escreveram, ignoraram. Nesta semana o Estadão trouxe matéria sobre compra de livros para o Ensino Médio, não entrevistou as editoras independentes, mandei carta (e-mail), cumpri o rito pedido pelo fórum dos leitores, ignoraram. Livro tem de ser notícia. O princípio da isonomia nos programas governamentais de compra de livros já está degringolando. Já está se operando uma triagem criminosa contra os bons autores por causa de norminhas burocráticas. O FNDE contratou o IPT para a triagem, o IPT se vê obrigado a rejeitar livros bons, por detalhes bobos impostos pelo FNDE, e bons livros não seguem seu caminho para a chamada avaliação pedagógica. Uma obra-prima para crianças, de autoria de um Prêmio Nobel, foi retida. É tradição editorial não se colocar o número da edição quando se trata de primeira edição. E este detalhe, não presente na obra inscrita (para o FNDE é regra colocar a menção, não importa que o livro já circule) boicota a avaliação do livro bem-editado. Fica-se sabendo meses depois. Segundo o IPT, bastava uma simples carta para flexibilizar a norminha burocrática, mas não foi pedida a nenhum editor. Foram muitíssimos casos, livros bons barrados no baile. Boa pauta para o Estadão, a Folha, o Globo, a Veja, a IstoÉ, a Carta Capital, a Época, o Jornal do Brasil, O Valor Econômico, a Gazeta Mercantil. Quem se habilitaria, mas sabendo ouvir as pessoas certas?

Tenho horror a leis de incentivo, a gincanas burocráticas (nem sou indisciplinada), pois não suporto nada que faça a alegria da mediocridade competitiva. Precisamos de mecenato de reconhecimento não de incentivos cruéis que tiram autores e artistas de seu labor para para se humilharem diante daqueles que nos desprezam.

Mandem comentários.

A Musa muda de endereço

Postado em October 20, 2007
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A Musa muda de endereço dentro do mesmo bairro. Buscamos o ponto mais bonito, a possibilidade de interagir com o público por meio de um painel digital. Um blog voltado para a rua. Aguardem tempo e dinheiro.

Não podem fazer de uma editora apenas uma queda de braço com a burocracia, os bancos e a Receita. Isto tem de ser acessório, que tome um tempo mínimo. O tempo máximo devemos tomar com a nossa atividade: livros e sua alegria sem fim. A festa. Naturalmente sem o romantismo besta. A festa real voltada para o silêncio do leitor e para a recepção do público. Saímos da Rua Cardoso de Almeida, 985, para a Rua Itapicuru, 231, Musa Editora, quase esquina com a Cardoso, ao lado do Colégio Santa Marcelina, bairro das Perdizes. Outro dia vi a viúva de Haroldo de Campos na capela do Colégio Santa Marcelina. Esta notícia faz parte da nossa renhida luta contra a brutalidade cotidiana. Podemos viver melhor.

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