Tentação do suicídio
Postado em August 3, 2008
Categoria Cotidiano, Poesia | 2 comentários
Maiakóvski suicidou-se. Clementino Musa da Costa, meu tio Tino, que tinha máquina de escrever e uma motocicleta, suicidou-se. Candida, a bela mulher moça do fazendeiro bem-vestido galã, Zeca do Argemiro, suicidou-se, era no tempo da minha infância. Sempre me impressionaram os suicidas e os afogados. Santa Teresinha diz, em seus escritos, que teve a tentação do suicídio em momento de sofrimento extremo. Teresa de Ávila (Santa Teresa de Jesus), a grande escritora mística espanhola, nos descreve um caminho estreito como se de um lado estivesse a vida e do outro o despenhadeiro. Tento comentar: Caminhamos por um fio. O equilíbrio que desenvolvemos nos livra dos efeitos dos empurrões. Temos de temer. Nunca nos submeter. Submissão não é humildade. Aprendi com as duas santas. A humildade é a verdade. E devemos sustentar o nosso histórico com a verdade inequívoca dos fatos, pois “a humildade é a verdade”.
Tentação do suicídio
Onde está a resposta de Deus
Se eu aqui permaneço à espera
Rente à vida e à linha dos suicidas?
Será esta a resposta de Deus?
Para onde seguir, nesta cidade
ficar. Aonde irei com todas
as malas? Despojar pelo caminho
O conteúdo dos ninhos Quebrar
os ovos que soltarão pássaros?
Ainda nasci das serras azuis
E à beira de abismos Olhar amplidão
Os pés fixos na pedra Quebrar-se ao despenhadeiro?
Nem rasgarão os livros Ou queimar os navios
Se cessarem todas as defesas, as minhas e a do próximo, também choro pelos outros: Eu tenho a metralhadora de um blog. E o silêncio como espera. Por trás da janela: duas metralhadoras e dois blogs (breviario.org/ludambula e Ana Candocha Opinião Própria), para espantar com rajadas, como nos faroestes, os malvados “mocinhos” da surrealidade tosca da economia selvagem no Brasil, onde a própria lei promulga a ilegalidade em benefício dos poucos. Caçoam da cultura, dos livros, “Ninguém te dá atenção”, bem disse paradoxalmente a celebridade Paulo Coelho, em entrevista a Ubiratan Brasil. Fiquemos com Drummond: “Temos apenas duas mãos e o sentimento do mundo”. A próxima publicação neste espaço será um texto da época da Segunda Guerra Mundial sobre o luto da poesia. Em tempo de brutalidade econômica assistida pela lei do mais forte, abusos de autoridade, pequenos ditadores cartoriais, insegurança jurídica, processos sumários cotidianos cassando-se ao cidadão o direito ao contraditório, direitos básicos vilipendiados, a multiplicação de pequenas atrocidades capazes de sutilmente matar e eliminar qualquer defesa (qual defensor terá a percepção da princesa do conto “A princesa e a ervilha” ao localizar e identificar com sua índole de nobreza o grão invasor sob a montanha de colchões?), a poesia permanece de luto em sua forma metafórica, emblemática, espaço de linguagem na plenitude, na mais plena [e excelência da] liberdade. Diante de um bom poema, mesmo reféns, deixamos de ser escravos.
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