Corpus Christi era Dia Santo Corrompeu-se em feriadão
Postado em May 22, 2008
Categoria Cotidiano, Cultura |
O post de Manoela Afonso, neste Breviário, me leva à deterioração que vivemos no circular pelas ruas das cidades. Se me alieno no conforto deste meu bairro das Perdizes, tudo é luz, em maio. Faltam ônibus, sobretudo nos domingos e feriados. Se pegamos o ônibus, começa o drama, os motoristas em geral são esses seres rudes que nada informam, arrancam com sofreguidão, derrubam passageiros ou quase, os cobradores ficam mudos a uma pergunta do interlocutor perdido. São eles desaforados, em geral, salvo raríssimas exceções. É a grande falta de educação prosperando solta, balizando tudo, porque nenhuma ascensão econômica, por melhor que seja, sem investimento na cultura, educação, nas artes em geral, só agaravará a barbárie cotidiana. A começar pelos novos ricos, o lumpesinato formado pela burguesia e sua inconsciência insana de novos ricos toscos. O povo consumidor de celular também não é um coitadinho. É preciso conscientizá-lo para o Outro e para si mesmo, pelo menos treiná-lo para o exercício das boas maneiras em seus ofícios. Aviso que não pertenço às hostes da direita, acredito em mudanças perpetradas pelas revoluções pacíficas, ou melhor, incruentas. O primeiro passo é a manifestação, como fez Manoela Afonso. Cria-se uma corrente. Blogar é um pouco isso, ou é isso?
Ontem, véspera de Corpus Christi em São Paulo. A corrida para o feriadão. Desde quando Corpus Christi não é mais dia santo? Para mim esta corrida mortal de feriados prolongados (precisamos mesmo é de férias tranqüilas), trânsito parado, é o próprio “diabo solto no redemoinho”. Para mim, Corpus Christi tem de voltar a ser dia santo, Festa do Corpo de Deus, como se diz em Portugal. Será ainda isto possível no interior do Brasil, especificamente no interior de Minas, quando as meninas de anjo jogavam flores durante a procissão, os colégios católicos levavam seus alunos em uniforme de gala e havia um ritual calmo, as mulheres cantavam e o Santíssimo abençoava a todos nas ruas? Eu não sou saudosista, porque muitas vezes a vida é melhor longe das famílias e com o pé na estrada. Não com o pé nessas estradas em que nos estouramos como uma boiada de carros, todos saindo de São Paulo num exaustivo rumo ao feriadão, um corredor para o matadouro quando o stress das estradas rompe a segurança tênue da nossa mão. Que a nossa Igreja Católica cuide para que Corpus Christi volte a ser um Dia Santo ao abrigo da calma azul do céu de maio junho. Ou quem sabe faça como ocorreu com a Ascensão e a Epifania, estas celebrações foram transferidas para o domingo seguinte. Não pensem que não adoro estar hoje aqui em casa, sem precisar ir para a guerra do trabalho. Eu falo de humanização da vida, hoje em estado bárbaro. Meu texto não é linear. Estou em guerra conta esta sofreguidão que transformou o ritual solene e calmo de um dia santo em feriadão e fuga desarvorada, a cegueira do estouro da boiada pisoteando com seus cascos a cidade, deixando-a para trás. Para nós, que gostaríamos, sim, de sair calmamente para bucólicas férias. Amanhã vou à Casa das Rosas, tratar do lançamento do livro do Pedro Rosas, “A vida começa no verão” , com quarta capa escrita pelo Luiz Thunderbird.
olá ana. tudo parece estar se dirigindo para um imenso corredor onde, lá no fim, só há uma parede bem sólida. é assim que me sinto de vez em quando. tenho tentado, sempre, viajar fora do período de feriado. além de estressante, é extremamente perigoso. e realmente, a brutalidade faz a coisa ficar elevada à enésima potência. quanto aos feriados, todos eles deixaram de significar… eles são vistos pela maioria como apenas dias sem trabalho, dias para tomar todas, dias para ir à praia, dias para gastar dinheiro e ficar no engarrafamento. você sabia que aqui na ufg o pessoal resolveu adotar a véspera do feriado como feriado também? eu não acredito… beijos, boa sorte
Você tem razão, Manoela. Não é somente na UFG que a véspera do feriado virou feriado. Aqui também, de forma agravada e selvagem. A inconsciência coletiva, com representação em todas as classes sociais, no corredor da viagem, todas as reses atropelando-se em direção ao matadouro. Passando por todas as ruas, afunilando-se nas marginais. Humanidade já. Para você que é artista, há um livro de Ortega Y Gasset que se chama “Humanização da Arte”, traduzido por meu amigo Ricardo Araújo, hoje na UNB. Agora devemos clamar pela humanização da vida, a começar pelas chamadas vésperas de um feriadão. Você não quer escrever e ilustrar um livro para crianças versando sobre o tema, não como algo instrumental, mas com liberdade artística? Beijos, Ana Cândida