Bakun-Buchmann-Back

Postado em March 2, 2008
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Estranhas conexões as que, de repente, desvelam-se diante dos olhos e vêm à consciência. Estava aqui preparando as aulas desse semestre, todas envoltas em conteúdos relacionados ao desenho. De cara fui ao meu livro de Orlando DaSilva – Guido Viaro: alma e corpo do desenho – pelo qual tenho muito apreço, pois ganhei um exemplar diretamente das mãos do autor-gravador-artista-escritor-portuga, em Curitiba, por volta de 2004 ou 2005 (sem falar que nele há um texto inspiradíssimo a respeito da arte do desenho, de autoria de DaSilva). Nesse livro, o autor inicialmente apresenta os textos de Viaro a respeito de outros artistas paranaenses… e assim fui cair em Bakun, pelo qual sempre tive uma admiração distante, pois não conhecia direito sua história, apenas algumas de suas pinturas expostas nos museus de Curitiba ao longo dos anos em que lá perambulei. A lembrança de Bakun levou-me imediatamente a Luciano Buchmann, artista do qual gosto muito, meu ex-professor na pós-graduação concluída em 2004, na Faculdade de Artes do Paraná. Buchmann transformou a história dos pioneiros das artes no Paraná em livros infanto-juvenis; certamente um projeto lindo e de grande importância (tem uma amostra lá no meu Diário de Bordo). Tenho 2 de seus livros já há 5 anos, mas só agora fiz as leituras com a devida atenção… mas acredito que tudo tem seu tempo. E é dessa forma que mantenho interesse e curiosidade pelas coisas que tenho em minha casa… muitas delas eu não conheço, estão ali esperando o seu momento de revelação.
Bom, Buchmann, através de Bakun, levou-me a Back: creio que foi em 2004. Eu perambulava pela Asa Sul, em Brasília, ainda desvendando a cidade. Encontrei um sebo e, feliz da vida (pois Brasília não tinha cara de quem ia me oferecer sebos perdidos em ruazinhas tortuosas) adentrei seus corredores para fugir um pouco da horizontalidade e da geometria sufocantes da cidade. Fui direto às prateleiras do assunto ‘arte’, como sempre. Como que um sinal profético, vi em letras bem grandes: BAKUN.

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Eu estava sem grana naquele momento, então escondi o catálogo lááááá no fundo da estante e voltei no dia seguinte, afoita, para adquirir esse exemplar. Pensei: Curitiba está me chamando! Eu estava em crise com Brasília, uma cidade difícil de digerir logo de início… não estava certa da minha decisão de ter deixado Curitiba tão abruptamente. Enfim, fiquei em crise. Mas adquiri o catálogo, não o li, a crise passou e, agora, 4 anos depois, DaSilva leva a Viaro que leva a Bakun que leva a Buchmann que leva a Back, o qual eu desconhecia por completo. Sylvio Back é cineasta, foi por isso que encontrei um catálogo seu – autografado – em Brasília, sede de um dos festivais de cinema mais importantes do Brasil. Divido com vocês alguns trechos da referida publicação, a qual elucidará mais a respeito do grande artista que foi Bakun e desse importante cineasta nacional tão preocupado com a memória do sul/sudeste – desmemoriado – do nosso país.

1. Primeiro quero destacar e concordar com as afirmações feitas por Padrella. Eu, como filha dessa terra e conhecedora das dificuldades de ser artista em Curitiba, dou-me esse direito:

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2. Um pouco sobre Sylvio Back:

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3. O belíssimo cartaz do filme:

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4. Para finalizar, um presente para os olhos: uma pintura de Miguel Bakun

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Fonte dos textos e imagens: “O auto-retrato de Bakun”, catálogo do filme de Sylvio Back, 1984.

***Uma observação: como falei em algum lugar do texto, essas conexões partiram de Guido Viaro. Então, não poderia deixar de mostrar uma das pinturas desse mestre italiano radicado no Paraná, sobretudo quando o texto de Buchmann que acompanha a imagem fala dos meus Cumulus…nimbus. Apreciem, até a vista. (fonte: Buchmann, Luciano. Guido Viaro: Guido vendo longe. p. 3).

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Eterno retorno

Postado em February 22, 2008
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Canta ao longe
a voz que ontem vivi.

Cala-se a natureza,
mas repetem-se,
numa oração de séculos,
as mesmas palavras,
as que me acordaram.

Apagam-se o sol e as luas,
mas uma voz de pelúcia
acaricia-me os ouvidos.
A voz de um brinquedo quebrado.
A voz que ouço sem saber imitar.

Antonio Costella, do livro Currículo do Tempo, ed. Mantiqueira. (Campos do Jordão)

Bem amigos, estou quase de volta, voltando sempre… re-voltando. Em breve retomarei meu projeto de me perder nas memórias, ficar à deriva sobre lembranças, sobre cumulusnimbus. Volto já – e esse “já” contém todo o tempo do mundo.

da leitura de ontem à noite

Postado em November 21, 2007
Categoria: Daily routes | 7 comentários

“A experiência, e não a verdade, é o que dá sentido à escritura. Digamos, com Foucault, que escrevemos para transformar o que sabemos e não para transmitir o já sabido. Se alguma coisa nos anima a escrever é a possibilidade de que esse ato de escritura, essa experiência em palavras, nos permita liberar-nos de certas verdades, de modo a deixarmos de ser o que somos para ser outra coisa, diferentes do que vimos sendo.”

Jorge Larrosa e Walter Kahan – do livro ‘O mestre ignorante’, de Jacques Rancière

MEME

Postado em October 15, 2007
Categoria: Daily routes | 39 comentários

A convite do Diego, lá vai minha quinta frase da página 161 do livro mais próximo a mim:

“A vida parece ter se originado nos oceanos primordiais que cobriam a Terra há 4 bilhões de anos.”

HAWKING, Stephen. O universo numa casca de noz. São Paulo: Mandarim, 2001.

Por falar em origem da vida, nós estivemos ontem no Vale do Amanhecer, que fica aqui próximo à Brasília, em Planaltina/DF. É a doutrina mais sincrética que já vi em toda a minha vida. Para quem quiser saber mais sobre Tia Neiva e Pai Seta Branca, confira: http://www.valedoamanhecer.com/

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Pessoas, convido todos vocês a postarem nos comentários a quinta frase completa da página 161 do livro mais próximo a vocês. Bjos!

vai Talião, corta-lhe a mão!

Postado em October 6, 2007
Categoria: Daily routes | 22 comentários

fronha.jpgDe vez em quando vem a lucidez: êta vidinha engaiolada medíocre essa de cidadã correta, contribuinte, em dia com as contas, com os compromissos, com a boa educação.

“Por favor”, “bom dia”, “obrigada”.

Eu gosto dessas palavras. Gosto de atitudes civilizadas. Gosto da polidez inglesa. ‘Um cubo ou dois, madame? Um, por favor’. Mas é sempre bom lembrar que tratamento civilizado não é para todos. Há quem mereça todas as conseqüências de um dia de fúria. Espíritos de porco – antes o fossem, pois eles, os porcos, são civilizados – merecem mesmo aquele xingamento em slow motion, aquela cortada no trânsito, aquela buzinada gostosa e infinita seguida de vááários golpes de luz alta. Aqui no Goiás faço isso com mais cuidado, visto que os casos apresentados no Linha Direta são comuns por aqui.

E esses ladrões de galinha? Merecem aquele tiro pro alto, aquele muro com arames e cacos e eletricidade para proporcionar algum divertimento. Quer levar? Pode levar. Mas ao menos mereço rir um pouco, aqui do lado de cá das grades da janela e das portas fechadas à tetra. Já me falaram que a justiça tem que começar pelo Congresso… ahhhh! Mas o que eu posso fazer efetivamente contra um Calheiros? Eu quero é queimar um Judas, o que estiver mais próximo, já que dificilmente poderei crucificar ‘o homem’.

Tudo bem, não foi dessa vez. Ontem um maldito ladrãozinho roubou roupas do meu varal. Que situação ridícula. O infeliz virou freguês, visto que é a segunda vez que vem ao brechó da classe média decadente. E foram-se os lençóis, uma toalha de banho desbotada com mais de dez anos e uma camiseta do Snoop, também muito antiga, mas conservada. Que puxa! O puto escolheu a dedo, deixou os prendedores, mas realmente não sabe reconhecer o valor das coisas. Ainda bem. Deixou a camiseta do Metallica e a calça do meu pijama de ursinhos – deve ser algum pagodeiro vileiro. É sim! Isso é um preconceito! Bastardo pagodeiro!

Restaram apenas as fronhas alaranjadas e floridas, com as quais cubro meu rosto de vergonha por não ter coragem de armar uma bela tocaia para o ‘maledeto’. Vai que ele resolve se vingar e passar atirando contra a minha pessoa de dentro de um Opala preto rebaixado ao som do pior funk tipo “cachorra”? Mas deixe estar, em breve enviarei o meu recado. Aguardem.

***Tomara que as pulgas do meu gato por enquanto possam se vingar por mim. Ovos, eclodam!

Detalhe: a camiseta que estou usando nessa foto tirada hoje é a mesma do post ali embaixo, onde estou com a Lua, anos 90. Então, vocês podem entender o amor que tenho pelas minhas roupas velhas?

Um milho desgarrado

Postado em July 12, 2007
Categoria: Daily routes | 28 comentários

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Preciso registrar esse momento: reles, porém, cheio de significâncias.
Estava eu, na solitária madrugada de quinta-feira, em gyn – bebendo rum, a bebida dos saqueadores.
Depois de milênios sem entrar no msn, encontrei meu amigo ‘fazedor de amanhecer’, Bernardo.
Eu em Goiânia, ele em Piraí/RJ.
Rum daqui, vinho de lá.
Eu ouvindo Fado e ele Aretha Franklin.
Ele fazendo biscoitos e origami – e eu acompanhando o processo pela webcam.
Nesse entremeio, muita besteira, muito papo de boteco, muito riso frouxo e as bochechas ficando vermelhas. Mais vinho de lá, mais rum daqui.
Lá pelas tantas fui reabastecer meu copo e resolvi comer o que tinha na geladeira: 1 último palmito boiando no vidro e o resto das ervilhas em conserva.
Animadamente continuamos nosso papo e eu, às colheradas, comendo as ervilhas todas. De repente me dou conta de algo extremamente inusitado: um milho forasteiro!
O que faz um milho querer ser enlatado com ervilhas? Será uma questão de gênero? Mas ele continuará enlatado!
De certa forma, o milho desgarrado falhou em seu projeto rebelde; ele apenas passou a ser um enlatado com os diferentes, negando sua origem de grão de milho. Quantos equívocos daqueles que pensam que poderão se fazer passar por verdes quando são descaradamente amarelos. E não há mal algum: uns são verdes, outros amarelos, e viva a diferença.
Oh pequeno grão de milho, ao menos você mostrou alguma inquietação. Mas da próxima vez, procure algo além da lata.

Fecha-se um ciclo

Postado em July 9, 2007
Categoria: Daily routes, Guardados | 31 comentários

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Nascer, comer, crescer, latir, correr, brincar, adoecer, sofrer, morrer.

Quando o fim fica aí, escancarado, a vida parece tão besta, tão pequena.

Hoje a Lua fechou o seu ciclo e, junto com ele, marcou uma etapa importante da minha vida. Foram 15 anos e 1 mês… tempo equivalente à metade da minha própria caminhada.

A Lua presenciou meu primeiro namoro e todos os outros, assistiu tantos momentos felizes e tristes. E por falar em namoro, lembra quando arrumei um namorado pra você? Você o ignorou por completo! Mas eu entendo, ele era meio abobado mesmo… você tinha toda razão.

Chorei e dividi segredos com ela. Era minha companheira enquanto eu lavava as roupas – deitava em cima dos meus pés, com a bunda pesada encostada na minha perna. Era companheira de prancheta, quando eu virava a noite fazendo desenhos… companheira de ateliê, quando ficávamos produzindo no depósito lá de casa… Passamos muito tempo juntas! Mas a mudança para Brasília nos afastou muito, a partir de 2003. Sinto tanto por não ter passeado mais com você Lua!

Acompanhei suas cirurgias – uma delas eu até assisti: uma mastectomia radical.

Movimentei meio mundo quando ela fugiu, logo depois de umas dessas cirurgias… foi uma história fantástica: eu já estava em Brasília quando meu irmão me contou, por telefone, que ela havia fugido de casa, em Curitiba.

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Rapidamente fiz um cartaz virtual com uma foto e com os dados dela e, então, comecei a espalhar para tudo quanto é endereço eletrônico de amigos e de associações de animais que eu ia encontrando na internet.

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Meu pai, que trabalhava em Santa Catarina nesses dias, disse que até ouviu na rádio o aviso de “cão perdido”… e pensou: “putz, ainda não acharam o cachorro”… – porque ele se descuidou do portão, então estava com a consciência pesada.

Minha mãe disse que o locutor falou o nome da raça de maneira engraçada: ao invés de sheepdog falou sheeptok hahaha. E não é que foi assim que ela foi encontrada? Ela estava num bairro próximo ao nosso, na casa de uma senhora, que a recolheu. Depois que ouviu a chamada na rádio ela ligou lá pra casa… e minha mãe foi buscá-la. Que alegria! Essa mobilização levou cerca de uma semana.

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É, dona Lua, você deixou alguma história para contar.

Eu ainda tinha esperanças de vê-la ao menos mais uma vez, agora no final de julho… mas você não pôde esperar, essas coisas não podem esperar, não é? Não têm hora marcada, não dá para adiar. É quando a morte fica à espreita que nos damos conta da fragilidade de tudo isso, do mundo e das coisas do mundo.

Hoje, por volta das 9h30 da manhã, a Lua tomou anestesias e, depois, uma injeção letal… foi levada pelo Dr. Luiz, que já tratava dela há algum tempo e, então, seu corpo foi incinerado.

É estranho… fiquei muito triste. Já derramei minhas lágrimas. Mas não poder ver seu corpo sem vida, tocá-lo e chorar sobre sua carcaça, de certa forma, deixou aqui viva uma sensação esquisita, uma esperança de que vou cruzar com ela em alguma esquina por aí.

Ou talvez mais tarde, Lua, nas nuvens fofas e branquinhas como o seu pêlo.

Desvelamento

Postado em June 11, 2007
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Agora entendi porque aquela revelação sobre a classificação das nuvens me marcou tanto: Heidi.

Vi muito esse desenho quando tinha uns 10 anos de idade e a vontade de balançar bem alto e cair numa nuvem daquelas era quase incontrolável. Realmente, a professora de geografia mal fazia idéia do quanto eu, quase uma nefelibata, prezava essa relação com as fofas nuvens.

Clique na imagem e assista.

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ahá! A-ha

Postado em June 8, 2007
Categoria: Daily routes | 14 comentários

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Observação importante: esse post deve ser lido ao som que se encontra em http://manoelaafonso.multiply.com/music

Eu não ia aparecer aqui tão cedo, pois estou com a cuca concentrada, dissertando, dissertando… mas a discussão que rolou entre vizinhos sobre “postar or not postar” me incitou ao post. Então, para dar um tempo do Merleau-Ponty, resolvi exercitar minha percepção dando uma geral na casa, transferindo pilhas de um lado para outros com a finalidade de encontrar algum espaço livre perdido por aqui, além do texto que não me vinha à cabeça. Fucei, fucei e encontrei. 

Adoro atividades domésticas ao som de Nelson Gonçalves, Carlos Gardel e tantos outros que me fazem assobiar ou cantarolar uma ou outra parte de suas músicas incríveis. Mas hoje, numa dessas pilhas de livros e papéis que fiquei levando pra lá e pra cá, achei um cd adquirido na Feira dos Importados de Brasília já há algum tempo, mais de ano, que ainda nem tinha ouvido direito (às vezes encontro livros fechados por aqui também). O cd chama-se ‘Rock Collection” volume 1, ‘coletânia com 184 sucessos em formato mp3′, na sua melhor versão pirata. Para quem não conhece, a Feira dos Importados é o Paraguai do Planalto Central – melhor que a Sta. Ifigênia em sampa.

Pois então, nesse cd tem preciosidades e agora escrevo ao som de A-ha. Vocês podem imaginar como eu estou me sentindo nesse exato momento? Às vésperas dos meus 31 anos, tomo um copo de coca-cola, como daqueles deditos de chocolate, me dou conta de que hoje realmente preciso dos óculos e que ganhei alguns quilos desde a última vez que estive com o meu vinil do A-ha nas mãos, no final dos anos 80… não, eu não estou usando perneira e o meu cabelo não tem aquele corte repicado – mas já teve. 

Agora estou assim, meio deprimida, meio me sentindo uma raposa velha experiente hahahah - só penso em ‘experiência’ agora – dá um tempo Merleau!

Na tv, o mesmo jornal nacional de milênios começa pontualmente às 20h15, religiosamente, todos os dias. É estranho, acho que são essas coisas que se repetem desde que nasci que me fazem pensar que ainda tenho 15 anos… eu ainda uso chinelo de dedo e me comporto como um menino… minha mãe nem sabe que, agora, morando sozinha, deixo a pilha de louça acumular até apodrecer na pia só pra me vingar - tá aí uma coisa boa! Mas confesso que até sinto saudades das briguinhas porque não juntei o cocô do cachorro, deixei o banheiro molhado, porque tem cabelo pela casa toda, porque não arrumei a cama, porque deixei o cachorro entrar em casa, porque a música tá alta ou porque eu e minha irmã cantamos e rimos alto demais pra lavar louça… uns segundinhos de saudade.

Pois é meus caros, fiquei velha. É sexta-feira de feriado e estou em casa tomando coca-cola e comendo deditos. A-ha, chinelo de dedo, banheiro cheirando à Q-boa, cabelo amarrado, Zaratustra à frente e essa bagunça pós-moderna da imagem acima por todo lado. Aliás, vocês conseguem identificar tudo o que tem nessa foto? Vale uma música do A-ha. Agora me dá licença que vou ali no bar tomar uma cerveja, senão não vou conseguir dormir; afinal de contas, tenho que manter o respeito adquirido.

Cumulus nimbus

Postado em June 1, 2007
Categoria: Guardados | 23 comentários

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Lembro-me como se fosse ontem: numa aula de geografia, na quinta série, descobri que até as nuvens tinham nome.

E eu que pensei que pelo menos elas – as inalcançáveis nuvens fofas – estivessem livres de classificações.

Até então eu as chamava como bem entendesse e cada uma levava o nome daquilo com o que se parecia: “urso brabo”, “cavalo”, “homem de nariz grande”, “castelo mágico” – esse era o meu exercício metafórico diário.

Depois que aprendi que os nomes corretos eram cumulus, cumulus nimbus, cirros e stratus, as formas desapareceram e eu parei de olhar para o céu. E quanto mais eu avançava na escola, mais aprendia a classificar as coisas, até o momento em que a poesia com a qual eu vivia o mundo sumiu.

A partir de então passei meus dias com a cara enfiada nos livros; aprendi uma infinidade de coisas pela experiência dos experientes e o que mais pesava enquanto eu caminhava não eram os livros que eu carregava, mas sim o buraco deixado pela renúncia à poesia.

Cumulus Nimbus são nuvens densas e enormes que só podem ser vistas por inteiro a longas distâncias, assim como o passado, que também nos exige o distanciamento necessário à compreensão de sua beleza e complexidade. Que venham os trovões, relâmpagos, chuva, granizo e tornados que os acompanham.

Esse blog é o passo inicial para o desenvolvimento de um projeto de web-arte engavetado já há algum tempo e que tem por objetivo registrar e cruzar memórias aleatoriamente para depois perdê-las em meio à contaminação provocada pela interatividade na rede.

O primeiro passo está dado. Trago apenas um guarda-chuva, os pés molhados, um frio nos ossos e não me recordo agora do nome da minha professora de geografia.

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