Cumulus Nimbus
O MUNDO É UMA BOLA, QUEM ANDA NELE É QUE SE AMOLA (já dizia meu pai)
Lembro-me como se fosse ontem: numa aula de geografia, na quinta série, descobri que até as nuvens tinham nome.
E eu que pensei que pelo menos elas - as inalcançáveis nuvens fofas - estivessem livres de classificações.
Até então eu as chamava como bem entendesse e cada uma levava o nome daquilo com o que se parecia: “urso brabo”, “cavalo”, “homem de nariz grande”, “castelo mágico” - esse era o meu exercício metafórico diário.
Depois que aprendi que os nomes corretos eram cumulus, cumulus nimbus, cirros e stratus, as formas desapareceram e eu parei de olhar para o céu. E quanto mais eu avançava na escola, mais aprendia a classificar as coisas, até o momento em que a poesia com a qual eu vivia o mundo sumiu.
A partir de então passei meus dias com a cara enfiada nos livros; aprendi uma infinidade de coisas pela experiência dos experientes e o que mais pesava enquanto eu caminhava não eram os livros que eu carregava, mas sim o buraco deixado pela renúncia à poesia.
Cumulus Nimbus são nuvens densas e enormes que só podem ser vistas por inteiro a longas distâncias, assim como o passado, que também nos exige o distanciamento necessário à compreensão de sua beleza e complexidade. Que venham os trovões, relâmpagos, chuva, granizo e tornados que os acompanham.
Esse blog é o passo inicial para o desenvolvimento de um projeto de web-arte engavetado já há algum tempo e que tem por objetivo registrar e cruzar memórias aleatoriamente para depois perdê-las em meio à contaminação provocada pela interatividade na rede.
O primeiro passo está dado. Trago apenas um guarda-chuva, os pés molhados, um frio nos ossos e não me recordo agora do nome da minha professora de geografia.