shine!

Postado em April 25, 2008
Categoria Guardados | 29 comentários

Mais uma vez vasculho as pilhas que edificam meu universo particular. A cada centímetro percorrido, um infinito diferente. Outros tempos, outros espaços.

Encontrei algo muito brilhante dentro de uma pasta de papelão que estava entre muitos papéis, que estavam dentro de um plástico, que estava dentro de uma pilha composta pelas Cartas a Théo, por uma pasta canaleta preta, e plásticos, e papéis, tubos de tinta a óleo, flanela, escova de prancheta, pincéis chineses, lâminas para estilete, pó, pêlos amarelos de gato.

Tudo muito bem equilibrado em cima de um banquinho vermelho.

Leis da gravidade.

O brilho aumentanva à medida que eu adentrava nessa selva: tirei os objetos, depois os livros, depois a pasta preta, depois os papéis… cheguei ao plástico. Abri-o. Retirei as pastas, os papéis… e o brilho aumentava.

Encontrei um coração. Nele, um pedido:

purpurina.jpg

purpurina2.jpg

E eis que vem o choque: diante da brutalidade, da estafa, da rotina, do cumprimento de tarefas, das relações estagnadas, da automação: a poesia. Sempre ela. Brilhante. Regeneradora.

O poema hoje é o pedido por mais brilho. Enquanto lá fora o mundo concretiza, segundo a segundo, o ritual autofágico que abastece a máquina-sistema, a criança só pede brilho.

- Deixa a gente usar a porpurina por favor!

Você tem porpurina para emprestar? Meus olhos têm pedido brilho… têm perdido brilho. 

***

Quando eu era professora no Colégio Nossa Senhora de Sion, em Curitiba, por volta de 2002, de vez em quando recebia esses bilhetinhos das alunas. As meninas eram loucas por purpurina, mas geralmente o brilho é algo caro. Mas regular o brilho é uma maldade. Era impossível não ceder a esses pedidos em forma de coração. Como fadinhas, elas queriam colocar brilho em tudo: no desenho, nas unhas, nas mãos, no rosto, no mundo. Mal elas sabiam que o brilho é a própria infância.

Comentários

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29 Comentários »

Bárbara Lopes
2008-04-25 13:14:59

me emocionei…

2009-02-05 13:46:33

:)

 
 
Dani
2008-04-25 16:25:07

Lindo Mano!
Adoro seus textos….. adoro seu brilho….

2009-02-05 13:47:06

obrigada… tô precisando de ‘porpurina’ por esses dias… bowie é bom pra isso :P

 
 
2008-04-25 17:25:07

Meu Deus!!!!
Muito interessante… super poético e verdadeiro…
lembrou um conto que escrevi ha um bom tempo…
saudade sua…

2009-02-05 13:47:58

saudade tb poeta, bjo

 
 
2008-05-04 16:27:30

Precisamos mais de porpurinas e poesia…

2009-02-05 13:49:41

sim… ‘porpurina’ para os olhos… e para o espírito

 
 
Marilda Confortin
2008-05-04 19:02:49

Oh meu deuzinho do céu… que coisa mais doce, e chocante Manoela. Puxa, até eu quero usar um pouco desse teu brilho, querida! Que merda de vida é essa que nos faz esquecer isso? Que ofusca as “porpurinas” de nossos olhos?
Você é ótima, Manoela.

2009-02-05 13:53:22

Oi Marilda, querida, obrigada. E vamos às “porpurinas” nesse ano não é? Beijos!

 
 
2008-05-04 22:59:39

Poesia é o caminho mais curto entre a gente e Deus.
Ah! E Deus somos nós. Nada católico, quero dizer.

Enfim, vivamos nossos poemas.
Beijo!!

2009-02-05 14:06:27

sim ernesto, nossos poemas, trágicos ou cômicos, ruins ou fenomenais… vivamos a poesia. bjos

 
 
2008-05-06 07:45:03

Olá Manoela, asimm que vi teu comentario em meu blog, senti tua sensibilidade, onde vi dureza , voce viu o colorido da segunda feira, muito legal teus textos e valeu a visita.
Chico.

2009-02-05 14:13:02

Obrigada Chico, apesar da demora, estou aqui e vou visitá-lo. Abraço e bom ano :)

 
 
2008-05-06 22:06:22

Que lindo, além de artista és poeta também?
Seria bom que a gente não perdesse esta capacidade que as crianças têm de se encantar com as coisas…
Tenha uma semana iluminada como as porpurinas de tuas crianças,beijos

2009-02-05 14:15:44

Oi Jeanne… sou metida mesmo hahaah adoro escrever, adoro pensar, adoro desenhar… tudo o que me tira desse cotidiano muitas vezes duro… mas muitas vezes cheio de coisas bonitas, que se mostram o tempo todo, mas não vemos, só porque não temos tempo. Beijos

 
 
2008-05-06 22:09:52

Comentei e parece que não aceitou, espero não estar deixando comentário duas vezes…
Ótima semana pra ti, beijos

 
2008-05-07 10:58:44

Que lindo Manu!

Sabe, há dois anos guardei o papel que minha sobrinha, na época com trê anos, escreveu o nome dela pela primeira vez. Ela me deu de presente, e vou devolver um dia.

Quanto a pourporina, este é um dos momentos que vale a pena na vida de um educador.

Muito bom
beijos para ti

2009-02-05 14:17:35

Obrigada, bjos Jean Peter Pan

 
 
Ju
2008-05-07 22:54:52

áaaaaaaaaaaaaaaah. me arrancaste lágrimas e arrepios com esse post. eu ainda passo por esses momentos com algumas alunas, elas, que crescem e viram meninas, moças, mulheres… mas todo ano uma nova criança vem me pedir a “porpurina” e me lembrar a beleza e o brilho da infância. porque a criança cresce e a infância permanece. e sempre que vivo isso penso : “meu Deus, será que outras pessoas também têm a oportunidade de perceber a beleza, riqueza e profundidade desse momento!?”
Obrigada, Manu. Obrigada pela sensibilidade compartilhada!
beijosBEIJOS

2009-02-05 14:21:41

:) ter dado aula nessa época para os pequenos foi um presente ju, aprendi muito… me surpreendi muito. bjos

 
 
2008-05-15 01:13:45

po cara! isso foi magico! sim…magia…lembra qdo agente tbm acreditava nela e ela funcionava????
beijo
ps-ainda tenho teu presente guardado, laaa no armario pra um dia virar u primeiro quadro da minha primeira casa..
bj

2009-02-05 14:24:28

me conta quando ele virar o primeiro quadro da sua primeira parede da sua primeira casa, preenchida das primeiras músicas que você vai compor para o seu lar. beijos querido.

 
 
2008-05-15 13:39:36

Tão fácil se emocionar, não é? Um sorriso de orelhas para ti. Saudades (sempre).
Nossos olhos sempre pedem purpurina, sempre!!!

2009-02-05 14:23:36

obrigada lunna. um ano brilhante para nós. beijos

 
 
2008-05-27 23:30:02

lindo texto! e vc é brilhante sempre! bjssssssss soll

2009-02-05 14:23:04

eu tb adorava ‘porpurina’ heheheh

 
 
2008-10-08 14:00:22

quando eu dava aula no colégio nossa senhora do sion, em curitiba, as crianças me enchiam de poesia também. e viviam me pedindo para usar palavras brilhosas, e para catá-las no jardim, nas tintas e no coração.

adorei visitar esse seu universo!

beijo

2009-02-05 00:46:17

oi lindsey! também dei aula lá, não sei se você lembra… estar perto das crianças abastece o meu espírito…

 
 
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