Filósofos e seus problemas

Postado em September 17, 2007
Categoria: Filosofia, História | 5 comentários

Sempre considerei que era uma grande vantagem ser brasileiro e estudar filosofia, por um motivo muito simples e, creio eu, verdadeiro. Porque estamos tão distantes dos grandes centros, das nações que foram berço das mais brilhantes doutrinas, ou seja, da Europa (e, mais recentemente, dos EUA, como sempre), ficamos livres para estudar as obras dos pensadores de todos esses países em pé de igualdade, sem ranços nacionalistas. E já me explico:

Em cada um desses países, os comentaristas são incapazes de não fazer a balança pender para o próprio lado; na França, o Idealismo alemão e o Empirismo britânico são considerados variações pouco espirituosas do racionalismo de Descartes, do raciocínio de Voltaire, da profundidade de Bergson. Popper e Russell nada mais são do que comentaristas de Poincaré e Bachelard, e fim de papo. Os renascentistas italianos, enquanto isso, nada mais representam do que uma preparação para as coisas maravilhosas que “o Hexágono” produziria nos séculos seguintes. Nariz empinado pouco é bobagem.

Com aos britânicos, esses seres tão pragmáticos, que parecem imunes às tentações de espiritualismos vulgares, não poderia acontecer de forma diferente. Para eles, qualquer coisa que não vá do empirismo diretamente para o utilitarismo, o liberalismo e a filosofia analítica, ora, só pode ser tolice, desses barroquismos literários tão ao gosto do “continente” (ou da Europa, que é o termo que usam quando querem esnobar). Quanto a tudo que foi produzido do outro lado do Atlântico, ora, francamente, “todo mundo sabe” que os EUA nada mais são do que um apêndice da ilha da rainha.

Na Alemanha, essa visão, hoje, deve ser menos forte, dado o esmagamento do nacionalismo no país, após os eventos traumáticos do último século. Mas para toda uma linha de filósofos, desde Kant e Hegel, passando por Schopenhauer e Nietzsche, até o incorrigível (e quase incompreensível, sejamos honestos) Martin Heidegger, a grande força motriz era uma filosofia que se encaixasse no que chamavam de “espírito alemão”. Perdoem-se, claro, os pensadores que viveram com intensidade o processo de unificação do país. Mas, para quem está do outro lado do oceano, é bom poder aproveitar só o que há de bom.

Portanto, se os alemães se consideram, ou melhor, consideravam, herdeiros da Grécia, e os franceses, herdeiros de Roma, nós podemos nos considerar herdeiros de todos eles. Ó, grande fortuna! Ó, grande desperdício, mais um em nossa tão curta história! Deveríamos aproveitar melhor essa sorte enorme! Está mais do que na hora de assumirmos nosso papel antropofágico, mas desta vez a sério, não em brincadeiras burguesas e provincianas de vanguardismo chutado e iconoclasta…

Como sempre, há o outro lado da moeda. Há o grande cano de metal que emperra a engrenagem e impede o trem de avançar. Nesse caso específico, acho que sou capaz de apontar onde ele está. Vejo, no Brasil, tanto nos jornais quanto nas universidades, na internet e nas revistas, nas conversas de botequim e nos debates públicos, uma tendência, ou melhor, uma mania, de encarar os grandes pensadores da história como “gente muito inteligente” e ponto final.

Traduzindo, a história da filosofia, em nosso país, é tratada como se fosse uma sucessão quase aleatória de gente brilhante e desocupada, que inventava idéias interessantes e escrevia bem (nem sempre), não tinha mais o que fazer e ficava tentando descrever a vida, a existência, o homem, o mundo, produziam doutrinas, compunham textos indecifráveis, levaram vidas miseráveis e assim por diante. Ou seja, a filosofia parece frívola, mas citá-la é uma ótima maneira de parecer brilhante diante da mídia, dos leitores, dos amigos e, por que não, da estudante de Sociologia em que se está de olho.

Que esses pensadores eram inteligentes, creio que não se possa discutir. Certamente houve filósofos de inteligência mais limitada, mas suas obras foram sendo esquecidas pelos leitores e se perderam na poeira do tempo. Entretanto, salvo exceções, eles não eram desocupados, nem se concentravam nos problemas ontológicos, éticos, epistemológicos, estéticos (e assim por diante) apenas para fazer passar o tempo. Eles tinham problemas muito claros a resolver, e foi sua investigação desses problemas que empurrou adiante a própria filosofia, a ciência, a arte e, por extensão, a humanidade como um todo. Avancemos por alguns comentários mais próximos, para efeito de ilustração.

*

Outro dia, estive lendo o blog de um escritor muito admirado. Em um post, ele discorria sobre Leibniz e seu famoso postulado de que “vivemos no melhor dos mundos possíveis”. Uma vez que se saiba que essa declaração jamais existiu, ao menos formulada dessa maneira, já se pode adiantar que o resto do texto nada mais dizia do que um monte de tolices, pelo menos no que tange ao filósofo de Leipzig; se o escrito, como um todo, era belo, poético e verdadeiro, que o resultado seja creditado ao autor, não ao pensador citado.

Se criou-se a idéia de que Leibniz teria afirmado que o nosso mundo é o melhor possível, foi por causa de Voltaire, que escreveu seu famoso “Cândido” para atacar o otimismo que atribuía ao outro. Muito se discute se o autor francês fez uma leitura errada do alemão, ou se vulgarizou seu pensamento propositalmente, com vistas a um maior impacto no público. Pouco importa. O fato é que não se pode criticar Leibniz a partir de uma leitura de Voltaire. É confortável, a leitura é fácil, todo mundo vai achar maravilhoso, mas não dá certo.

Gottfried Wilhelm von Leibniz é conhecido mais como matemático do que como filósofo. Ele é um dos pais do cálculo integral, sem o qual seria impossível conceber praticamente tudo que a engenharia e outros engenhos exatos criaram a partir de então (estamos falando do final do século XVII e início do século XVIII). Acontece que a matemática era uma atividade que ele exercia quase como passa-tempo, nas horas vagas. Isso é um exagero, claro. Ninguém desenvolve algo tão complexo apenas nas horas vagas. Porém, a atividade principal do nobre filósofo não era a matemática, mas a jurisprudência. Leibniz, acreditem, era um jurista.

Mas ele teve a sorte de viver em tempos em que ainda era possível ser um estudioso avançado, paralelamente, em todas as áreas do conhecimento humano. O último desses grandes pensadores, segundo se diz, teria sido Goethe. E o mais famoso, Leonardo da Vinci. Gente que tenta manter um ritmo desses, hoje em dia, é considerado louco, provavelmente com razão, e recebe a alcunha, em inglês, de Renaissance Man. O nome diz tudo.

Voltando a Leibniz, encontramos um homem preocupado em formular um fundamento para o Direito, uma base de justiça que esteja vinculada o mais diretamente possível à Justiça eterna, ou seja, sendo mais direto, a Deus. Quanto a isso, no tempo em que ele escrevia, duas grandes doutrinas sobre o Altíssimo dominavam: a de Descartes e a de Spinoza. Ambas, para Leibniz, são incapazes de estabelecer um arcabouço metafísico para a formulação de leis. Em seu “Discurso de Metafísica”, ele se esforçará para mostrar como a absoluta liberdade divina defendida por Descartes e absoluta necessidade da Criação em Spinoza, tão opostas como parecem, encontram-se no que têm de mais defeituoso: negam a Deus sua perfeição e sua misericórdia, e impedem a determinação, cá na terra, do que sejam ações boas ou más do ser humano, ou seja, invalidam qualquer tentativa de estabelecimento de um sistema legal universalmente justo.

Não é o caso de tardar nessas explicações. O que quero demonstrar aqui é que o problema de Leibniz é muito concreto. Ele precisa reintroduzir na teologia a idéia de cálculo divino, de escolha de Deus na criação. Quando ele diz que o mundo realmente existente (a expressão é um anacronismo meu) é o melhor possível, refere-se à multiplicidade de opções com que o Criador teria se deparado no momento de fazer surgir o Universo. Se ele escolheu este, com todos os desastres e horrores, é porque era o mais adequado para realizar sua glória e sua graça, conceitos complicados e datados, que não nos interessam aqui. Nada parecido com o que disse Voltaire e crêem os leitores apressados.

É graças a esse grave e árido problema metafísico que Leibniz desenvolve a idéia das mônadas, espécies de “átomos” de substância (céus, mais um conceito que exigira laudas e laudas de explicação), que reproduzem dentro de si, cada um à sua maneira, a totalidade do Universo. Parece bobagem, talvez. Mas é graças ao conceito de mônada, abandonado pelos séculos seguintes, que Leibniz chegou ao cálculo integral. Portanto, é graças a ele que, hoje, temos elevadores, aviões, geladeiras, computadores. Ou seja: Leibniz não era um sujeito a quem faltava o que fazer.

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O segundo exemplo talvez seja ainda melhor: Arthur Schopenhauer, ídolo jamais lido de dez entre dez depressivos, e onze entre dez suicidas. Schopenhauer, considerado o filósofo do “tiro na orelha”, mas que, no entanto, condenou o suicídio com veemência. Se o lessem de fato, não pulariam do prédio.

Por acaso, Schopenhauer era, sim, uma pessoa que tinha muito tempo livre. Não precisava trabalhar para viver, era suficientemente rico para se dedicar ao violino e à sua grande obra, quase o único livro que escreveu na vida, O mundo como vontade e representação, que demorou décadas para começar a fazer sucesso e até hoje causa arrepios em muita gente, sobretudo quem se aventura a lê-lo. Mesmo assim, sua obra está longe de ser frívola. Ele é o primeiro de uma série de pensadores e escritores que, podemos dizer, “anteciparam Freud”. Nietzsche, Dostoievski e Bergson são alguns dos outros, mas Schopenhauer foi o primeiro.

Ele também tinha seu problema muito bem definido a resolver. Questionava-se sobre o impulso da vida, a necessidade de sempre agir, a angústia que sucede ao sucesso, as necessidades irresistíveis que o homem tem de ir à guerra, humilhar o vizinho, dedicar-se à arte. O princípio que ele encontra, chama de Vontade, que está presente em todo ser vivo. Uma planta vive segundo a Vontade de sugar nutrientes do solo e luz do sol; um marisco, da Vontade de grudar-se à pedra, resistir à força das ondas, criar uma colônia.

No ser humano, a Vontade assume uma faceta mais complexa. Ela se torna autônoma. O ser humano é o único para o qual a Vontade é autônoma. A inteligência humana faz com que nossa Vontade seja apenas de mais Vontade. Ela é insaciável. Nossas expectativas são irrealizáveis, porque logo se tornam outras expectativas. Precisamos crescer e ocupar espaços, precisamos sempre de mais e mais, precisamos aniquilar os outros e, no limite, a Vontade acaba por aniquilar a nós mesmos.

A Representação em questão é a forma que o mundo assume para nós, enquanto agimos sobre ele sob o comando da Vontade cuja existência mal conhecemos, e à qual não podemos dar um rosto. O suicídio, a que almeja tanta gente metida a seguidora de Schopenhauer, nada mais é, para o próprio, do que a última conseqüência dessa vontade que nos assoberba e aniquila. Não é solução, de forma alguma. O filósofo, ao contrário, oferece duas: primeiro, a ataraxia, ou seja, a purgação de todo desejo e ambição, como já postulavam os estóicos e as doutrinas orientais que Schopenhauer adorava; depois, a arte. Através da pura e desinteressada fruição artística, diz ele, consegue-se escapar momentaneamente ao domínio da Vontade. Schopenhauer era um amante da música, a mais abstrata e irresistível das manifestações artísticas.

A psicanálise, portanto, nasceu quando Freud deu nome aos bois, de uma maneira que, não é injusto dizer, vulgariza um pouco o pensamento de Schopenhauer (e pensar que tem gente que acha que lê-lo não serve para nada). Freud associou a Vontade de Schopenhauer, e que em Nietzsche havia sido transmutada em Vontade de Potência, às pulsões sexuais do inconsciente individual. Pronto. Nasceram Eros e Thanatos, esses dois conceitos tão poderosos dos últimos cem anos, conhecido por qualquer um que já pagou para se estirar no divã.

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O terceiro pensador que não era só um sujeito esperto, e prometo que será o último que mencionarei, é ninguém menos do que René Descartes, o mais quadrado dos pensadores, pai do cartesianismo, do plano cartesiano e do famigerado “Penso, logo existo”, que tanto se pode ouvir repetido em tom de mofa. Essa frase até existe, mas é uma menção passageira no Discurso do Método a um raciocínio das Meditações Metafísicas, onde, por sua vez, não é a conclusão do raciocínio, mas, ao contrário, seu ponto de partida.

O grande problema que Descartes enfrenta é a necessidade de criar um fundamento de certeza para as ciências. Cansado das bases aristotélicas de inspiração escolástica que sustentavam a ciência até então (a não ser por iniciativas como as de Galileu, Giordano Bruno e Copérnico), o filósofo, cientista e matemático francês considerou que era hora de romper com tudo que era dado como certo e começar do zero.

E resolveu ser radical. Não bastaria romper com os raciocínios que Aristóteles redigira havia uns bons dois mil anos. Ele precisava romper com literalmente tudo que fosse considerado certo: sua percepção, seus sentidos, seus sonhos, seu raciocínio, as leis da lógica e da matemática. Tudo isso, ele coloca em dúvida, recorrendo até a um gênio maligno, cujo único desígnio seria enganá-lo, apenas para não deixar dúvida quanto à seriedade da dúvida.

A partir da constatação simples e evidente de que, para poder pensar, ele precisa existir, e que, portanto, enquanto estiver pensando, necessariamente ele existe, surge seu grande primeiro princípio: eu penso, eu existo. E, ao final de um longo raciocínio, obtém-se o grande princípio que norteará sua noção de ciência: algo é certo quando é evidente. E uma coisa só pode ser inteiramente evidente quando for simples. Daí seu amor pela geometria. Daí a invenção do plano cartesiano, que transforma qualquer corpo, qualquer trajetória, em simples, claras e evidentes coordenadas.

Descartes é, bem se vê, o pensador que tentou chamar a nossa atenção para a evidência. Peço desculpas a Nelson Rodrigues, um de meus grandes ídolos na literatura, no jornalismo e no futebol. Disse Nelson, certa vez, que sua maior contribuição para a humanidade foi a descoberta do óbvio. Mas ele chegou atrasado. O óbvio já havia sido descoberto três séculos antes, do outro lado do mundo, por um sujeito quadrado e um pouco chato, chamado René Descartes.

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Tudo isso foi a maneira que encontrei para demonstrar que a filosofia, ao contrário do que pode levar a crer um certo quadro de Rembrandt exibido no Louvre, não é feita por um velho barbudo trancado na torre de um castelo. Montaigne é um exemplo contrário, tudo bem. Mas ele só fez isso depois de uma extensíssima participação no mundo real, particularmente no processo político do Périgord (Montaigne foi prefeito de Bordéus).

A filosofia sempre andou de mãos dadas com a ciência e a arte. Sempre esteve com o olho muito próximo dos problemas de seu tempo. Sua maneira de pensar é, em geral, universalista, claro. Mas isso acontece porque, sem uma noção de lastro, de transcendência e de permanência, o homem não pode agir como tal, e acaba se entregando a reações instintivas e animalescas, indignas de sua própria condição.

Falar de filosofia como uma reflexão conduzida de nuvem para nuvem é prova, mais do que de ignorância, de um engessamento na capacidade de inovação. A ciência é perfeitamente capaz de resolver problemas, mas só a filosofia é capaz de criá-los. Ela problematiza. Busca nas brumas do tempo corrente os elos das questões do tempo futuro.

Arrisco dizer que é a ligação entre a arte e a ciência: a arte está sempre adiantada em relação à filosofia, e a filosofia, em relação à ciência. Mas isso é tema para outro post.

Do inútil (ao fútil)

Postado em September 11, 2007
Categoria: Arte, Filosofia | 5 comentários

Já ouvi dizer, inúmeras vezes, que a arte é inútil. E está certo. Aliás, certíssimo. Embora um olhar panorâmico revele uma infinidade de funções ou utilidades possíveis para a arte, embora se possa perfeitamente ver nela muito de educativo, político, catártico, psicológico e assim por diante, embora o ser humano seja incapaz de viver sem um mínimo que seja de arte, ela é, sim, algo inútil, naquilo que tem de mais profundamente artístico, naquilo que faz com que ela seja propriamente arte, e não propaganda, manual, análise, teoria. Quando vemos utilidade na arte ou arte na utilidade, é porque uma contaminou a outra. Talvez a ponto de se tornarem inseparáveis, tudo bem, ou de se potencializarem mutuamente. Mas o elemento propriamente artístico, precisamos ter sempre em mente, é inútil e ponto final.

É importante precisar que falo de um inútil muito específico, que é justamente, veja só o nome, o sentido utilitarista do termo. Discursando como um bom economista, coisa que nunca fui, mesmo quando era, de fato, economista, a arte não aumenta o bem-estar de nenhum agente racional. Veja como é curioso: duas das definições que são mais usadas para classificar o ser humano são incompatíveis entre si: somos, por um lado, racionais (em algum lugar, deve existir essa razão). Por outro, somos o único ser vivo que produz arte, aquilo de mais irracional e inútil que existe. O humano, pelo visto, não é assim tão fácil de definir.

Fui atacado muito recentemente com a constatação da inutilidade da arte, quando, discutindo com um amigo que faz toda questão de gostar do que a vida oferece de melhor, mencionei de passagem que a gastronomia é inútil. Que me importa, poderíamos dizer, se o molho da vitela está esplêndido e vai muito bem com um Chianti sei lá qual? Quero mesmo é que encha a barriga. O mesmo vale para a moda: e daí que o casaco verde me deixa com um ar ridículo e meio gordo? Preciso dele para me esquentar. E, claro, o futebol: e daí que o Fla-Flu da próxima semana vai decidir o campeonato? Futebol, com todas as suas angústias e vibrações, não serve para nada. É inútil, inútil, inútil.

E a resposta do fulano foi: é claro que é inútil, mas não é mais inútil do que ler e declamar os sonetos de Bocage ou contemplar uma paisagem de Van Gogh. Debater temas artísticos, então, nem se fale. É como discutir o sexo dos anjos; não se pode chegar a conclusão alguma. Com essa última frase, eu não poderia concordar mais. Não há maior panaca do que um desses diletantes metidos a críticos, ou esses críticos metidos a críticos, que querem decretar uma interpretação ou uma avaliação específicas da arte, como se ainda vivêssemos no século XVIII.

Foi quando me dei conta de como o humano, esse ser racional e tão escatologicamente espiritual, é dado a coisas inúteis. Voltando ao discurso de um economista radical, nossa espécie é um desastre. Somos incapazes de maximizar nosso potencial produtivo. No velho dilema entre a manteiga e os canhões, já preferimos os segundos, depois os trocamos pelos quadros, depois os carros esporte, depois os vestidos de luxo, depois os pequenos aparelhos que fazem “bip” e tocam 600 músicas diferentes. Sem contar que a própria manteiga, a rigor, é um luxo desnecessário, já diria um cínico da monta de Diógenes, que jogou fora seu último bem, uma cuia, quando concluiu que era capaz de beber água usando apenas as próprias mãos.

Qualquer doutrina de maximização, utilidade ou eficiência sempre escorregará nesse aspecto de nossa gloriosa e trágica espécie. Somos incapazes de maximizar, e muito orgulhosos disso. Somos lindamente, esplendorosamente ineficientes. Viva! Que tolos somos, não? Se, em vez de investir em nossa produtividade, no aumento da oferta de bens, entregamo-nos aos mais vazios dos vícios, como o desespero de uma partida de futebol, a sutileza de uma escultura monumental, as delícias de um vinho bem envelhecido, os questionamentos sobre o insondável sentido e a remota origem da vida, a elegância de uma mulher bem cuidada.

Mas, antes que censurem toda a nossa raça, quero chamar atenção para o outro lado da questão: quem mais é capaz do inútil, senão os humanos? Que outra espécie vive de interesses que não têm uma finalidade prática bem definida? Algum dia vamos ver um cão, um cavalo ou um leão que façam algo de suas existências que não vise matar a fome, procriar, dormir e se proteger? Tanto esforço se faz, na biologia, na filosofia, na psicologia, para traçar a definitiva fronteira entre homens e animais, sem chegar a uma solução que não seja meramente quantitativa (o homem é mais inteligente, tem uma linguagem mais complexa e uma habilidade manual mais desenvolvida). Talvez fosse o caso de procurar por aí. Nós, as pessoas, fazemos coisas inúteis durante a maior parte do nosso tempo, seja por prazer, impulso ou passa-tempo. O útil, no mais das vezes, é passageiro e soterrado por uma enorme camada de inútil enfeitado.

Por isso, quando como, dificilmente estou apenas pensando em matar a fome. Ou quero ter um prazer específico, o gastronômico, ou quero que alguma outra atividade a que eu me dedique, por exemplo, escrever, a mais inútil de todas, não seja interrompida por um aperto do estômago. Se me visto, não é apenas pelo frio, mas porque não quero ser encarcerado por atentado ao pudor, ou porque quero ter uma aparência bacana, seja para atrair fêmeas (com as quais posso querer copular, jamais procriar), seja para conseguir um bom emprego. Ô coisa inútil, o emprego! Se eu fosse me fiar pelo útil, comeria sempre batata, jogaria qualquer pano sobre as costas e moraria na primeira caverna que me aparecesse.

A partir de agora, pensarei duas vezes antes de criticar qualquer coisa, objeto ou atitude, pensamento ou empreitada, seguindo a lógica de que aquilo “é inútil”. Eu mesmo passo quase todo meu tempo absorto em enormes inutilidades. A própria crítica, aliás, é inútil. Se eu fosse me dedicar apenas ao útil, nem me preocuparia com o inútil alheio, ora pois não.

Ao mesmo tempo, como tudo na vida, mesmo o inútil tem limites. E ele se chama fútil. Como definir o fútil? Ainda não sei, mas ele certamente existe. Porque mesmo o inútil se presta a algo. É graças a ele que mantemos nossa vontade de viver, realizar algo, manter-nos em movimento. Saídos das selvas e savanas, ou da animalidade, como diria Rousseau, é para as coisas inúteis que transferimos a maior parte da pujança de nossa vontade. E a vontade, advertiram Schopenhauer, Nietzsche e Freud, é a mais perfeita tradução de nossa força vital. Sem a dedicação a coisas inúteis, mas às vezes belas, às vezes sublimes, às vezes apenas interessantes, como a arte, o amor, o esporte e a política, o que seria nossa vida, senão uma pasmaceira insuportável?

Chamamos algo de fútil quando temos a sensação de que esse movimento em direção ao inútil vai longe demais. Quando nos parece que uma determinada inutilidade não se presta nem a purgar as misérias, nem a elevar a alma, nem a proporcionar um prazer que só nós, humanos, podemos ter. Em resumo, quando sentimos que o objeto de nossa atenção é vulgar e prejudicial à deliciosa vacuidade da vida humana, apenas por ser ainda mais vazia.

Assim sendo, mesmo ainda incapaz de delimitar o que seja o fútil em comparação ao inútil, sinto-me no direito de alterar a fórmula de meu desprezo, minha crítica e minhas esnobadas. Em vez de classificar alguma coisa de “inútil”, direi simplesmente, no tom mais cáustico que minha glote puder formular, que é fútil. Nada mais.

Sobre um encontro fortuito

Postado em August 27, 2007
Categoria: Arte, Literatura | 7 comentários

Estive, por esses dias, com um amigo que não via há tempos. O sujeito tinha, para colocar em poucas palavras, desaparecido. Ficou semanas sem falar com ninguém, sem dar notícias, sem aparecer. De repente, eis que nos esbarramos, num caminho inabitual; não é o meu, tampouco o seu. Tive a sensação de que ele quis me evitar. Foi impossível, eu já o distinguira, e abria os braços para cumprimentá-lo. Foi obrigado a interromper a marcha.

Perguntei-lhe o que tinha acontecido, por que rompera o contato com o mundo, onde se enfiara. A princípio, ele não quis falar. Esquivou-se de minhas perguntas como pôde. Mudou algumas vezes de assunto. Mas não sucumbiu às minhas investidas reiteradas. Acabou tendo que dar explicações, e confessou:

“Precisei, mesmo, sumir um pouco. É que eu senti necessidade de aperfeiçoar a minha arte. Andava frustrado com o que produzia. Estava muito ruim, eu não avançava… Não agüentei. Parei tudo, e ficarei assim até encontrar meu caminho.”

Algumas precisões se fazem necessárias. O rapaz em questão é um poeta de primeira linha, daquela cepa, hoje tão rara, que se ocupa de cada verso que compõe com o esmero que se espera ver dedicado a um filho recém-nascido. É alguém cuja maior ambição na vida é levar a palavra ao ápice de suas possibilidades expressivas. Portanto, se diz que precisa retrabalhar sua arte, a coisa é séria.

Ao mesmo tempo, o cara é como uma cartola de mágico de onde, em vez de coelhos, saem idéias e iniciativas sem parar. Já apareceu com planos para divulgar a literatura, para unir os escritores, para isso e aquilo. E, de fato, ele investe muito de seu tempo nos projetos que inventa, embora a maioria deles continue em teimoso estágio embrionário. Sempre me admirou seu impulso constante de realizar, que vinha a par com a cuidadosa produção artística.

Agora, de uma hora para outra, eis que todos os projetos, as boas idéias, se congelam. Sem aviso, sem explicação. O espírito incansável, de um golpe, sentiu o descompasso entre sua energia e a marcha lenta e certa do mundo ao redor. Estacou. Recolheu-se, em busca de uma nova digestão do que se passa em sua alma tumultuada. O que quer que seja, quer devolvê-la ao mundo na forma de uma poesia ainda mais intensa, mais perfeita, mais sua.

Como ele deixasse claro que a perspectiva de se alongar na questão o incomodava, achei por bem não provocar à toa seu sofrimento, e me despedi. Desde então, não tornei a vê-lo. Continua em sua busca. Para ser sincero, não consigo deixar de considerar que esse meu amigo tem uma queda pelo romantismo. É seduzido, creio, pela idéia do poeta que tem, como fonte de inspiração, algum nervo, alguma glândula escondida dentro de si próprio, lá no fundo, atingível apenas através de uma imersão irrestrita, fruto da vontade que só os artistas, esses mais-que-humanos, podem ter o desprendimento de desenvolver.

Não posso culpá-lo. É um ponto-de-vista que nos atrai quase naturalmente. Homero era cego, e via através das almas. Não é o que se diz? Tirésias, o adivinho, era igualmente cego. Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, tem um parágrafo inteiro sobre as desgraças de Édipo, que, ao final de todas as suas desgraças, tendo cometido os mais terríveis crimes, furado os olhos e amaldiçoado os filhos, tornou-se um semideus.

Meu amigo poeta não deixa de estar certo de querer manter-se por algum tempo recolhido à escuridão de suas próprias paredes. Apenas ele, o papel e a tinta. João Gilberto é um que fez algo parecido, mal comparando. Meteu-se em Diamantina sem avisar ninguém e voltou de lá, meses depois, com a batida da Bossa Nova. Mas voltou. Há quem não volte. De que adianta?

O que não pode ser esquecido por meu amigo na berlinda é que sua arte, como toda outra, é um diálogo com o resto da humanidade. Compreensível ou não, boa ou ruim, rasteira ou elaborada, é só no espaço público que a arte se realiza. Como, por sinal, qualquer outra atividade humana. Ele será artista na medida, e apenas na medida, em que se colocar perante um mundo povoado de gente como um indivíduo que faz arte e, mais do que fazê-la, está preparado para defendê-la.

É neste ponto que entra o outro lado da personalidade do poeta. Sua faceta realizadora, produtiva, constantemente ativa. O jovem poeta parece crer que é necessário amputar esse aspecto de seu ser para poder realçar e aperfeiçoar sua arte. Mas ele se esquece de que o artista é, antes de tudo, uma espécie de – e desculpe a imagem horrorosa – “bactéria espiritual”. A bactéria “material” é um bicho que não faz praticamente nada da vida. Só sintetiza as proteínas do meio e as transforma em mais bactéria. Ora, o que faz o artista, senão sintetizar o intangível que há dentro e fora de si, e transformá-lo em mais e mais arte? Não é o caso, para o poeta, de sufocar uma metade de seu espírito para soprar vida na metade oposta. Isso seria um empobrecimento. Seria um desperdício e uma mentira. Porque será só metendo a mão em sua alma como um todo que o poeta realizará sua arte como deseja.

Acredito que, após seu período de imersão na caverna, ele retornará. Retomará suas atividades com fôlego renovado. Exibirá ao mundo o resultado de suas meditações. Romperá as barreiras que encontrar na realidade, tão dura, que se apresentará. É uma questão de tempo.

Hominídeos de Kubrick e monstros do Rio

Postado em August 14, 2007
Categoria: Arte, Cinema, Filosofia, História, Política | 3 comentários

 Alguns meses atrás, quando assaltantes, sob o efeito das drogas e da nossa atávica incapacidade de ser uma nação, arrastaram um menino de seis anos por uma avenida da Zona Norte do Rio de Janeiro, meti-me numa discussão acerca da natureza humana ou, em outras palavras, da definição do humano. Foi um momento delicado do nosso “debate social”, em que não faltavam vozes a se alevantar pela pena de morte; não por causa do crime em si, deve-se frisar, o que seria uma decisão jurídica legítima, embora discutível. Mas porque, no dizer de nove entre dez “pessoas de bem” (autodenominadas) no país, esses monstros “não são gente”, ou seja, “são animais”.

Nem vou abordar a questão racial. É evidente que esses rapazes, descidos de um morro próximo ao local do crime, não eram “brancos”, ao contrário dos outros rapazes, descidos de um edifício de luxo na Barra, que deram “uns cascudos” numa senhora de classe inferior (não branca), porque a confundiram com uma prostituta (aí sim, não faria mal. Não é gente, merece morrer, certo?). Sei bem que poucas vozes se ergueram para condenar peremptoriamente esses garotos. Até ficaram com pena do pai, pobrezinho, que lavou as mãos da culpa de seu filho. Coisas do Brasil.

Mas o ponto que chama atenção é outro. A barbaridade dos criminosos foi tanta, que logo pensamos: “Seres humanos não fazem isso. Eles são inferiores. São monstros. São animais”. Descontada a natural confusão entre o que seres humanos fazem e o que eles deveriam fazer, o que resta é uma problema fundamental, para o qual todo mundo pensa ter sua resposta, mas, lamento, não tem. O que é a natureza humana?

A pergunta é, sim, um problema. Desde o princípio. Quando a formulamos, que tipo de resposta buscamos? Poderíamos traduzi-la como “O que o ser humano faria se jamais tivesse desenvolvido a civilização”? Ou como “O que está em nós que é apenas nosso, e de nenhum outro animal”? Ou ainda “o que é que, do nosso comportamento, não é determinado pela educação que recebemos ou o meio em que vivemos, mas pela pura e simples genética”? Ou seja, não sabemos nem mesmo o que queremos perguntar, quanto menos qual é a resposta.

A primeira abordagem à pergunta foi atacada com muito afinco por alguns pensadores que já se convencionou chamar de “naturais”, nos séculos XVII e XVIII, principalmente. A denominação caiu um pouco de uso, principalmente porque todo esse naturalismo nada mais era do que uma ferramenta metodológica. Thomas Hobbes dizia que a natureza humana era, digamos assim, má, e o homem do “Estado de Natureza”, antes de se unir em civilizações com leis, juízes e regentes, vive em estado constante de guerra. Todos contra todos. Já Rousseau (aquele que era um péssimo pai) considerava a natureza humana intrinsecamente boa, e a degeneração, origem de todas as guerras, começa a acontecer no mesmo instante em que nos afastamos da natureza. Quanto mais longe, pior. Cada um usou sua formulação para desenvolver seu sistema filosófico. Nenhum deles as via como uma realidade em si, mais ou menos como nenhum matemático pensa que um algarismo possa ser encontrado na natureza.

A terceira abordagem é a que empregamos, talvez sem saber, quando, confrontados com coisas (em geral negativas) como o egoísmo, a violência gratuita, a licenciosidade, a mesquinharia, dizemos para nós mesmos, enquanto meneamos a cabeça: “O ser humano é assim mesmo. Incorrigível. Não adianta querer mudar”. É, em geral, a expressão de um certo ceticismo imóvel. Ou, por outro lado, serve para justificar algumas atitudes que a ética costuma condenar.

Resta a segunda abordagem. Fora os carrões, os canhões e os vestidinhos em promoção, o que é próprio do homem? Próprio, eu disse? Perdão, quis dizer exclusivo. Que possamos fazer arte e compras, guerras e tratados, viagens e feijoadas, é efeito de algum atributo todo nosso, ou seja, uma diferença qualitativa com relação às outras espécies? Ou nosso cérebro é apenas maior?

É nesse ponto que entram os hominídeos de Kubrick, aqueles macacos de pêlo negro que aparecem no início de 2001 (Uma Odisséia no Espaço), atirando ossos para o alto ao som de Assim Falava Zarathustra, de Richard Strauss. Não, não estou dizendo que a diferença entre o homem e o animal é que nossos ancestrais, um dia, encontraram um monolito, tocaram nele e, daí por diante, tornaram-se gente. Mas é interessante observar a seqüência das cenas. Primeiro, um grupo procura comida em arbustos, disputando espaço com tamanduás inconvenientes, no meio da ossada de um ruminante morto há tempos. Em seguida, a única poça d’água do lugar começa a ser visada por um outro grupo de gente em disfarces peludos. O primeiro grupo, que acompanhávamos, é mais fraco e, sem que seja necessário um murro sequer, entrega o ouro ao inimigo.

No dia seguinte, após o fantástico evento, registrado pela história, do encontro com o monolito, um desses macacos vai passando seu tempo no meio da ossada, quando tem uma idéia (insight, diria um neurologista). Toma um daqueles ossos e descobre que pode esmigalhar os demais. Em seguida, apresenta a arma recém-descoberta aos colegas, que a adotam de imediato.

Eles, porém, ainda não têm confiança na nova condição. Quando o mesmo grupo do dia anterior resolve tomar água em sua poça, eles não partem imediatamente para o ataque. O líder, provavelmente o mesmo que fez a descoberta em primeiro lugar, avança lentamente, enquanto os demais guardam uma prudente distância. O que assumiu a vanguarda olha para trás com freqüência, desconfiado de que os colegas esperam a primeira oportunidade para desertar. Do outro lado, um dos inimigos, o mais bravo, resolve acabar logo com a palhaçada e avança poça adentro. O primata do osso recua. Tem medo. Mas, logo que o inimigo erra o golpe, ele lhe desfere uma ossada no crânio, que o derruba na hora. O vencedor demora para entender o que aconteceu. Afasta-se. Retorna em passos incertos. Desfere outro golpe. Não vendo reação, começa a dar um depois do outro, no frenesi do deslumbramento. Só então seus colegas se aproximam, com berros ameaçadores e mais cacetadas na massa inerte ao chão. Eis o marco inaugural da humanidade. O passo seguinte é HAL 9000.

O que essa cena nos diz sobre a natureza humana? Tudo. Podemos ver aí a coragem e a covardia, o medo, o companheirismo, o egoísmo, o altruísmo, a guerra, a formação de grupos e a rivalidade entre eles, a invenção, a disputa de território. Um etologista não faria melhor. Esse pessoal ainda não é bem humano. Podemos dizer que, hoje, as descobertas não são mais feitas no meio de ossadas, mas dentro de laboratórios. Podemos dizer que as guerras não se lutam mais pelo controle de poças d’água, mas poços de petróleo. Podemos mesmo dizer que a covardia é punida e dissimulada. E que as novas descobertas são testadas antes de serem postas em ação. Mas as atitudes, de maneira geral, estão presentes.

Isso responde uma parte das questões. Nosso comportamento, pelo visto, não seria lá muito diferente se jamais tivéssemos nos civilizado. Seria apenas menos codificado, talvez. Ou menos justificado, para usar uma palavra algo mais polêmica. Eis uma diferença fundamental: como seres humanos, podemos considerar a coragem boa e a covardia ruim. Podemos recompensar uma boa sacada e punir uma atitude que parece prejudicial ao coletivo. Podemos até alterar nossas noções de uma coletividade. Um dia, foram tribos de hominídeos com uma poça d’água. Depois, cidades. Países, nações, povos, religiões, times de futebol, sociedades secretas. A lista não tem fim. Alguns malucos, é assim que os chamamos, tentam mesmo imaginar uma humanidade em que esses grupos não precisem se formar, e o coletivo seja expandido para significar toda a espécie. Delírio? Utopia? Vai saber… Mas, quando damos de ombros e dizemos que o homem não muda, é possível que cometamos um excesso de rigor. Muda, sim. O tempo inteiro.

Resta uma última questão. Muita gente, sobretudo os neurologistas, estão convencidos de que tudo que a humanidade construiu em sua curta história, de que já conhecemos tão poucos episódios, é fruto de uma diferença meramente quantitativa nas capacidades cerebrais. Ou seja, não temos nada de particularmente diferente, somos apenas mais inteligentes. Ponto final. As evidências parecem demonstrar exatamente isso. Assim como macacos têm uma certa linguagem, apenas mais simples que a nossa; assim como eles também transmitem conhecimento, apenas não possuem estudos como os nossos; assim como são capazes de se sacrificar pelo grupo, como alguns de nós, as funções cerebrais que se ativam ou apagam são como versões simplificadas das nossas.

Perfeitamente. Porém, se olharmos do ponto de vista da resultante, teremos uma realidade totalmente diferente. Com as mesmas funções, apenas mais desenvolvidas, somos capazes de agir sobre o mundo de maneira qualitativamente diferente. Como, vá lá, Jimi Hendrix, que tinha tantos dedos quanto eu (mas era canhoto), fazia na guitarra coisas com que nunca sonhei; e não é só que ele tocasse “mais rápido” do que eu, como um Malmsteen da vida ou tantos de meus colegas. É que, com suas funções musicais mais desenvolvidas e seu empenho maior no aprendizado, o gênio desenvolveu uma forma de tocar qualitativamente diferente da minha, não só quantitativamente.

Ocorre o mesmo entre nós e os demais mamíferos superiores. Um chimpanzé é capaz de pintar um quadro, se alguém lhe ensinar como se tratam as cores e formas. Mas seu quadro não terá a mesma reflexão estética de um artista do calibre de Cézanne, por exemplo. Ainda assim, é capaz que o quadro do macaquinho saia melhor do que um quadro meu. Não é sempre que somos tão diferentes assim dos animais. Só quando exercemos, de fato, aquilo que temos de quantitativamente superior. Só quando refletimos, ou seja, usamos nossas capacidades intelectuais mais desenvolvidas para uma ação volitiva sobre o mundo. É a isso que damos o nome de razão, de que temos tanto orgulho, consideramos coisa nossa, e empregamos tão raramente.

Podemos voltar aos assaltantes do Rio de Janeiro. Em que são eles menos humanos do que o próximo? A crueldade não é novidade. Permeia toda a nossa história, e quem se interessa por esse tipo de assunto não vai ficar sem leitura de cabeceira. Reis, bispos e grandes empresários são capazes de atos tão nefastos quanto os dos jovens irresponsáveis da nossa vida urbana. A teoria da “não-humanidade” dos rapazes não se sustenta. Se quiserem executá-los, que seja por outro motivo.

Mas a “gente de bem” insiste em diferenciar-se dessa escória. Claro, faz sentido, pega mal. A diferença, a qualitativa, precisa se limitar às fronteiras da espécie humana. Se as crueldades que eu cometo são muito menores do que arrastar um menino inocente pelo cinto de segurança do carro de sua mãe, onde está a diferença? Quer uma opinião? Eu diria que é porque eu sou civilizado. Palavra mágica: civilizado. Já eles… não são. Certo?

E qual é o milagre que faz com que, de duas pessoas nascidas no mesmo país, aliás na mesma cidade, uma seja civilizada, e a outra, não? Eis a pergunta que se deveria perguntar, e não se essas pessoas “não são humanas”. Mas é uma pergunta difícil para nossa sociedade, que não vai querer se enrolar com ela. Se, afinal, em pleno século XXI, o toque milagroso da civilização não consegue chegar a tantos membros de um mesmo povo, de um mesmo país, é porque há alguma coisa muito errada. Digo mais: só quando nos convencermos de que isso é um problema muito, muito grave, é que poderemos sair à rua sem medo de levar um tiro.

Por quem esses suspiros?

Postado em August 6, 2007
Categoria: Arte, Filosofia, História, Política | 11 comentários

Você me disse, uma vez, que nasceu na década errada. Que nossa época não tem a menor graça e nada de extraordinário acontece. Você torce o nariz quando faço menção à tal Web 2.0, aos blogs, à comunicação instantânea através do globo terrestre. MP3, você diz, lhe dá sono. Fim dos discos? Fim do papel? E daí? Não é possível enfiar na sua cabeça que tudo isso represente mesmo alguma mudança no mundo. Tanta novidade, e você chama de bagatela. Mas se vira com elas com a maior facilidade, escreve para o mundo todo, com a convicção sincera de que alguém vai ler. E não se importa se acusarem um toque de hipocrisia.

Ah, você suspira, que bom seria, ter sido jovem nos anos 60. Participar das manifestações, experimentar as drogas quando ainda se achava que elas libertariam a humanidade, crer nas utopias malgrado o nome que carregam. Eram um tempo extraordinário, você diz, com os olhos pregados nas estrelas. Depois daqueles anos loucos, o mundo jamais seria o mesmo. Alguns de seus maiores heróis pagaram caro para revolucionar nossas vidas. Que honra teria sido, não?, morrer pelas causas e pelo experimentalismo, ser um Jimi Hendrix, um Martin Luther King, um Syd Barrett, um Jan Palach, uma Janis Joplin, um Che Guevara, um Jim Morrison, um sorbonnard enragé! Que tédio, passar os dias a reclamar de Lula e Bush…

Entendo sua paixão pelo passado. Eu mesmo já prestei intermináveis reverências a essa década tão cheia de lendas fantásticas e trágicas. Já fui um beatlemaníaco, eu também. Você tem razão quando diz que são dez anos que concentram tanto movimento da história quanto alguns séculos anteriores. Cada louvação sua, para o tanto que se experimentou, o tanto que se descobriu, as loucuras que se cometeram, são justificadas. É tudo verdade.

Antes da década de 60, o que havia? Os anos 50, subúrbios de Nelson Rodrigues, donas-de-casa exemplares, colégios internos, adultérios e funcionários engravatados. De repente, uma bomba. O ácido lisérgico. “A pílula”, que, de tão impactante, dispensa qualificativos. A minissaia, o biquíni, John Lennon e Mick Jagger, Godard e Bergman. A overdose, os estudantes nas ruas, trotskismo, maoísmo, panteras negras, paz e amor. Era nesse meio que você queria viver. Comparecer a Woodstock, ao concerto dos Rolling Stones em que os Hell’s Angels de Nova York roubaram a cena. Quebrar vidraças em Nanterre e fugir da cavalaria na Cinelândia. Entendo que você ache nossa vida, hoje, muito sem graça.

Sob que signo nasceram, pois, os anos 70, depois do furacão que varreu o decênio anterior? O de Pink Floyd, Led Zeppelin, Nixon e Brejnev. Não havia mais Beatles, o homem dava seus pulinhos na lua, o casamento e a igreja pareciam ter se tornado coisa do passado. Parecia outro planeta. Pouco a pouco, o espírito libertário foi se apagando, bem como a vontade de experimentar e descobrir coisas novas, na vida como na arte. O cinema de autor foi morrendo, o rock cedeu seu lugar ao pop. Malevich, Pollock e Warhol foram suplantados pelos departamentos de criação das agências de publicidade. A juventude cansou-se de si mesma e travestiu-se em yuppies.

A libertação que as drogas pareciam trazer transformou-se em vício sem sentido. É uma vitória, de certa forma. Já somos tão livres quanto os narcóticos podem nos deixar. Daí por diante, só resta o auto-consumo, o tráfico, a dependência. Não há mais nada que as drogas possam nos trazer, como naqueles tempos, de grandioso e revolucionário. E, no entanto, estão aí, e não conseguimos nos libertar delas, elas que um dia vieram para nos libertar.

A tal ponto as mudanças foram incorporadas, que parece mentira que os dois vídeos abaixo tenham sido realizados com cinco anos de diferença. O primeiro é de 1962. O segundo, de 1967. Ambos representam o que de mais transgressor e moderno havia em seu tempo. Até mesmo a postura do músico, crítico e apresentador improvisado Hans Keller, no segundo programa, seria impensável nos tempos de hoje, com sua opinião exposta sem rodeios e a agressividade das perguntas e assertivas. O entrevistador contemporâneo contemporiza. Ou, ao contrário, perde a linha e metralha acusações e palavrões a esmo. A comparação é fantástica.


(Aqui deveriam ter entrado dois vídeos do Youtube, mas parece que o WordPress não gosta. Então vou ter que deixar os links, mesmo. Azar. Eis o primeiro. E o segundo.)

Será essa aparente frieza moderna que leva seu coração a bater pelos tempos passados? A sua nostalgia é construída em cima de imagens? Ou mitos? Você ousa imaginar como todos aqueles anos foram tempos em que pessoas viviam, morriam, tinham filhos, estudavam e trabalhavam? Parece outro planeta. Você, que só tinha coragem de perder aulas na faculdade se fosse para jogar truco, agüentaria viver entre os hippies, entre as lombrigas e os problemas de grana? Ou passaria suas tardes diante da televisão, cabelos desgrenhados e chinelo de dedo, acompanhando as jogadas estonteantes de Pelé e Flávio Minuano? Você atiraria coquetéis molotov contra as tropas de Castello Branco? Ou voltaria para casa aos prantos, depois da primeira bad trip?

Acreditava-se em tanta coisa, naquele tempo. Tudo isso, para nós, soa tão ingênuo! Então é possível que a humanidade viva de amor? Se nos disserem isso, hoje, riremos. É possível encontrar valores mais nobres do que o lucro? Que idéia! Paul McCartney, com sua cara de bom moço, como é possível que ele tenha levado tantas garotas a desobedecer aos pais? Metido naquela gravata apertada, ele foi causa de uma revolução nos costumes?

No entanto, foi esse tempo cheio de uma fé que podemos apontar como infantil que, com a coragem de cortar na própria carne, enterrou em definitivo os códigos rígidos das décadas anteriores, o patriarcalismo, o chauvinismo, o fascismo nosso de cada dia. A história estabelece como fim da Antigüidade o ano de 476, quando as hordas bárbaras saquearam Roma. Por que não dizer que a Modernidade terminou em 1968, quando as hordas de estudantes tomaram as ruas de Paris, Praga e, por que não, Rio de Janeiro?

Quanto a você, que está quase se entregando às lágrimas, só de ver as imagens dos Beatles e do Pink Floyd, relembrando as sublevações políticas, lamentando a mesquinharia deste nosso início de século, que posso dizer? A luta não é a mesma, porque o inimigo também mudou. Foi derrubado por nossos pais, em cujo lugar você gostaria de estar, embora os menospreze dia sim, dia não. Resta como verdade que ainda temos muita guerra a lutar, com as armas que nos são disponíveis. Veja só que triste ironia: tomar para si os valores do passado faz de você nada mais do que uma ponta-de-lança do conservadorismo.

* * *

PS: Esta postagem não significa que abandonei a série sobre Estética e a explicação no mundo. É só uma pausa.

De como a estética explica o mundo. Parte II: Política

Postado em July 29, 2007
Categoria: Arte, Filosofia, Política, Viagem | 2 comentários

 Missão ingrata, essa em que me meti. Dizer que, até mesmo na política, a dimensão estetizante da mente humana tem um papel fundamental! E, mais grave ainda, dando como exemplo mais visitas a igrejas italianas, como na primeira parte da série. Mas não posso voltar atrás na opinião, nem na determinação. Fica, então, decretado que, sim, mesmo no universo sanguinolento e fétido da política, talhado à perfeição para a pena de Maquiavel, as funções de abstração e representação que carregamos na cabeça desempenham um papel preponderante. Pretendo demonstrá-lo, mas não sem, no meio do caminho, dar umas alfinetadas na Itália.

O último texto narra a visita a uma graciosa, embora desconhecida, igreja de Turim. Mas bem poderia ter sido a história de uma igreja de São Cosme e Damião, perdida numa praça de Gênova, minúscula, medieval, escura, com suas colunas cilíndricas pintadas em listras verdes e brancas, as paredes de pedra úmida e, como toque final, dois garotos sentados eu seus degraus a fazer tocar um hip-hop de tintas árabes, para toda a cidade ouvir. Cada um desses templos, pela forma como é construído, certamente causava sobre os fiéis seus contemporâneos um impacto bem peculiar, e compunha em sua percepção uma idéia de divino inseparável de todas as demais particularidades do tempo, e que não podemos compreender senão através de reconstituições voluntariosas, mas inanimadas.

A particularidade que queremos atacar neste texto, como já anunciado, é a boa e velha política, aquele tal assunto interminável. E, se na Parte I fiz o elogio às igrejas obscuras, terei de usar, como exemplo da Parte II, a crítica aos templos nababescos. O primeiro deles é o mais antigo: o Duomo de Pisa, do século XII, cuja fama é ofuscada pelo seu campanário inclinado, não à toa um dos símbolos maiores da Itália, um país em que as coisas têm mesmo uma certa dificuldade em se manter retas. O segundo é a fantástica basílica Santa Maria dei Fiori, em Florença, cuja arquitetura tem o dedo de alguns rapazes muito talentosos, quais sejam, Giotto, Bruneleschi, Michelangelo. Mas que não pode ser devidamente contemplada, porque os italianos, esses reis da elegância, fizeram questão de cercá-la e enfeitá-la com avenidas engarrafadas, lojas de bugigangas e o que mais puder favorecer o desconforto, em detrimento da arte e de quem tem prazer em sorver a grandeza que a humanidade um dia teve. A terceira e, prometo, última, é nada menos do que a Basílica de São Pedro, que, na condição de sede do papado, não fica na Itália, mas, pela papelada espalhada pelo chão, bem se vê qual é o povo que a administra. A partir dessas três construções de fama bem merecida, posso ficar livre para falar do que mais puder me servir para fortalecer meu ponto.

A catedral de Pisa é o exemplo mais luminoso do estilo românico, aquele verdadeiro balaio de gatos que serve para incluir qualquer coisa mais elaborada feita antes do período gótico. As igrejas românicas, de todos os formatos e cores, costumam ter como característica comum o fato de serem bem menores do que suas sucessoras imponentes do século XIII. O domo de Pisa é uma exceção. Titânica e imponente, faria desaparecer sua torre, pequena mas muito bonita, não fosse a teimosia desta última em se manter inclinada. Não resta dúvida de que o príncipe, duque, cardeal ou seja lá qual for o título, que mandou erigir esse monumento (em vez de montar um forte exército para defender a cidade) não era qualquer fidalgo sem meios. A fachada é tomada por esculturas de santos e pelos padrões de mármore trabalhados com esmero, e vale talvez mais a pena do que a visita ao interior, que, por sinal, custa dois suados euros.

A basílica florentina dispensa apresentações. Sua cúpula magnífica faz o indivíduo se sentir desprezível, para não dizer nulo. Pode ser vista de quase qualquer ponto dessa cidade quase sinônima do Renascimento, a sede do poder dos Medicis e dos Pitti, berço de gênios que praticamente inauguraram a era moderna. A catedral foi construída, como todas as suas irmãs, ao longo de muitos séculos, enquanto os poderosos da cidade, da república à ditadura, estendiam o poder de suas famílias sobre as vizinhas, como Siena e Pisa. O palácio e a galeria Uffizi (administração, digamos assim), o palácio Pitti e outros monumentos da cidade datam do mesmo período.

Quanto à Basílica de São Pedro, com sua praça homônima e o túmulo suposto do dito cujo santo, é a obra-prima do barroco italiano, e seu ponto alto é o altar de colunas retorcidas, assinado, naturalmente, por Bernini. (Roma Bernini ha fatta, ensina o dito.) São espaços intermináveis, calculados para as multidões, aglomerações humanas ainda maiores do que essas que, ainda hoje, tomam a praça São Pedro à espera das Urbi et Orbi da vida. Muito mais do que o lar dos papas, hoje reduzido ao Vaticano (uma meia-dúzia de basílicas, um jardim enorme, um conjunto inigualável de museus onde o visitante é tratado como um boi na fila do abatedouro), a catedral foi, durante séculos, o coração dos chamados “Estados papais”. Maiores ou menores, através da história, esses Estados tomaram sempre um naco importante da península italiana e comandaram exércitos que mereciam o respeito dos demais reinos europeus (mas nem sempre). Os papas eram fortes, ricos e poderosos, e sua principal igreja não permite nenhuma dúvida a respeito.

Chega de digressões! Vamos à questão: o que têm em comum os três templos, além da beleza, do fausto e das dimensões? Por uma, buscam todas expressar a grandiosidade de uma religião que, imaginava-se, estava alçada acima de todos os valores seculares. (Basta comparar com as outras igrejas que descrevi, as de Turim e Gênova.) Por outra, elas ajudam a entender como, no fundo, não há poder religioso: todo poder é secular, ainda que exercido por uma autoridade espiritual e atuando sobre o contato dos súditos e fiéis com a transcendência, essa tal. Finalmente, podemos ver que tanto um poder quanto o outro se manifestam sobre a realidade humana, em seu quotidiano como em sua mente, através de uma apresentação e de impressões que, como sabemos, dialogam com nosso incensado senso estético.

O que chegou até nós, da disputa entre as cidades européias, e em particular as italianas, pela riqueza de suas igrejas, pela altura de suas torres, pelo brilho do ouro, das esculturas e dos afrescos? Apenas a imagem de um desenvolvimento assombroso das artes e da arquitetura, que contemplamos e estudamos com admiração e uma certa nostalgia. Mas, enquanto os operários miseráveis empilhavam, ao custo de não poucas vidas, os blocos de mármore de Carrara, o esforço tinha um significado que ia além do zelo religioso. Os imensos espaços em forma de cruz, com curvaturas perfeitas para amplificar o som das homilias e dos corais, as colunas sólidas e intermináveis, os círios grossos como árvores, convidam menos ao contato com o divino (que, segundo Sto. Agostinho, é feito olhando para dentro) do que à celebração das glórias dos vivos, dos poderosos, dos príncipes, do Estado.

Mas quando falamos em política, é normal formarmos na mente a figura de um mundo distante, onde se embatem partidos e caciques, em busca de uma entidade algo quimérica a que damos o nome retumbante de “poder”. Os retratos que nos vêm são daqueles engravatados sem escrúpulos, revolucionários ingênuos ou, de um ponto-de-vista mais histórico, nobres dados a intrigas na corte de reis corruptos ou guerreiros. Com isso, deixamos de considerar que a política nada mais é, na origem, do que a concretização, sobre a Terra empírica, do fato de que nós, seres humanos, não vivemos isolados. A partir do momento em que se formam coletivos e comunidades, a dimensão de nossa vida se torna política. Ainda que a rejeitemos, como sugeriu Brecht em um de seus tantos poemas políticos. Em diferentes estados da organização da vida coletiva do homem, sua realidade política tomará diferentes formatos. Nos primeiros livros da República de Platão, talvez o mais antigo texto político que chegou a nós, descreve-se com minúcia a formação de uma cidade. É fantástico, e nos serve perfeitamente como exemplo.

Assim como existe uma psicologia do coletivo, para não dizer das massas, também faz todo sentido falar em senso estético coletivo. Afinal, é, por assim dizer, um fenômeno psicológico. Cada momento político desagua em uma configuração estética que lhe é correspondente, conforme a visão de mundo que cada geração constrói para si mesma e as seguintes. Observe como, ao longo da história, as ondulações do equilíbrio de poder nas sociedades sempre implicaram, simultaneamente, variações na indumentária, na arquitetura, nos estilos artísticos e no chamado “bom falar”. Alguns momentos são simbólicos: a corte de Luís XIV, em que gravitavam Molière, Poussin e Lully, entre tantos outros; o modo de vida dos movimentos totalitários, sobretudo o nazismo, com sua arte rígida e seus códigos de conduta, ao qual se contrapunham tantos movimentos libertários, abstratos e sedentos de liberdade; a bossa-nova dos tempos de Juscelino, auge e início da derrocada do Brasil republicano; o realismo socialista, misto de arte e propaganda política.

A maneira como configuramos o mundo é tão representativa, no sentido em que usei a palavra na Parte I, quanto a forma como estabelecemos nossa espiritualidade. E, dentro desse mundo que nos representamos, uma esfera quase inescapável é a da política, onde nossas sensibilidades e racionalidades se entrecruzam para formar a totalidade de um universo sincrônico. Nessa mesma grande massa de opiniões e ideais insere-se a rejeição que muitas vezes manifestamos em relação à política: ela também ajuda a configurar a realidade política que, em seguida, iremos rejeitar, amargos e desiludidos, em um círculo vicioso que perpetua a própria situação de momento que um dia quisemos ignorar. Mas, naturalmente, nem mesmo esse ciclo se perpetua indefinidamente: com as condições, as idéias e as vontades, muda-se a realidade.

E, se não existe poder espiritual, é por um motivo muito simples: o poder se exerce sobre vidas, não sobre espíritos, ainda que o espírito seja um meio de influência de primeira grandeza para atingir as vidas. O espírito, como sede principal da nossa capacidade de abstração e representação, serve aos que exercem o poder como centro nervoso da dominação. Pode ser presidente, ditador, príncipe ou cardeal. Um palácio existe para fechar o círculo do poder sobre aqueles que devem se submeter a ele.

De tal maneira que, quando compreendemos o quanto todos esses conceitos, que aplicamos ao mundo que nos cerca, se resumem em manifestações de nossa própria capacidade de abstração e representação, podemos estimar, igualmente, o quanto nosso contexto depende da postura que tomamos em relação a ele. Ou seja, mesmo que nos sintamos dominados pelo mundo exterior, temos algum papel em sua formação e, por conseguinte, em sua transformação. É algo a se pensar.

*

Se não estiverem cansados demais, a série “A estética explica o mundo” continuará nas próximas postagens, mas não me arrisco a dizer com qual tema.

De como a estética explica o mundo. Parte I: Teologia

Postado em July 15, 2007
Categoria: Arte, Filosofia, Viagem | 8 comentários

 Acordamos cedo em Turim; às oito, já estávamos na rua, descendo em direção ao centro. Como sabíamos que nada estaria aberto, tomamos a única decisão possível. Apenas circular, quase sem rumo, por entre as varandas e sacadas. Foi uma atitude sábia. As avenidas são agradáveis, a arquitetura é bela, a cidade vale a pena. Não demoramos a nos deparar com uma igreja; é claro, estamos na Itália. A fachada é barroca, mármore branco em colunas coríntias e volutas harmoniosas. Não é uma catedral famosa, mas temos tempo de sobra. Entramos.

Está vazia. Apenas os compridos bancos de madeira fazem suas orações, voltadas para um altar enfeitado de candelabros dourados, atrás do qual agoniza um Cristo Crucificado de pedra-sabão. É uma escultura dessas que só existem na Itália, retorcida, detalhada, cada ferida aberta, cada lágrima que escorre, executada com esmero. A despeito das cores claras, a atmosfera é morna e umbrosa como se espera de um local de recolhimento. Mas não chega a ser escura, como nas igrejas medievais. Mesmo que não houvesse a luz vermelha acesa, seria possível identificar um ponto em que o mundo sai do eixo e volta os olhos para si mesmo.

Sou relapso, não anotei o nome do templo. Não é, como eu disse, a igreja mais famosa de Turim; não é a Basílica de Superga, pendurada entre os pinheiros dos Alpes, nem a capela que abriga o famigerado Santo Sudário. Posso até acabar descobrindo que se trata de uma igreja anônima, única no mundo, ou a igreja do “santo desconhecido”. Pouco importa. Ela suscitou em mim pensamentos que me incentivaram a dar início a esta reflexão.

Pois então, a estética explica o mundo? E eu, que pensei que o universo fosse inapreensível e inexplicável! Se somos prisioneiros do tempo e do espaço, se estamos abaixo dessas dimensões, isto é, dentro delas, e reféns de nossas categorias tão parcas, como podemos dar ordem e sentido à realidade? Se ela não cabe nas fronteiras da nossa percepção! Como discorrer, além de tempo e espaço, sobre aquilo que engloba e é berço do que ousamos chamar de dimensões?

Mas é justamente o que vimos fazendo há milênios; é nisso que aplicamos o que temos de mais poderoso, sublime e trágico: nossa imaginação insaciável e rebelde, que se desdobra em razão e arte, mas está, resistente e imaterial que seja, sempre fadada ao insucesso. Nós, com o impulso fabuloso da vontade, e nossas teologias, físicas, astronomias, ontologias e poesias, alcançando com os braços os mistérios das esferas, mas morrendo no caminho por falta de oxigênio, para semear, no chão árido da existência que nos é dado sentir, as sementes do engenho, da indústria e dos artifícios.

É impossível esconder, nesses parágrafos, o eco do pensamento de Kant, o mais sensato dos gênios, que derrubou as torres babélicas da metafísica e da teologia pedantes, aquelas que ambicionavam o absoluto, na tentativa de desenhar o rosto de Deus e fundi-lo a nosso crânio. É verdade. Immanuel Kant arrancou aos doutos a prerrogativa de enquadrar o mundo em fórmulas e silogismos, no desespero de saber o que somos e o que podemos saber.

Mas, em seu lugar, o sábio alemão pergunta: o que devo fazer? E assenta a metafísica sobre as bases da moral (não aquela dos colégios de padre, bem entendido). Kant não era nenhum ingênuo. Sabia que a humanidade não se contenta em viver. Somos uma espécie que precisa ir além de si mesma. Somos a espécie que reconhece a beleza e conhece o horror. “Há muitas coisas maravilhosas sobre a Terra, mas, de todas elas, nenhuma é mais maravilhosa do que o homem”, dizem os versos de Sófocles, na voz do coro, em Antígona. Mas a palavra grega (dêinon) que se traduz por “maravilhoso” também se pode traduzir por “terrível” ou “assustador”. O homem é maravilhoso e terrível: nada menos humano do que a passividade bovina.

O que nos leva para além de nós mesmos, e com isso nos concede nossa humanidade, é o funcionamento único da nossa mente, capaz de abstrair (árvore, em vez de “esta árvore”), representar (uma figura de mulher, e não uma mancha de tinta na parede da caverna) e, principalmente, revirar-se sobre si mesma como se para se olhar de fora (ou seja, refletir). É graças a esse detalhe assustador que nossos instintos são mais do que instintos: nossa agressividade é guerra, nossa libido é paixão, nosso sonho é arte, nossa dúvida é questão. E é por isso que a natureza humana é indeterminável; nossa história e nosso cotidiano são coordenados há tantos séculos pela guerra, pela paixão, pela arte, pelas questões, que já perdeu a importância o que há de agressividade, libido, sonho e dúvida por baixo. Seja o que for a nossa natureza, ela é aquilo que, em nós, não é particularmente humano, e por isso não serve para definir a dita “natureza humana”.

O mundo que queremos explicar de tantas maneiras diferentes, pela ciência, pela religião, pela arte, tem sua existência independente de nós e de como o vemos. Quer dizer, estou convencido de que deve ter; como eu poderia afirmar? Como quer que seja a existência que tem esse mundo, nós só acedemos a ele através de nossa própria mente, essa que abstrai, reflete e representa. “Não há nada em nossa inteligência que não passe antes pela percepção”, sentenciou o velho Aristóteles, com que cerram fileiras os empíricos britânicos: Locke, Hume, Hutcheson. Ao que poderia acrescentar, num movimento crítico, Leibniz: “A não ser a própria inteligência”. E Merleau-Ponty: “e a não ser a própria percepção”.

Nossos sentidos, nossa percepção, sorvem o mundo com o apetite de um Pantagruel. O que são os sinais que recebemos do exterior? Luzes, freqüências de vibrações, partículas, raios? Podem ser o que forem, o fato é que, dentro de nossa mente, são digeridos e transformados em imagens, idéias, palavras. E nós, terríveis e maravilhosos, só podemos nadar nesse mar, entre as ondas e os ventos das imagens, idéias, palavras. É terrível, é fascinante, é inescapável: toda nossa vida, com nossa ciência e nossa política, se encerra no universo restrito de um mundo que vai além do que podemos decifrar.

É nesse sentido que invoco o espírito estético que explicará, de seu jeito bem particular, o mundo. Não me refiro à estética que, diante de formas harmoniosas, as julgará belas, nem aquela que, perturbada, exclamará: é sublime. Penso no espírito intrinsecamente estético do ser humano, daquilo que une o belo, o sublime e todos os demais conceitos ligados à idéia de arte. É a capacidade que temos de manipular esse estranho universo de nossas percepções, abstrações e representações; de retorcê-lo, esquadrinhá-lo, atravessar heroicamente as sinuosidades da existência real, ou seja, os buracos de nosso poder de traduzir o mundo externo, tão limitado que é. A estética baila por suas falhas e seu incompreensível. Explica o mundo porque não dá explicações, não desenvolve paradigmas e dogmas, como a ciência e a tecnologia, para ordenar o que já é percebido.

Finalmente, voltemos à igreja de Turim. A solidez das colunas, a claridade da cúpula, o alvor do linho no altar, como contrasta, tudo isso, com a cidade! O templo, construído em louvor a Deus, traduz a sensação que o homem tem do sagrado. Pisar naquele espaço é deixar para trás a crueza das ruas, o estridor da economia, a dimensão claustrofóbica das moradias. No século XVII, quando foi construída, um grande sacrifício foi realizado para colocar ali aquela estrutura em pedras nobres, com obras de arte e um capricho detalhista, que um arquiteto da época não dispensaria a qualquer construção.

Era um tempo de soldados, cavalos e peste, invernos rigorosos com lenha racionada, comida conservada no sal. Não havia água corrente, nem grandes distrações para uma população majoritariamente iletrada. Música só se produzia quando alguém tomava um instrumento e o fazia produzir sons; alguém que tivesse estudado em conservatório, o que era raro. Era um dia-a-dia duro, aquele ao qual se contrapôs a pequena igreja, com suas liturgias, o eco de suas paredes e o brilho de suas velas.

Digo isso para explicitar como, dentro de um ambiente como esse, o sagrado se constrói sozinho. A questão da existência ou inexistência de Deus se torna irrelevante. A divindade prescinde dos deuses. Estará igualmente presente naquele espaço, ainda que o mais rígido materialismo tenha a razão. Basta, para sentir-se um mortal perante a imortalidade, um pouco de senso estético. É como se aquela sólida construção flutuasse entre a Terra e os Céus, em vez de se estar fixa sobre o chão do Piemonte.

Quando já íamos saindo, nossa marcha foi interrompida. Cheguei a acreditar, mas não era um anjo soprando a trombeta do Apocalipse. Era um músico que, do alto do mezanino, praticava sua arte, como todo dia, de calças jeans e camiseta branca. Ao órgão, executava as primeiras notas de uma peça de Bach. Ainda assim, por efeito dos sons que vibravam pelos tubos, as colunas dobravam-se, como em reverência. Os bancos se ajoelharam, o batistério baixou os olhos. Por um instante, senti como se Deus, Ele mesmo, tivesse irrompido pela porta, reclamando sua morada. Fiquei lívido. Saí do albergue para fazer turismo, e de repente estava em contato com o inominável. Naquele instante, quase me converti. Parece-me que, se o arquiteto daquela igreja ajuda a explicar a noção de sagrado, Bach vai além. Sedicioso, armado de seus cânones e fugas, instila na mais inocente das mentes a certeza do divino. Maravilhosa, terrível, a estética.

*

Espero dar continuidade a essa reflexão com a parte II: política. Ou “De como todo poder é secular.”

PS: Tentei colocar todos os links em português, mas houve alguns em que não foi possível, seja porque não havia link algum, seja porque estava dizendo bobagem, seja porque estava muito mal escrito.

A escrita e suas fórmulas

Postado em July 8, 2007
Categoria: Literatura | 17 comentários

Boa notícia! Todo mundo quer escrever bem. Nunca vi tanto anúncio de oficinas literárias, manuais de estilo, dicas de redação. Melhor dizendo: todo mundo quer ser bom escritor. Fica difícil acreditar que vivemos numa era de escassos leitores. Ou será que, sendo tão poucos os leitores, querem todos, também, escrever?

Se for assim, não é à toa que a multidão de autores não consiga ser lido. (E eis que retornamos ao ciclo do público parco…) A não ser, claro, quando se entregam a medidas extremas de autopromoção, que vão desde a atitude calculadamente rebelde até o puro desespero. Às vezes, até, numa mesma pessoa.

Não é difícil encontrar exemplos do primeiro lado; basta ler as entrevistas e os posts da gente de letras e dos aspirantes a autor. Fechando os olhos, consigo até enxergar a pose desses bravos literatos, cigarro entre os dedos e copo de cerveja/uísque sobre a mesa de bar/centro. É o próprio retrato, inconfundível, da inteligência independente e espirituosa (witty, diriam os vitorianos). As declarações, no mais das vezes, resumem-se a tiradas que competem entre si em acidez, ataques frontais a algum autor, qualquer um, de renome maior, e a enorme coragem de não gostar de nada, absolutamente nada que qualquer outra pessoa tenha feito, por um motivo ou por outro. É dura, a lei da selva. Quem não consegue criar para si uma reputação de polemista não pode sonhar em virar best-seller.

O extremo oposto, e repito que a mesma pessoa pode oscilar entre ambos, quem navega pela internet ou lê jornais já conhece muito bem: entre poemas enviados diariamente, vendas casadas, publicações de trechos, enfim, uma miríade de iniciativas, a concretização do “leia-me pelo amor de Deus”, que dá um trabalho enorme, se reinventa a cada dia. É natural. O autor sem editora ou agente (ou seja, no Brasil, todo mundo que não é Paulo Coelho) precisa ser seu próprio departamento de marketing.

O resultado é digno de Fellini e de Rabelais ao mesmo tempo: um estranho universo em que todos os leitores, ou quase todos, são escritores; todos imploram a todos por uma mísera leitura; ninguém lê o que os demais escrevem, porque estão ocupados escrevendo, implorando para ser lidos ou espinafrando os escritos alheios, que não leram; e, finalmente, em que pese a ausência da leitura, todos falam mal e ridicularizam o que os colegas escreveram. Cá entre nós, é um mundo divertidíssimo para se olhar de fora, talvez até com um balde de pipoca no colo. Mas deve ser terrível, terrível, tomar parte nesse circo.

Não só por isso, é claro. Imagino que seja péssimo para a saúde mental de alguém o paradoxo, aliás inescapável, do escritor deste início de século. O impasse pode se exprimir em dois mandamentos básicos. Primeiro: “Sê anti-convencional, ou não serás ninguém!” Segundo: “Sê convencional, ou não serás ninguém!” É dura, a vida do artista. E do escritor, em particular. Bem se vê que o cigarro e o uísque/cerveja são plenamente justificáveis. O prozac e a heroína, mais ainda.

Aprofundemos. O primeiro mandamento, em linhas gerais, diz o seguinte. Um livro, seja um romance, uma coletânea de contos ou de novelas, ou seja o que for, se não puser em cena o submundo, os vícios sexuais, as drogas pesadas, o crime, a miséria, o dito underground (não estou falando do metrô de Londres), não interessa. É burguês e quadrado, ainda que o autor seja um burguês de quatro costados, e embora só mesmo a burguesia quadrada ainda cultive a curiosidade mórbida pela “infelicidade dos infelizes”. Desenvolvendo ainda mais, podemos derivar o seguinte corolário: “Somente os epígonos de Plínio Marcos terão seu lugar ao sol”. Ainda que não passem de epígonos.

Quanto ao segundo mandamento, eis a sua tradução. Como eu disse no primeiro parágrafo, o que não falta, hoje, é gente tentando ensinar aos outros como se deve escrever. O experimentalismo pós-moderno do século XX já ficou definitivamente para trás, e alguém que quisesse publicar em nossos dias um PanAmérica (José Agripino de Paula, 1967), por exemplo, ficaria o resto da vida com a gaveta ocupada. Mas nem por isso podemos dizer que o pós-modernismo sumiu sem deixar traço. Ai de quem, trovejam os manuais e professores, não encontrar seu pequeno nicho de originalidade, não contribuir da maneira que puder para a evolução da arte narrativa, não investigar a fundo os problemas do espaço e do tempo, como um Henri Bergson sem doutorado.

Não serás um escritor sem esses atributos, meu filho! Se Virginia Woolf colocou um cachorro na posição de narrador de um romance, você não pode fazer por menos. Sê criativo, de certa forma: uma casa tem ácaros, tubulações, eletrodomésticos. Usa tua imaginação, autor do futuro! E mais: toda e qualquer forma de representação do tempo, cronológico ou psicológico, real ou imaginário, já foi explorada à exaustão. Pior para ti. Se quiseres escapar à obscuridade, só o que te resta é estabelecer o não-tempo, o anti-tempo, o semi-tempo ou coisa que o valha. Boa sorte. A propósito, obras de fumos filosóficos, nem pensar. Não precisamos de um novo Proust ou Sartre!

É, eu não gostaria de estar na pele de quem se lança a um desafio dessa monta. Talvez tudo fosse mais fácil quando cada um fazia suas experimentações como lhe aprouvesse, tendo que enfrentar apenas os críticos, não a tutela dos mestres da originalidade, como nos tempos de Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Nada mais triste, por exemplo, do que a cena de que participei há alguns dias. Um amigo veio ter comigo, os olhos brilhando, e declamou dois preceitos quase cabalísticos: “Entre tarde nas cenas, e saia cedo!”; e “Seu leitor não tem tempo a perder!”.

Na primeira frase, reconheci imediatamente a voz anasalada do americano Syd Field, o pasteurizador de roteiros, um dos responsáveis pela monotonia do cinema americano atual. Na segunda, não reconheci nada, mas foi impossível ficar surpreso com a revelação de que vinha de um manual de redação traduzido do inglês (dos EUA, bem entendido). Pela lógica do autor, o sujeito que compra livros de ficção e interrompe sua vida quotidiana para lê-los não tem tempo a perder. Ele precisa largar logo o livro para poder voltar a investir na Bolsa, que é o que preferia estar fazendo em primeiro lugar, se uma força oculta inexplicável não tivesse colocado diante de seus olhos as frases nada sucintas de uma Montanha Mágica, que nosso leitor-investidor não tem tempo de ler, mas não consegue largar.

São os mistérios da literatura. Mas não consigo deixar de crer que criatividade não se ensina; estilo, muito menos. Ainda sou da opinião de que há outras possibilidades de personagens interessantes além do sujeito drogado que quer se matar e da prostituta que se envolve em assassinatos. Estou certo de que a opinião de Fulano de Tal, futuro gênio de nossas Letras, sobre Sicrano Daquilo Outro, que acaba de publicar seus contos, é problema dele, não meu. E, sobretudo, admito que tenho muito tempo a perder. Se não tivesse, estaria batendo ponto todo dia no escritório, em vez de ficar lendo histórias bem escritas e atualizando blogs. Ô, coisa mais besta.

Reduzidos ao mínimo

Postado em July 3, 2007
Categoria: Uncategorized | 2 comentários

 Esta deveria ser a primeira reflexão sobre minha viagem à Itália. Mas, por força das circunstâncias, tive que inverter a ordem das prioridades. Em vez dos elogios e, sobretudo, críticas à península, reservo o dia para uma elegia fúnebre. Neste texto, pois, triste, triste, deponho minha coroa de flores perante o mausoléu de NoMínimo.

É um truísmo, creio, dizer que foi o que de melhor se produziu no jornalismo online brasileiro. Quanto a mim, acompanhei-o desde a origem, quando tinha o singelo nome “no.” (que se deveria ler “no ponto”), e já tive a dor de chorar sobre os despojos do site original. Ressuscitado em 2002, como NoMínimo, sobreviveu por mais cinco anos. Tudo acabado, baile encerrado, eis que acaba de expirar mais uma vez.

Nesse meio-tempo, alguns dos melhores nomes de nossa imprensa deram o ar de sua graça, somando-se a uma equipe fixa já bastante respeitável. Zuenir Ventura, Marcos Sá Corrêa, Mario Sergio Conti, Tutty Vasquez e um caminhão de nomes de peso. O Brasil, tão carente, precisava de bom jornalismo, algo que só aparece em espasmos desde a derrocada do grande JB, aquele que durou até o final dos anos 80. Por essas e outras, torci muito pelo sucesso da empreitada, já sabendo que os produtos culturais de qualidade não duram grande coisa no nosso país inculto e belo.

Confesso que não digeri muito bem a transformação de todas as páginas em blogs. Mas era uma iniciativa ousada, e merecia apoio nem que fosse só para incentivar as iniciativas ousadas. E, mesmo se gostasse mais de umas do que de outras, lia sempre todas as colunas, à exceção de algumas temáticas que não me interessam. Seus autores, não sei onde vão parar agora, mas farão falta como corpo uno.

Estranhamente, parecia um sucesso enorme. Muitíssimos leitores, assinantes, comentários. As matérias tinham repercussão, não foram poucos os furos e as reportagens de qualidade. A primeira de que me lembro falava sobre a corrupção no Botafogo – o time, não o bairro. Isso foi em 2000 ou 2001, ainda nos tempos de “no ponto”, antes mesmo do clube da estrela solitária cair nas mãos do presidente do Ibope. Do ponto de vista comercial, financeiro, empresarial, que é o único que parece contar, NoMínimo foi um fracasso. Poucos anunciantes, ninguém interessado em hospedar as páginas, um desprezo absoluto pela qualidade jornalística e de texto. Não há lugar para isso no Brasil. Portanto, fora, NoMínimo!

E, como não poderia deixar de ser em nosso país de invejosos, logo apareceram os abutres. Os editores publicaram um parágrafo, há coisa de um mês, alertando sobre a situação periclitante em que se via o site. Era um pedido de socorro. Mas, logo no dia seguinte, tropecei sobre um artigo infeliz, assinado pelo editor de uma outra página cultural, alguém que não perdeu tempo. Alfinetou sem misericórdia os vizinhos desditosos. Com uma ironia indelicada, escarneceu da incapacidade financeira dos bravos jornalistas. Aproveitando o gancho, vangloriou-se da rentabilidade de seu próprio empreendimento. Em resumo, uma atitude deplorável.

Para piorar, se NoMínimo se poderia resumir como uma companhia que remunerava gente muito qualificada para falar de coisas que conhecem bem, a página do outro sujeito escolheu o caminho oposto: não paga para que gente sem nenhuma qualificação dê palpite sobre coisas de que não têm idéia. Somada a uma auto-promoção constante e um merchandising onipresente, é claro que a estratégia não poderia falhar. É a cara do Brasil. O competente soterrado pela estupidez soberana; e o esperto, que sabe tirar proveito do vulgo, pisando sobre seu cadáver, a gargalhar e faturar.

Acendo uma vela, esperando a intervenção de algum empresário mais sagaz e interessado pela massa cinzenta, para que os textos de NoMínimo voltem a brotar em minha caixa de e-mails. Quero evitar o trocadilho que escolhi para o título, mas a verdade é que me sinto reduzido ao mínimo nas opções de jornalismo profissional via net. E já que não posso comprar os jornais brasileiros na banca, terei de me contentar com os sites que reproduzem o formato dos meios impressos, por melhores que sejam, e com o Trópico, antes que esse também saia do ar.

Entre Roma e o céu

Postado em June 24, 2007
Categoria: Viagem | Comente

Junho vai chegando ao fim, e quase esqueci que posto em blogs. Melhor dizendo, quase esqueci até que existo. Este 2007 tem sido o ano mais curto de minha vida. Ainda ontem, era janeiro. Agora, já passou a noite de São João. Nestas terras setentrionais, o calor está no ápice e os dias começam, lentamente, a encurtar. A primavera passou, mal a vi. Onde estive todo esse tempo?

Ainda assim, curiosamente, no meio desse ano enlouquecido, houve junho. Ainda não terminou, mas foi um dos meses mais carregados que já vivi. Respirei apenas no intervalo entre exames e viagens. Quando terminei a última prova, cheguei a provar uma breve sensação de vazio. Mas ela nem pôde se estabelecer. Graças a uma promoção fantástica da superintendência francesa de trens, mal depus a caneta, alcei a mochila, agarrei a patroa pela mão e partimos para o sul.

Não estou reclamando. Aliás, bem ao contrário. A verdade é que a passagem do tempo me angustia. Nesta nossa vida, que é o que de mais exótico há no mundo, temos sempre muito a realizar: cumprir, criar, descobrir. Nessa constante tragédia em potencial, cada grão que vence o gargalo da ampulheta simboliza a limitação de nossa carne. Mas nosso espírito, em sua paixão pelo infinito e pelo absoluto, recusa-se a admitir a impotência. Quanto maior a paixão que temos pela vida, mais exigente, angustiante e terrível ela pode se revelar.

É por isso que um mês como este junho, em que cada dia tem a carga de acontecimentos que melhor caberia a uma semana, merece ser festejado. Recebo-o como uma bênção, incrustado em um ano desabalado como o atual. Uma bênção com gran finale: escrevo tendo como testemunha a lua crescente dos arrabaldes de Roma. Trata-se do mesmo disco prateado que testemunhou a violação de Lucrécia e o suicídio de Sêneca. Bem se vê como, monótona em sua órbita, essa lua serve de testemunha para qualquer acontecimento, do grotesco ao grandioso, do histórico ao medíocre.

Páginas muito mais graves já se escreveram entre o satélite e este pedaço de chão. Está certo. Mas quem o pisa agora são meus pés. Este instante, em junho de 2007, é vulgar em comparação aos demais que o nome de Roma evoca nas imaginações sensíveis, mas saiba a lua que, para mim, é um triunfo magnífico. Pela primeira vez em muitos dias, tenho acesso a um computador com internet e blog. Finalmente, tenho tempo e disposição física para escrever e postar um texto, mesmo que só para ressuscitar meus pobres sites.

Os blogs, abandonados, vinham pedindo atualização. E tenho muito a atualizar. Em pouco mais de uma semana, estive envolvido pelas atmosferas de Turim, Gênova, La Spezia, Monterosso e as demais Cinque Terre, Pisa, Florença, Chiusi, Chianciano Terme, Pienza, Montepulciano, Siena, San Gimignano. Respirei todos esses ares, provei suas culinárias, admirei os traçados de suas ruas. E enfim, Roma. A cidade eterna, para a qual todos os caminhos trazem. Desde sempre, sonhei com esse nome. Eis-me. Sapatos rasgados, fronte crespada, bolsos vazios. Mas, repito: eis-me.

Volto a Paris no meio da semana. A partir de lá, pretendo relatar em ambos os blogs, com abordagens diferentes (como combinado), minhas impressões e os pensamentos que este fascinante, caótico e belíssimo país me causou. Enquanto isso, se meu Viaggio in Italia não saiu do forno, recomendo um produto de qualidade muito superior: o de Roberto Rossellini.

Ciao, amici!

PS: Este é o primeiro e, espero, último texto que publico simultaneamente nos dois blogs.

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