Polêmicas presentes para hábitos futuros

Postado em July 30, 2008
Categoria Filosofia, História, Literatura, Mídia |

O Cálculo Renal está de volta. Calou-se todo esse tempo, uns bons cinco meses, não por falta de assunto, antes por excesso. Com tanta coisa acontecendo, de qual delas falar? Agora chega, há muito a debater-se, nada de perder mais oportunidades. Porque, enquanto o blog vagueava no limbo, uma série de debates, que acompanhei à distância, pontuaram a blogosfera, os jornais, as pessoas de maneira geral. As discussões se colocavam na forma de confrontos ou de perguntas, tais como: Blogueiros X Jornalistas; O Google torna as pesquisas preguiçosas?; Blog x Literatura; Livros e jornais são coisa do passado?, e assim por diante. Resumindo, vem se repetindo em ciclos cada vez mais curtos um questionamento generalizado sobre o futuro dos meios de comunicação e seus efeitos sobre a sensibilidade humana, agora que vamos enveredando pelo recém-criado, mas já altamente desenvolvido, universo da internet. Não sei quanto ao leitor mas, para mim, esses ciclos meio frenéticos deixam patente o fascínio, o temor, a prostração e o mau jeito diante do fato de que as novas tecnologias são um caminho sem volta e vão impor mudanças, para o bem e para o mal.

É difícil dizer sobre o assunto algo que ainda não tenham dito os debatedores, muitos deles especialistas e blogueiros muito mais experientes do que eu. Mas, como em toda polêmica, como em toda situação de mudança acelerada (os famigerados pontos de sela), os envolvidos se dividem em arautos, detratores, apóstolos e observadores. E, como sempre aconteceu, os eventos de verdade vão escorrendo por entre os ataques, as elegias e os puros chutes. O motivo é simples. Sejam quais forem os efeitos sobre a sensibilidade “das novas gerações” de um mundo que gravita em torno do Google, dos blogs, do Youtube, do Twitter e das redes sociais, é fato que o mundo, daqui por diante, tem por núcleo um elemento do que atende pelo nome pomposo de “Web 2.0″, ou até “3.0″, como já ouvi em algum lugar. Constatar as mudanças não chega a ter um mérito particular; saudá-las ou lamentá-las, muito menos. É preciso isolar o fenômeno, descrevê-lo e, acima de tudo, desenvolver estratégias para aproveitar dele o que ele tiver de aproveitável.

Trata-se, portanto, do esforço sempre necessário e quase sempre negligenciado de buscar o ponto-de-vista afastado, colocar-se do lado de fora do fenômeno para enxergá-lo tão por inteiro quanto possível. Isso feito, alguns impasses que parecem centrais revelam ser meros sintomas, a manejar e examinar com carinho por quem pretende delinear o quadro geral, sem cair nas armadilhas do acidente espúrio que se faz passar por elemento estrutural. No tipo de polêmica sobre a qual pausamos o olhar, em que os princípios estão eminentemente em aberto, porque dizem respeito a fenômenos recentes a se desenvolverem no futuro, portanto ainda indeterminadas, conta muito mais observar a abordagem e os argumentos adotados pelos participantes, à guisa de substrato, do que a matéria em si, em torno da qual gira a questão.

Entrando no exemplo

Um exemplo, para clarear meu propósito. Durante um período, acompanhei uma série de blogs que postulavam a existência de uma tal guerra entre jornalistas e blogueiros. Era afirmado, nesses blogs, que o assim chamado “jornalismo tradicional” é despótico, que os jornalistas vivem em aquários (sim, isso foi dito textualmente em algum lugar), que eles não têm mais lugar num mundo em que a interação é instantânea, ágil e universalmente acessível, ou seja, no mundo pós-blogs. Todas essas afirmações, claro, parecem fazer muito sentido à primeira vista, mas com um exame um pouco mais próximo se revelam muito exageradas. Houve, aliás, quem considerasse que todo o barulho seria uma estratégia para tentar aparecer, talvez de olho na bendita monetização (ô palavrinha feia!). Outros tantos blogueiros, afinal, já vinham explicando que a dicotomia “blogueiro/jornalista” é uma falácia, porque, dos blogs que se pretendem jornalísticos, os que prestam são geralmente mantidos por jornalistas, o que torna uma cisão tão radical definitivamente impraticável. A grande maioria dos blogs, por sua vez, não é, nem se considera, jornalístico, nem tem nada contra, nem quer nada com os jornalistas, e passa ao largo da briga sem sequer tomar conhecimento. Para completar, as empresas “do papel” costumam ter portais de blogs, sem trauma, e ganham muito dinheiro com eles. A princípio, então, caso encerrado. Mas eis que, quando menos se esperava, dois episódios revelaram que alguém, “no outro campo”, acusou o golpe. Primeiro foi a Folha, que reformulou seu projeto gráfico para ficar parecido com a internet (o resultado foi lamentável, espero que já tenham mudado de novo). Depois, veio a já célebre campanha do Estado, que ridicularizava os blogueiros de maneira assaz vulgar. E recomeçou a guerra, dessa vez bem mais palpável, a ponto de se organizar um encontro “em carne e osso” entre blogueiros e jornalistas, em que quem mais falou, mesmo pelo lado blogueiro, foram jornalistas de alguma forma ligados “ao papel”.

E daí? Pois bem, vejamos. Uma vez que sabemos que “jornalista” designa uma profissão que não se exerce necessariamente em jornais, sendo “jornal” um periódico impresso em papel barato e dividido em editorias, e que “blogueiro” designa um indivíduo de qualquer profissão, contanto que publique regularmente na internet com o uso da ferramenta “blog”, que dispensa maiores descrições (afinal, isto aqui é um), podemos agora proceder, qual cientistas, ao isolamento do episódio como um todo, com vistas a apontar 1) o que está de fato em jogo para os participantes e 2) qual é a linha de raciocínio seguida pelos envolvidos. Em seguida, de cada um podemos derivar A) o que resulta de aplicações ao presente de realidades já anteriormente existentes e B) o que resulta de indícios, no presente, da superestrutura que vai se formando para o futuro. (Peço perdão pela linguagem feia e árida, que parece sugada diretamente de artigos de filosofia analítica anglófona, mas, como eu disse, vamos proceder “qual cientistas”…) Enfim, obtemos, entrecruzando números e letras, 1A) para um fenômeno já estabelecido, mas hoje posto em questão, 1B) para um fenômeno recente, uma novidade, uma inovação, mas ainda, por natureza, ligado a conceitos herdados da realidade que precede seu surgimento, 2A) para argumentos, de qualquer das partes, que sejam calcados em conceitos normalmente aplicados às problemáticas já existentes, e finalmente 2B) para os argumentos desenvolvidos com o intuito de dar conta das estruturas ainda no berço. Nem preciso dizer que todos os itens se entrecruzam repetidamente, mas isso será explicado, creio. O importante para nós foi separar aquilo que nos interessa.

Dinâmica do tempo

Antes de seguir em frente, porém, é preciso salientar que este caso em que metemos a lupa é um exemplo e serve para esclarecer a investigação generalizada em que poderíamos entrar, isto é, em que devemos entrar, quando tivermos tempo e espaço para tanto. Depois, para não cair em contradições desnecessárias por falta de domínio da linguagem, precisamos debater um pouco a dinâmica do tempo, no que tange à maneira de pensar, agir e perceber do ser humano. Mas não se preocupe, que não estou aqui para recitar Hegel, Bergson ou Adorno, o que, aliás, está acima das minhas capacidades. Mas eu gostaria de reforçar alguns quase-truísmos que às vezes deixamos passar em nossos discursos, mas não deveríamos, porque são de fato fundamentais.

Em primeiro lugar, nada nunca, jamais, é inteiramente novo. Mesmo que, para efeito de argumento, imaginássemos o surgimento, do nada, de alguma coisa absolutamente sem relação com qualquer outra que já exista, é importante frisar que a sensibilidade humana só vai conseguir interpretá-la, num primeiro momento, com a aplicação de categorias já dominadas e, a partir daí, com o uso dessa primeira interpretação, questionada ou reiterada, e assim por diante. Aplicando sua inteligência, pessoas geniais poderão propor novas e diversas interpretações que, em seguida, serão adotadas ou rejeitadas pela comunidade de egos, sim, mas isso é um processo lento que segue suas próprias leis e não é o caso desta nossa discussão.

Em segundo lugar, o ser humano não inventa, nem desenvolve, nem descobre nada à toa, isto é, sem que o invento, desenvolvimento ou descoberta venha preencher algo que pareça ao seu criador e sua entourage como uma necessidade ou possibilidade interessante. Imagine, para ilustrar, o homem das cavernas que primeiro friccionou dois gravetos e obteve fogo. Se não visse logo que aquela luz dolorosa poderia lhe servir a aquecer as noites, não haveria invenção. No máximo, seria um evento, ele teria apenas se incomodado, apagaria se e como pudesse aquela fagulha incômoda e voltaria a tocar sua vida no escuro. Agora, saltemos a Gutemberg, inventando a prensa e os tipos nas cercanias de Estrasburgo. Certamente ele não se propunha a estabelecer as bases da edição moderna, que ele não poderia antever. Queria simplesmente encontrar uma alternativa mais ágil e confiável para a cópia lenta e imperfeita dos manuscritos, tal como era feita nos mosteiros. Não é à toa que, durante muito tempo, os livros impressos ainda tiveram a mesma aparência, de maneira geral, dos grandes pergaminhos medievais, com suas iluminuras, capitais e colunas.

Terceira coisa a trazer à tona, aproveitando o que já aprendemos, e que vai esclarecer um pouco melhor nossa questão da dinâmica do tempo: a partir do momento em que uma determinada inovação deixa de sê-lo, ou seja, se estabelece, ela se torna um padrão e passa a trair suas possibilidades e limitações. Com isso, dá ensejo à busca de novas inovações e, ainda antes, a adaptações que melhorem o desempenho da ex-inovação, para tirar o máximo proveito de seu potencial, ao mesmo tempo em que se reduzem e contornam, tanto quanto possível, suas limitações. Assim, técnicos gráficos nascidos depois de Gutemberg tinham a prensa como coisa habitual, onde antes figuravam os tais manuscritos que o inventor queria aperfeiçoar. Foram eles que consideraram os livros resultantes caros e pesados demais, e ao longo do século se saíram com novidades como o jornal, o livro de bolso e a filipeta.

Por último, cabe uma menção à característica mais vaga da percepção, mas que nem por isso é menos fundamental, e pode funcionar, de certa forma, quase como um princípio geral do que queremos abordar aqui: toda percepção de um fenômeno individual sofre influências de outras percepções, passadas e presentes. Em outras palavras, a forma como recebemos e interpretamos o mundo é, em larga medida, determinada por aquilo que costumamos chamar de “nossa perspectiva”, e que nada mais é do que a história de nossa vida, somada à posição que ocupamos (no espaço-tempo, poderíamos dizer), quando aplicadas à interpretação do mundo. Assim sendo, o tipógrafo enxerga uma diferença enorme, quase trágica, entre fontes com e sem serifas, por exemplo, ao passo que um advogado que faça publicar um auto em sua tipografia há de considerar tudo isso uma enorme perda de tempo, mera nuga técnica.

De volta ao exemplo

Finalmente, podemos retornar ao nosso exemplo. Sabemos desde o princípio que tanto os jornalistas “do papel” quanto os blogueiros, ou a parcela deles que oferece eu seu espaço um serviço que, dentre tantos outros possíveis, acredita-se concorrente com o dos jornais, foram criados e educados em tempos de reinado do papel, absoluto e inquestionável, quando a comunicação via computador se encontrava ainda nos primórdios ou nem isso. Aqueles, visionários, que se dedicaram desde os anos 80 a aprender o uso das ferramentas informáticas têm, segundo o que os parágrafos acima nos revelaram, como primeira perspectiva (ou tiveram) a substituição das ferramentas que encontraram prontas quando vieram ao mundo. Em outras palavras, seu foco só poderia ser a resolução dos impasses que havia em seu tempo, mesmo enquanto, dando asas à imaginação, eles projetavam o que seria o mundo posterior. Basta conferir as representações que se faziam (e ainda fazem) nos filmes de ficção científica sobre o futuro: são sempre projeções de um presente multiplicado. Para os demais, a evolução da informática era no máximo uma novidade interessante e muito útil, como, justamente, foi uma mão na roda para as redações a possibilidade de receber as notícias das agências internacionais diretamente no terminal, e não mais por telex, e editar textos, definir títulos, encaixar páginas, tudo isso muito rapidamente, sem precisar de laudas, réguas ou tesouras. Era tão bom, que todos engoliam o fato de as máquinas travarem o tempo inteiro, mais a notória incompetência dos técnicos de Help desk.

Tampouco surpreende que o advento dos blogs tenha sido, e até ainda seja, interpretado como uma ameaça, sobretudo enquanto os espaços não estiverem bem delimitados e as funções se sobrepuserem com tanta freqüência. Se é verdade que a internet tem roubado à tal “mídia tradicional” um naco considerável da publicidade, também é verdade que os ladrões, no mais das vezes, também estão ligados ou fazem parte das mesmas grandes holdings que comandam os jornalões e as redes de televisão. Sendo assim, do ponto de vista mercadológico, ficam elas por elas, chiados e lágrimas à parte. Nada muito diferente do que aconteceu quando do advento do rádio, do cinema falado, da televisão e da já ultrapassada “web 1.0″. Diz a música que “video killed the radio star“, mas não é bem assim. Até o rádio ainda produz suas estrelas. Há vítimas, mas os batalhões seguem em frente. O grande capital não é tão fácil de derrubar, ele não demora a se adequar às novas condições (tema para outro artigo).

Sem perceber, já encontramos a resposta para alguns dos itens que assombravam nosso exemplo. 1A corresponde à percepção, certamente exagerada apesar dos números que tendem para o desfavorável, de que os jornais impressos estão em extinção. A raiz dessa percepção, entendemos agora, é a perspectiva corrente de que só existe um lugar a ocupar-se, mas dois corpos o disputam, sendo um o considerado “ultrapassado”, e o outro, o considerado “do futuro”. Mas não há um só espaço. Sempre houve e sempre haverá vários. O caso é de adaptar-se, não de alardear prognósticos apocalípticos. Basta acompanhar os esforços que já se fazem, muitos deles mal dirigidos (como a reforma gráfica da Folha de alguns anos atrás), outros que parecem acertados. Enfim, a ver-se.

1B nos apresenta o estado atual dos blogs, indecisos entre roubar o espaço dos livros, jornais, revistas etc.; fazer jus ao próprio nome, isto é, contentar-se em servir como diário online (o que se torna a cada dia mais improvável); e, por fim, estabelecer-se em definitivo como uma ferramenta com seu potencial próprio, suas qualidades a explorar e defeitos a contornar, como já aconteceu com toda inovação técnica que a humanidade já produziu.

2A e 2B colocam em evidência os argumentos. Mesmo assim, é clara a transposição da perspectiva geral para o caso particular, com os termos do debate colocados em acordo com problemáticas herdadas. Os dois conceitos mais evocados, de parte a parte, são o respaldo e a interação. Dizem as empresas da comunicação vetusta que seus jornalistas, contratados, selecionados e expostos, têm mais respaldo do que os desconhecidos que escrevem o que bem entendem em páginas abertas, gratuitamente em geral, pela net. É justo. Mas isso é hoje; eis um problema fácil de contornar, e que já está sendo contornado em diversas frentes. Ademais, os colunistas e repórteres “do papel” não têm lá todo esses respaldo, eis aí a Veja e O Globo que não me deixam mentir. Por outro lado, a turma da internet alardeia sua comunicação imediata com o leitor, a caixa de comentários, o e-mail. A página de jornal, argumentam, faz do autor um ditador. O que é escrito, escrito fica, o leitor não pode reagir, nem responder, nem corrigir, nem acrescentar nada. Criou-se uma lenda de que jornal é discurso e blog é diálogo. É justo. Mas o comentário de blog não é essa panacéia toda que pintam, nem o diálogo na internet é tão colaborativo e criativo quanto gostaríamos que fosse. No mais das vezes, as caixas de comentário estão cheias de mensagens inúteis, verdadeiras perdas de tempo. Para encontrar algo que preste, haja barra de rolagem. Já o tal diálogo dificilmente tem foco, desmancha-se quase sempre numa superposição de opiniões e referências pouquíssimo comprometidas com o tema do debate, um convite a perder-se o fio da meada e não se chegar a lugar nenhum. Isso acontece porque qualquer um clica e digita o que lhe dá na telha, contribua ou não para o assunto. Ao mesmo tempo, um jornal de boa circulação recebe correspondências às toneladas, com duas diferenças: quem interrompe o que está fazendo para escrever a um jornal, mesmo que por e-mail, acredita ter de fato algo a dizer. Nem sempre tem, mas com certeza o missivista não remeteu o envelope só para constar, como faz o internauta. Além disso, tendo lido a epístola ou a mensagem, os responsáveis pelo jornal podem decidir se aquilo vai servir para seu leitor ou se só gastará tinta e papel. Claro, dirá o radical amante da blogosfera, isso é uma atitude ditatorial, o sujeito pode publicar só o que lhe interessa. É justo. Mas cabe aí o bom senso do público, e em teoria o leitor de jornal recebeu uma boa educação (até no Brasil), de perceber, o que não é difícil, quais são os veículos que só publicam o que está em seu interesse. Acho que nem preciso mencionar algumas publicações que agem assim em nosso país…

Polêmicas como essa têm um interesse muito maior pelo que escondem do que pelo que discutem. Devemos encará-las com a atitude de arqueólogos do presente à la Foucault. Pouco importa o dito, que se desenvolve debaixo de um lençol de convenções e concepções herdadas. Mais vale examinar as bases em que o dito se assenta, pois que são as bases do contexto do amanhã. Neste exemplo específico, podemos ver que as preocupações são bidimensionais, de tal maneira que poderíamos traçar um gráfico cujos eixos seriam a profundidade (respaldo) e a extensão (comunicabilidade), e os contendores estabelecem, de forma talvez simplista demais, que a mídia tradicional é forte no primeiro e fraca no segundo, enquanto a internet é o oposto. De tal maneira que, para o futuro, podemos esperar que os deslocamentos serão buscados no espaço delimitado por esses eixos. Assim, a internet talvez invista em ganhar em profundidade, talvez em reiterar sua posição de diálogo irrestrito. Talvez perca mais de um ou outro no processo. Quanto aos jornais, podem querer reiterar sua força do lado da profundidade, por exemplo, investindo na contratação de especialistas para o lugar dos repórteres tradicionais, que sabem colher informações e declarações, mas não discorrer sobre problemáticas (nesse caso, o diploma obrigatório teria de ir para o saco, de uma vez por todas); ou podem buscar desenvolver suas capacidades comunicativas, digamos, aumentando o espaço dos leitores, convidando autores de fora (da internet, quem sabe) para ocupar espaços ocasionais, transformando os artigos e colunas em debates seriados. Também acho isso menos provável, mas o interesse aqui é ilustrar a questão, não resolvê-la.

Fora do exemplo

Resta-nos, agora, sair do exemplo e, aleluia, abandonar a imitação do discurso científico, para aplicar o mesmo raciocínio às demais questões, coisa que teremos de fazer muito brevemente, para não deixar este artigo longo demais (embora já o seja).

Sobre o estranhíssimo problema que opõe escritores a blogueiros, podemos até admitir, para efeito de argumento, que não se faz, hoje, boa literatura em blogs (o que obviamente não é, nem poderia ser, verdade). Ainda assim, é inevitável que a boa literatura de amanhã absorva a constatação ululante de que os blogs existem e neles se escreve, literato ou não o autor. O html, é verdade, aceita tudo, mas antes dele o papel já aceitava, a cera idem, até as pedras e paredes. Como será isso resta a ver-se, mas é evidente que os leitores serão, cada vez mais, pessoas que passam uma parte considerável do dia absorvendo o conteúdo publicado em blogs e sítios de múltiplas naturezas. E os autores serão, aliás já são, obrigados a lidar com a platitude acachapante desse fato, assim como, tempos atrás, escribas foram confrontados com um novo público, não mais composto por marquesas e condessas entediadas em seus jardins, mas por burgueses que devoravam seus folhetins no café da manhã. Daí nasceu o romance do século XIX, Balzac que o diga. Pois bem, algumas pessoas, em particular as que dormem em berço esplêndido da maneira como as coisas são hoje, torcem o nariz para um futuro influenciado pela internet e, mais particularmente, a blogosfera. Para entender por que essa repulsa é mal dirigida, recorra-se aos quatro parágrafos em que discorremos (grosseiramente, dirá o fenomenólogo) sobre a dinâmica do tempo sobre a percepção. Um dia, acordaremos para descobrir que, puxa, há boas coisas sendo feitas. O público bem educado aprovará, mesmo os críticos mais avançados aprovarão, e o mundo vai se acostumar. Creio que não é necessário discutir mais o assunto neste texto, depois do tanto que falamos da questão jornalística. No fundo, as bases do problema são as mesmas.

Um impasse talvez mais sério é aquele que opõe as pesquisas na internet, isto é, basicamente Google e Wikipédia, ao velho método das enciclopédias Barsa e Britannica, bibliotecas, livros, arquivos, enfim. De fato, o problema parece muito mais grave, porque as conseqüências dos novos métodos parecem nefastas. É necessária uma cultura prévia muito grande, ou, por outra, um bom senso fenomenal, para distinguir os dados corretos dos absurdos que se podem encontrar nos artigos da Wikipédia (e concorrentes) e nas páginas que o Google indica. É muito fácil publicar na internet informações que não correspondem nem de longe à realidade, amarrá-las de forma a que se tornem muito, mas muito convincentes, conseguir muitas visitas e uma boa colocação nos resultados dos programas de busca. Mas os pesquisadores de internet, em geral jovens, não têm nem a paciência, nem a sagacidade para discernir o que é informação do que é chute. A tal ponto que mesmo no plágio lhes falta savoir faire: o que tem de professor que, para flagrar um trabalho copiado por um aluno, só precisa digitar a primeira frase no Google… Aqui, aquele gráfico que, a título de ilustração, descrevemos para a disputa entre jornais e blogs pode ser redesenhado. No lugar da profundidade, entra a verificação, que não deixa de ser uma forma de respaldo; no lugar da comunicabilidade, entra a variedade de fontes e a disponibilidade dos dados (lembrando que existe uma diferença enorme entre dado e informação, e viveríamos melhor se levássemos isso mais em conta). Não tenha dúvida de que a busca online não vai eliminar de vez a pesquisa sobre papel, nos corredores empoeirados de bibliotecas centenárias. Por outro lado, já existem métodos, embora ainda rudimentares, para se resguardar dos riscos que espreitam pelos sites de busca e as enciclopédias colaborativas. É preciso, sim, desenvolvê-los melhor e, sobretudo, disseminá-los. Aposto com quem quiser que, daqui a vinte anos, ninguém mais terá dúvidas a esse respeito.

Estou certo de que, aos trancos e barrancos, tudo isso vai acontecer, porque a necessidade existe, é cada vez maior e, sim, é irreversível. Grande parte da responsabilidade recai sobre os ombros da educação, que deve levar em conta os espaços cada vez maiores que ocupa a pesquisa e, claro, a vida conectada. Os professores precisam ser treinados para tal, as escolas precisam desenvolver métodos e deixar de tratar a aula de computação como curiosidade ou crédito a cumprir o mais rápido possível. Ensinar em tempos de Youtube e Facebook impõe novos desafios, ao primeiro olhar parece impossível, com tanta bobagem ameaçando desviar a atenção do estudante, mas é necessário, inevitável e cheio de possibilidades auspiciosas. Quem souber aproveitá-las estará vários passos à frente, polêmicas à parte. Na mídia, na arte, na academia, em todo canto.

Comentários

RSS feed

1 Comentário »

2008-08-02 18:25:22

Cálculo Renal de volta. Passava da hora. Bem-vindo com a pertinência do seu artigo.
Agora só vou registrar o insight do artigo: o html aceita tudo, o papel aceitava tudo, a cera aceitava tudo, portanto já havia maus e bons escritores em todos os suportes, portanto há entre blogueiros bons escritores, e falas excelentes como seus artigos longos, por que não? O leite condensado também pode vir em barricas. Bons vinhos em grandes tonéis. Que alegria para o Breviario o seu retorno. Agora falta os demais ausentes escreverem.

Eu nem ousei postar nada hoje, para deixar o seu artigo bem alto a ocupar a página de abertura. Uma lâmpada acesa. Vamos ler.

 
Nome (obrigatório)
E-mail (obrigatório - não será publicado)
URI
Seu Comentário
Você pode usar <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <code> <em> <i> <strike> <strong> em seu comentário.