Cento e sessenta marmanjos parrudos

Postado em December 4, 2007
Categoria História, Política |

Este texto foi publicado na última semana pela seção Palavra do Le Monde Diplomatique Brasil (online), editada por meu amigo e guru Rodrigo Gurgel. Não sou muito de republicar textos; parece um pouco preguiçoso, não sei. Mas vou abrir cá uma exceção; primeiro, porque sou de exceções; segundo, porque considero pertinente. O texto publicado no Diplo é a primeira versão. Desde então, os fatos se precipitaram, a escala de gravidade da situação subiu mais alguns degraus. A segunda versão foi escrita dois dias depois, mas já tarde demais para publicação lá. Assim sendo, ei-lo novamente, com mais algumas atualizações.  

Cento e sessenta marmanjos parrudos

Nunca vi tanta polícia na vida. Nem nos meus tempos de USP. Pouco mais, pouco menos de cento e sessenta marmanjos de coturno, jaqueta negra, capacete azul. Carregavam escudos de acrílico, transparentes, cujo formato inspirado no modelo celta me pareceu ridículo. Tropa de choque, pois não. Espalharam-se pelas portas da universidade e, por falta do que fazer, tentaram puxar assunto com algumas estudantes de saia curta e maquiagem carregada. Não conseguiram, para delícia dos rapazolas enciumados.

Chegaram em camburões azuis. Oito por uma rua, oito por outra, interromperam o trânsito. Homens parrudos de cabelo quase raspado desciam em golfadas, velozes e determinados. Postaram-se diante das três portas como guardiães de um forte. Foram chamados pelo diretor da universidade. Na hora do almoço, os estudantes, reunidos em assembléia, haviam decidido bloquear o edifício para discutir o mais recente projeto de reforma universitária. Mas as novas sentinelas lhes negaram o prazer de interromper os cursos: essa tarefa ficou a cargo dos próprios policiais. Passaram o resto da tarde impedindo a passagem de alunos e professores, enquanto os jovens apenas batiam papo no meio da rua.

Não sei como esse povo consegue protestar às portas do inverno. Morto de frio, certo de que pouca novidade haveria por ali, tomei o caminho da biblioteca. Para minha sorte, ela não fica no mesmo edifício em que os cursos têm lugar. Sim, isso é uma aporrinhação sem tamanho. Hoje, porém, foi providencial. Pude me abrigar em ambiente aquecido e, no caminho, recapitular os eventos das últimas semanas. Bloqueios, desbloqueios, passeatas, manifestações, tropa de choque. Terei histórias para contar aos netos!

No meio da algazarra e do fogo cruzado, minhas preocupações são egoístas. As férias de fevereiro, em que pretendo ir ao Brasil, estão ameaçadas? Como saber? Há dois anos, todas as universidades da França cruzaram os braços por três meses. Um projeto de escravização dos estudantes foi retirado, o primeiro-ministro caiu, a juventude triunfou. Em 2007, a história é outra. Só alguns departamentos de um punhado de escolas decidiram parar. É difícil revogar leis sem um mínimo de unanimidade. Desta vez, boa parte dos estudantes são favoráveis ao governo. Pois a lei não é de escravização, como a outra, mas de modernização. Com o que a palavra tem de bom e de ruim. E, sobretudo, hoje o governo é outro. Saiu Chirac, o tíbio. Entrou Sarkozy, o ambicioso.

O atual presidente da França é um dos personagens mais interessantes de nossa época. Já tem ao menos um mérito. Recolocou o território dos gauleses nas manchetes políticas do mundo inteiro. O Hexágono andava escanteado, como se sabe. Frente ao crescimento das novas grandes potências China, Índia, Rússia , ninguém dá bola para a velha Europa. Continente decadente, uma burrice aparelhada de museus, já disse o Otto Lara Resende. Mas com Sarkozy é diferente.

Olhar fulminante, nariz enorme, estatura baixa, sobrenome estrangeiro, personalidade centralizadora e implacável. Poderia ser uma descrição de Napoleão, o outro imperador que quis reformar o país de um só golpe. Mas o caso de Sarkozy é diferente. Suscita a mesma questão em milhões de mentes. No âmago, quem é ele? Um reformador imbatível, paladino da eficiência? Ou um fascista-racista-xenófobo? O mundo inteiro, pelo visto, quer saber. Alguns trazem à lembrança a tarde em que, ainda ministro, Sarko chamou os rebelados da periferia de “escória” (racaille). Outros apontam para os projetos de modernização do Estado. Uns têm calafrios com a idéia de exames de DNA para imigrantes. Outros acreditam que ele eliminará privilégios antigos. E por aí vai.

Nada impede que ambas as respostas estejam corretas, é claro. Mas hoje, pude verificar duas coisas. Em primeiro lugar, presenciei a manifestação de uma política de confronto exacerbada, que manda cento e sessenta policiais da tropa de choque para impedir uma dúzia de estudantes de bloquear uma universidade. Difícil não associar essa idéia, como as pancadarias no subúrbio, à dificuldade de manter a ordem só com boa administração e o diálogo político. Ponto para quem acha que Sarkozy não se entende muito bem com a democracia. A polícia é feita para patrulhar ruas, evitar crimes e solucioná-los. Quanto menos ela cumprir esse papel, mais ela será obrigada a recorrer às pancadas e tiros. Nós, brasileiros, conhecemos bem o que é isso. E os franceses estão aprendendo, a começar pelos subúrbios incendiados.

Finalmente, o principal. O que é eficiência, senão a capacidade de obter um máximo de resultados, alocando um mínimo de recursos? Nem o mais aloprado dos econometristas haverá de encontrar traços de eficiência no ato de mandar cento e sessenta policiais (escrevo por extenso pelo impacto) para combater uma minúscula greve de estudantes? Para fazer o serviço, tantos homens são desnecessários. Se não houvesse problemas de criminalidade em outras áreas da cidade (e os há, cada vez piores), isso indicaria que as forças da ordem têm excesso de contingente. Caso contrário, a população está sendo exposta ao risco para que o governo mostre força diante das câmeras, contra estudantes cujo movimento não se compara, nem de longe, ao de 2005. A não ser, é evidente, que a ordem seja buscar o espetáculo. Mas isso… já não sei.

Retornemos ao que é certo e concreto, ou seja, à narração de minha segunda-feira. Cansado da biblioteca, tomei uma bicicleta e voltei para casa. Pedalando ao anoitecer, fui ultrapassado por alguns dos camburões, que rumavam para a caserna. Policiais na universidade, que coisa! Dá uma estranha sensação de volta no tempo, como se os anos 60 e 70 se intrometessem em nossa vida. Só que os fatos contemporâneos deixam uma impressão de frivolidade. As tensões ideológicas e políticas daquelas décadas e desta dificilmente podem ser comparadas. A truculência contra os universitários é leviana; e contra as populações do subúrbio, é perigosa.

É difícil compreender o propósito do festival de policiais à porta do campus. Na última semana, por sinal, os estudantes haviam votado pelo fim gradual da greve, com a alegação de terem descoberto meios legais, muito mais eficientes, de derrubar a lei que detestam. Voltaram atrás justamente para explicitar o descontentamento com os brutamontes que lhes vetavam a livre passagem.

Só o que sei é que todos ficam bem na foto. Sarkozy é duro. Não deixa estudante ameaçar seu governo. A polícia é dura. Não deixa estudante bloquear a faculdade. Os estudantes são duros. Não deixam o governo intimidá-los. E eu, apanhado de surpresa pela querela, sou brasileiro, sabe como é, coração mole, boa-praça. Enquanto espero as definições, aproveito para não precisar encarar o frio. A exemplo de meus vizinhos nativos, ou a maior parte deles, assisto pela televisão à sublevação da periferia. Quando acaba o noticiário, ataco a bibliografia, estudo violão e escrevo para o Diplo. A universidade vai reabrir, isso é certo. E também é certo que, do subúrbio, logo ninguém se recordará.

Atualização: esta manhã, não tive aulas; fiquei estudando em casa. À tarde, recebi a informação de que a tensão chegou às vias de fato. Um grupo tentou protestar contra a presença policial no campus, mas foi calado por bombas de gás lacrimogêneo e a dose regular de braços torcidos, cascudos e cacetadas. Mamutes de 130 quilos contra rapazes de 70 e moças de 50.

Como se vê, fica provada a tese de que faz parte da educação de um Estado de direito o aprendizado da confrontação de idéias, posturas e atitudes políticas. Questões da universidade devem ser resolvidas pela universidade. A violência, venha de onde venha, põe a perder o processo de formação dos cidadãos.

Vinda do governo, a agressividade é uma aberração, sobretudo para cima de uma instituição pública, como é o caso da Sorbonne. É o país comprometendo o amadurecimento de seus próprios cidadãos, e logo aqueles que serão mais influentes nas décadas vindouras. A História mostra que esse não é o caminho da estabilidade ou da democracia.

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