Pensamento e nariz-de-cera

Postado em November 8, 2007
Categoria Filosofia |

Este espaço anda reclamando com veemência e toda razão do abandono em que se vê há coisa de um mês (não contei, mas deve estar por essa casa). Como um personagem de Nelson Rodrigues, ele enfia o dedo na minha cara, solta uma baba bovina e elástica, e vocifera, o olho rútilo (estou esquecendo de alguma fórmula?): “Preguiçoso! Burro! Contínuo!” E de que adianta contemporizar, apontando para a redução dramática das atualizações também do outro blog? Redução, este aqui contra-argumenta, é coisa inteiramente diversa do puro e simples silêncio. Para finalizar, ele acrescenta, teatral: “Queres matar-me, expelir-me da vida como o cálculo renal que sou!”

O que o blog espera, com isso, sei bem o que é. Quer me carregar às lágrimas. Impedir-me de pegar no sono quando é madrugada e preciso recompor as forças. Mas ele pode tirar o cavalinho da chuva: não há de ser por uma página de internet que chorarei e sofrerei de insônia. Ao contrário, respiro fundo e me entrego às explicações. Não é nada disso, começo dizendo. Tenho pensado muito em atualizar o Cálculo Renal. Se tenho! Quase todos os dias, rumino sobre uma boa meia-dúzia de temas que merecem discussão, reflexão e publicação. As idéias me martelam a mente, enlouquecidas. Querem ir para o papel ou, no caso, o processador de texto (freqüentemente, ambos).

Se este blog se tornou um limbo, a explicação está em outra parte. Que parte? Adivinhou quem escolheu o caminho do óbvio: a desculpa é a falta de tempo. É uma justificativa velha, eu sei, mas honesta, pelo menos neste caso. Desde que o ano recomeçou, ou seja, em Outubro, não pude me dedicar às atividades que dão gosto. É necessário adaptar-se à reformulação generalizada da realidade, e isso exige um esforço de concentração de que, em geral, nem desconfiamos.

Acostumados que estamos à cabeça sempre equilibrada acima dos ombros, deixamos de pensar que ela, assim como nós e todos os demais viventes, tem suas vicissitudes, limitações e volições. Ademais, sabemos muito pouco sobre ela; veja bem, estou falando da mente, não do cérebro. Esse aí é um órgão concreto, cinzento, identificável e que se pode indicar com uma seta (é ali), que subsiste porque é alimentado por uma corrente sangüínea cuja voltagem não se poderá jamais definir. Encarando apenas por esse ponto-de-vista, podemos descrever o pensamento em termos de áreas que se ativam e adormecem, descargas elétricas que fritam e unem neurônios, da mesma maneira como descrevemos a visão, a fome e o desejo sexual.

Quem dera fosse tão simples! O pensamento é traiçoeiro, esconde-se quando é invocado, repete-se sem motivo, altera-se sem pedir autorização, e sobretudo, apresenta-se por trás dos maiores narizes-de-cera quando tudo que se exige dele é a objetividade, essa quimera de nossos tempos. O pensamento não está, e nem podemos supor, por analogia, que esteja, sempre a repousar na gaveta do cérebro, tranqüilo, apenas esperando para ser acessado e utilizado tantas vezes quanto nos parecer agradável. Já que estamos na onda das metáforas, posso me permitir a liberdade de dizer que o pensamento lembra muito mais, pela forma como se apresenta, uma neblina espessa (nem sempre), translúcida, imaterial; e sabe lá onde, em que ponto do espaço, ele está…

Céus, vejo que caí numa armadilha idealista. Poderá alguém apontar o dedo entre meus olhos (como andou fazendo este blog, por outros motivos) e me acusar de professar a existência imaterial do pensamento, como se eu fosse um cartesiano qualquer! Devagar com a louça, amigo. Repilo a acusação, assim como renego qualquer tendência a atirar às costas de conceitos vagos, como as Idéias platônicas ou a alma tomista, a responsabilidade sobre esse místico e mágico pensamento imaterial. Nada disso.

Só para inverter o quadro, eu poderia mesmo dizer que, a rigor, o pensamento, tomado individualmente, nem mesmo existe. Mas isso, honestamente, seria apenas uma frase para chocar o leitor e segurar sua atenção por um pouco mais de tempo (leitores costumam ser arredios). É claro que o pensamento existe: tudo aquilo que age sobre o mundo existe, e bem sabemos como o pensamento pode transformar a realidade, diretamente (imediato) ou através de corpos físicos (mediato), tanto faz. É um fato, e pronto. Não obstante, existem inúmeras maneiras de existir. Exemplos: você e eu, o Saci Pererê, o Mickey Mouse, Deus, o Mercado (também uma divindade para muita gente), são todos exemplos de coisas que existem, cada um à sua maneira. Mesmo que tenhamos um conhecimento limitado ou equivocado dos raios e modos de existência de cada um. Isso é outra história.

Acontece que, quando falamos na existência de algo, já estamos, implicitamente ao menos, aceitando alguma forma de permanência. Algo existe quando delimita um período; internamente, podemos dizer assim, cada ponto seu tem um passado e um futuro, assim como um “em-si” e um “fora-de-si”, para colocar de maneira mais simples. Se chegamos a nos convencer da existência de alguma coisa, é porque delimitamos seu espaço e definimos onde ela começa e onde termina; no espaço, esses limites são razoavelmente claros. No tempo, raramente.

Quanto ao pensamento, eis aí algo de existência muito fugaz e incerta. Está bem mais no tempo do que no espaço, se é que está no espaço de alguma maneira mais concreta do que simplesmente “na minha cabeça”. De tal maneira que, quando repensamos um pensamento antigo, já não é mais o mesmo. É um novo pensamento, inteiramente reconstruído, que já inclui na própria natureza a representação do pensamento que tenta reproduzir; e, por isso mesmo, está longe de ser uma reaparição da mesma identidade. O pensamento antigo entra no novo apenas como parte constituinte, e isso se explica pelo fato de que, nesse segundo momento, está presente a noção de que o pensamento anterior pertence ao passado.

Um bom exemplo para ilustrar o argumento está no poeta que, caminhando pela rua sem seu bloco de notas, compõe mentalmente uma seqüência de versos. À medida em que vai pensando cada um, para adequá-lo à totalidade do poema, é necessário repensar os outros. Diversas vezes. Mesmo que sejam os mesmos versos, e nem sempre o serão, não é o mesmo pensamento: é antes uma micro-arqueologia mental que reconstitui o pensamento do verso já formulado pelo nebuloso pensamento. Mais ainda, quando o artista, impaciente para redigir sua nova obra, projeta-se para dentro de casa e toma o caderno, a transcrição do poema, decorado que esteja, não será fruto do mesmo impulso de pensamento que deu à luz o poema, durante seu passeio. Será um novo pensamento para o mesmo poema.

Todo esse raciocínio, longo e imbricado, foi seguido com o único intuito de explicar por que seria possível dizer que o pensamento não existe, ao menos individualmente, se quiséssemos brincar assim. Mas há algo além disso: o pensamento é um ato da mente que só existe enquanto é ato, em plena realização. Não é tanta loucura afirmar algo assim. O próprio senso comum já o trata de forma parecida: um pensamento já pensado é memória, no máximo, com toda a incerteza e o risco desse nosso maravilhoso atributo. Um pensamento escrito é texto, e o texto, céus, tem vida própria (e quanta!). Um pensamento pronunciado, traduzido em vibrações do ar, é verbo, e o verbo voa, já diziam os romanos. Cada um entende e interpreta, ou seja, repensa, à sua maneira.

Foi por conta desse caráter inconstante que comparei o pensamento a uma neblina. Ele, a princípio, não tem ordem, nem controle. Colocá-lo na linha é uma batalha que demanda a energia de um exército. A vontade, ou antes, a força de vontade, é um elemento crucial na determinação da chamada linha de pensamento - por si só, o pensamento é refratário a toda espécie de linha! E, cá entre nós, parece-me muito mais estranho e pouco convincente querer explicar a vontade em termos de impulsos elétricos no interior do cérebro. Afinal, o que determina que um impulso seja disparado? E, uma vez que isso seja determinado, como se “escolhe” qual será o impulso?

Até onde sabemos, essa problemática, inteira, gira em torno de um ente imaterial, irreal e inexistente que age sobre o universo do material, o real e o existente. Pensando bem, é uma idéia terrível, verdadeiramente assustadora. Que raios pode ser o imaterial? É melhor não falar nisso. Através da História, já estamos cheios de gente que se precipita nas conclusões, principalmente quando o assunto é algo tão espinhoso quanto o pensamento.

Retornemos ao palpável. Além da vontade, fenômeno interno, há como determinante do pensamento um fator externo representado num universo que, consciente ou inconscientemente, tanto faz, exerce suas influências. Mas isso já deixou, há muito, de ser um problema: é fácil e pouco polêmico ler as reações de alguém a esses estímulos externos como respostas físico-químicas, da mesma forma como se pode fazer para as atitudes instintivas e irracionais de maneira geral. Mas é claro, observará o leitor arguto, que o pensamento não é instintivo e irracional.

Discordo: o pensamento é tão irracional quanto qualquer outra faculdade do cérebro humano. Toma corpo por meio de representações e imagens que surgem das trevas mais recônditas do espírito. O único milagre pelo qual um pensamento se transmuta em algo racional, e faço questão de afirmar que é um milagre, ocorre quando o pensamento se torna o centro das atenções da nossa consciência, o olhar que se volta para dentro e tenta tomar o controle sobre o funcionamento do tecido cerebral. Afora essa rara ocorrência, agimos tão instintiva e mecanicamente quanto qualquer animal irracional. O pensamento, pois, só é propriamente humano, no sentido de que é propriamente humano aquilo que é racional, quando age sobre ele a nossa força de vontade, a nossa liberdade, para falar em termos mais filosóficos (kantianos, especificamente); mas aí retornamos ao problema de alguns parágrafos atrás: de onde vem essa vontade, matriz da razão? Boa pergunta.

Chega de discutir o pensamento; isto não é um tratado, não pode se estender por dezenas de páginas. Sobre a idéia de que a vontade está na base da racionalidade e, portanto, do que é propriamente humano, pretendo voltar a falar em outro texto, quando estiver um pouco mais calmo (se é que, algum dia, estarei). No que concerne à vida prática, isto é, à minha: o grande esforço, neste momento, é direcionar a vontade e o pensamento para aquilo que é exigido pelo mundo do entorno: os estudos, os trabalhos, a famosa rotina de quem não tem um emprego público europeu para poder relaxar e esperar o fim de seus dias. Eis por que o Cálculo Renal anda às moscas. O mesmo vale, em menor escala, para o Para Ler Sem Olhar. Mas, pouco a pouco, quando a repetição de gestos e horários tornar meus caminhos automáticos, pretendo voltar a engrenar as postagens. E que o blog, nesse meio-tempo, não desista de mim.

Comentários

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1 Comentário »

Rafa - Punk
2007-11-16 00:00:12

E ae, Osverin? Tudo bem?

hehe… que enrolação só pra dizer que você tá sem inspiração pra escrever, hein? hehe…

Aliás, vi que você tá escrevendo no “Diplô”. Legal!
(Mas agora vc vai virar esquerdista também???)

Abraços!

 
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